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Veleiro de bandeira alemã encalha no litoral de Sergipe

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O litoral sergipano vai deixando duras cicatrizes para a vela de cruzeiro neste 2018. Em março o velejador Elio Somaschi, 69, teve o destino de uma propalada volta ao mundo, em solitário, naufragado sobre os temíveis bancos de areia na Barra do Rio Sergipe. Hoje, 16/05, um veleiro de bandeira alemã encalhou sobre um banco de areia, na praia dos Artistas. O velejador alemão, que também navegava em solitário, informou aos inspetores da Capitania dos Portos que teve problemas nas velas e motor e, propositalmente, conseguiu conduzir o barco para o banco de areia, evitando que ele virasse. A esperança do velejador é retirar o barco no momento da maré de enchente. Desejo sorte!     

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O homem do mar é forjado no medo

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Com esse texto assim meio rebelde, meio sem causa e temperado com leves pitadas de pimenta ardida, traço a rota da pasta de escritos Do mundo do mar, que se junta a outras em que guardo as impressões sobre o cotidiano. Vida a Bordo, Vida de Praieiro, Cartas de Enxu, Textos Diversos, Cotidiano, Lembranças, são arquivos desconexos dos meus momentos de maluquice. – Mas esse tal de Mundo do Mar não se encaixaria em alguma página existente? – Sei lá, acho que sim, mas vai assim mesmo, viu!

A semana, que se encerra neste sábado, 10/03, teve início triste com o naufrágio, nas águas sergipanas, do veleiro Crapun, do navegador solitário Elio Somaschini, um italiano bem brasileiro. O acidente gerou comoção no meio náutico brazuca, porque o navegador estava envolvido em uma festejada volta ao mundo e em cada porto do litoral brasileiro, por onde passou, realizou concorridas palestras para divulgar as experiências acumuladas nos mares. O navegador se utilizava da peculiaridade de não fazer uso de aparelhos eletrônicos em seus posicionamentos no mar. Segundo se anunciava, ele utilizava o método da navegação astronômica, porém, sem ajuda do sextante. As medições eram feitas apenas com o polegar. Elio é autor do livro, O que sobra de uma viagem, que infelizmente ainda não tive o prazer de ler, mas, mais por desencontros do que por desejo.

Elio do Crapun, como é conhecido, porque o nome do barco sempre vira sobrenome do dono, pretendia adentrar a barra de Aracaju, dia 06/03, para comemorar o aniversário. A barra da capital sergipana, como todas as outras que marcam os rios daquele litoral, é uma das mais difíceis do litoral brasileiro, com inúmeros bancos de areia, que se formam aleatoriamente aos desejos das marés e das chuvas que castigam o interior. Sempre soube que não existe uma rota indicada para entrar nas barras de Sergipe, porque tudo ali muda da noite para o dia. Li alguns comentários, após o acidente do Crapun, defenestrando a carta digital Navionics, que o Elio utilizava na ocasião, mas a coisa não é por aí, pois nenhuma carta mostra as armadilhas existentes nas barras sergipanas. Quem conhecia tudo ali era o lendário Zé Peixe, prático que ficou conhecido por esperar os navios agarrado na boia de aproximação do canal. Ao avistar o navio, acenava e nadava até ele. Certa vez ouvi Zé Peixe falar em uma entrevista que não se entra na barra de Aracaju sem ajuda. Gravei!

Por três vezes adentrei a barra do Rio Real, que marca a fronteira de Sergipe com a Bahia, e em todas, entrei e saí por rotas diferentes, seguindo orientação dos pescadores da região. A primeira entrada foi na esteira do veleiro Caethel, do casal Daniel e Ângela, que tinha casa no ribeirinho distrito de Terra Caída, município de Indiaroba/SE. Foi uma entrada complicada e extremamente estressante, com os bancos de areia se esforçando para guilhotinar a quilha do Avoante, porém, conseguimos, estou contando a história e não aconselho ninguém entrar sem utilizar os serviços de praticagem feito um pescador nativo. Elio do Crapun, perdeu o barco, mas está bem, e do acidente sobraram marcas e ensinamentos. Espero muito em breve ver o navegador de volta ao mar e superando mais um desafio, pois é assim que faz os grandes marinheiros, e ele é um deles!

