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Kourou – Guiana Francesa

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As Iles du Salut foram ficando para trás e a vontade de ficar mais uns dias de sombra e água fresca, curtindo aquelas belezas, não passava de jeito nenhum. Mas, tínhamos que seguir viagem e ainda faltavam mais de 600 milhas para o nosso destino, Trinidad e Tobago porta de entrada para o Mar do Caribe e suas ilhas dos sonhos da grande maioria dos velejadores de cruzeiro do mundo.

Também não estávamos ali para fazer turismo, estávamos ajudando o amigo Eduardo Zanella a levar o catamarã Itusca até uma marina em Trinidad. Mas também, ninguém é de ferro e resistir a tanta beleza é quase impossível. Vimos o que tínhamos de ver, passeamos o que tínhamos de passear, conhecemos um pouco da história instigante que ainda paira no ar e tiramos muitas fotos para nunca esquecer. Agora era apenas saudades e boas recordações daquelas ilhas bem preservadas e cativantes.

Como o vento até aquela latitude não havia comparecido com firmeza para o trabalho, tivemos que usar o motor durante boa parte da viagem e como no mar não tem posto de combustível na esquina, tínhamos que sair em busca do líquido precioso que faz o motor se manter vivo. Nem sempre a vida é como a gente sonha, mas alguma coisa não estava certa com o clima por aquelas bandas. Com diesel acabando e o vento fraco, rumamos para o continente em direção a cidade de Kourou, onde a França mantém uma grande base de lançamento de foguetes e onde sabíamos que poderíamos encontrar combustível e alguns mantimentos que estavam acabando.

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As Iles du Salut

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Conversando com um indiano que mora há muitos anos na Guiana Francesa, casado com uma brasileira, e que encontramos por acaso em frente a um orelhão na cidade de Kourou, ele nos falou que se Iles du Salut fosse no Brasil aquilo seria um lugar alegre com muitas pessoas se divertindo, organizado e sem nenhum problema. Fiquei olhando para ele e tentando descobrir até onde vai à imaginação do ser humano.

Fiquei imaginando a cara de felicidade dos milhares de náufragos, traficantes, degredados e espertalhões que cruzaram esse atlântico velho de guerra, em busca de um mundo verde e fascinante, e que alguém, em alguma taberna enfumaçada, já havia comentado que existia além mar. No mínimo o comentário era esse: “Vamos lá que o negocio é bom. Tem uns indiozinhos metidos a bestas, umas indiazinhas arrumadas e os caciques se vendem por qualquer promessa ou presentinho barato!” Será? Mas vamos deixar isso para lá, pois os ventos e as correntes já espantaram esses perigos de nossas praias. Restaram a nossa fama festeira, futebolista e alegre.

Quando desembarcamos na Ile Royale, a maior e onde se localiza a administração do arquipélago da Iles du Salut, não pude deixar de perceber a quantidade de pessoas estendidas na grama descansando, dormindo, conversando ou apenas deixando o tempo passar. Não apareceu ninguém para ditar normas e nem exigir, sob ameaças, o cumprimento das Leis de preservação ambiental. Tudo já estava ali muito claro sem fiscais, sem fiscais dos fiscais, sem ONGs para fiscalizar os fiscais, sem fiscais para fiscalizar ONGs e sem a balbúrdia de fazer que se fiscaliza para não fiscalizar nada. Não pude deixar de comparar com uma ilha distante em que não se pode nada, que nas entrelinhas se pode tudo e que está longe de receber o selo de preservada.

Iles du Salut tem um passado sombrio e tenebroso como tem muitos lugares que já serviu de prisão ao longo dos tempos. Dos horrores dos tempos de grades e ferros restaram celas abandonadas e ruínas preservadas dos prédios que abrigavam condenados. Ao longo do passeio entre trilhas e celas ainda é possível ouvir sussurros abafados da história encravada em suas pedras, misturada entre uma espessa vegetação de mata amazônica, capivaras, araras coloridas e uma vasta fauna oriunda da floresta.

Na Ilha Royale um albergue restaurante recebe o visitante usando toda a frieza originada e ensinada nas melhores escolas francesas. Deve ser por isso que o nosso amigo indiano se recente. Um museu, seguindo o ritual dos melhores museus europeus, conta em detalhes tudo o que o tempo tenta esquecer e a história não da permissão. Livros, quadros e documentos são guardados por uma brasileira nascida sob a sombra da floresta amazônica do Amapá. “– De onde você é?” “ – Sou do Brasil” “ – Eu também!” Que mundinho pequeno!

Levantamos âncora da Royale e fomos ancorar na Ilha Saint Joseph. Longe? Não! Tão próximo que poderíamos ir a nado, mas queríamos um bom abrigo para nosso churrasco de comemoração da chegada. Royale era bom, mas Saint Joseph parecia melhor. Brasileiro é festeiro!

Churrasco, caipirinha, cerveja gelada, música e alegria, afinal estávamos comemorando uma travessia de 7 dias apenas de céu e mar e nossa primeira velejada internacional.

O dia seguinte foi para explorar a Ilha de Saint Joseph, suas praias perfeitas para piquenique e belas paisagens cercadas de coqueirais. Um antigo e bem preservado cemitério, de frente para a Ilha do Diabo, espalha no ar ainda mais beleza e tranquilidade, não é a toa que ao lado do seu muro de pedra se encontra o mais gostoso ponto dos adeptos do piquenique. Redes armadas entre as arvores compõe a cena ideal para a frase “Sombra e água fresca”. Um dia eu ainda vou armar a minha em meio aquela paz.

O mundo turístico de hoje conhece pouco das Iles du Salut, mas se lembra do filme Papillon e suas cenas macabras, cercadas de tubarões ferozes e traições, onde uma história verídica é contada e expos ao mundo a inexpugnável Ilha do Diabo, um lugar onde nunca ninguém tinha conseguindo escapar. Se no passado era impossível sair da Ilha do Diabo hoje em dia é proibido desembarcar em suas terras. Ela está fechada a visitação pública, mas avistá-la de longe já é um bom troféu para os visitantes.

Ficamos encantados e fascinados por estar ali e se fosse possível, ficaríamos um bom período curtindo toda aquela história, mas tínhamos que seguir viagem e ainda teríamos que dar um pulinho no continente na cidade de Kourou, Guiana Francesa. Velas em cima e seguimos viagem!

Nelson Mattos Filho/Velejador

De Natal a Trinidad – IV

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Assim como outras coisas na vida, uma primeira travessia oceânica a gente nunca esquece, ainda mais quando essa travessia é feita em condições bem favoráveis. Não posso dizer que o vento ajudou, pois ele insistiu em provar que nem sempre o que se diz é o que precisa ser. Mas, ele estava tão bem comportado e o mar numa astral tão elevado que não tínhamos o direito de reclamar de nada.

Até o poderoso Rio Amazonas não nos deixou esquecer a importância de suas águas para o ecossistema do Oceano Atlântico, mas não se incomodou com a nossa velejada. Por muitas e muitas milhas víamos espalhados no mar a sua presença e os cheiros da longínqua floresta verde de vida. O Brasil foi se tornando mais uma linha invisível que em breve ultrapassaríamos e essa linha, era representada apenas por um ponto numa telinha de cristal. Continuar lendo

Natal/Trinidad – Fotos V – Kourou/Guiana Francesa

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