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Um sonho a mais

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Tem lugares que faz brotar na gente um desejo louco de jogar tudo para o ar e ficar ali para sempre…

Poderia começar esse texto comentando que estive em Natal/RN em meados de abril de 2016 atendendo convite do proprietário do catamarã Tranquilidade, um modelo BV 43 construído no Maranhão, para comandá-lo entre Natal/RN e Salvador/BA, mas preferi começar pelo fim.

Canavieiras do Norte, distrito do município baiano de Cairu, localizado na costa do dendê e que tem o Morro de São Paulo como reflexo mais brilhante, é um lugar onde muitos gostariam de jogar para o alto os traumas urbanos e se estabelecer de mala e sonhos.

Alguns, principalmente o povo do mar, conhecem o povoado como Canavieirinhas e a grande maioria dos visitantes chegam até lá guiados pelo sabor de deliciosas ostras, porque o local é conhecido mundialmente por suas criações de ostras em cativeiro. Diariamente desembarcam por lá dezenas de turistas, tripulantes da flotilha de lanchas que fazem o passeio em volta da Ilha de Tinharé, e todos chegam ávidos para provar a iguaria servida nos bares flutuantes em frente à localidade.

Dona Nilza disse que a precursora das fazendas de ostras foi à ribeirinha Tânia Ventura Bonfim, proprietária da Cabana da Tânia, que acatou a ideia de um amigo e botou a mão na massa para mudar o cenário e a economia do pequeno povoado de pouco mais de 140 habitantes.

Além dos moluscos, Tânia incrementou a criação de beijupirá em cativeiro, mas, segundo informações, a criação dos peixes não foi bem vinda à causa dos fiscais do meio ambiente, que vez por outra pisam no povoado para tentar acabar com a ideia. Por enquanto a coisa tem andado assim meio sei lá e os beijupirás estão crescendo e se multiplicando.

Claro que comemos ostras, tomamos algumas cervejas estupidamente geladas e jogamos conversa fora com os atendentes do bar, entre eles o Guilherme, filho da Tânia, e Bruno. Duas figuras incrivelmente alegres e prontos para uma boa prosa. Porém, antes de chegar ao bar flutuante, desembarcamos no píer do povoado, diante de uma capelinha azul, e emendamos os bigodes num bate papo gostoso com os nativos Pedro Rufino e Leandro dos Santos, que contaram um pouco do lugar e incentivaram para que empreendêssemos uma caminhada pelas vielas e becos, num passeio que nem chegamos a cansar, devido pequenez do povoado, mas que nos deixou com água na boca em estar caminhando em um lugar tão tranquilo.

Após a caminhada, sentamos em um banco de madeira diante do rio e ficamos em silêncio diante de tanta beleza. O comandante Flávio Alcides quebrou o silêncio dizendo: – Se vocês quiserem ir embora que vão, eu vou ficar. O Paulo, veleiro Luar de Prata, que estava com a gente, riu e respondeu: – Eu fico também!

Em Canavieirinhas todos se conhecem pelo nome e deu para perceber que a maioria é de uma mesma família. Infelizmente não conhecemos o Geni, pai da Tânia e prático mais indicado nos canais rasos e pedregosos da região, mas vimos que é uma pessoa querida, pois todos o têm em boa estima. Seu Pedro Rufino, sabendo que navegamos nas águas da Baía de Todos os Santos, mandou um recado de agradecimento do navegador Aleixo Belov, que segundo ele, foi quem levou energia e construiu o píer do povoado. Consideração não se aprende na escola!

Como é gostoso conhecer lugares como Canavieirinhas, em que a vida é passada em câmera lenta e por mais que tentemos não conseguimos apressar o passo. A vida ali é regulada pela maré, pelo sol, pela lua e nada mais. Podemos até querer correr, mas nunca além da razão. Lucia perguntou a Bruno, atendente do bar, se ele estudava e se algum dia queria sair dali. Ele na maior calma do mundo respondeu: – Estudo sim, mas num quero sair daqui. Onde terei essa paz e sossego? Aqui eu tenho tudo.

Claro que nossos sonhos e vontades nem sempre se sobressaem diante da realidade e com isso vamos seguindo em dívida com nosso eu. Depois de uma manhã e metade de uma tarde, reembarcamos para fazer o caminho de volta ao mundo dos loucos. No comando do Tranquilidade acionei os motores e fui me afastando com o pensamento entristecido e com um adeus soando entre os lábios. Um dia eu volto!

