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Velejando de Salvador às Granadinas – Final

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Nesse Sábado, 14/06, de Copa do Mundo no Brasil chegamos ao fim de mais uma história do mundo da vela vivida pelo velejador baiano Sergio Netto. Pinauna, como ele é mais conhecido, tem sim muita coisa para contar. Velejando de Salvador às Granadinas é o terceiro texto que ele nos presenteia e que publicamos aqui, mas sei que seus arquivos são recheados de coisas valiosas e boas informações. Vamos torcer para que ele se lembre sempre de nós e assim vamos aprimorando os conhecimentos. Obrigado Sergio Pinauna e saiba que o Diário do Avoante sempre lhe será grato.   

VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – FINAL

Sergio Netto (Pinauna)

Dia 7, sem receber qualquer resposta positiva, exceto que era para entregar o barco para um tal de Tucker West, em Fort Lauderdale, que tinha uma companhia chamada The Catamaran Co., com filial em Tortola. Sem endereço nem telefone. Quando sai de Granada, fiz a saída na Alfândega local para Tortola, nas Ilhas Virgens e pela nona vez pedi a Jairo via telefone e via e-mail, para que providenciasse uma informação completa. Fizemos uma feirinha e às 10:30 estávamos com âncora em cima. O vento rondou para nordeste e endureceu, fazendo a gente derivar muito para oeste. Contornamos Granada por sotavento, mas quando chegamos na metade do caminho para Cariacu e o nordeste descobriu de trás do morro, recebemos uma rajada de 40 nós que arrancou a capa protetora da genoa e a ferragem da bicha. Machuquei a mão ao segurar a contra-escota fora da catraca na hora de enrolar a vela. Foi contra-vento duro até ancorarmos em Cariacu imediatamente após o por do sol, com lua cheia.

Dia 8, um sábado, acordei cedo, fiz um desjejum de suco de caju, ovos mexidos com cebola, tomate e farinha para mim e para Bruno e fui até o Iate Clube defronte de onde estávamos. Liguei para o celular de Jairo que estava na Fonte do Tororó, dizendo que era a décima tentativa que eu fazia durante a viagem, e que ia deixar o barco em Union Island. Ele não retrucou, disse que mandasse um e-mail e que segunda-feira ia tomar providencias.

A genoa sem a proteção uv azul e o temporal chegando em Union Is.

Saímos motorando pelas Granadinas, com parada para almoço em Sandy Is, onde ainda deu para mergulhar no recife. Cheguei cedo em Union Is. e ancorei em Clifton Harbour, em frente ao Anchorage Iacht Club. Clifton Harbour at Union Island é uma laguna com 10-15m de profundidade, com um recife no meio. Aqui é o coração das Granadinas, tem base da Moorings e é considerada a área classe A do Caribe. 2/3 dos barcos presentes são catamarãs, a maioria Lagoon 38 de charter. No domingo dia 9, fiz Costums & Immigration no aeroporto que é logo atrás do Iate Clube, com permissão de permanecer até 20 de novembro. Começou a chover a cântaros, e a previsão era que o temporal demoraria pelo menos mais cinco dias. Não vi ninguém se arriscando a sair da laguna, quem fez reserva para esta semana se deu mal! Continuar lendo

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Velejando de Salvador às Granadinas – II

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VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – II

Sergio Netto

Dia 24, o terceiro de velejada, o organismo já adaptado, muita leitura. Cada vez que se sai do porto recomeça o processo de adaptação, enjoo, etc., que dura tres dias. Hoje é o 20º dia desde a saida de Salvador, 15 dos quais navegando. Às 11:10 ψ=0°15’S, ʎ=43°00’W. Vento NE 17 nós aparente. Progresso de 190 milhas em 24 horas. Média desde Fortaleza 7,1kn.  Cruzamos o equador na longitude ʎ=43°27’W, profundidade ~3000m. Bruno e eu pulamos na água, um de cada vez. Passamos por fora dos recifes Manuel Luis, no Maranhão, todo o pano em cima.image

