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Veleiro Guga Buy passa sufoco no Estreito de Magalhães

Guga Buy

O veleiro Guga Buy, dos amigos José e Eduardo Zanella, que está empreendendo a volta na América do Sul, passou sérias dificuldades no Estreito de Magalhães ao enfrentar ventos de mais de 170 quilômetros por hora. Felizmente tudo não passou de um grande susto e prejuízos materiais na embarcação. Desejamos aos amigos e tripulação do Guga Buy mares mais tranquilos e que a paz e alegria voltem a reina no coração de todos. Veja abaixo o relato completo na escrita emocionante do José Zanella:

GUGA BUY NA VOLTA À AMERICA DO SUL.

Após uma noite bem dormida num local bem abrigado no Cabo San Isidro, rumávamos para Punta Arenas, quando a Armada do Chile, pelo rádio, começou a emitir avisos de mau tempo. Como nosso destino era um local desabrigado, resolvemos mudar o curso e atravessar o Estreito de Magalhães, no sentido oeste-leste, rumando para Porvenir, uma baía bem abrigada, segundo as cartas náuticas. O Estreito de Magalhães já começava a formar ondas e, quando entramos na baia, parecia estarmos navegando num lago.
Ao chegarmos na Baia Chilota, pouco antes da cidade de Porvenir, por determinação ao Capitania dos Portos ancoramos no meio da baia. Não podíamos amarrar o veleiro no píer, pois ainda não havíamos dado entrada no país. O Capitão dos Portos local esteve a bordo do Guga Buy, conferiu a posição de ancoragem e colocou-se à nossa disposição.
Devidamente ancorados, jantamos e fomos dormir, esperando que o vento que estava por vir não nos causasse problemas. Vã esperança. Pelas 02:30 horas, vento já uivando, Eduardo nos acordou e disse que algo estava errado. Efetivamente, pela carta nautica estávamos próximos a um baixio, evidentemente a âncora havia “garrado” e o barco se afastara da posição original. Eduardo ligou o motor e pediu para levantar a âncora, na tentativa de voltar à posição original. Paulo foi para a proa para tentar subir a âncora.
Qual o que!
O vento aumentou de tal maneira que impediu que o barco se adiantasse, dando fortes golpes, fazendo o veleiro adernar. Em certo momento, o ruído do vento aumentou assustadoramente. Parecia que o barco iria virar. Começamos a juntar os objetos mais importantes em bolsas estanques, acionei o botão de socorro do spot, quando o ruído do vento misturou-se com ruído de arrastar em pedras. O Guga Buy estava encalhando, não sabíamos onde, pois a situação não permitia melhor orientação. O paneiro ficou quase na vertical, não tínhamos apoio para os pés. Consegui pegar o microfone do rádio e pedir auxílio, gritando “may-day”. Minha impressão era que o barco fosse emborcar. Eduardo conseguiu, não sei como, colocar o bote na água. A escuridão era total. Depois ficamos sabendo que faltou luz no local, devido à queda de postes provocada pelo vento.
De repente, Paulo viu uma luz vermelha, pensando tratar-se de uma lancha que viria em nosso auxílio. Na verdade, a luz vermelha era de um carro da Armada Chilena. Estava na estrada, a cerca de 200 metros do local do encalhe. Estávamos, literalmente, ao lado da estrada. Com uma lanterna, podemos ver a praia pedregosa a menos de 10 metros. Embora o vento continuasse a nos açoitar violentamente, ficamos mais tranquilos, percebendo que o veleiro estava deitado em chão firme. Pelo rádio, os militares nos informaram que a vela grande estava aberta. O vento a arrancou da retranca, onde estava amarrada e ela ficou batendo violentamente. Eduardo conseguiu baixá-la, também não sei como. Impressionante como Eduardo, na emergência, resolve os problemas.
Mesmo naquela posição, sem apoio para os pés, Eduardo conseguiu fazer uma vistoria preliminar, verificou que havia água misturada com diesel nos armários de boreste.
A maré estava baixando e estávamos quase no seco. Eduardo saltou do barco e foi falar com os militares, pedindo auxílio para retirar eu e Paulo do barco.
