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Cartas de Enxu 67

5 Maio (46)

Enxu Queimado/RN, 27 de maio de 2020

Eh, Robério, as coisas em nosso planetinha azul estão esquisitas, mas nem por isso podemos deixar de seguir em frente, mesmo com os olhos aboticados, ouvidos atentos e com os buracos da venta bem tapados, porém, não se avexe que não estou lhe escrevendo para desassossegar sua alma com mais um pitaco virótico, pois já tem muito “doutor” por aí passando sermão sem ao menos entender dos mistérios do rosário.

Pois é, amigo, e sendo assim lembro de uma canção do rabequeiro Siba, quando lá pras tantas ele entoa o verso: “…Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar…/Eu procurei o fim do mundo porém não pude alcançar/Também não vivo pensando de ver o mundo acabar/Nem vou gastar meu juízo querendo o mundo explicar/E quando um deixa o mundo tem trinta querendo entrar/Epa, na minha vaga não/Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar….”.

Negão, adoro os moídos desse mundão cheio de astucias e personagens treteiros. É por entre os atalhos e retalhos que eles andam que gosto de caminhar, rindo dos trupicões, dos escorregos, do palavreado sabencioso, das marmotagens e da alegria fácil que ecoa e inebria os aceiros das veredas. Toadas como a do rabequeiro pernambucano e de tantos outros que cantam e poetizam a vida simples e maneira de um povo, me enche o coração de alegria. Nunca gostei do tal “x” da questão, porque é linguagem de linhagem carregada de pra que isso. Gosto mesmo do pissilone de Gonzagão, de Ariano, de Chicó e João Grilo, dos que dão rumo as matutices de Jessier e do apalavreado temperado com o calor e o suor dos cafundós do Brasil brasileiro.

E nesse mundão de ípsilones, emoldurado pelo verdume espinhador do mandacaru, não tem lugar para xis e nem para conversa amalandrada de doutor quando vem com um palavrório inglesado. Lá a coisa, é, num é, ou num é mesmo. E foi escapulindo do xis, que me caiu na lembrança um vídeo de um pescador ensinando a tratar o peixe baiacu, bicho perigoso e envenenador. O caboco passou um risco de faca aqui, outro ali, num puxão bem treinado, arrancou o couro do espinhudo e num virado de dedo, amostrou o saquinho de veneno que se não matar, deixa o desavisado dando circuito.

Pois bem, assisti ao filme, mostrei a Lucia que adora a iguaria, e fui assuntar com Pedrinho, meu assessor especial para assuntos de mar e das quebradas dessa Enxu mais bela, portal de entrada da caatinga potiguar. Pedrinho olhou a técnica do pescador e disparou: Homi, isso é coisa besta. Qualquer um no beiço da praia daqui faz melhor do que isso. Vou tratar um e vou deixar para você provar. Deus me livre, meu amigo, mas pode manda que Lucia não dispensa.

Robério, inventei de postar o vídeo em um grupo de zapzap e deu falação até umas horas, até que alguém tirou o baiacu da linha e jogou na telinha um linguado, dizendo que aquele sim, que era um peixe primeira. Olhei a imagem, dei uma risada e digitei: – Aqui conhecem esse peixe por soia e custa tão barato que ninguém quer. – O que, barato? – Aqui no Sudeste o quilo de linguado custa R$ 40,00 e é disputado na tapa. Lá fui ligar para o assessor para perguntar quanto estava o quilo da soia e informar ao amigo do outro lado da telinha: – Homi, soia presta não. Aqui tem nem preço. Quem gosta de soia é o povo do Sul que não sabe o que é peixe bom!

Aí você haverá de perguntar: – E o que danado tem a ver voltas que o mundo dá, poetas, cancioneiros, ípsilones, xis, vírus com baiacu e soia? E eu sei lá, apenas me deu um troço, fui cutucando as teclas desse aparelhinho mágico e quando dei por fé, estava em meio a nesse entranhado de assuntos amalucados e agora nem sei mais o que danado eu queria dizer quando botei o primeiro “e” nessa folha, mas foi assim! Dizem por aí que isso é coisa de quem não tem o que fazer e fica desmiolando o juízo com ideias desalinhadas. Se for está bom e me divirto com isso, mas juro que não é, pois nos domínios dessa cabaninha não falta serviço e até hoje não descobri como desligar a usina de ideias existente na cabeça de Lucia. Quando penso que acabei um serviço, ela já tem mais três encaminhados. Pense!!

