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E daí?

VELEIRO GALÁPAGOS

No final do mês de abril as redes sociais de velejadores ficaram alarmadas com a notícia que um veleiro, de bandeira brasileira, que navegava na rota Caribe/Brasil, rota carregada de provações, havia perdido o mastro e passava dificuldades em sua pretensão de alcançar um porto seguro no litoral Norte do Brasil.

Enquanto a notícia se espalhava por entre os amantes do iatismo e da vela de oceano, e muitas vezes em postagens que extrapolavam a irresponsabilidade e descambavam para os famigerados fakes, um grupo de abnegados se comunicava e criava uma rede de salvação para o casal que estava a milhas de distância da esperança.

Entre costuras, cortes, recortes e alinhavos, a rede foi tomando forma e o que era para se tornar apenas mais um caso de torcida e deixa ver, tornou-se uma poderosa ferramenta de resgate que vai ficar para sempre registrado nos anais da vela brasileira, e tudo criado no coração de pessoas que sabem o valor de uma mão estendida.

Com o apoio da Marinha do Brasil, que ficou de prontidão e acompanhou todos detalhes para o bom resultado da operação, os integrantes do grupo de abnegados perderam noites, gastaram neurônios, fizeram e refizeram planos inúmeras vezes, coloraram créditos na paciência, passaram por cima da razão e se lançaram ao mar como anjos da guarda, confiantes do sucesso.

O casal do veleiro Galápagos, voltava ao Brasil fugindo das agruras da pandemia do Sars-Cov2, pois sabem que o lugar mais seguro para se estar quando explode uma guerra é em casa, junto dos familiares e próximo de quem amamos. Mesmo que este lugar esteja em guerra declarada com ele mesmo. Pois bem, o Galápagos se viu dentro de uma guerra particular, foi encontrado pelos “anjos da guarda” a mais de 300 milhas da costa maranhense, com o casal em boas condições de saúde e depois de reabastecido, voltou a navegar a plenos pulmões, diretamente para São Luiz do Maranhão, e em flotilha com o barco dos “anjos”.

Alguns dias no Maranhão bastaram para aliviar as tensões, agradecer a todos que, diretamente ou indiretamente, participaram do resgate, porém, como quem é do mar não escolhe a onda boa para zarpar, soltaram as amarras e se foram em busca das montanhas verdejantes do Sudeste, para aplacar a saudade e extravasar o choro no carinho do ombro da família. Porém, existia uma fortaleza no caminho e foi para lá que eles aproaram em busca dos cheiros da índia Iracema, da lindeza das velas do Mucuripe e do frescor dos alísios que assanham alvas dunas.

“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis…”, assim escreveu José de Alencar, escritor que deu vida e alma a magia segredada por entre as redes do Ceará. Naquele momento, a frase parecia ter sido escrita para o casal do Galápagos e foi sob as águas do mar alencarino que foi jogada a âncora para mais um dia de descanso depois daqueles dias tempestuosos, mas os “anjos” não mais estavam lá. Eu sempre disse que as cidades olhadas do mar eram mais bonitas, porque irradiavam uma áurea de paz, mesmo sabendo que nas entranhas escorria um oceano de fel e enxofre.

Barco ancorado, mais uma olhada para a bela paisagem ao redor, um suspiro para aliviar o cansaço, mais um beijo para comemorar a vida e é chegada a hora de relaxar com um banho reparador e esquecer um pouco daqueles dias de incertezas em alto mar. – Perdeu, perdeu, bora, bora, bora, rápido… .

“…quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis…”. Não, aquelas palavras ameaçadoras não era fruto de um pesadelo, era real. Não era som de mais uma tempestade, eram gritos do terror, o terror em forma de monstros, frutos de uma sociedade apodrecida no chorume dos discursos fáceis sucedidos de aplausos repugnantes. Eram as mesmas palavras que já invadiram inúmeras embarcações naquela mesma ancoragem. Era mais uma repetição de um crime que todos ali já sabem o roteiro de cor e salteado. Foram tanto que dizem existir um quadro nas repartições policiais com as mesmas respostas de sempre: “não podemos fazer nada…; não é de nossa alçada…; o senhor reconheceu algum deles?…; essas coisas acontecem em todo lugar…; vamos investigar…….”.

