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Ensinamentos

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“O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê…”

Platão

Meu Pôr do Sol

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Passam os dias, passam os anos, passam os séculos, passam os milénios, passam gerações, mas o esplendor do seu espetáculo jamais será ultrapassado

Nas sacadas dos sobrados…

02 - fevereiro (32)

“…Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem. A Bahia tem um jeito…”

Caetano Veloso

Reflexão

1 maio IMG_0004 (950)

“Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal.”

Graciliano Ramos

Das utopias

01 - Janeiro (1)

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”

Mario Quintana

Jovens aos oitenta anos

6 Junho  (116)

“… quem sabe faz e quem não sabe ensina no palhoção…”. Com essa frase solta e tão própria de quem já acumulou milhares de milhas abaixo da quilha do veleiro e que sabe muito bem definir o que é verdade e o que é mentira dentro de uma história, começo mais uma folha desse Diário.

A frase estava escrita em meio a um email que recebi do lobo do mar Erico Amorim das Virgens, em que ele falava de um velejador de 85 anos que havia quebrado o mastro do veleiro de 26 pés quando retornava de Natal para a paraibana João Pessoa. A ida do velejador, conhecido como Montarroyos, a capital potiguar havia sido apenas com o objetivo de participar do Circuito de Vela de Oceano do Rio Grande do Norte 2013, que aconteceu no mês de Outubro, que por sinal, ele ganhou todas as provas em que participou.

Aliás, a viagem do Sr. Montarroyos de João Pessoa até Natal já pode se considerar como uma boa aventura, pois na saída ele esqueceu a feira de alimentos no barco de um amigo e às quinze horas do percurso foi apenas se alimentando de brisa, que por sinal é o nome do seu veleiro.

Nem bem terminou a premiação da regata em Natal, sem nenhum sinal de cansaço, Montarroyos levantou as velas e partiu de volta para casa, quando na altura da praia de Tabatinga, litoral potiguar, aconteceu o acidente da quebra do mastro às 22 horas de uma noite escura e de mar agitado.

Depois do susto, a tripulação jogou âncora em mar aberto e foram descansar até o dia clarear. Assim que o Sol nasceu, avaliaram a situação, puxaram o manual do armengueiro, improvisaram um mastro de fortuna e retornaram a Natal. Somente quem viveu uma situação como essa sabe o que é esse desconforto.

Segundo disse Erico Amorim, no retorno a Natal ninguém ouviu uma palavra sequer de insatisfação do comandante Montarroyos, muito menos ele dizer que foi sorte, azar ou coisa parecida. A mesma atitude que ele teve quando esqueceu a comida no barco alheio.

Lendo o relato me veio em mente outros jovens velejadores na faixa dos 80 anos que depositaram no mar seus sonhos de vida e muitos deles ainda cruzando rotas por ai.

Não posso esquecer o grande velejador luso/pernambucano Antônio Marques, que este ano deixou os mares da Terra e foi formar fileiras nas tripulações do Céu. Seu Antônio, como todos o conheciam, era um obstinado por barcos a vela e tinha nas regatas a vitamina que mantinha essa obstinação.

A idade, que para muitos era avançada, nunca foi motivo para ele passar o comando do veleiro Venestal IV para as mãos de outro e digo mais: Seu Antônio gostava das grandes travessias oceânicas. Tanto era assim que alinhou seu Venestal IV na famosa regata que comemorou os 500 anos do descobrimento do Brasil.

Conversar com Seu Antônio sobre o mundo do mar era como fazer um curso de doutorado com um professor excepcional. Não precisávamos dizer nada e muito menos perguntar, tudo fluía macio e na medida exata, feito uma boa regulagem de velas. O que tínhamos de fazer era somente absorver toda aquela melodia de conhecimentos que vinha ao sabor dos ventos alísios que sopravam sobre as varandas do Cabanga Iate Clube. Seu Antônio era um mestre dos mares!

Outro oitentão que povoou minha mente enquanto lia o relato de Erico, foi o pernambucano arretado Epaminondas, mais conhecido como Epa. Esse é um predestinado que até hoje está cruzando os mares a bordo de um veleirinho amarelo de 27 pés, como o simpático nome de Miroca, que segundo ele: Nem dá, nem vende, nem troca.

Sentar com Epa para um bom bate papo é uma alegria, pois ele é dono de uma simpatia apaixonante. Ele gosta de contar que a primeira vez que chegou a Salvador/BA a bordo de um veleiro de 22 pés, acompanhado de dois amigos, as pessoas que o receberam no clube Angra dos Veleiros disseram assim: “Chegou três velhinhos, vindos de Recife, a bordo de um 22 pés”. Naquela época Epa e os amigos estavam na faixa dos sessenta anos. Hoje ele se diverte quando dizem assim: “Chegou um “jovem” de 82 anos, sozinho, a bordo de um 27 pés”.