Caro e bom amigo, Robério Trajano da Silva, faz tempo que você não dá o ar da graça pelos encantos dessa prainha abençoada, mas sei que a nova ordem mundial aconselha parcimônia para que nossas passadas não alterem o centro da razão. Porém, combinemos assim: Quando apagar esse fogo de monturo que corrói sonhos e anuvia esperanças, vamos marcar uma peixada na varandinha, mas nem peça para colocar baiacu e soia na panela, pois do primeiro corro longe e, por aqui, o segundo é meio desafamado.

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho

O baleal potiguar

jubarteÉ sabido que as águas amenas e mornas do litoral brasileiro proporcionam um excelente território para namoros e acasalamentos de baleias. É sabido também que o arquipélago sagrado de Abrolhos, na tórrida e azeitada Bahia, é um excelente mirante de observação dos cetáceos. É sabido também que o povo do Senhor do Bonfim aproveita como pode, e como deve ser, a presença anual dos gigantes em seus reclames publicitários e com isso enchem hotéis e lotam embarcações com os interessados em tirar um retrato de um rabo de baleia. O que pouco se sabe, pouco se diz e pouco se fala, é que em todo litoral nordestino o gigante se faz presente, e com força. Na praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, os pescadores estão abismados com o grande número de baleias que estão fazendo fita por lá  este ano. Dizem, os pescadores, que nunca se viu tantas, tão grandes e até entoam mirabolantes teorias para o aparecimento do enorme baleal. Como diz meu amigo Pedrinho, pescador dos mais afamados de Enxu: Homem, são tantas que abusam com aqueles gritos estridentes. É quase um agouro! Pois bem, ainda não vi uma linha sequer sobre o assunto na mídia potiguar e muito menos nos ditames dos publicitários papa-jerimuns.

Cartas de Enxu 08

1 Janeiro (15)

Enxu Queimado/RN, 13 de fevereiro de 2017

Tem coisas que custo a entender, ainda mais quando me deparo com manchetes de jornais e revistas que mais confundem do que tentam informar. E o que acho mais danado é que hoje em dia o leitor nem se dá ao trabalho de ler o primeiro parágrafo do corpo matéria, que geralmente traça o rumo da informação, e prefere espalhar aos quatro ventos whatsappianos uma desgraceira, que na grande maioria das vezes não passa de nadica de nada.

Pois é meu amigo Milito, essa semana vi uma manchete, em um jornal da capital dos Magos, que dizia que a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, a maior do Rio Grande do Norte, começaria a captar água do desafamado volume morto, porém, os técnicos afirmavam que o tal volume não era tão desabonado assim e que nem tudo é o que se fala. Na hora lembrei das inúmeras manchetes apocalípticas sobre o volume morto do paulistano Cantareira, onde nenhum repórter e nem ninguém queriam saber o que diziam os técnicos e pegue pau na moleira de quem estava autoridade para distribuir as gotinhas de água. Agora eu lhe pergunto meu amigo: – Será que o volume morto de lá é mais morto do que o de cá, ou será que nem uma coisa nem outra? Mas tudo bem, se não souber a resposta – como também não sei – fique quieto e se dê por respondido, porque nesse meio de mês, de um fevereiro carnavalesco, São Pedro resolver abrir um tiquinho as torneiras do Céu e deixou cair água nas cabeceiras dos rios que abastecem as barragens potiguares e o morto parece que abriu os olhos novamente. Só tomara que o santo da chuva dê um longo cochilo e esqueça as torneiras ligadas.

Agora mudando os punhos da rede para outro armador, para poder observar, pela posição dos geradores eólicos do parque da Serveng energia, a direção de onde está vindo o vento, lembrei que li algo sobre o potencial energético dos campos eólicos brasileiros e até gostei das informações. Na matéria estava escrito que subimos uma posição no ranking mundial e passamos do décimo para o nono degrau e agora estamos na frente dos italianos. Meu amigo, dizem que no quesito pizzaria há muito ultrapassamos os seus conterrâneos, pois aqui em cada recantinho de pé de serra tem pizza a torto e a direito e em sabores que vai de galinha caipira a x-tudo, basta o cliente querer. Se continuar nessa pisadinha de ganhar tudo dos italianos em breve nem o macarrão será deles, basta ver o tamanho da fábrica do Vitarella nas terras do maracatu.