– E daí? – Pois é, e daí! O mesmo e daí que soa igualmente a todas as respostas que temos quando as autoridades não assumem suas responsabilidades. E daí, da falta de vergonha na cara, da maledicência, da canalhice oficial e da nossa eterna capacidade de acoitar e abençoar a malandragem politiqueira.

E daí que os dias de angústia vividos no vazio do Oceano Atlântico pelo casal Leo e Bárbara, não foi nada diante da insensatez das autoridades cearenses em não coibir um crime que já perdeu a graça e que vai continuar acontecendo.

“As palavras são como os patifes desde o momento em que as promessas os desonraram. Elas tornaram-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho razão.” William Shakespeare.

Leo e Bárbara, voltaram ao mar e sobre ele tentam se refazer dos abalos sofridos nas estruturas do coração. Hoje, 15/05, estão aportados em Natal e desejo que tudo ocorra bem por lá, porém, nas profundezas da alma, uma pequenina chama tenta dar novo ânimo ao sentido da vida.

Nelson Mattos Filho

A Ilha do Coral

A Ilha do Coral, ou Ilha dos Corais, como queiram, onde foi localizado o veleiro Taipan, de bandeira argentina e que estava desaparecido no litoral de Santa Catarina – click AQUI para ver a notícia – me chamou atenção e fui saber um pouco de sua história nas páginas virtuais do Wikipédia. Para começar, e preciso dizer que as belas imagens que ilustram essa postagem foram copiadas do site da Escuna Vento Sul II, que conheci em Natal, em 2009, com uma tripulação arretada de boa, sob o comando do navegador e mergulhador Zé Luiz. Segundo o Wikipédia, a Ilha do Coral fica a 45 minutos de barco do continente, mas a localização que consta no site da enciclopédia virtual, nos remete aos mares do hemisfério norte, um erro de milhares de milhas. A Ilha, que fica em frente a Praia de Garopaba, é propriedade da Marinha do Brasil, porém, já teve um dono. Dizem que por lá viveu durante trinta e seis anos um senhor de nome Zé d’Angerca, ou Zé das Cabras, que ao ter perdido a esposa, durante o parto da filha caçula, se mudou de mala e cuia para a ilha com a recém nascida e outra duas filhas. As filhas logo que alcançaram a idade de casar voltaram ao continente e deixaram o morando sozinho. Zé da Cabras construiu uma casinha, fez um roçado e criou galinhas e cabras, além de pescar e vender a produção do pescado no continente. Dizem que ele salgava os peixes com o sal recolhido nas rochas. O texto da biblioteca virtual conta que o Zé das Cabras num era besta não, pois vendeu a ilha para alguns desavisados várias vezes, inclusive para um gringo, mas nunca entregou. Quanto ao dinheiro: ficou o feito pelo mal feito! A notícia das vendas chegou aos ouvidos dos comandantes da Marinha do Brasil que para lá enviaram a ordem para que acabasse com essas maruagens e que a partir daquele dia ele seria apenas o que sempre foi, ou melhor, um simples morador. Os Almirantes também determinaram normas a visitação e isso deixou o muito magoado, fazendo com que ele abandonasse a vida de eremita e voltasse a viver no continente. O faleceu em no ano 2000 de causa não sabida, mas sua história está encrustada nos corais da ilha catarinense. Foi nesse cenário de sonho que o Taipan foi localizado e agora vamos esperar que ele esteja atracado em um porto segura para escutar o que seu comandante tem a contar. 

O veleiro

2 Fevereiro (46)

O texto que segue foi enviado pela secretaria do clube baiano Angra dos Veleiros, que recebeu do Sr. Everton Fróes, navegador e apresentador do programa dominical A Bordo. Talvez você já tenha lido por aí ou em alguma esquina desse grande oceano virtual, mas pela sutileza e beleza vale uma releitura. Desde já, parabenizo o autor.

O QUE É UM VELEIRO?

Álvaro Snibwiesky

Dentre as criações humanas, um veleiro é a que mais se assemelha a um ser vivo. Responde as forças da natureza quase como um animal.

É um cruzamento de peixe com ave, seu casco corta a água com delicadeza e força, suas velas são asas potentes que o impulsionam sem bater.

O veleiro sempre oferece nobremente o melhor de si, é um ser instintivo e natural a quem é impossível enganar com ordens erradas que pretendam impor-lhe manobras contra a natureza que o rodeia.

