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Praia de Caboto

03 - março (139)

Dia desses um amigo perguntou o que eu achava da navegada até a praia de Caboto, localizado logo após a Ilha de Maré, dizendo ele que desejava ir até lá em seu veleiro. Como foi uma pergunta feita em cima da bucha e já estávamos envolvidos pela segunda garrafa de cerveja gelada, meus neurônios bateram cabeça por míseros segundos, na tentativa de me abastecer de argumentos, e antes de pousar o copo americano sobre a mesa – pois cerveja boa é em copo americano –, eu já estava com a resposta na ponta da língua, mas me ative antes que ela saísse e ele interpretasse como besteira besta.

03 - março (144)

Caboto está entre os poucos destinos que ainda não fiz a bordo do Avoante e talvez fique sendo assim, porque não tenho nenhuma vontade de fazê-lo. No comecinho de março de 2016 fui até lá de carro, para ver o que eu estava perdendo, e sinceramente não achei que estava perdendo muita coisa. E olhe que é difícil eu fazer críticas aos destinos navegáveis da Baía de Todos os Santos e principalmente das cidades e povoados do Recôncavo. Para mim não existe nada melhor no mundo a ser navegado do que as águas da Bahia! Mas como eu não conheço o mundo, dou o dito como verdade.

03 - março (163)

Fui conhecer Caboto quando de minha pretensa excursão rodoviária até o Museu Araújo Pinho, que foi publicada aqui dia 10 de maio com todos os pormenores. – Museu? – Que museu? Caboto tinha tudo para ser uma gracinha de lugar, mas por ser distrito de um município rico emergente, devido a arrecadação delirante vinda no rastro da lama petrolífera, mais parece uma cidade jogada as traças. Conheço várias cidades e povoados brasileiros com essa triste sina, inclusive no meu Rio Grande do Norte. O dinheiro entra nos cofres municipais pelas tubulações, saem pelo esgoto e quem quiser que reclame ao bispo, pois o juiz já está abarrotado de quebra cabeças para resolver e a coisa é igual a cantiga da perua, de pior a pior.

03 - março (153)

Os guias náuticos que mapeiam a Baía de Todos os Santos dizem que a navegação até lá é feita em águas rasas, tranquilas e que merecem atenção redobrada, devido a existência de bancos de areia. Na ancoragem deve ser observada a variação da maré e o mais indicado é que seja permanência apenas diurna. Na maré baixa fica quase impossível o desembarque, porque a faixa de lama é extensa e é preciso pular diversos obstáculos de línguas negras.

03 - março (155)

Dizem que alguns barzinhos servem moquecas e mariscos deliciosos, porém, não pude comprovar, pois encontrei todos fechados. Uma igrejinha no centro da praça, que também serve de Centro Comunitário, reverenciado São Roque, é talvez a melhor referência turística. Porém, o que mais me chamou atenção foi a ruína de uma casa tomada pelo mato e que ninguém soube informar do que se tratava. Tentei entabular uma conversa com dois idosos moradores que encontrei na praça, mas eles de nada sabiam, a não ser que quando se entenderam por gente a ruína já existia. Pesquisando por aí soube que era uma região açucareira e que existiam vários engenhos. Será essa uma de suas ruínas?

03 - março (151)

Não esperei para ver, até porque desejava conhecer o museu, mas o pôr do sol deve ser bonito em Caboto e a maré cheia deve dar outro animo ao pequeno povoado. Talvez a proximidade com os monstruosos conglomerados industriais e os vários portos que cercam a região, contribua para o mal trato existente por lá.

03 - março (158)

E pode até ser que eu esteja sendo rígido demais em minhas críticas ao povoado que me recebeu durante uma hora de visita, mas o que eu vi foi isso e como diz o ditado: A primeira impressão é a que fica. Sabe o que tenho a dizer ao amigo que perguntou o que achava da navegada até lá: Que ele vá e depois me diga o que achou.

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Navegando pela Baía de Tinharé – II

9 Setembro (56)9 Setembro (468)

Navegar no litoral baiano é uma gostosura e até acho que sou suspeito para falar, apesar de não ser baiano, sou declaradamente apaixonado por esse mar que acolhe todas as tribos, credos e santos. Além de ser convidativo e dotado de lugares paradisíacos, o mar da Bahia oferece uma navegada tranquila onde raramente o navegante passa maiores dificuldades.