Dia 25 o vento diminuiu para força3, força 2, e rondou para NE. Tivemos um progresso de 162 milhas em 24 horas. Passou um navio de container, por fora, para SE. Dia 26, outro navio, também por fora, bem longe, no rumo NW. Às 04:30 o vento cresceu para 10 nós, NE, e estabilizou. O trecho de vento fraco foi de 0,5° de latitude e 1° de longitude, 1,5 a 2,0°N e 45°40’ W a 46°40’W. Às 10h vimos um veleiro na proa quando subiamos o talude continental, cruzando as isóbatas de 2000 e 1000m. Antes do almoço houve um show de golfinhos que Bruno fotografou. A água continua azul, mas mais escura. Durante a noite cruzamos o canal principal que alimenta o talude no cone do Amazonas. Na plataforma, entre as isóbatas de 30 e 200m, há na carta 10 da DHN um ponto circular marcando 471m. Passei nele; vinha com profundidade mensurável na sonda que tem registro analógico, e perdi o fundo por 36 minutos. Interpretei não como uma anomalia pontual, circular, mas como o talveg de um canal distributário com largura de 4 milhas, vindo do cabo Norte e de Macapá que não foi convenientemente mapeado. Este canal deve alimentar a cabeceira do grande leque no talude, o qual forma o ‘cone do Amazonas’.

A isóbata de 10m está a 50 milhas da costa! Tudo aqui na foz do Amazonas é grandioso. Às 22:50 havia um pesqueiro grande na frente. Acendi a luz de navegação e fui de proa. O pesqueiro chamou no rádio, com voz de velho amazonense. Estava à deriva a 3,6 nós, largando equipamento de pesca. Foi uma comunicação cordial com o barco.

No dia 27 tivemos um progresso de 173 milhas, e a água mudou de cor para esverdeada. Passaram 3 navios, por dentro possivelmente para pegarem menos correnteza. Motoramos 7 horas, toda a tarde,um motor de cada vez, no intuito de chegar em Salut ao entardecer do dia 28, mas às 17:50 o motor de BE superaqueceu e tocou o alarme: partiu a correia da bomba d’água salgada, e o de BB entupiu o filtro de combustivel. Como não tinha balão, decidi ir ‘drifting’ com vela suficiente para manter o rumo e passar mais uma noite no mar, chegando pela manhã do dia 29. Foi uma decisão interessante andar mais devagar. Acabou o barulho do motor, ficou tudo relaxado e mantivemos o mínimo de vela só para sustentar o rumo, porque a correnteza é de 2 nós a favor. O problema agora é administrar o ‘excesso’ de velocidade para não chegar muito cedo, ainda escuro. Igor fez mil recomendações para não investir as ilhas à noite.

image imageimageimageIdentificamos o veleiro que vimos ontem, está agora por sota e no través. É um ketch americano, Carduff, que não respondeu minha chamada! Mas hoje falei com um navio, o P&O Nedloyd, de Houston, e ele também. Deve ser um desses gringos fdp amedrontados que segue as regras de segurança lá deles. Dia 28 consertamos os motores e administramos o ‘excesso de velocidade’ enrolando toda a genoa. Desliguei o piloto para economizar energia e travei o leme com um ângulo de 15°… e fomos derivando a 2 nós, abrindo 20 a 30° do objetivo. Durante 16 horas! Foi assim que passamos a fronteira internacional Brasil-Guiana. Dia 29 atrasamos o relógio 1 hora, para o fuso de Caracas, GMT-4. Às 02:45 ψ=5°21’N  ʎ=51°51’W, destravei o leme, apontei M270 para corrigir a correnteza, abri a genoa toda com vento SE força 3 e andamos SOG 3-4 nós na direção de Iles du Salut. menos de 50 milhas à frente. A água estava verde escuro, azeitonada. Às 11h ancoramos em Ile Royale, ψ=5°17’N  ʎ=52°35’W, 1037 milhas desde Fortaleza em 7 dias. Consumimos 100 litros d’água, mais de 7 l/pessoa/dia, uma esnobação. Lá estavam ancorados 9 veleiros, incluindo os Endurance 35, Sidoba III e Marie Celeste. Chegaram ontem à tarde, cumprindo o que nós iriamos fazer se não tivessem pifado os motores. Como se ve na Blue Chart, as ilhas ficam a 5 milhas do continente e a 8 milhas de Caiena, e é tudo muito raso. Mas tem uma maré de 3m. Fomos Stanislau, Luis, Xari, Bruno e eu de caique, visitar as ilhas de St.Joseph e do Diabo, todas vulcanicas. Bruno subiu num coqueiro e derrubou sete cocos. Visitamos as celas comunitárias e as solitárias, de 1,5x3m, escuras,fechadas com um circulo no teto. Hoje os franceses se envergonham do tratamento que davam aos presidiários.