Não existem veleiros exatamente iguais, eles possuem alma e personalidade próprias. A personalidade é uma característica que se percebe facilmente. Basta observá-lo, ouvi-lo e senti-lo.  Cada veleiro tem seu próprio caráter que se acentua com o passar dos anos. À medida que o barco amadurece com o uso, a sua personalidade se define.

Todo veleiro tem cheiro próprio e o som que produzem é sua voz.

Sua alma é sua voz e têm origem no doce ranger de painéis, móveis e anteparas, na vibração de seus estaimentos, no borbulhar suave do leme cortando o mar debaixo do seu casco.

Nutre-se do intelecto, do sangue, do suor e das lágrimas de quem o desenhou o construiu, pintou, forjou suas ferragens, costurou suas velas. É a obra de sonhos altivos e merece ser tratado como um filho bem-aventurado.

Tem na alma, a esperança, a ansiedade, temores e recordações de todos aqueles que, levados pelo vento, com a mão no timão, caçam escotas e adriças.

Fundamentalmente, invoca a alegria dos bons momentos compartilhados entre homens e mulheres que amam os seus veleiros e os desfrutam passando a bordo os mais intensos momentos de suas vidas.

Os veleiros são objetos criados com arte, tempo e esforço que carregam em seu bojo um valor espiritual agregado, o “mana”, descrito em verso e prosa pelos nativos da Polinésia, reconhecidamente, os maiores navegadores a vela que o mundo já conheceu.

O “mana”, esse algo mais, é a melhor maneira que encontramos para definir este “não sei o que” tão grande, tão importante, sensação de presença viva que um veleiro sempre nos transmite.

Olhe a tempestade aí gente!

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Rapaz, essa tempestade está difícil de passar e já nem sei se ela passará algum dia, porque a última postagem foi exatamente há nove meses e a anterior fazia a mesma ruma de tempo. Nem o El Niño chegou a tanto. Mas sabe de uma coisa: A história é boa e para quem acompanha a peleja desde o comecinho sabe que é boa sim, pois o Michael Gruchalski é um excelente contador de história. Se você quiser saber de onde vem essa peleja click AQUI e se inteire do assunto.

A TEMPESTADE

PARTE 20. SURFANDO PERIGOSAMENTE

Michael Gruchalski

O filho do capitão disse alguma coisa. Qualquer coisa que não entendi. Embalado em profundo sono pelo movimento rítmico e sereno da cabine de proa, não distingui nem o que havia dito nem entendi bem onde me encontrava. Num veleiro, ora. No meio do mar, ora. Porque, com quem, aonde?

– Venha ver, venha ver!

Voltei à realidade que me cercava. Todos os neurônios começaram a funcionar, juntos, de uma vez só. Girei o corpo e dei um salto até o salão pulando por cima da água no piso do banheiro. Ainda havia luz do dia, amarelada, mas forte. Iluminava a cabine com tons dourados, as sombras balançavam no teto e armários. La fora, o capitão fazia seu turno no trapézio e seu braço direito livre apontava para o mar.

– Estamos chegando na barra, olha só o tamanho daquelas ondas batendo ali !

Virei a cabeça para ver a proa. Pela alheta de boreste, não muito longe, não muito perto, havia uma linha contínua de espuma branca. Não muito alta, não muito espessa. Mas era uma linha de contínua de ondas quebrando, no meio do mar. Não deveria estar ali, àquela hora, segundo nosso desejo. Não havia vento naquela tarde calma de outono, porque as ondas? Tão altas, rolando sonolentas? Abri a boca, fechei a boca como se tivesse buscando por um pouco de ar. Segurei um palavrão, provavelmente para não elevar a tensão a preocupação. Olhei para bombordo, a orla de Aracaju estava lá, não dava para ver os carros, nem movimento, mas os prédios estavam lá, irregulares, na frente da luz do sol que ia se por dali a pouco. Continuar lendo

A Tempestade – parte 18

8 Agosto (5)

Ufa! Depois de um longo e tenebroso inverno Michael resolveu nos mandar mais um capítulo de A Tempestade, uma aventura eletrizante no mar de Sergipe. 

A TEMPESTADE

A BARRA DE ARACAJÚ

Michael Gruchalski

Não havia muito a fazer.