Sim “Melito” – como chama o comandante Flávio Alcides – me dê notícias do português Luiz. Será que tem pescado muita sardinha? Rapaz, ainda não esqueci daquele churrasco de peixe que você tanta comenta. Qualquer dia, quando Pedrinho chegar por aqui com uns cestos sortidos e carregados de escamudos, farei uma churrascada como a que você falou. Claro que você e Dona Zoraide serão convidados. Me aguarde!

Eita que já ia esquecendo do assunto do vento. Pois é, nosso país, mesmo caminhando em chão de brasa de fogo, está com mais de 10 mil Megawatt de energia eólica instalada e em breve outros tantos se somarão, pois o governo promete lançar novos leilões em 2017 e já tem empresa com consultas de projetos pré-aprovadas para os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, região que tem vento para dar, vender e emprestar. Só aí serão gerados, além da energia de Éolo, mais de 680 empregos diretos. E assim a banda vai tocando!

E por falar em banda: Me diga como está sua preparação para o Carnaval? Tenho escudo que em Natal vai ter folia, não aquela folia que teve lá por cima das dunas de Pium, mas folia de Mono de verdade, com direito ao frevo de Morais Moreira, Elba Ramalho e uma trupe de gente boa. Uns reclamam da gastança, outros dizem vivas, mas o que seria da alegria se não existisse o circo, né não? Eu adoro Carnaval, pois assim vou seguindo na linha que meu pai traçou. Rapaz, Nelson Mattos era um trombonista arretado da molesta! E Ceminha, a essas alturas do campeonato já estava com as fantasias da família e dos amigos prontas. Pense num povo festeiro!

Nas ruas entre a Redinha e Ponta Negra, soube que vai ter bandinha para todo gosto e mania, tem até uma tal de Cadê Xoxó, Xoxó taí? Essa deve ser das boas e se me der na telha vou dar uns pulos no meio de Xoxó. Aqui por Enxu vai ter folia, mas os baticuns ainda estão meio que inibidos e os trompetes tocando baixo, mas que vai ter, vai. Só tomara que em todo lugar os festejos de Momo sejam nos braços da paz que tanto necessitamos.

Meu caro amigo Hélio Milito, por enquanto é o que lembro para escrever essa prosa, mas digo ainda que não esqueci do seu convite para dar uns bordos no Blue Jeans. Um dia darei o ar da graça e quando for levo umas cervas geladas para aplacar o calor e ajustar as velas com mais precisão.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Praia do Serafim

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Praia do Serafim, um paraíso potiguar localizado no litoral de São Bento do Norte/RN,  onde a presença do homem é quase uma raridade, a não ser, pela existência de alguns poucos ranchos de pescadores e a circulação diária de bugres e carros 4 x 4 carregados de turistas, que passam tão rápido que duvido que prestem atenção na beleza nativa ali exposta. Para a navegação o Serafim também passa despercebido, apesar de ficar entre o Farol de Santo Alberto e a Ponta dos Três Irmãos, que dá início a carta náutica até Cabedelo/PB,  porém, o navegador com um olhar apurado não deixará de perceber que a bela e paradisíaca baía oferece um excelente fundeadouro. São imagens dessa prainha maravilhosa que ilustram a postagem A praia.     

A praia

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Que praia é essa?

Que tal uma praia?

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Praia do Marco/RN. Um paraíso brasileiro, descoberto em 1501 e ainda hoje, praticamente, intocado

Cartas de Enxu 01

Agosto (11)

Antes de começar a escrevinhar a primeira das Cartas vou dizer que não será preciso você se benzer três vezes e nem se arvorar de um crucifixo para ler, pois o enxu aqui não se refere ao Orixá Exú e sim, a praia de Enxu Queimado, um pedacinho delicioso do litoral norte do Rio Grande do Norte, onde a vida ainda insiste em caminhar sobre um cotidiano bucólico, apesar da presença ameaçadora de gigantescos totens eólicos, que mais parecem mamulengos transformadores de belíssimas paisagens em cenários devastados de filmes futuristas, em que personagens disputam o reinado da brutalidade.

