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UAI! Parte 10

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Não tem como passar indiferente pelas cidades históricas de Minas Gerais e quando botamos os pés em Ouro Preto não tem como deixar de se envolver pela aura que emana pelos poros de suas pedras. Tudo ali é de um fascínio sem igual e o povo vive como personagens do grande palco que a cidade, que já foi capital, representa. O difícil é deixar ser possuído pela pressa quando se visita Ouro Preto, pois em cada esquina o encanto se multiplica, em cada ladeira a paisagem nos leva a querer mais e nas calçadas os cheiros e os sabores que invadem as ruas é uma tentação para espíritos glutões. Aliais, não é preciso ser glutão para se esbaldar na cozinha mineira. – Quero ver quem controla a dieta diante de um fogão à lenha, carregado de panelas com tutus, torresmos, galinhadas, carne de porco, doces, queijos e uma saudação no típico sotaque mineiro! Se for visitar Minas Gerais, deixe a dieta em casa e bote o pé na estrada sem medo de ser feliz.

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Nesse relato, que já chegou à Parte 10, acho que já falei de quase tudo da gastronomia, dos museus, da arquitetura e das igrejas das terras das alterosas, mas sempre falta aquele detalhezinho que fica martelando o juízo e fico tentado a escrever. Muitos que estão acompanhando, e até já recebi comentários sobre isso, devem achar que estou me estirando demais nesse “UAI!”, mas peço um pouquinho de paciência e digo que um dia eu termino. Como diz um sábio amigo: “- Tudo tem seu tempo.”

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Olhe, vou dizer uma coisa: – No dia em que o Arcebispo mineiro acordar pelo avesso e decidir mandar soar todos os sinos das igrejas do estado, o mundo todo ouvirá o badalar. Pense numa terra para ter igreja! E cada uma mais linda e formosa do que outra. Pensei essa blasfêmia enquanto caminhava numa manhã pelas ruas de Ouro Preto e em menos de um quarteirão passamos por umas cinco igrejas até entrarmos na Igreja do Pilar, onde tivemos uma magistral aula sacra diante dos detalhes ali esculpidos.

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Poderia ter ficado horas e horas escutando o guia contar os segredos do cristianismo expostos na Igreja do Pilar, pois adoro saber das coisas que achava que sabia e adoro o clima de paz e tranquilidade que existem dentro das paredes de uma igreja. Não é a suntuosidade que me encanta, mas sim a sutiliza das verdades desnudas e que passam despercebidas da grande maioria dos fieis. Precisávamos seguir em frente em nosso passeio e o trem não espera. Pedi licença ao Senhor do Pilar e fomos ligeiro para a Estação para embarcar no Trem da Vale que nos levaria até a cidade de Mariana.

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Infelizmente a Velha Maria Fumaça não estava em atividade na época da nossa visita, porém, o trem que embarcamos oferece uma viagem, não tão poética, mas com muito conforto e alegria. Embarcamos em um vagão com ar-condicionado e bancos espaçosos, mas com o precinho um pouco salgado. Poderíamos ter embarcado nos vagões mais simples e mais baratos, porém, como já disse em outras passagens, a cabeça de um viajante é esquisita e cheia de manias. Compramos a passagem somente de ida, pois à volta decidimos pegar um ônibus que faz a linha regular entre os dois municípios. Ideia acertada e que nos deu uma excelente interação com o povo do lugar. Foi no ônibus que escutei todo o relato de um funcionário da mineradora Samarco, a que causou uma das mais terríveis destruições ambientais do Brasil nos últimos tempos, e pelas palavras do jovem funcionário, que estava trabalhando no dia do acidente, a coisa foi uma catástrofe sim, mas, segundo ele, muito do que se diz na imprensa, e nos anais dos relatórios ambientais, não condiz com a verdade e ele pede a Deus e aos homens que a empresa não feche as portas, porque, isso sim, seria o fim de Mariana. Segundo ele, a mineradora tem assumido todas as responsabilidades sobre o acidente e cumprido todos os compromissos para manter a dignidade dos funcionários e dos moradores atingidos. Como diz o ditado: “Toda história tem dois lados, ou vários.”

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– E sobre Mariana? – Calma que vou falar, mas primeiro me deixe falar na viagem do trem. O trem é um programa patrocinado pela empresa Vale do Rio Doce e faz uma viagem inesquecível por entre vales, penhascos assustadores, desfiladeiros, cachoeiras e muito verde. A viagem dura em média 30 minutos em um ritmo lento e valorizando a paisagem para o clique dos fotógrafos e gritos de espanto dos passageiros. Na chegada a Mariana o turista pode visitar uma antiga locomotiva e subir em sua cabine de comando para posar para fotos. O que mais me chamou atenção durante a viagem foi justamente a chegada, porque o rio do Carmo, que banha uma cidade que sofreu um desastre ambiental monstruoso, está totalmente poluído e sendo bombardeado por toneladas de lixo e intermináveis tubulações de esgoto. Claro que alguém haverá de dizer que um erro não justifica outro, o que é muito justo, porém, se é para abrir os olhos, vamos abrir por inteiro e não por frestas.

