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Poetas do mundo

A canoa de Francisco Diniz

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,

transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,

ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir

para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa

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Assim falou o poeta

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Navegar é preciso ou é necessário

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O texto abaixo é do amigo Wilson Chinali, que velejou com a gente no trecho Cabedelo/PB a Recife/PE, e que com alegria divido com vocês, pela beleza da poesia e pelo sonho incrustado em cada linha.  

Há aproximadamente 200 anos disse o maravilhoso poeta Fernando Pessoa, “Navegar é preciso, viver não é preciso.” Copiava a frase criada por Luís de Camões ha 500 anos.

Mas o que realmente queriam dizer os portugueses poetas? Seria a navegação uma ciência exata e precisa, e a vida um mar de incertezas, viver seria impreciso comparado a navegar? Por incrível que pareça esta pode ser realmente a intenção dos portugueses poetas!

Quando digo que essa frase foi criada por portugueses é porque realmente foi, e não por Pompeu, o famoso general e politico romano, que viveu a dois mil anos antes de Cristo. Poderão dizer que estou maluco, como pode isso, e eu explico: Pompeu disse aos marinheiros amedrontados antes a partida para a guerra nos navios do império; “Navigare necesse; vivere non est necesse”, certamente Plutarco ao citar a frase de Pompeu usou a palavra necessário e não preciso. Exatamente por isso digo que a frase “navegar é preciso, viver não é preciso” é de Luis de Camões, copiada por Fernando Pessoa, uma frase genuinamente portuguesa com certeza. Ou teriam os magistrais poetas lusitanos se enganado na tradução da frase de Pompeu? Será que Camões e posteriormente Pessoa teriam cometido uma gafe, um equívoco?

Particularmente não posso crer nisso, de fato existem duas frases semelhantes, uma antiga escrita em latim que dizia “Navegar é necessário, viver não é necessário”, no sentido da necessidade de navegar para conquistar, para manter o império. Outra escrita em português posteriormente, que dizia “Navegar é preciso, viver não é preciso”, onde a palavra “necessário” foi propositalmente trocada por “preciso” propositalmente, para mudar o sentido da frase.

Hoje digo; Navegar é necessário e preciso, viver não é necessário nem é preciso. Reunindo os dois sentidos, o romano ao qual costumamos por reflexo entronizar em nossa primeira impressão ao ouvirmos a frase portuguesa, e o português que geralmente passa desapercebido aos nossos ouvidos.

Navegar com precisão é necessário, mas a vida, ah…, a vida, como é imprecisa e pueril a vida, viver não é preciso, por mais que se busque a precisão e a exatidão, por mais que se planeje, nunca é preciso o viver, necessário como pode ser se ao fim a morte sempre vence? Viver é uma luta para quem é necessário morrer, para cada ser vivente sobre o nosso planeta agua.

Assim as duas frases criadas com um intervalo de mil e quinhentos anos de diferença se completam, e chegam até os nossos dias com o brilho incorruptível das verdades incontestáveis.

Um grande abraço a vocês, Nelson e Lucia, que fazem o que é necessário com precisão!

Wilson e Cassia