Acordamos do sonho de sermos rebocados. Lentamente, como saindo de uma anestesia geral. A alegria de vermos os nossos problemas resolvidos durou pouco e deixou-nos frustrados. De repente, o destino que parecia tão perto, tornou-se distante, quase inatingível pelas dúvidas e dificuldades de se transpor, sem cartas ou ajuda externa, uma barra rasa e desconhecida. E havia ainda catorze milhas de mar a nossa frente. Uma viagem de três a quatro horas por águas de cor barrenta, espetadas por duas dezenas de plataformas, das quais só a metade ativa, com gente e barcos de apoio em volta. A outra metade eram restos de estruturas disformes, esqueletos enferrujados, sacudidos e maltratados ao longo dos anos pelo vento, mar e abandono pelo homem. Uma luz vermelha, solitária, no ponto mais alto, alimentada por placas solares, era o único aviso de perigo para os eventuais navegantes noturnos incautos que se aventuravam por ali, tão próximos da costa. Isso, quando não estivesse apagada ou tão fraca ou suja de excrementos de gaivotas depositadas sobre a placa solar…

Apertei os cabinhos da cana do leme, vesti o pé esquerdo com tênis do filho do capitão, prendi a adriça da mestra no mosquetão do meu cinto peitoral e fui para o trapézio controlar o rumo do barco. O capitão pediu para deitar um pouco e o filho do capitão lembrou-se da nossa fome e foi preparar sanduiches. Nosso estado físico era lastimável, minhas costas doíam, a pele, exposta ao sol forte da manhã, queimava. Havia um dedo de água salobra no piso da cabine e quatro vezes isso no banheiro. Tudo balançava para lá e para cá. Vi o filho do capitão abaixado com uma caneca de sopa, recolhendo o que podia de água.

Minha visão do conjunto, barco, mar e céu era privilegiada. De pé, do alto do espelho de popa, via o deck, o bico de proa, o interior do barco pela gaiuta do salão, as pequenas marolas laterais formadas pelo avanço a quatro nós aparentes de velocidade do barco, a mastreação e a cruzeta balançando debaixo de um céu azul e nuvens de flocos brancos.

Via também alguma coisa no horizonte. Outro barco de pesca? Proa de um navio? A primeira torre de petróleo? Não era um ponto em terra porque ela já estava bem visível no nosso través, pelo oeste. O continente era uma linha tênue, mas de cor bem definida, cinza escura, que já nos acompanhava desde o raiar do dia. Continuar lendo

De Angra dos Reis até Ilhéus

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Essa é mais uma boa história de velejada enviada pelo amigo Danilo Fadul (Veleiro Farnangaio) para a nossa seção Conte Sua História. Faz tempo que Danilo mandou o texto, mas ele havia mergulhado na bacia das almas do meu computador e somente agora consegui resgatá-lo, espero que Danilo me perdoe. A história e bem educativa para quem pretende subir a Costa Leste do litoral brasileiro no verão e foi escrita em uma linguagem simples e prazerosa.

DE ANGRA DOS REIS ATÉ ILHÉUS

Danilo Fadul

Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014.

Durante o dia, fiquei com o eletricista (Mike – “máique”) e o mecânico da Yanmar, Lao, fazendo alguns ajustes no alternador e correias que Fernando havia solicitado. Aproveitei para mergulhar e verificar o fundo do barco. Uma tartaruga “bôba” insistiu em ficar me observando.

Fernando chegou no começo da tarde e aproveitamos para fazer compras e abastecer o barco com óleo e água.

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21/02/2014 13h00 Vista da baia de Angra com o “Waterproof” no centro.

Barco: Lagoon 380 com 2 motores Yanmar 30 Hp.

Todos os equipamentos da Raymarine: Chartplotter GPS C80 integrado a radar Tridata;

Ecosonda, Speedômetro e Termômetro de água ST60;

Piloto automático ST6001; Pode seguir rumo ou direção do vento.

Wind ST60 também integrado.

Cartas náuticas de toda a rota incluídas no CHARTPLOTTER.

Tripulantes: Fernando, proprietário do barco e eu, Danilo.

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Saímos de Angra por volta das 17h00, 23° 0.895´S – 44° 18.029´O, como eu nunca havia velejado naquela região, Fernando aproveitou para dar uma entrada no Saco do Céu. Realmente é uma região belíssima (23° 6.453´S – 44° 12.646´O).