Com essas lembranças em mente fico feliz quando me vejo vivendo o sonho que um dia me fez observar os muitos horizontes que o mar nos descortina. Fico mais feliz ainda quando certo dia sai do conforto das sombras dos palhoções e, sem olhar para trás, soltei as amarras que prendiam o Avoante ao caís.

Tomara eu chegar aos oitenta anos, navegando pelos mares, a bordo do meu barquinho e de mãos dados com meu amor.

Nelson Mattos Filho/Velejador

As frases e os homens

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“A decisão quando vem maculada da desfaçatez escâncara a pobreza da alma.”

Poderia até dizer que a frase acima havia sido dita por mim em algum momento em que me vi cercado pela incongruência de mentes voltadas para o distorcido uso das ideias do italiano Nicolau Maquiavel, mas não, prefiro achar que ela navega serelepe sobre o grande oceano das palavras que movem o mundo.

Do meu cantinho no cockpit do Avoante costumo parar por longos e deliciosos segundos, minutos ou horas para escutar os sussurros do mundo. Naquele momento tão meu, mas acompanhado atentamente, fielmente e silenciosamente pelos olhares de Lucia, o eco de sons distantes vagueiam ao redor impulsionados pela leveza dos ventos e a cada lufada mais forte sou despertado pelos gritos de ódio e rancor de corações desarmoniosos.

Não sou nenhum privilegiado, porém reconheço que: Olhar para as cidades, que estão cada vez mais envolvidas nos mais bárbaros traumas civilizatórios, quando se está no mar é um conforto.

Dizem que o mundo é dos mais sabidos ou daqueles que tem nas entranhas as armas letais do egoísmo e da vaidade, mas sinceramente não acredito, pois se assim fosse ele não mais existiria.

Para mim o mundo é das almas boas, dos que fazem por amor, dos que vivem na verdade, dos puros de espírito, dos que buscam a felicidade, dos que não veem no dinheiro a solução dos problemas, dos que abominam a guerra, dos que buscam a paz. O mundo e lapidado na rocha maciça da ética, afora isso é apenas ilusão dos que se acham.

Do meu cantinho de observação as cidades não me trazem nenhum encanto. Quisera eu navegar pelos oceanos sem portos, sem amarras, sem destinos e sem nada que me alvoroçasse a alma. O mar me faz mais vivo e me envolve com os melhores sentimentos. Me acolhe sem prometer nada e me amedronta com o simples tremor de suas pulsações. Mas ele é o maior dos seres da natureza, aquele em que ninguém jamais conseguira domar. Eu o respeito por sua grandeza e a ele entreguei meu destino e debruço os meus sonhos.

As cidades não, as cidades são traiçoeiras, desumanas e escamoteáveis. São traçadas e administradas por mentes nem sempre valorosas. São cheias de vontades e promessas vazias. São fontes de batalhas em que a crueldade dita às regras da razão. As cidades não têm face e infelizmente não têm a honradez do mar.

Mais uma vez acordo de meus devaneios cockpitianos e me vejo envolvido pelas maledicências urbanas. Ali em minha frente às vaidades e os desmandos se enfrentavam. De um lado a fúria das marretas destroçava um sonho, do outro, o espanto e o choro de um homem diante de tanta estupidez. Nem os pedidos e os olhares angustiados dos que observavam a cena conseguiram amolecer tanta rudeza daquele ato embrulhado com o papel das ordens ditas oficiais.

Em pouco tempo, o que era uma simples e pequena marina particular, no bairro da Ribeira em Salvador/BA, que há anos acomodava dezenas de embarcações virou um amontoado de escombros fantasmagóricos. O proprietário, que acenava com uma liminar assinada por um juiz de primeira instância, proibindo a demolição, teve apenas o dissabor de ver que nem tudo nesses tempos modernosos vale o que é.

Ainda assisti um secretário municipal se valendo da força endeusada de um cargo público, disparar na televisão com uma voz carregada de impostação: “… a prefeitura não precisa de ordem judicial nenhuma para demolir obras em desacordo com normas…”. Fiquei ali matutando, olhando para o amontoado de casas simples encravadas no alto dos morros que cercavam a paisagem e pensando com meus botões: O que danado ele quer dizer com isso? Sei lá!

Como soam falsas as palavras ditas com negligência. Como são inconsequentes as decisões tomadas no afã de apenas querer fazer o mal. Como é pequena a alma de um administrador público ou privado que recorre ao revanchismo para satisfazer o ego. Coisas das cidades que o mar não acoberta.

O poeta disse um dia uma frase que decora instalações náuticas no mundo todo: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Olhando lá do alto mar a vida em terra sendo travada no extremo da insensatez, fico pensando: Que bom seria se as palavras dos poetas tivessem a precisão de transformar os homens que as aplaudem.

Nelson Mattos Filho/Velejador