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A náutica brasileira perde um craque

aloysio gomes carneiroGUIA MAR SÃO PAULOO mundo náutico perdeu no último sábado, 27/02, o navegador Aloysio Gomes Carneiro, 87 anos, autor dos primeiros guias náuticos do litoral brasileiro, Guia Mar Rio e Guia Mar São Paulo, referências que até hoje faz parte da biblioteca de bordo de várias embarcações. Na foto que abre essa postagem, o navegador recebe a homenagem dos diretores e presidente da Revista Náutica, como membro da Academia Brasileira de Náutica. Aloysio faleceu de complicações cardiovasculares em sua fazenda no interior de Minas Gerais. Fonte: Revista Náutica.

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Navegando pela Baía de Tinharé – I

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Tem lugares que encantam pela beleza da paisagem e outros pelo carinho, atenção e distinção com que somos recebidos pelos moradores. Tem também aqueles que nos fascinam pela culinária de sabores marcantes, e únicos, e que jamais esquecemos. Mas tem alguns que cativam a gente por nada, ou melhor, apenas pela simplicidade e tranquilidade que transmitem. Desde que passamos a morar no Avoante sempre buscamos lugares que combinem todos esses fatores, mas a simplicidade e a tranquilidade é o que mais nos agrada.

Já navegamos algumas boas vezes tendo como destino a região de Morro de São Paulo/BA e jogando âncora em frente à Gamboa do Morro, um fundeadouro gostoso, porém, bastante movimentado com barcos e lanchas rápidas que levam e trazem turistas e moradores. É na Gamboa que ancoram a maioria dos veleiros que procuram a região, porque em frente ao Morro de São Paulo – um dos principais destinos turísticos da Bahia – a ancoragem não oferece condições favoráveis. A proximidade com a boca da barra do rio Una e a navegação frenética das embarcações de passageiros deixa no ar um clima de apreensão. Além de que, nem sempre os pilotos das lanchas respeitam os limites de velocidade permitida próximo aos fundeadouros. Mas tudo bem, se nem as autoridades marítimas conseguem resolver o problema, não serei eu a consertar o mundo e nem botar juízo na cabeça de quem não quer ter.

Nas nossas navegadas até o Morro – como a região é carinhosamente chamada pelo povo do mar – sempre vinha o planejamento de adentrar um pouco mais a baía de Tinharé, mas não sei por que carga d’água, nunca dava certo. Destinos como Curral, Galeão, Cairu – o município que administra tudo isso – e Canavieirinhas, eram deixados de lado com a promessa de uma próxima vez.

A Baía de Tinharé é rica em história e dotada de infinita beleza, que apesar da movimentação turística, ainda preserva muita natureza intocada entre matas e igarapés. A história dos lugares que visitamos sempre me chamou atenção e gosto de jogar conversa fora com os nativos. Nessas horas que surgem as lendas, os causos, os segredos, os mistérios que varam épocas, as infalíveis fofocas, as regras para uma boa conduta e as informações importantes. É sentado sob a sombra de uma árvore que apreciamos a vida dos lugarejos ribeirinhos navegar despreocupada entre as idas e vindas da maré.

A história conta que o primeiro cara pálida a conhecer o lugar foi o português Martim Afonso de Souza, durante a expedição colonizadora, mas como nem tudo que se conta daqueles tempos é tão certo como parece ser, é bem melhor a gente fazer cara de paisagem, tomar uma e acreditar. A turma da discórdia fala que franceses, espanhóis, chineses, piratas e afins já perambulavam por ai, mas o português era um povo arrochado e botou todo mundo para correr. O pedaço é meu e ninguém tasca!

O mundão de água de Tinharé e pontilhado por 23 ilhas e a maior de todas é a Ilha de Tinharé. O Martim deve ter achado mesmo que estava chegando ao paraíso, pois as praias que cercam a Ilha até hoje encantam o mundo. Imagine aí nos idos anos 1500, quando somente existia mata, mar e um monte de índias peladas! Era o Céu!

Mas se o portuga achou que os gringos haviam ido embora para sempre, se enganou redondamente, pois os caras voltaram e voltaram com força total. Basta dar um passeio por entre os becos e vielas de Morro de São Paulo para ver que os caras tomaram conta de quase tudo. Mas tudo bem, o mundo é um espaço aberto e livre para quem sonha e deseja se aventurar em outras paragens. Não foi isso que nos ensinou os descobridores? Acho melhor deixar o fidalgo Martim em paz e retornar ao tema principal desse texto. Assim será!

Dessa vez fui ao Morro para ministrar um curso de vela de cruzeiro para dois alunos, Paulo Lourenço e Thiago, que desejam comprar um veleiro para sair por ai. Como o curso é de quatro dias, planejamos ancorar cada dia em um lugar diferente e assim fizemos, para deleite dos alunos.

Foi aí que chegamos até o distrito de Galeão e jogamos o ferro para termos uma das boas surpresas da viagem. O lugar é gostosíssimo e a ancoragem maravilhosa, apesar do movimento das lanchas que fazem o passeio de volta a Ilha perturbar um pouco durante o finalzinho da tarde. A navegada da Gamboa até o Galeão é tranquila, mas é preciso ter atenção nas boias que marcam as redes e manzuás, e o canal tem profundidades que variam entre 3 e 20 metros. Não é aconselhável navegar durante a noite.

Seguimos a rota indicada no guia do Hélio Magalhães – Bahia, de Ilhéus a Morro de São Paulo – lançado há quase dez anos. O guia está precisando de uma edição com informações atualizadas dos locais, porém, as rotas são incrivelmente seguras.

Galeão nos encantou sim e ainda tenho muito o que falar!

Nelson Mattos Filho/Velejador

O trimarã Nativo e a baía de Maiaú

Notícias circuladas a toque de caixa no dia de ontem, 12/11, dão conta que o trimarã Nativo, que havia naufragado na costa do Rio Grande do Norte, enquanto participava da Refeno 2014, foi encontrado no litoral do Pará. Os destroços do trimarã deram na Baía de Maiaú, no município de Bragança. A notícia do achado do que restou do Nativo deve ter causado o maior reboliço nos pequenos lugarejos nos arredores de Maiaú e até um professor da IFPA foi convocado para dar fim a peleja, pois corriam vários boatos cabeludos entre o mar e a floresta que deixou muita gente de orelha em pé. O professor Cristovam Diniz, quando viu os destroços tratou logo de desfazer o mistério e acalmar a galera.

Mas olhando para a imagem do satélite, que desenha parte da costa paraense, vejo o quanto o litoral norte brasileiro é lindo e totalmente desconhecido por parte dos velejadores. Até a flotilha de cruzeiristas, da qual faço parte há 10 anos, que adora ancorar em lugares encantados, se fecha em copas e só da conta do que acontece entre Angra dos Reis/RJ e Salvador/BA. Alguns quando saem em rota batida para circunavegar o mundo viram as costa para o litoral norte/nordeste brasileiro e tchau e benção. Naveguei um pouco nas águas digitais e pesquei algumas coisas sobre esse lugar encantado que tem a floresta amazônica como pano de fundo e fiquei maravilhado com o que li. Quem sabe um dia apareça algum fazedor de guia náutico interessado em desnudar os mares e enseadas do norte brasileiro. Quem sabe! A alma do trimarã Nativo, barco tem alma sim senhor, deve ter ouvido dos seres do mar que lá no Pará existia um bom lugar para o descanso eterno de um barco ferido e abatido. É foi justamente lá que ele aportou.