Pelo que vi no relato e nas páginas dos jornais, Elio Somaschini recebeu o infortúnio com naturalidade, pois sabe ele que são coisas que acontece com todo aquele que se aventura no mar. O mar é um ser amuado, não reconhece currículos e no dicionário do reino de Poseidon não existe a palavra infalível.

Já contei esse moído por aqui, mas não custa contar novamente: Certa vez o velejador potiguar Érico Amorim das Virgens, cabra conhecedor dos domínios de Netuno como poucos, se esmerou tanto numa palestra sobre navegação astronômica, no Iate Clube do Natal, que o suor escorreu na testa. Quando estava para dar por encerrado o tema, o velejador Alberto Serejo levantou o braço, para pedir a palavra, e disparou: – Comandante, a palestra foi bastante explicativa e acho que todos aqui estão maravilhosamente satisfeitos e conhecedores, porém, amanhã vou providenciar mais três GPS para equipar o Jazz 3.

“… Essa aceitação do medo, e portanto de uma certa humildade frente à natureza, é primordial, pois ela nos permite conservar as faculdades intelectuais, que são a única forma capaz de coordenar a ação que se impõem. O homem, batido no plano da dinâmica, tem apenas o seu saber ou a sua razão para escapar da força dos elementos. Ele deve, portanto, saber conservar toda a sua lucidez, sempre se sabendo fisicamente dominado, pois esse é o seu único meio de defesa, o de não se acreditar capaz de vencer a natureza.” (Willy de Roos – Sozinho, na esteira das caravelas)

Nelson Mattos Filho

Sergipe – Um litoral que merece muito mais

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Foi com uma pontada de alegria que li uma manchete no blog e-Turismo, editado pelo jornalista Antonio Roberto Rocha, no jornal potiguar Tribuna do Norte, periódico que acolhe todos os domingos a coluna Diário do Avoante. A manchete diz assim: Sergipe quer apoio do Ministério do Turismo para píer, atracadouro e esculturas no rio que banha Aracaju. No corpo da matéria, que inicia falando de um encontro entre o governador sergipano e o ministro do turismo para tratar dos festejos juninos e manifestações culturais, entrou o tema náutico como fonte de incentivo aos anseios do progresso. Foi ai que minha alegria se transformou na velha certeza de que nossos governantes realmente desconhecem o poder que tem o mar como fonte de riquezas turísticas. O píer pretendido pelo governo, as margens do Rio Sergipe,  é para criar um novo cartão postal para a cidade. Diante dele, no meio do rio, serão plantadas oito esculturas de personagens do folclore sergipano. A ideia é louvável e acho mesmo que o Rio Sergipe merece essa repagina. As imagens que abrem essa postagem foram feitas no povoado de Pontal, as margens do Rio Real, e do alto da ponte Gilberto Amado, que cruza o Rio Piauí. Do alto da ponte retratei a Barra de Estância, uma barra larga, instigante e que deixa muitos velejadores de cruzeiro com água na boca. Já adentrei essa barra em duas oportunidade com o Avoante e me declaro um apaixonado pelas belezas que compõem aquelas pairagens que denomino de Explosão de Beleza. Não consigo uma definição melhor!

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Pois bem, o Governo de Sergipe deve mesmo apostar no píer do cartão postal, mas poderia também estender suas apostas para transformar o litoral de Sergipe em um novo ponto de atracação para veleiros de todo o mundo. Todos que navegam a costa brasileira olham com olhos de pidão para a costa sergipana, mas infelizmente suas barras são rasas, difíceis, desaconselháveis, porém, incrivelmente desejáveis. Não precisaria muito além de dragagem e balizamento, pois a divulgação seria feita no boca a boca entre os velejadores e tenho certeza do sucesso. Os rios que compõem o estuário do Rio Real são todos navegáveis e isso pude comprovar nas vezes em que estive por lá com o Avoante. Naveguei por mais de 7 milhas entre os rios Real, Piauí e Priapu até jogar ferro em frente ao povoado de Terra Caída. Quando os amigos do mar sabem que adentrei ali – muitos conhecem como Mangue Seco – me procuram em busca de mais informações e até dos waypoints de entrada, porém, toda a rota que fiz em 2009 passou a ser desautorizada pela natureza, que a cada período do ano modifica o formato e o local dos bancos de areia. Sergipe, com um litoral tão belo e dotado de rios encantadores, é o único estado do litoral brasileiro que não recebe regularmente veleiros de oceano. Taí um bom tema para a próximo encontro do governador com o ministro do turismo. As duas últimas imagens são de canoas do município de Indiaroba, as margens do Rio Real, e coberturas para pequenas embarcações no povoado de Terra Caída.      

