Arquivo da tag: hospedagem na bahia

O catamarã de velocidade – VI

maq de flávio IMG_4769 (85)

Depois da noite bem dormida na ancoragem em frente à cidade de Cairu/BA, acordamos cedinho para aproveitar a maré de enchente e seguir até o distrito de Canavieirinhas. Navegar até o povoado das famosas ostras criadas em cativeiro era uma vontade que alimentávamos há anos, mas o alinhamento dos astros não permitia que acontecesse. Quando o comandante Flávio me delegou a tarefa de montar o roteiro do catamarã Tranquilidade entre Natal/RN e o litoral baiano, inclui o destino sem pestanejar. Até porque, o comandante queria conhecer lugarejos pitorescos e que fugisse dos roteiros tradicionais.

maq de flávio IMG_4769 (87)

No começo da viagem, quando ainda estávamos na Barrinha dos Marcos/PE, meu computador queimou a placa e fiquei sem poder acessar o planejamento e consequentemente conferir a rota e os waypoints marcados. Algumas rotas já estavam inseridas no chart plotter do barco e também em meu GPS portátil. Mas como sabia que muita coisa seria alterada, como foi, em várias oportunidades, preferi incluir a cada parada a rota seguinte. Por precaução, costumo anotar em uma agenda os roteiros, mas infelizmente o percurso entre Cairu e Canavieirinhas não anotei.

IMG_0250

Quando da nossa ancoragem em Itaparica, remexendo papeis do barco, encontrei o guia náutico produzido pelo antigo Centro Náutico da Bahia e que teve a mão do navegador Davi Perroni. Entrei em contato com ele sobre a rota, pois confio cegamente em suas informações, e ele alertou que eu prestasse atenção no datum do GPS, porque as rotas do Guia estavam em Córrego Alegre. Datum é o modelo matemático utilizado para produzir mapas e cartas náuticas. Datums diferentes podem provocar erros de até mil metros de distância. No momento em que eu estava fazendo as correções o Davi telefonou dizendo que havia enviado um email já com tudo pronto. Amigo faz assim!

maq de flávio IMG_4769 (90)

O canal entre as duas cidadezinhas é estreito, raso em algumas partes e merece atenção redobrada até para quem tem um pouquinho de experiência. Como diz um amigo: “Não aceita desaforos e muito menos egos inflados”. Seguindo a rota que me foi enviada, observei que a profundidade média gira em torno de 5 metros, porém, na parte mais larga do rio, além de sinuoso, o traçado passa por profundidades de 3,5 metros na maré cheia. Deve ser navegado com o GPS em zoom elevado e com confiança no que foi traçado. Ao menor sinal de indecisão o barco pode ser jogado sobre um banco de areia.

maq de flávio IMG_4769 (156)

A ancoragem em Canavieirinhas é outro ponto crítico e já fez muita gente boa ficar em maus lençóis. Em frente à cidadezinha existe um enorme banco de areia, que descobre na maré baixa, e a ancoragem é feita em pouco mais de 2 metros de profundidade. Apesar de toda essa dificuldade, navegar cercado pelo vasto e vibrante manguezal é de uma beleza sem tamanho. E foi envolvido nesse clima de êxtase que cruzamos aquelas águas com segurança e alegria. O nosso comandante, que desejava um passeio assim, ria de orelha a orelha e não parava de lembrar a frase dita por nosso amigo de que “praia é tudo igual”. Lembramos também de Geraldo e Myltson que desembarcaram em Itaparica e perderam o melhor da viagem. São navegadas assim que fazem o diferencial da vela de cruzeiro e precisamos estar com o espírito em paz para vivenciá-las em toda plenitude.

maq de flávio IMG_4769 (124)

Navegar em pequenos canais e ancorar em pequenos povoados ribeirinhos, interagindo com os habitantes do lugar é um prêmio para a alma do cruzeirista. Eu mesmo não troco por nada. Falei sobre isso no texto que dá início a essa série que termina aqui e que dei o título de “Um sonho a mais”, mas acrescento que sonhos, vontades e interesses são diversos. Por isso, quando me perguntam qual o número de tripulantes ideal para uma viagem de cruzeiro, respondo que não existe número e sim afinamento. Um cavaquinho tem quatro cordas e nem por isso é mais fácil de ser tocado, ainda mais se alguma estiver desafinada.

maq de flávio IMG_4769 (104)

Canavieirinha foi o prêmio maior dessa nossa velejada a bordo do Tranquilidade e que aqui está relatado com o título O catamarã de velocidade. O título pode não corresponder com tudo o que aqui foi dito e não corresponde mesmo, porém, é uma pequena alusão aqueles que entram a bordo de um veleiro e em vez de curtirem a velejada, se preocupam apenas em correr regatas contra eles mesmos e não apreciam o sabor de uma gostosa e despreocupada navegada.

maq de flávio IMG_4769 (154)

Essa foi sim uma velejada maravilhosa e mais uma vez agradeço ao comandante Flávio Alcides pelo convite, aos companheiros de tripulação Geraldo Dantas, Myltson Assunção e Paulo Guedes, pela amizade e a minha esposa Lucia, pelo astral sempre elevado e que me enche de coragem para enfrentar os mares navegados.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

Um passeio em família

IMG_0297

Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

20160324_12511620160324_173651

A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

IMG_0300IMG_0302IMG_0303IMG_0286IMG_0308

Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

20160326_15364720160326_172406

No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

20160326_194458

A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

IMG_0318IMG_0319IMG_032120160327_163726

No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.