Após onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante, um veleirinho arretado de bom, e escrevendo o cotidiano da vida sobre o mar nos textos Vida Bordo, que ultrapassou o número quinhentos – cinquenta deles publicados no livro Diário do Avoante, lançado em 2013, – decidimos passar uma temporada em terra firme e escolhemos a praia potiguar para seguir no novo rumo. Essa mudança se deu em junho de 2016, porém, não havia criado coragem para escrever sobre ela, porque não tem sido fácil digerir essa mudança e nesse primeiro momento, tenho andando meio assustado com o que tenho presenciado nas ruas das cidades. Na verdade, os primeiros dois meses foram de tratamento de choque, pois viramos prisioneiros forçados numa Natal sem dono, sem Lei, sem alma, sem essência e sem esperança.

– Oh Natal, cidade cascudiana de Poti, povoado que acolheu com fervor o codinome dos Reis Magos – comunicadores das boas novas. Pedaço de terra defendido com arcos, flechas e tacapes pela nação Tupi. Noiva do Sol. Cidade trampolim da vitória de uma guerra absurda e desumana. Vilarejo entre o rio e o mar e abençoado por Nossa Senhora da Apresentação. O que fizeram como você Natal? Quem a descaminhou pelas brisas errantes? Logo você Natal, que tanto se orgulhou dos alísios que a acariciam. Hoje você é uma cidade retraída, cabisbaixa, esmaecida, amedrontada, desiludida e desapartada do seu maravilhoso sorriso largo. Seus abraços já não são os mesmos, pois existe um que de desconfiança entre você e o abraçado. Suas ruas já não nos acolhem com alegria. Em qual das suas esquinas ficou para trás a musa e poética linda baby? Oh Natal, você não merecia tanta desfeita e tanto abandono!

Pois bem, Cartas de Enxu não é para desabonar cidades e muito menos relatar as tristezas da vida, mas sim, deixar algo escrito, mesmo que em linhas desalinhavadas, da riqueza de costumes e valores de um pequeno povoado, e suas vizinhanças, encravado entre o mar e o sertão. Um lugar de gente alegre, extremamente acolhedora e que, mesmo diante das adversidades, consegue olhar para o mundo com um olhar de inocência. Uma prainha que há mais de 25 anos flechou meu coração e passei a amar. É nessa prainha praieira que me instalei depois de desembarcar de uma vida de sonhos e será da varandinha da minha choupaninha, cercada de coqueiros, que olharei para o mundo e talvez passe batido em temas que desassossega o país e o resto do planeta, pois as coisas por aqui ainda caminham lenta e com os pés na areia. O cotidiano por aqui ainda segue os princípios do mar, apesar dos ventos terem trazidos boas novas nas pás de um progresso meio atrapalhado. É na poeira avermelhada das ruas e becos de Enxu, que buscarei a vitamina para azeitar meus escritos e quem sabe, deixar material para quem um dia quiser pesquisar o passado olhado da varandinha de uma casinha de praia.

A Terra é um vulcão em permanente estado de erupção e nada melhor do que a gostosura de uma rede armada, diante do frescor de uma sombra macia, para servir de camarote de observação. É com o passar dos dias bucólicos nessa prainha ainda nativa, que conserva as origens de sua colônia de pescadores, que olharei as lavas fumegantes do vulcão. Será através de uma lente desnuda dos malabarismos das modernosas ferramentas de edição que me transportarei pelos caminhos dos escrevinhadores. Posso até cometer os costumeiros erros crassos, que sempre cometi nas crônicas Vida a Bordo, mas seguirei.

Aliás, sobre a palavra crasso, que passou a estar presente em minha mente, não tenho muito o que falar, a não ser relembrar: – Certo dia um leitor, ao encontrar-se comigo em um evento, puxou-me pelo braço e disse como se segredasse um pecado: – Gosto de sua escrita e é a primeira coisa que leio ao abrir a Tribuna do Norte, aos domingos. Gosto muito, mas você é muito crasso! Sorri, agradeci, apertei sua mão e sai matutando. – O que danado é isso? Socorri-me aos universitários que estavam na mesa e ao chegar em casa tratei de conferir no pai dos burros. E lá estava: “Crasso: Grosso, denso, espesso, rude. Falha, erro grave”.

Pois é, escrever não é fácil.