Era começo da maré de enchente e com isso seguimos em frente serpenteando o rio que se apresentava a cada segundo mais apaixonante. Próxima parada: Galeão do Morro, onde ancoramos para passar a noite.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Navegando pela Baía de Tinharé – Final

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Pois é, o povoado de Galeão localizado na Ilha de Tinharé, município de Cairu/BA, é um lugar gostoso para jogar âncora e passar uns bons dias curtindo a vida mansa. Alguns hão de dizer que a aproximação com o movimentado polo turístico de Morro de São Paulo cria no ar um clima de inquietação, mas sinceramente não foi o que presenciamos nos dois dias e duas noites que estivemos ancorados. Sentimos sim uma comunidade receptiva, comunicativa e que deixa o visitante muito à vontade.

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O comércio de Galeão tem o básico, mas, para quem precisar de algo mais, a cidade de Valença – grande polo comercial da região – fica a pouco mais de dez minutos de navegação nos barcos de passageiro que fazem a linha regular. Não é aconselhável usar nossa própria embarcação ou o bote de apoio. O canal de acesso é raso para barcos de maior calado e deixar o bote em um porto movimentado como o de Valença, não é uma ideia das mais interessantes. O melhor mesmo é se valer dos barcos de linha que saem de hora em hora.

Para os amantes do pão quentinho, existem duas padarias que fabricam pães da melhor qualidade. Galeão conta com posto de saúde, escola, limpeza pública e uma pequena infraestrutura de apoio administrativo da prefeitura de Cairu. A piaçava em outra época foi a principal fonte de renda do povoado, mas, apesar de encontramos fardos de piaçava em algumas ruas, não denota que ela seja forte nos dias atuais.

Um pequeno estaleiro espalha sua produção na beira do Canal de Taperoá, demonstrando a grandeza criativa dos carpinteiros da região, que são reconhecidos em todo o mundo. Mas o que senti falta, e isso para mim é uma grande lástima, foi de barcos a vela. Durante os dois dias em que fiquei ancorado em Galeão, avistei apenas uma canoa a vela e essa mesmo navegava com auxílio de um motor. Passamos praticamente uma semana navegando o Canal de Taperoá e nada de barcos a vela. Uma pena, mas segundo os defensores do progresso acima de tudo: as coisas tem que avançar e quem não seguir o progresso fica para trás. Então tá!

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Eita, gostei tanto de Galeão e tenho tanto a comentar, que havia esquecido que terminei o texto número três falando de uma antiga casa que indicaram para a gente visitar. Na verdade, da casa, que disseram ser a primeira do povoado, só existe a fachada e alguns escombros de paredes laterais e tudo em péssimo estado de conservação, mas curiosamente, segundo os relatos dos moradores, é um orgulho para o lugar. Não deu para saber a data da construção, mas não deve ser tão antiga. O que mais chama a atenção são quatros estátuas e uma arte decorativa acima da fachada. Dizem que já apareceu gente de várias partes do mundo querendo comprar as estátuas e até o terreno, mas nada foi concretizado.

9 Setembro (127)

Sinceramente não consigo compreender o descaso dos órgãos e das pessoas que cuidam do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural. O grau de incompetência dessa gente beira a insanidade. E o pior é que continuam aboletados nos cargos e quando são substituídos, entram outros da mesma laia. E adianta eu falar isso aqui? Deixa pra lá!

Apesar da proximidade com o Morro de São Paulo e suas belezas naturais, Galeão ainda preserva muito do jeito ribeirinho de ser. O povoado faz parte da APA – área de proteção ambiental – que abrange toda a região e talvez por isso não tenha sido afetado pelo turismo devastador. Tomara que assim permaneça por muitos e muitos anos.

Gostei de ter conhecido Galeão e saí de lá com um misto de saudade e alegria. Alegria por ter visto um lugar diferente do que já tinha ouvido falar e saudade daquela ancoragem acolhedora, que se não fosse o nosso compromisso com nossos dois tripulantes, o Paulo Lourenço e o Thiago, teríamos ficado por lá um bom tempo.

Os moradores contaram que todo ano ancora por lá um veleiro, com um casal estrangeiro, que distribui brinquedos, livros e material escolar para a criançada. Essa atitude social tem vários seguidores no meio náutico brasileiro, mas bem que poderia ser mais disseminado e incentivado pelas associações e clubes.

9 Setembro (28)

Levantamos âncora numa manhã de vento leve e maré de vazante. Nosso destino era Gamboa do Morro e foi para lá que cravamos o rumo. E Cairu? Não foram? – Não, não fomos! Quem sabe na próxima!

A vida do velejador de cruzeiro nesse Brasil apaixonadamente navegável é assim mesmo. Então: – Pra que a pressa?

Nelson Mattos FilhoVelejador