Arquivo da tag: literatura náutica

A Travessia Azul

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Sei que não é fácil escrever e muito menos escrever relatos de situações que vivemos ou passamos ao lado de outras pessoas, porque muitas vezes ferimos sentimentos, machucamos egos e em alguns casos, esfrangalhamos velhas e boas amizades, porém, existem pessoas que tem o dom da palavra e elas chegam tão macias, dóceis e verdadeiras que o que nos resta – nos leitores – e o encantamento e a emoção de ter lido. Juca Andrade, você escreveu um dos mais sinceros, felizes e verdadeiros relatos de navegada que li e olhe que não li poucos. A Travessia Azul, que li de uma tacada só – e doído para que a velejada do Soneca tivesse se estendido por mais 30 dias – é simplesmente mágico e parafraseando o Hélio Magalhães, “você mexeu num baú de emoções”. Parabéns Juca, parabéns Tio Spinelli, parabéns Alan, comandantes em chefe da valente nau Soneca, e obrigado por nos deixar embarcar e viver essa aventura pelas páginas desse livro maravilhoso. Só tenho uma pergunta a fazer: – Pra que danado vocês foram aceitar, de presente, o Almanaque Náutico das mãos do comandante Mucuripe? Quando vi na página 93 o agradecimento, fiquei matutando: Será que esses caras vão parar na costa da Namíbia? Rapaz, se o Tio Spinelli não tivesse tirado aqueles 100 litros de diesel do fundo da cartola, sei não, viu!    

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Uma prosinha de nada

Outubro (21)

Os tempos não estão fáceis nesse começo de século. Situações que pareciam resolvidas e que pensávamos fazer parte apenas dos registros empoeirados e adormecidos nas estantes de uma silenciosa e antiga biblioteca, ressurgem travestidos em terríveis e imagináveis tentações. A barbárie, a intolerância, a covardia, a crueldade, a brutalidade, a guerra, a maldade, os conflitos religiosos, a demagogia barata, a canalhice politiqueira, as tragédias ambientais e a falta inclemente de justiça desassossega o mundo, espalhando terror e montado na besta fera do caos.

Acho melhor me recolher à insignificância desse mundinho embarcado, que aposto há onze anos, e deixar que os “reis, rainhas e valetes” decidam o destino do mundo. Do cockpit aconchegante do meu veleirinho vejo o mundo com outras cores, mas não deixo de escutar os lamentos das cidades. Não tem como não ouvir, porque é um grito alto, insistente e que nos remete ao papel de bobos da corte.

Não quero pintar meu rosto brasileiro com as cores de outra nação, até porque soaria falso em minha cara lavada. Quero mesmo as cores do azul, branco, verde e amarelo, pois assim serei eu mesmo e não outro. Mas cá pra nós, a nossa bandeira está com uma coloração amarronzada muito estranha.

A lama que escorre pelos salões do “reinado” transbordou, destruiu barragens e espalhou vítimas indefesas no rastro de sua viagem criminosa rumo ao oceano, que é onde toda porcaria sempre deságua. Nada de novo no front e Netuno que faça sua parte o mais rápido possível, pois temos que virar a página e a fila criminosa anda ligeiro.

Pois é, hoje acordei assim meio sei lá e estou achando que é esse calor do Sol inclemente da Bahia que tem cozinhado meu juízo desajuizado. Mas pode ser também porque passei boa parte da noite passando o olhar abobalhado nas últimas canalhices do reino. Como diria minha avó: É muita canalhice junta!

Mas sabe de uma coisa, é melhor me ater com o reino de Netuno, onde as coisas são o que são, e deixar a cabrueira do planalto de lado, para não me apegar com a ira dos seguradores de bandeiras.

Então, para não meter a mão em cumbuca ideológica, vamos navegar e aproveitar esses dias de final de primavera ensolarada das terras do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás. O tempo está excelente e convidando para uma cerveja estupidamente gelada, daquelas que Lucia batiza de “cu de foca”. Eita que agora deu água na boca!

E por falar nas partes baixas da foca, lembrei-me de uma boa que aconteceu na Ilha do Goio, na apaixonante Baía de Camamu. Estava eu tirando uns retratos paisagísticos dos encantos do lugar, quando me aparece Lucia perguntando se poderíamos tomar uma cerveja. Claro que sim! Fechei a máquina e nos encaminhamos para as mesas de madeira rústica que ficam embaixo de uma grande arvore sombreira. Eita vidinha difícil!

No caminho demos de frente com um rapaz que vinha do bar, mas eu já havia notado que ele era cliente. Lucia pensando que era o garçom tratou de perguntar: – Você tem cu de foca? O rapaz arregalou os olhos, olhou para os lados, olhou para mim e fez aquele gesto com os ombros que não estava entendendo a pergunta indiscreta. Rindo da presepada, informei a Lucia que o rapaz era cliente e não o garçom. Ela tratou logo de se explicar, traduzindo a expressão e todos caíram numa sonora gargalhada. Uma senhora que ouviu a conversa não perdeu tempo e gritou para o dono do bar: – Eu também quero o cu do bicho!