Ao escurecer, já estávamos no caminho da ponta da Restinga da Marambaia. As 20h00 passamos pela ponta e Fernando foi descansar. Combinamos turnos de 3 horas. A noite estava fria para os padrões da Bahia. Talvez 19°. Tive que colocar um agasalho. Cruzamos com alguns navios pequenos e rebocadores, mas nenhum na rota direta. Entreguei o timão às 23h00 e retomei às 2h00 do sábado.

Sábado, 22 de fevereiro de 2014.

Nesse ponto já tínhamos as Cagarras no través de bombordo e todo o Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Zona Sul. Esse trecho, até o amanhecer, foi mais carregado. Muitos navios e, pelo menos, duas plataformas ancoradas fora da baia de Guanabara. Passei há umas 9 milhas da costa, mas mesmo assim tive que fazer alguns ajustes na rota. Quando o dia clareou, o último navio já estava a sota de nosso rumo.

No través, a praia de Itacoatiara e as ilhas Mãe e Filha de Maricá. Coloquei as linhas n´água às 5h30 e as 7h00 começamos a ver muitas aves e logo depois muitos golfinhos cercando alguns peixes médios, de aproximadamente 1 kg. Talvez cavalas pequenas ou atuns tipo bonitos. Como nosso equipamento de pesca era leve, não tinha iscas para mar azul. Todo o tempo, desde a saída da baía de Angra, o vento permaneceu de leste, 100% contra nosso rumo. Motoramos e sempre mantínhamos a mestra armada dando bordos longos e mantendo o barco bem confortável.

Ao meio-dia o vento começou a apertar e chegou aos 17 nós reais, sempre “de cara”. Tinha a esperança do leste se manter depois da passagem por Cabo Frio e então podermos trabalhar o rumo numa orça não muito apertada. Depois do almoço fui descansar e quando acordei estávamos a 3 milhas da Ilha de Cabo Frio com vento real de 35 nós e aparente de até 47 nós. Sempre de cara. Nosso destino era o porto de Cabo Frio para abastecermos de óleo e água. A entrada do canal da Ilha foi espetacular (22° 59.894´S – 42° 0.770´O). Muitas anchovas saltando, alguns barquinhos pescando, muitos pescadores nas encostas de pedras e o mar fervendo de espuma branca devido ao vento canalizado. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 17

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A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 16

Michael Gruchalski (2)Depois de quase um verão inteiro de silêncio o velejador Michael Gruchalski colocou novamente a Tempestade para moer a nossa curiosidade, pois eu já não sabia mais o que responder aos que me perguntavam se a borrasca havia acabado. Tomara que ele não resolva entrar em estado de hibernação durante o outono. 

A TEMPESTADE

RECUPERANDO FORÇAS

Agora entendo porque algumas pessoas não devem ir para o mar.

Agora entendo porque outras, depois de passar por aquilo adotam uma religião, outras envelhecem dez anos e, outras ainda, com receio de serem tachados de mentirosos, calam-se para todo o sempre. O que dizer de navegadores de mares verdadeiramente perigosos e assustadores? Gente que diz ter passado dias, dias e dias no meio de uma tempestade com ondas de oito, doze metros de altura, verdadeiras massas líquidas em movimento, temperaturas subantárticas congelando nariz, orelhas e pontas dos dedos? Sozinhas, no cockpit, segurando o leme, o corpo doído, enrijecido, o olho fixo no mar para não atravessar a próxima onda. Sem comer, sem dormir, sem urinar? Ou comendo frutas, dormindo de olhos abertos e fazendo xixi nas calças para esquentar os fundilhos. Tudo isso, por dois, três longos dias e noites? Num veleiro, em situações de stress agudo, muda o comportamento dos órgãos. O intervalo entre as necessidades fica muito mais espaçado. O volume de urina cai ridiculamente para poucos pingos. E eu soube que, em situações de stress prolongado, consegue-se ficar mais de uma semana sem sentar no trono. Isso sem contar a falta de higiene e banho. Os sentidos aguçam na direção das necessidades imediatas de sobrevivência.

Qual a diferença entre esses super-homens que se aventuram em roteiros e mares impossíveis e nós, velejadores normais? A diferença está em que eles não têm medo de morrer. É isso. Ai está a diferença. Essa gente não tem medo de morrer. Essa gente pode até afirmar que o importante é ter um barco de boa qualidade e tamanho, equipado com toda a parafernália de eletrônicos e itens de segurança mas, no fundo, sabem que mesmo isso pode não ser suficiente. Eles sabem, repito, que quando a natureza decide que é hora do show, é hora do show….