No dia 30 os espanhóis foram embora cedo. Fui com Bruno visitar Île Royale, onde ficava a administração do presídio e hoje é a sede do receptivo turístico. A única coisa que conseguimos comprar foi um cartão de telefone por €12,4, que usamos para falar para o Brasil até o ultimo centavo. Aqui euro e dólar têm o mesmo valor. Almoçamos no restaurante da pousada, visitamos o farol antigo junto do telescópio moderno que rastreia os foguetes lançados do Centro Espacial em Kourou no continente defronte. A base é conveniente para os franceses porque fica próxima à linha do equador.

 Largamos às 15 h, contornando a Île Royale pelo sul e rumando 316V, direto para Granada, passando pelo norte de Tobago. O plano é, se quebrar o barco, entramos para Trinidad; se estiver tudo bem vamos direto para Granada. Vento NE 15 kn. Me sinto melhor velejando num mar arrumado e vento folgado do que em terra!

imageNa madrugada do dia 31, defronte à fronteira com o Suriname, a 30 milhas de terra fomos abordados pela guarda costeira (?). Chegaram completamente apagados e chamaram no rádio, creio que em holandês.  Não respondi e meteram um holofote possante sobre o Blooper. Respondi em Inglês, e eles pediram identificação. Satisfeitos com as respostas desejaram boa viagem e apagaram tudo de novo. Quando nos afastamos mais da costa o vento caiu à noite para 8 nós e a corrente cresceu para 2. Hoje passamos a usar o tanque grande. O de 100 litros que enchemos em Fortaleza durou 10 dias: 5l/pessoa/dia. Estamos melhorando. Às 15h progresso de 137 milhas. Ψ=6°45N ʎ=54°17’W, prof 45m, correnteza 0,5 a 1 nó. Vento real E<10kn nas ultimas 16 horas.

Dia 1 de novembro descemos da plataforma continental para o talude a 7°30’N; a plataforma aqui tem 100 milhas de largura. Dai os alísios de NE começaram a se firmar, crescendo lentamente de 10 para 15 nós a 8°N, e passando de 20 nós a 9°N, com ondas de 2m. A temperatura da água subiu para 27,4°C, e a cor voltou a ser azul. Como a costa da Guiana é orientada NW na direção da Venezuela, estamos agora andando em asa de pombo no talude, paralelo à costa. A correnteza aumentou de 0,5 para 1 nó, de ESE. Às 15 h, em Ψ=8°12N ʎ=55°50’W, marcamos um progresso diário de 130 milhas. Perdemos a ultima colher de arrasto disponível. No dia 2 de novembro o vento começou a crescer devagarzinho, para não assustar. Continua leste. Refresca à noite e cai de dia. Nesta madrugada de 1 para 2 tivemos algumas nuvens pretas mas mantivemos tudo em cima. Fomos de novo abordados por navio de guerra, igual a ontem, só que hoje já chegaram falando inglês com sotaque americano. De novo, não vimos o barco. Hoje às 15h completam 11 dias desde Fortaleza. Lavei shorts e cuecas.