No local já havia uma guarnição do Corpo de Bombeiros. Com auxílio de Eduardo e um bombeiro, consegui por os pés em terra firme. Um deles agarrou firmemente meu braço e me conduzia para a estrada. Já apareceu outro, agarrou-me pelo outro braço e quase me arrastavam. O vento dificultava que avançássemos, um deles falava pelo rádio e era orientado pelos que estavam na estrada e que iluminavam o caminho. Lembro que pisava no que parecia areia, mas verifiquei, depois, que estava pisando na neve acumulada sobre a grama cheia de buracos. Vejam só meu estado, confundindo neve com areia. Levaram-me até o caminhão de bombeiros, estava exausto, quase não consegui subir os estribos do caminhão, tremendo de frio e cansaço. No interior do veículo, calefação ligada, aos poucos me recuperei. Minutos após, apareceram com o Paulo, que, igualmente, fora carregado pelos bombeiros.
Ironicamente, enquanto os bombeiros estavam nos ajudando, sua estação foi completamente destruída pelo vento.
Pouco depois, chegou o Eduardo, carregando as bagagens que conseguiu retirar do barco e embarcou na viatura da Armada. Durante todo este tempo, o vento não deu tréguas.
Nos levaram até a Capitania dos Portos, o Capitão estava lá, à paisana, comandando a operação. Nos acomodaram nas dependências da Capitania, oferecendo todo o conforto possível para nosso bem estar. Como havia somente uma cama disponível no alojamento, Paulo a utilizou, eu recostei-me num sofá e Eduardo deitou sobre cadeiras enfileiradas.
Enquanto estávamos na Capitania, uma viatura da Armada ficou no local do evento, cuidando do veleiro.
O vento soprou forte à noite toda.
Pelas 08:30 hs nos serviram café da manhã e o Capitão, que ainda estava lá, tratava da burocracia para nosso ingresso no país, pois nossa entrada deveria ser feita em Punta Arenas. Dado a situação de emergência, foram feitos os procedimentos de entrada provisoriamente, para posterior confirmação em Punta Arenas.
Após o almoço, que a Armada nos forneceu, uma viatura nos levou até um hotel, onde ficaríamos hospedados.
Quando passamos pelo local onde estava o Guga Buy encalhado, a visão da situação foi triste. Aquele veleiro que, durante cinco anos los levou a locais maravilhosos, estava lá, deitado sobre pedras, ao sabor das marés, parecendo desanimado.
Antes de irmos para o hotel, Eduardo foi até o local do evento, numa viatura, quando viu, cravada no chão, uma tala da vela que se soltara. Voou cerca de 200 metros e cravou no chão. Dá para imaginar a velocidade.
Na cidade, conversando com moradores, taxistas – todos já sabiam do evento pois, além de a cidade ser pequena, com 5.000 habitantes, a imprensa já estava divulgando os estragos causados pelo vento – foram unânimes em dizer que foi a primeira vez que, em Porvenir, ocorreram ventos com tamanha intensidade. A velocidade do vento, nos momentos de rajadas, ficou entre 150 e 170 quilômetros por hora.
Dois dias depois, após algumas tentativas, conseguiram retirar o barco do local onde encalhara o levaram no píer dos pescadores. Uma fissura de cerca de 30 centímetros no casco, abaixo da linha d’Água, permitia a passagem de água para o interior, mas Eduardo conseguiu instalar uma bomba de porão mais potente e impediu danos maiores. Resta saber agora, como ficou a quilha. Somente poderemos verificar em Punta Arenas, retirando o barco da água.
Bem, o susto foi grande, entretanto foi o único incidente em cinco anos, desde que saímos do Brasil em 2010.
Passados medo e preocupação, ficou o registro do emprenho da Armada Chilena, que, através de seu Capitão, Tenente 1LT Matias Cánovas Sepúlveda e seus comandados, não pouparam esforços para, além de nos ajudar, minimizar o acontecido e nos deixar com maior conforto possível. Durante todo o resgate, quer da tripulação, quer do barco, estavam presentes, auxiliando e orientando. Também o Corpo de Bombeiros, que é voluntário, e que devem ter tido muito trabalho, pois além da nossa, várias ocorrências exigiam seus serviços.
O barco foi retirado pelos pescadores Danilo e seu irmão, que utilizaram seu barco pesqueiro e que, com a competência que lhes é possível, fizeram o trabalho sem provocar danos maiores. Rebocaram o veleiro até o píer dos pescadores.
Enfim, o susto foi grande, mas o importante é que estamos bem.

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Um convite e muitos horizontes

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Numa bela noite de Julho de 2011 abri minha caixa de email e encontrei uma mensagem do amigo Eduardo Zanella que dizia assim: “Nelson, o que você vai fazer no próximo mês?”