Navegam e não lamentam estar por perto na hora do show. Porque não têm medo. De morrer.

Vento? Chuva? Trovões? Isso é só confete, serpentina e lança-perfume de um baile de carnaval. Não alteram as coisas, afetam apenas os sentidos, impressionam. Nesse mesmo baile, ondas e relâmpagos são a bebida excessiva que leva o folião a nocaute. Ondas de dois a três metros, pequenas, desencontradas, nervosas, nascidas prematuramente por vontade de um ventão tropical repentino e mal humorado são mais perigosas e, principalmente, traiçoeiras, do que aqueles vagalhões com tamanho de cinco locomotivas, lentas e pesadas formadas por ciclones em latitudes setentrionais ou abaixo das “forties”. Relâmpagos que parecem nascer da água, a poucos metros do barco, carregam energia suficiente para reduzir barco e tripulação a pó. Das duas, qual a mais perigosa? Haveria uma forma de comparação? Não acredito que haja. Além disso, como tantas coisas na vida, comparações nesse nível pouco valem quando analisadas em terra, fora do baile ou distantes do show, protegidos dos elementos que desencadeiam aqueles fenômenos. Melhor ou pior, tudo depende de como cada um recebe e aceita as situações. E do discernimento e capacidade de ser honesto quando divulgar suas lembranças e impressões.

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A Tempestade – Parte 09

tumblr_mqklmvUock1sv5axco1_500 Bem que falei que a Tempestade de Michael iria pegar pressão e deixar a gente, que acompanha a resenha muito bem aboletado numa poltrona e na firmeza da terra, sentido os efeitos da natureza em fúria. Até a imagem de um raio tenebroso ele enviou para dar veracidade ao texto.

A APROXIMAÇÃO DA CHUVA – 01

Michael Gruchalski

Quase onze da noite. Vento. Todos assustados, acocorados no cockpit. Muitas mãos segurando a cana de leme. Eu fui o primeiro acidentado da noite. Ao abandonar meu posto de timoneiro sem aviso, saltei em direção ao fundo do cockpit à procura de abrigo mas esqueci que estava amarrado pela adriça da mestra obviamente caçada ao máximo. Resultado: minhas pernas chegaram ao destino mas meu corpanzil ficou pendurado no ar, os braços também. Senti o cinto de segurança peitoral esmagar todas minhas costelas. Não sei quantas são, mas garanto que foram todas. Dei um urro, o capitão entendeu e bateu com a manicaca no “stopper” liberando a adriça. Acabei de cair e aterrissar como um saco de batatas no poço do cockpit, quatro pernas me observando.

Onde estava a chuva? O vento chegou rasgando mas, repito: onde estava a chuva? Seria aquela mancha espessa, cinza-esbranquiçada, a baixa altura, tomando parcialmente, os céus a uns trinta graus acima do horizonte e a metade do seu círculo? Ou seria aquela cortina aveludada, ao redor dela, cor de azeviche, que parecia absorver para dentro de si toda a luz das faíscas intermitentes? Continuar lendo

Estória de um pretenso futuro navegador – Última parte

1 janeiro (61)

A VELA

Sempre que retornava das pescarias, ação mais comum nos últimos anos no estuário do Sanhauá, lá estavam aqueles maravilhosos veleiros, majestosos, pois como já disse em outros textos, “todos os veleiros são belos e majestosos”, com suas bandeiras parecendo condecorações, no seu aconchego em águas abrigadas. A tripulação em sua faina e em seu lazer, sempre me chamava atenção. Mas a velha lição da montanha, somada a algumas incursões em águas abertas, me fazia pensar que atravessar os mares, ou navegar ao largo, era uma loucura! Naqueles tempos eu imaginava que a beleza dos veleiros, e dos mares abertos, era como a beleza do vale visto de longe, mas que estar lá, enfrentando a realidade, era como descer ao vale perigoso e nem tanto paradisíaco. Por anos a ideia de velejar ficou latente em mim dessa forma.

Mas ai, lembrando a montanha, percebi que a vida se desenrola no contato com a natureza, no vale, nas cidades e que nada adianta passar a vida olhando do alto sem saber como é de perto. E que assim, como para percorrer e navegar no vale é preciso conhecimento, equipamento, técnica, resistência, coragem e tudo o mais que exige. Assim também teria que ser com os veleiros. “O homem teme o desconhecido.” Continuar lendo