2 de novembro 2003, domingo. Acordei com a queda de um peixe voador nas minhas costas. Entrou pela fresta aberta da gaiuta de popa a barlavento! Acendi a luz e joguei de volta para o mar. Nesta madrugada pegamos corrente contra, de W, entre 8,5 e 10°N, e tráfego de navios na rota Miami-Recife.

Defronte à Guiana Inglesa, até a foz do Rio Orinoco, a 140 milhas da costa, pegamos uma zona de depressão da tarde do dia 2 até a manhã de 3 de novembro. Igor havia avisado que por aqui tem uma depressão semanal. Era uma sequência de cumulus altos, espaçados no horizonte a leste, parecendo barcos de pesca alinhados na borda da plataforma, cada um em forma de charuto. Quando chegou o primeiro, o Blooper parecia um carroção, vibrando todo a 10 nós. Ai descemos a mestra para o terceiro rizo, e melhorou. Se minha neta de um ano estivesse a bordo, uma possibilidade aventada de Lia e ela embarcarem em Fortaleza, ou ela ia ficar vacinada para o resto da vida, ou ia se assustar com a eventual expressão de tensão dos mais velhos; um risco que eu não estava disposto a jogar. Além do mais, com ela a bordo eu ia acabar quebrando uma regra de segurança fundamental: o barco tem prioridade.

Velejando de Salvador às Granadinas – I

 

image Hoje vamos dar início a mais uma história do mundo da vela e mais uma vez ela vem com a assinatura do velejador baiano Sergio Netto, Pinauna, que, para nossa alegria, decidiu abrir seus arquivos para nos presentear com seus belos e educativos textos. Dessa vez navegaremos, através das letras e sonhos, de Salvador até às Granadinas a bordo do catamarã Blooper, um luxuoso Lagoon 41. Publicarei essa “fofoca náutica”, como batizou o autor, em quatro capítulos.

VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – I

Em setembro de 2003 a BYC – Brasil Yacht Charter resolveu desativar sua filial de Salvador porque o retorno do investimento era baixo, e a Policia Federal deu um prazo para pagamento do imposto de importação dos veleiros que ela trouxe em comodato. Jairo Zollinger, meu vizinho de atracação na Bahia Marina e gerente da BYC me comunicou que estava procurando um skipper para devolver os barcos para os Estados Unidos. Já que ele não queria levar, eu achei que era uma oportunidade velejar um Lagoon 41 e disse que levaria grátis, isto é, como se estivesse fazendo um charter com as despesas pagas e passagem de volta para dois tripulantes.

Ele consultou os proprietários que aceitaram a proposta, desde que eu saísse imediatamente, mesmo nesta época de furacão no Caribe. Dia 26 de setembro assumi como comandante, e foi feita a saida na receita federal, policia federal e capitania. Dia 28 visitei Beto Correia Ribeiro e Fafá e peguei as cartas do Caribe e os conselhos de onde parar e por onde navegar. No dia 1 de outubro fui com Jairo, Joba e Bruno, filho de Joba, recém-chegado da Austrália, de lancha para a Ilha das Canas ver o Blopper. Fiz orçamento para as despesas da viagem, US$4250 (menos da metade do que eles pagariam a um profissional) que me foi adiantado; testamos o barco e Bruno foi aprovado para ir até o Caribe. Igor estava revisando o piloto automático.

Dia 4 de outubro recebi o catamarã às 11:30 na Bahia Marina, levado por Gordon – gerente de náutica da Ilha das Canas, e o filho dele. André, Gilca, Liana e Lara chegaram ao meio dia para se despedirem. Igor ainda estava em cima do mastro concluindo a revisão do anemômetro. Larguei às 14 horas, com Joba, Bruno, Pedro Mutti e Adriana. Nenhum deles tinha visto de entrada para os EUA. Ficou combinado que deve embarcar pelo menos um tripulante, com minha aprovação, lá pelo Caribe. O Sereno acompanhou até o Iate. A tripulação com ótimo astral e cheia de entusiasmo. Continuar lendo