E por falar em cerveja gelada, se você pensa em navegar por aí empunhando uma latinha do líquido refrescante é bom ficar alerta, ou chamar um abstêmio para conduzir a embarcação. Assim como acontece nas ruas, a Marinha do Brasil está empenhada em fazer valer a Lei Seca no mar e para isso intensificará a fiscalização nesse verão que chega quente que nem brasa. Tem quem reclame e tem quem ache certo, eu mesmo faço as duas coisas, pois tem muito condutor de lanchas e motos aquáticas fazendo miséria por aí. E os velejadores? Pois é, mas esses navegam quase parando e raramente se metem em barca furada. Quando a sede aperta, o povo da vela prefere jogar âncora e curtir a paisagem com os amigos. Nessas horas não tem estoque de cerveja que consiga aguentar o tranco.

Eita que hoje eu misturei assunto para dedéu e até me perdi nos bordos. Mas também com esse calor de lascar moleira de desavisado num tem quem consiga concatenar as ideias. Os miolos se misturam dentro do quengo feito manteiga.

Acho que preciso de uma cerveja!

Nelson Mattos Filho /Velejador

Barcos com história

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Alguns barcos contam “estórias” outros fazem história, eis aí dois especiais exemplares que navegaram os oceanos do mundo e as narrativas de seus comandantes atiçam o sonho de muitos. Aleluia, o Passageiro do Vento sob o comando de Edson de Deus. Três Marias, do irrequieto Aleixo Belov, três voltas ao mundo em solitário. Barcos e homens que sempre renderei homenagens!  

Um resgate histórico dos velhos e fascinantes Saveiros da Bahia

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Dia desses eu estava lavando o Avoante no píer de serviço do Aratu Iate Clube, quando chegou o amigo Sérgio “Pinauna” Netto perguntando: – Nelson você aceita um livro? – Claro que sim! – Espere ai que vou buscar. Ao retornar, com o livro na mão, ele falou: – Se não quiser ler, ou se já leu, pode deixar na biblioteca do clube ou doe a quem quiser. O livro em questão era o da imagem acima, Embarcações do Recôncavo – Um estudo de origens, do antropólogo luso-brasileiro Pedro Agostinho, esgotado desde de 1973 e que em 2011 foi reeditado pela Oiti/OAS Empreendimentos. A obra é uma joia rara e um resgate da cultura náutica da Bahia, em que tinha o Saveiro como grande baluarte. Recheado de fotos belíssimas, inseridas em um escrito histórico de encher os olhos, o livro me deixou maravilhado. Como bem disse a Senhora Carmine De Sierve, no texto de apresentação: …uma obra de referência, um tesouro desejado por aqueles que se interessam pela história e etnografia naval e pelo patrimônio cultural da Bahia e do Brasil” Caro amigo Sérgio Pinauna, só tenho a agradecer o presente e dizer que ele está sendo muito bem aproveitado em minhas fontes de pesquisa.

Vivendo o mar e os amigos a cada dia

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Esse Diário é assim mesmo, de vez em quando dá uns bordos mais longos e navega pelo cotidiano das cidades. Mas a escolha de morar a bordo de veleiro não leva ninguém a viver isolado do mundo urbano e quando se tem muitos amigos, ai é que não se consegue mesmo levar uma vida de ermitão dos oceanos. Por isso mesmo tento aproar o blog para os mais diversos assuntos e assim vou bordejando quando noto que a rotina tenta tomar gosto. São tantas coisas para falar que as vezes elas se perdem nos arquivos secretos de minha alma e quando dou por mim, tenho que sair procurando em meio a um embrulhado de assuntos novos e antigos. Acordei nessa quarta-feira, 15/07, pensando numa deliciosa panela de Cassoulet que saboreamos na casa dos amigos do veleiro baiano Ondine, Gomes e Lia. Pois é, aquele Cassoulet estava dos deuses e acompanhado de cerveja gelada a coisa subiu mais um degrau no pódio. O prato é de origem francesa e é feito de várias maneiras, porém, o mais tradicional é com feijão, carne de pato, carne de porco, linguiça e salsichas. Na receita de Lia, o pato foi substituído por galinha e, como eu nunca comi o Cassoulet francês, achei uma delícia o abrasileirado. Mas não era somente isso que eu queria falar, pois queria mesmo era puxar assunto para dizer o seguinte:   

Capa do livro Vivendo o Mar a Cada Dia Em 2011, Lia lançou a primeira edição do livro Vivendo o Mar a Cada Dia – de Salvador a Ilha Bela na esteira do Ondine, em que conta a navegada que fizeram em flotilha com o veleiro Tô Indo, do casal Gerson e Lili. Uma leitura gostosa e imperdível sobre um dos mais belos trechos do litoral brasileiro e parafraseando o amigo Hélio Viana, blog MaraCatu – de onde pesquei a imagem do livro – : Duvido que você não leia de um folego só! Mas vou logo avisando que a receita do Cassoulet não está no livro.  

Aleixo Belov lança mais um livro

Aleixo Belov

O navegador Aleixo Belov, o ucraniano mais baiano do mundo, lança na próxima Terça-Feira, 16/12, a partir das 18 horas na sede do Yatch Clube da Bahia, mais um livro de sua autoria. Dessa vez ele narra a viagem que fez a bordo do veleiro Fraternidade pelo continente gelado da Antártida no final de 2013 e começo de 2014. Foram 150 dias de navegação e no livro, O Veleiro escola Fraternidade na Antártida, Belov fala dos desafios e da alegria de mais um sonho realizado. Em 1981 Aleixo Belov recebeu um diploma da Marinha do Brasil, por ter sido o primeiro velejador solitário a concluir a volta ao mundo em um barco com bandeira brasileira, o veleiro Três Marias. Veleiro em que repetiu a façanhas duas vezes. Aleixo já realizou quatro voltas ao mundo e tem muita história para contar.