Nelson Mattos Filho

10º Regata dos Pescadores da praia de Enxu Queimado

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A praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, estará em festa no próximo final de semana, 13 e 14/08, com a 10º REGATA DE PESCADORES, uma promoção de Pedrinho de Nenê Correia. É uma prova bem disputada, animada, descontraída e todo esse clima se espalha nas areias da praia com shows de bandas da região. O momento mais esperado e divertido da premiação e a volta no burro – Eles enfeitam um burro com tiaras de flores e latas velhas, para fazer barulho, colocam em cima o comandante que se destaca entre os piores, normalmente é aquele que deu a virada mais espetaculosa, e tangem o burrico para um passeio entre os espectadores. Gozação é que não falta! Quem tiver em Natal, ou aproveitando as praias do RN, e estiver a procura de um bom programa para o final de semana, taí uma boa opção. Enxu Queimado é uma das mais belas praias do litoral potiguar e se destaca por manter viva a tradição da pesca artesanal que lhe confere uma das maiores produção de lagosta do Estado. Enxu se localiza a 145 quilômetros da capital e é distrito do município de Pedra Grande. A regata tem apoio da Marinha do Brasil, através da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte. 

Serenata do Pescador – Ode a uma linda praiera

Serenata do Pescador, ou simplesmente Praeira, e uma poesia de Othoniel Menezes com letra de Eduardo Medeiros, e que aqui está imortalizada na voz melodiosa do cantor potiguar Fernando Tovar. Cresci ouvindo essa maravilha poética sendo entoada nas varandas da casa de praia do Dr. Bianor Medeiros, grande amigo do meu Pai, e sempre fui envolvido pela emoção. A velha Praia da Redinha já se foi de mãos dadas com os bons tempos de outrora, para não sofrer nas garras de uma modernidade enraivecida. Restaram as lembranças de uma época e a poesia desnuda e apaixonada para uma linda Praeira.

Horas de escuridão

3 Março (289)

Deixe ser, deixe ser
deixe ser, deixe ser
Haverá uma resposta
Deixe ser

(John Lennon / Paul McCartney)

Ontem, 02/04, perdi um amigo. Como é duro falar dessas coisas. Mas ontem perdi um amigo que me foi apresentado pelo mar, justamente o mesmo mar que o levou. Ainda guardo eco das suas palavras para comigo: Foi há pouco mais de quatro meses quando ele me ligou querendo saber sobre balsa, SSB, Epirb, telefone via satélite e também para dizer que estava programando nos fazer uma visita para navegarmos pela Baía de Todos os Santos. Dizia ele que viria acompanhado do seu Pai, seu maior parceiro e amigão do peito. Falou ainda que um dia iria comprar um veleiro para conhecer o mundo. Ele sempre me dizia que invejava minha escolha de vida. Eu apenas ria e acatava todas as suas palavras com muito carinho. Ele foi uma das pessoas mais atenciosas que conheci. Alcimar Pezolito, 45 anos, conhecido por todos como Alemão, um homem apaixonado pelo mar e pelas pescarias. Quantas vezes fomos vizinhos? Não sei precisar, mas sei que adorávamos quando dividíamos o píer do Iate Clube do Natal, ele a bordo da lancha Miss Mares 38, eu e Lucia a bordo do Avoante. Éramos os únicos “moradores” do Clube, ficávamos sozinhos a noite na companhia dos vigilantes e quando Alemão, que residia em São Paulo, ia a Natal para reafirmar sua paixão pela pesca de oceano, era uma alegria. Calado, extremamente educado, responsável, fala mansa, sempre pronto a ouvir, atencioso, carismático. Apaixonado pela vida, pela família e pelo mar. Alemão. Meu amigo Alemão! Hoje, 03/04, fui despertado pelo toque do telefone e num lampejo de não sei o que, disse a Lucia: Eu não vou atender! Ela, que estava arrumando a cabine de proa, respondeu: Mas amor, o telefone está ao seu lado!

IMG-20150403-WA0016Às 18 horas do dia 02 de Abril de 2015, uma lancha bateu nas pedras do molhe da Boca da Barra de Natal com seis tripulantes. Quatro pessoas foram resgatadas e duas perderam a vida. Era uma pescaria em família, porque na embarcação Miss Mares 38 estavam um Pai, uma Mãe, um Filho, um Neto, um Marinheiro e um Amigo. As causas da tragédia não me interessam e nem me permito julgar. Alemão era o Filho, a outra vítima era a Mãe. Dona Iracema, 75 anos. Terá mesmo respostas?