Cruzeirando na Foz do Rio São Francisco – Capítulo III

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Prometi postar a história enviada pelo velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, em três capítulos e como promessa é dívida, hoje chegou a hora de arriar as velas e trazer o barco para o porto. Não tenho como agradecer ao amigo Pinauna o envio desse belo material que enriquece os anais da náutica de esporte e recreio no Brasil. Navegar o São Francisco, mesmo que seja na sua Foz, sempre foi um sonho de boa parte dos velejadores brasileiros e a riqueza de detalhes exposto aqui atiça ainda mais esse sonho. Caro Pinauna, em nome dos leitores deixo aqui um muito obrigado.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO – CAPÍTULO III

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Acima: Ruínas do Cabeço (2006) e a retrogradação da linha de costa(2011), 200m para dentro; abaixo o farol antigo em Sergipe, já fora do canal, e o novo em Alagoas.

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Dia 23 fomos de novo na praia de fora na baixa mar, porque o navegador queria caminhar nas ruínas da vila que o mar levou à procura de alguma coluna que pudesse estar no caminho de saída do Pinauna. Caminhou pelo canal com água pelo pescoço e não topou com nada alto. Depois fomos visitar o Flávio, que nos recebeu com água de coco, e mostrou a opção de vida que escolheu após se aposentar, há 12 anos. Ele está fazendo um trabalho de conscientização regional, integrando os descendentes dos Caetés que foram escorraçados da região após o episódio do bispo Sardinha, os descendentes dos holandeses, de olhos claros como Alexandre, e os quilombolas. Pela tarde as meninas fizeram uma ornamentação de natal dentro do Pinauna, com árvore, papai Noel, presentes e muita comida. Depois da faina festeira Mila aproveitou as habilidades do navegador e fez um corte de cabelo de verão. Eu recolhi o motor de popa e subi o caíque, ficando tudo pronto para retornar no dia 24, que Liana tem que chegar dia 26 para atender a um cronograma de viagens denso até 12 de janeiro.

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Dia 24, lua nova, a maré grande começou a encher às 09:30. Às 12:45 estávamos fora da barra, com 5m de água por baixo da quilha, vento E 15-18 nós, correnteza favorável de 1 nó apesar da enchente. Vela em cima, SOG 8,2, COG 210 true, Tagua 25,1, Tar 29,9°C, P=1014mb, UR62%. Às 14:30 o vento caiu para 10 nós e subimos o gennaker novo no magazinador, arribamos 5° para COG 215 T para passar por fora das atividades petrolíferas em Aracaju, e o SOG acelerou para 8,3 com vento aparente a 87° por bombordo. Às 17:15 cruzamos a isóbata de 1000m descendo para o talude continental, o vento cresceu para 15 nós, enrolamos o gennaker, abrimos a genoa e o SOG passou para 8,5-9 nós. Velejada confortável, mas Lara Pocotó enjoou de novo. sao francisco.6jpgTentei de tudo Tpara ela descer e ver o deep blue na gaiuta de escape dentro da cabine, mas nada. Às 19:30 já tínhamos passado Aracaju, com a foz do Vaza Barris a 20 milhas no través e haviam 9 indicações no AIS: navio por todo lado, mais as plataformas de petróleo lá por dentro. Parou a falação no rádio VHF, um tal de Apoio deve ter encerrado o expediente. A noite foi tranqüila e Liana fez o turno de Beto, das 2 às 5. Durante a madrugada a pressão atmosférica subiu para 1016mb e o vento merrecou. Ao amanhecer André assumiu, enrolou a genoa e abriu o gennaker, mas a velocidade ficou abaixo de 6 nós; sem correnteza no talude continental. Tagua 24,3, Tar 28,7°C. Quando eu acordei às 8, havia um déficit de carga nas baterias de 200 Ampèrs, o gerador eólico parado e a gente andando a 4 nós. Liguei os dois motores e passamos a andar a 6, empurrando 30 A.h nas baterias.

