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A Tempestade – Parte 1

Michael Gruchalski (1)A Tempestade, relato de uma velejada escrito pelo velejador Michael Gruchalski, dá continuidade a serie Conte sua história. É mais um daqueles relatos emocionantes, que nos transporta para dentro de um veleiro. Desde já agradeço ao Michael por presentear os leitores do Diário do Avoante com os textos.   

A TEMPESTADE

A PERDA DO LEME – Parte 1

O vento voltou em forma de brisa, soprando leve. Refrescante. De seis a oito nós, força três, vindo do azul do oceano, do nordeste e entrando no cockpit pela alheta de popa. Pontual, como seria de esperar naquele inicio de tarde de primavera. O barco navegava comportado, rumo sul/sudoeste subindo e descendo docemente as ondas longas e calmas. Nosso motor zurrava a meia força, pouco acima da marcha lenta para o hélice não exceder o fluxo da pressão desejado sobre a lâmina do leme de fortuna submerso a meia água. O timoneiro sentia sua vibração debaixo do tênis molhado enquanto cumpria o seu turno.

Um artista do trapézio, esse nosso timoneiro. Os braços abertos, de pé, curvo e procurando equilíbrio, pendurado no ar. Literalmente pendurado. Preso pelo mosquetão do cinto de segurança peitoral e o engate rápido da adriça da mestra que levava ao topo do mastro. Bastante inclinado para frente, usando todo o seu peso para adicionar o máximo de pressão, com a perna esquerda, sobre os dois tubos e as duas tábuas amarrados entre si com cabinhos. O pé direito cambaleante solto no ar fornecia o equilíbrio necessário. A água azul profundo, passado debaixo. Aquele era o nosso homem. Homem-cana de leme. Leme de fortuna. Meio engenhoca, meio humano.

Tínhamos perdido o leme do barco na madrugada daquele dia. Por volta das duas e meia da manhã. Inexplicavelmente. Ele se desfez sem aviso e sem ruído. Desintegrou-se como magia. Sumiu nas profundezas do oceano deixando à mostra somente a espinha e as três costelas de inox, agora nuas, impossibilitadas da função de prender as duas abas de fibra ao eixo maciço. Horas de aflição. Dúvidas. E, só no fim da manhã, a solução. Suada, pensada. Entre goles de coca-cola e fatias de abacaxi, bem ácidas, para espantar o enjoo que teimava em voltar de hora em hora, a falta de vento e o calor infernal daquela manhã.

A solução, meia solução, única, veio com o passar das horas, devagarinho. Dois tubos de alumínio dos remos do bote auxiliar, sem as pás de plástico, amarrados um ao outro por alguns metros de cabinho seis milímetros. Conjunto robusto o bastante para não ceder com o peso de uma pessoa. Forte o suficiente para não folgar os cabinhos com a vibração das tábuas que compunham o leme deitado pela parte externa do espelho de popa. No cockpit, pela parte interna, preso aos remos unidos, para dar mais estabilidade, um prolongador. Um pedaço com um metro e meio do tubo oco do pau de spinnaker , de alumínio, serrado a sangue, suor e lágrimas. Tínhamos um arco de serra sim: sem serras. Portanto, serrado com uma lima grotesca, milímetro a milímetro. O arranjo terminava com pontas dos dois remos enfiados nele para dar prolongamento suficiente e suportar o manejo.

Lá fora, mais abaixo, dois pranchões de madeira de dez milímetros de espessura por

dois metros de dez de comprimento, retirados dos beliches laterais do paineiro do salão central. Amarrados entre si com muitos e muitos metros de cabo. Furados na base da chave de fenda, alavanca e marreta e, no inicio com, uma pua manual enferrujada e duas brocas finas que não suportaram o esforço. Felizmente, ou infelizmente, eram tábuas de cedro naval, duras de furar, porém confiáveis. Ao final da tarefa tínhamos semi- destruído o nosso veleiro. Seu interior era a visão do inferno. Com o ventre à mostra. Seu exterior, a visão do caos.

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