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De loucuras, quadradices e barcos

Um barco legal

“… A loucura é estigmatizada. Falta amor para se dedicar aos loucos… Só há mundo para os “saudáveis” e suas quadradices… Pouco se quer perceber sobre a profundidade criativa que nela, na loucura, há…”. Estava à procura de palavras para expressar meus sentimentos diante das inúmeras regras daqueles que se declaram politicamente corretos querem nos impor. Ao ler o artigo, nas páginas da Tribuna do Norte, assinado pelo poeta e advogado Lívio Oliveira, encontrei o fio da meada da minha prosa. Mas antes de seguir em frente, quero parabenizar o poeta pela crônica e pedir perdão por ter copiado suas palavras.

Mas será que é mesmo de loucura que eu quero falar? Será que os “loucos” que deixam tudo para trás e caminham sem direção pelos vastos horizontes do mundo, a procura de nada além da felicidade de viver a vida, podem ser considerados loucos? Quem avalia os loucos? Somos nós, que vivemos no desespero de ter mais, juntar mais, querer mais, exigir mais e sonhar menos? Machado de Assis um dia escreveu sobre a loucura e espantou o mundo com suas palavras, porém, o espanto virou reflexão, depois virou verdades, passou a ser imaginação, descambou para espasmos literários e hoje o livro está abandonado em alguma estante empoeirada. De vez em quando, as palavras do escritor são lembradas e ditas como verdadeiras por algum cronista ou crítico literário afamado, em seguida a página é virada, o livro e novamente fechado e volta à prateleira empoeirada.

Certa feita, ao participar de uma conversa entre uma senhora e um velejador, me ative quando a mulher perguntou ao homem qual o objetivo dele com o barco que havia comprado. O velejador respondeu que pretendia dar uma volta ao mundo. A mulher se espantou e disse: – O senhor é muito louco e aventureiro! O velejador perguntou quantos filhos ela teve e a mulher respondeu que tinha três. Foi aí que o velejador devolveu a pergunta: – E o louco e aventureiro sou eu é?

Somos assim mesmo e estamos sempre querendo padronizar a vida dos outros olhando exclusivamente para a nossa. Chamamos de loucos aqueles que nem de longe desejam caminhar pelos nossos caminhos, como se estes não tivessem espinhos e nem pedras. Avistamos o certo apenas quando os padrões estabelecidos por alguém guiam nossos olhos. Temos que ficar calados diante daqueles que discordam das nossas crenças para não atiçar a fúria desenfreada através de palavras e agressões físicas. Deve ser por essas e outras que taxamos de loucos aqueles que não aceitam como verdades as nossas certezas, ou aqueles que querem dançar na rua, que sorriem e falam sozinhos, que andam sujos, que dormem nas ruas, que comem migalhas apanhadas do lixo, que andam nus ou que simplesmente falam verdades que não queremos ouvir. Afinal o que é a loucura?

Mas minha prosa não era essa, pois o que queria mesmo era achar um mote para esmiuçar a fotografia que ilustra esse texto meio amalucado. Isso mesmo, essa imagem para mim escancara um mundo de sonhos possíveis e imagináveis e me leva a varar os oceanos em busca dos infinitos horizontes. A imagem desse barquinho fora do comum é a síntese que sempre busquei a bordo do meu Avoante, em que vivi uma vida de sonhos, apesar de ter viver fora dos padrões das “quadradices”.

Quanto mais olho para o retrato desse barquinho navegando suavemente sobre as águas mansas e com sua chaminé soltando lufadas de fumaça branca no ar, mais me vejo como seu tripulante. Na loucura de minha imaginação me vejo cruzando oceanos, acenando para outros barcos, chegando a uma ilha deserta, fazendo planos para novos rumos ou simplesmente sentado na popa e olhando para o mundo em minha volta. Imagino o que pensariam os “saudáveis” envolvidos em suas lógicas ao me ver navegando nesse barquinho encantado. Será que perguntariam quais equipamentos eletrônicos que eu usava? Será que perguntariam pela potência do motor? Será que perguntariam pelos equipamentos de salvatagem? E o tipo de âncora? E sobre as baterias? E o modelo? Qual o projetista? Qual a marca das velas? – Não, acho que não perguntariam nada! Acho até que teriam pena de mim por está navegando em uma embarcação tão rústica. Talvez tirassem uma foto para mostrar aos amigos nos grupos sociais. Talvez um aceno de cabeça para aliviar o desconforto em me vê navegando ali em coisa tão imprópria e ele em um barco tão maravilhoso.

Pois é, a cada olhada na imagem minha imaginação flutua no espaço e sai em busca de novos horizontes. A cada nova olhada, novos sonhos se somam aos outros e me alegro por estar vivendo aquela viagem naquele barquinho. Recordo das muitas vezes em que fui taxado de alienado porque vivia a bordo de um veleiro lindo e que me deu infinitas alegrias. O Avoante não tinha o luxo desejado e buscado por tantos sonhadores com a vida sobre o mar, mas me deu tudo o que eu queria ter, enquanto assistia calado e espantado o filme dos desejos sem fim do delírio dos sonhadores.

A imagem desse barquinho sem nada e com tudo do que o homem necessita me abre o coração, e deixa minha mente aberta para novamente viver o sonho.

Quanta loucura! Quanta “quadradice”!

Nelson Mattos Fillho/Velejador

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