Às 12:45 registramos um progresso de 154 milhas em 24 horas, bom para quem está cruzeirando com a neta. O vento E-NE chegou com 15 nós. Desliguei os motores e passamos a andar a 8. Soltei a linha de arrasto e depois do peixe arrebentar três rapalas enferrujadas, incluindo a lula vermelha matadora, embarcamos uma cavalinha de 2 kg. André num surto de cooperação com a Rainha tratou o peixe lá na popa. Às 15h aterramos na Laje da Espera, em Guarajuba, fizemos um jibe no gennaker e fomos costeando perto da praia. Às 18 horas tínhamos o farol de Itapuã no través, mas mantivemos o rumo sudoeste. Quando passamos defronte ao Rio Vermelho foi que arribamos em popa para oeste admirando a imponência do farol da Barra, que numa enquete Lara votou como a visão mais bonita da viagem.

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Às 24h atracamos no píer em Aratu, o hodometro do GPS marcando 220 milhas em 36h14min desde a saída dentro do rio, hodometro do velocímetro marcando 219,3 milhas, o que nos ensina que subindo para o norte no verão o melhor é ir pelo talude continental para evitar a forte correntada que experimentamos na ida velejando na plataforma perto da costa.

A Tempestade – Parte 13

tempestade4 Eita que parece que o velejador Michael quer porque quer deixar a gente cheio de ansiedade com essa Tempestade alucinante na costa sergipana. Já tem gente procurando o que roer no que resta das unhas e ele teima em mandar a conta gotas a continuação da história. Agora chegou a décima terceira parte e, por ser a de número 13, quase acontece o pior para um dos tripulantes. Leia!

A QUEDA

O capitão voltou da proa de ré, deitado de bruços, depois de ter brigado por quase um minuto com o carrinho do trilho da genoa para conseguir soltar a escota. Foi lavado de espuma duas vezes. Nesses momentos, desaparecia da minha visão envolto em esguichos de água. Eu estava acocorado, de cabeça baixa, parcialmente protegido pela antepara do cockpit. O filho do capitão, atrás de mim, de cabeça baixa também, segurava o leme e mordia os dentes.

O vento nos estais e as ondas quebrando em volta do barco faziam um barulho assustador. Eu sabia: estávamos no olho do furacão, no clímax da tempestade. Os relâmpagos rasgavam o céu: ora de cima para baixo, ora de baixo para cima e, no instante seguinte, ouvia-se aquela explosão terrível do trovão. Um atrás do outro, emendando, sem parar.

Naquele momento São Pedro abriu todas as torneiras que dispunha lá no céu. O dilúvio engrossou de tal maneira que sentir a água naquele volume e força caindo sobre nossas cabeças passou a ser sufocante porque mal dava para respirar. Quando um raio iluminou a cena caindo muito, muito perto de onde estávamos, percebi que o mundo à nossa volta consistia num espectro bizarro de cores, sons e sensações. Um palco dantesco banhado por luz verde esmeralda e branco incandescente. Um palco inundado pela música inconfundível de Wagner quando Odin desce dos céus para castigar seu povo ao som de tambores enraivecidos. Um palco carregado de angustia com espectadores indefesos e apavorados.

Carregarei aquelas imagens, aqueles momentos, na memória pelo resto da minha vida. É inexplicável. E lindo. É chocante. E inesquecível. Nunca mais vou esquecer o gosto da água doce misturada à salgada nos lábios. Nunca mais vou esquecer os estampidos graves dos trovões rompendo todos os espaços. E nunca mais vou esquecer aquele sentimento amargo da nossa insignificância perante as forças da natureza. Continuar lendo