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– Sim, e sobre a cidade? – Bem, agora só na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Uai! Parte 9

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Minas Gerais tem muitos caminhos, mas tem aqueles que se destacam em importância, apesar de traçarem rumos que margeiam os principais corredores rodoviários.

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Estrada Real, a maior rota turística do Brasil, com mais de 1.680 quilômetros de extensão entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, tem como objetivo valorizar a cultura, a beleza e as tradições ao longo do percurso. A estrada, que originalmente é uma trilha, foi construída pela Coroa Portuguesa no século 17, para escoar a produção de ouro e diamante até o porto do Rio de Janeiro. O Instituto Estrada Real, órgão criado em 1999 pelo sistema FIEMG – Federação da Indústria do Estado de Minas Gerais – para fomentar e gerenciar o turismo autosustentável ao longo da trilha, beneficiando 199 municípios, criou o Passaporte da Estrada Real, um documento simbólico voltado para os viajantes que desejarem registrar a passagem pelos caminhos da história. O passaporte deve ser carimbado nos pontos oficiais, indicados pelo Instituto, e ao ser totalmente preenchido, o viajante recebe um certificado.

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Lucia fez o nosso registro no site do Instituto para retirar o documento, que é entregue mediante a doação de um quilo de alimento não perecível, e apesar de termos andando um bocado, muito ficou a ser feito em outras oportunidades. O roteiro que planejamos valorizava algumas cidades as margens da velha estrada, contudo, os desejos de um viajante são como barcos a vela que seguem de acordo com o sopro do vento e nem sempre os ventos casam com os desejos. De uma coisa eu sei: – A Estrada é uma viagem a parte e vale ser conhecida em sua essência.

20160527_104658Na página anterior desse relato havíamos deixado para trás a maravilhosa arquitetura de Diamantina e as cachoeiras de Beribiri para pegar a estrada que nos levaria a Ouro Preto. Pouco mais de 385 quilômetros separam os dois destinos turísticos mais famosos e a viagem é bastante prazerosa. Não levamos em consideração o tempo de viagem e nem nos preocupamos com a hora de chegar a Ouro Preto, queríamos mais era curtir a viagem sem pressa, sem atropelos e parando em pontos que nos chamasse atenção, como uma lanchonete que anunciasse deliciosas pamonhas ou outra que nos chamasse para experimentar um sanduíche de pão com linguiça. As estradas mineiras são verdadeiros SPAs de engorda.

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Após cinco horas de viagem chegamos enfim a Ouro Preto, cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, uma obra de arte a céu, um dos mais belos e encantadores conjuntos arquitetônicos do Brasil, cidade onde a história brasileira é contada em cada passo que damos sobre becos e ruas seculares. Ouro Preto é um quadro poético de um artista das telas emoldurado por uma paisagem natural do reino das utopias. Chegamos e fomos brindados por um frio maravilhoso que nos fez entrelaçar os braços sobre o peito, como aquele gostoso e simbólico gesto universal de quem abraça o mundo.

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A cidade Patrimônio é sim tudo o que está escrito nos folhetos turístico e mais um pouco. O difícil é não se sentir envolvido pela vida que ali existiu em séculos passados. Os museus são de um primor de deixar o visitante boquiaberto. O Museu da Inconfidência, que não pode ser fotografado internamente, dá para sentir os passos e a as vozes de homens e mulheres que se engajaram em um ideal e deram o pescoço para que pudéssemos estar vivendo dias de liberdade de pensamentos e sonhos. Pensar hoje em um Brasil tolhido da riqueza desses ideais é o mesmo que levar novamente a forca aqueles que deram a vida para que tivéssemos um futuro melhor. Muitos subiram ao cadafalso com um sorriso estampado no rosto, porque mesmo condenados, sabiam que a vitória caminhava a passos largos.

1 maio IMG_0004 (829)20160529_160810Mas é no Museu dos Contos que a história estapeia nossa cara e nos faz refletir. O museu conta em detalhes o que gerou a riqueza desse país maravilhoso, diversificado e multicultural. Dotado de uma suntuosa e bem preservada arquitetura, o Museu dos Contos reserva o mais mágico dos seus cômodos para que possamos pedir perdão e envergonhar-se pela crueldade dos nossos antepassados. A Senzala – assim mesmo com “S” maiúsculo -, não existe palavras para descrevê-la, pois simplesmente o nó que trava a garganta só nos permite a reflexão e a emoção. – Como somos cruéis!

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Dentro daquela Senzala escutei um comentário que até hoje ecoa em meus ouvidos: “Olhando o que existe dentro dessa senzala, fico a imaginar o que fizeram aqueles que combateram a ditadura militar para merecerem mensalmente milionárias indenizações, enquanto os negros vivem questionados apenas por serem beneficiados por um simples sistema de cotas…”.

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O título de Patrimônio Cultural da Humanidade é pouco para Ouro Preto.

Nelson Mattos Filho/Velejador