Vários guias náuticos oferecem rotas seguras e extremamente detalhadas sobre os lugares a serem visitados. Alguns precisam de edições atualizadas sobre os lugares – como falei no texto anterior -, mas em todos, as rotas e waypoints podem ser seguidos sem nenhuma preocupação, desde que o navegante tenha um pouquinho de intimidade com os instrumentos de bordo.

Mas vou deixar de lero lero e vou seguir rumo até o distrito de Galeão, uma joia de lugar situado às margens do Canal de Taperoá, e que comecei a falar no texto anterior e parei por falta de espaço.

Antes de jogar ferro em frente a Galeão, ancoramos na Ponta do Curral, outro lugarzinho paradisíaco e distante cinco milhas náuticas do nosso destino. O fundeio em Curral é recomendado e o lugar é um colírio para os olhos de um velejador de cruzeiro, porém, entre a ancoragem e a praia existe um corredor onde trafegam as lanchas e barcos que fazem a linha Valença/Morro de São Paulo. Ancoramos por lá durante o dia e nos deliciamos com um almoço saído dos arquivos gastronômicos de Lucia.

A Ponta do Curral tem história sim senhor: Dizem os livros que foi ali que desembarcaram as primeiras cabeças de gado que chegaram ao Brasil e por isso recebeu esse nome. Contam que o local é uma fazenda particular com 530 hectares, mas disso eu não dou conta. Sei que a faixa de areia é um convite a uma boa caminhada e a praia é simplesmente linda e ainda livre de barraquinhas e das novas “músicas” – se é que podemos chamar de música – que toca em toda beira de praia Brasil afora.

Como soprava um vento leste de intensidade moderada a forte, após o almoço, levantamos âncora e fizemos o rumo de Galeão, onde uma igrejinha branca nos acenava do alto do morro. O Canal de Taperoá é profundo até o través da Ponta do Curral, em torno de doze metros. A partir daí a profundida oscila entre três e nove metros e o navegante tem que ficar atento às redes e boias de pesca espalhadas em quase toda extensão do canal. Não tivemos nenhuma dificuldade e velejamos apenas com a vela mestra, do Curral até a ancoragem em Galeão, onde ancoramos iluminados por um belo pôr-do-sol.

Não é aconselhável navegar o Canal de Taperoá durante a noite e é bom aproveitar as marés de enchente e vazante, porque a correnteza, principalmente nas marés de sizígia, é significativa. Dizem que se conselho fosse bom era vendido, mesmo assim vou deixar mais um aqui de graça: Adentrar ou deixar a barra da Baía de Tinharé durante a maré de vazante, e a noite, não é uma ideia das mais seguras, porque a briga de titãs entre a força da correnteza do rio Una e o grandeza do mar cria, como diz o potiguar Toinho doido, um mar de faroeste. Eu já estive em meio ao tiroteio em duas oportunidades e sei o que passei.

9 Setembro (64)

O sol se foi e ficamos ali, embasbacados com a beleza da paisagem que cercava o distrito de Galeão. Novamente as lanchas passavam voando levando turistas que faziam a volta a Ilha de Tinharé, mas a festa acabou assim que a noite cobriu o mundo e ficamos em paz com o silêncio e as sombras da noite. Uma cerveja para variar e assim ficamos no cockpit bebericando a espera da Lua cheia, que um dia antes havia sido super, mas que não deixou de ser enorme e encantadora. Mais uma comidinha das receitas de Lucia, mais umas cervejinhas, mais bate papo e quando menos esperamos o sono bateu e fomos sonhar com os anjos e a igrejinha do alto do morro. Pense numa noite tranquila!

9 Setembro (79)9 Setembro (85)

O dia amanheceu e sem pestanejar desembarcamos para desbravar o povoado que tem próximo de 2 mil habitantes, espalhados em ruas limpas, estreitas e bem organizadas. Sentimos uma energia boa e logo descobrimos que todos ali são pessoas acolhedoras e de amizade fácil. – Onde vende gelo? – É logo ali naquela casa verde! Encomendamos algumas garrafas de gelo – o gelo é em garrafa pet – e saímos em busca da igrejinha do alto do morro.

9 Setembro (88)9 Setembro (93)

Disse a uns senhores que estavam sentados na praça: – Amigos, preciso pagar uma penitência. Como posso fazer? Eles responderam sorrindo: – Siga essa rua e suba a ladeira! Somente ao chegar no alto do morro, debaixo de um sol de lascar, descobri porque lá no pé da ladeira tem um bar.

9 Setembro (103)Igreja de São Francisco Xavier, construída pelos jesuítas em 1626, a mais antiga da região. Galeão tem história!

Nelson Mattos Filho/Velejador