Eu sabia que ele havia partido do Brasil para iniciar uma volta pelo Atlântico no veleiro Guga Buy, junto com o Pai. Mas, depois de explorar uma boa parte do Caribe, resolveram deixar o barco numa marina em Curaçao e retornaram ao Brasil, para umas “férias”, enquanto esperavam a passagem da temporada dos furacões que castigam as águas caribenhas todos os anos.

O que será que Dudu, como é mais conhecido no meio náutico, estava querendo com aquela pergunta? Chamei Lucia para ler o email e na mesma hora respondi a mensagem: Nada! Ou melhor, estou fazendo algumas manutenções no Avoante.

Ele respondeu de imediato, parece até que já estava de prontidão em busca da minha resposta. “Nelson, que tal dar uma velejada até o Caribe?” Ele sabe muito bem que tem algumas perguntas que não se faz a um velejador de cruzeiro, pois a reposta já esta na ponta da língua. Mas, mesmo assim, eu ainda tive uns míseros segundos de dor na consciência, ou sei lá se foi a surpresa do convite que nem passava pela nossa cabeça, para engatar a resposta: “Estamos dentro!”

“Então passo em Natal até o dia 5 de Agosto para pegar vocês. Se quiserem podem convidar um amigo ou dois, para ir também. O barco é um catamarã de 45 pés, com quatro suítes e estou sozinho. A gente deixa o barco em Trinidad e retorna de avião”.

Rapaz! Esse era um convite mais do que tentador e irrecusável. Não é toda hora que passa esse tipo de bonde na estação. O Barco era o catamarã Itusca, que tinha dado uma volta ao mundo participando do Projeto Destino Azul, patrocinado pela empresa Mormaii. É um modelo Leopard 45, que tem condições sobrando para ser enquadrado entre os melhores da classe de veleiros multicascos. Como sempre Lucia nem pestanejou, e no dia seguinte já estava cuidando da nossa viagem. Faltava menos de 20 dias.

Mas a vida tem seus segredos e cobra atitudes que não podemos vacilar, principalmente quando estamos vivendo sonhos ou quando, que é o nosso caso, não temos amarras que nos prendam em terra. O barco é o veículo que nos transporta pelos caminhos do mundo e esse mundo é o mar, com seus mistérios controlados por deuses nem tão sorridentes assim e nem tão malcriados como parecem.

Menos de vinte dias para embarcar rumo às portas do Caribe e seu mar que entorpece navegadores ao longo da história. Menos de vinte dias que poderiam durar uma eternidade e onde a vida tem peças escritas em altos relevos. Menos de vinte dias, mas que para nós estavam bem definidos. Já nos sentíamos embarcados e a viagem já havia começado. Assim é a vida de quem aposta no mar, o rumo pode até mudar, mas o objetivo tem que estar bem definido.

Dois dias após o nosso sim para a viagem, veio à tona uma página carregada com toda a força da emoção que a vida pode descarregador sobre a gente. Na madrugada recebemos uma ligação que dizia que o Pai de Lucia, Seu Saulo Andrade, tinha sido levado às pressas para o Pronto Socorro. Chegamos a tempo de Lucia avistá-lo deixando escapar os últimos sopros de uma bela vida de compreensão, bondade e amor para com seus semelhantes. Garanto que se ele ainda tivesse tempo teria dito para ela: “Seja bem feliz minha Filha”. Pois com essas palavras ele encerrava todas as suas conversas.

Não sei de onde Lucia consegue buscar tanta força e perseverança. Ela cresce ainda mais nos momentos onde pouquíssimas pessoas conseguem manter a cabeça funcionando, mesmo desalinhada com o centro nervoso. Se existe desespero ela não demonstra e se não existe tranquilidade ela busca, acha e espalha no seu raio de ação. Para ela, mesmo que o coração esteja despedaçado e em prantos, o horizonte sempre está aberto para a caminhada.

Os planos da velejada ao Caribe foram sendo tocados em frente e a vida foi sendo reajustada e moldada de acordo com os novos rumos que se estabeleciam. Reafirmamos o nosso descompromisso com as amarras e com os horizontes abertos. O mar nos esperava de braços abertos!

Nelson Mattos Filho/Velejador

PARA QUEM NÃO VIU

O programa Globo Mar, da Rede Globo, em sua 3ª edição teve uma boa velejada em busca do Papagaio de Cara Roxa. Entre os veleiros envolvidos na gravação estava o Guga Buy, do amigo Eduardo Zanella, Zanellinha. O Guga Buy esteve em Natal em 2008, participando da regata Fernando de Noronha/Natal. Para quem não teve a oportunidade de assistir o programa, como eu, pode ver aqui no blog com a ajuda do YouTube.