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Navegada em Maragogi nos porões da memória

IMG-20171128-WA0032O navegador Érico Amorim das Virgens, lenda viva do iatismo potiguar e uma das maiores autoridades na faixa de mar entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, tem um arquivo de memórias para preencher páginas e páginas de livros e se for para emendar os bigodes em um gostoso bate papo, não tem pareia. Adoro sentar com o comandante para escutar suas histórias e assim vou enriquecendo meus conhecimentos sobre as coisas do mar. O autor de três  maravilhosos livros, o último Um Mar de Memórias, enviou um pedacinho de suas lembranças sobre a regata Maragogi-Maceió, da qual participou da primeira a última edição.      

Navegar nem sempre é tão simples quanto imaginamos ao ver passar  aquele veleirinho no horizonte azul.  A navegação em barco a vela,  esporte prazeroso e desafiador, sempre tem um probleminha a resolver: compor a tripulação.
É explicado por exigir dias para se  fazer uma simples travessia de Natal até Recife e nem todos tem o privilégio de se ausentar de seus  afazeres por dias seguidos. Normalmente levaria 2 dias no mínimo. Imagine meu caso em 2009 para ir a regata Maragogi-Maceió, da qual  participava quase todos os anos desde 1992, em sua primeira edição. O fato de a regata ter sido sempre em janeiro facilitava muito, pois  meus companheiros geralmente estavam em férias. Não sei o que  aconteceu naquele ano que meus tripulantes sumiram do mapa.
Aprontei o barco e fiquei enchendo o saco de um e de outro até que  Cláudio Almeida concordou em ir até João Pessoa. Dito e feito, lá  chegando arrumou a trouxa e se mandou de volta. Em lá estando comecei  novamente a minha batalha. E aí diante das negativas eu insistia: e só  até Recife?  Findei pagando a um rapaz que se dizia homem do mar e na  hora H meu amigo Luiz Dantas resolveu aderir. Afinal seria só uma  noite no mar. Resultado do trajeto: o marinheiro vomitou a noite toda  e Luiz achou bom termos pescado uns dois ou três peixes.
Em Recife eu estava bem mais perto do meu destino, mas continuava com  o mesmo problema: sem tripulante para a regata de Maragogi. Na semana anterior à minha chegada, o pessoal de Recife havia  realizado uma regata até a praia de Tamandaré e o barco de JP lá se  encontrava exatamente para participar da regata de Maragogi,  uma vez  que as praias são próximas. Com aquela conversa de palhoção  que todo  iate clube tem, fiquei sabendo que Alfredão e Evelin iriam com JP  pegar o barco em Tamandaré. Não foi difícil convencê-los a ir comigo e eu os deixaria em Tamandaré. Assim aconteceu e nós três levantamos as  velas na noite de sexta-feira e tivemos uma navegada maravilhosa, com  ventos brandos e favoráveis. Sem esquecer que os dois fizeram questão  de me deixar dormir a noite toda. Ao amanhecer Alfredão nos guiou com  segurança até o local de fundeio e aproveitamos para fazer um café com  tudo que tinha direito; o barco estava devidamente abastecido.
Agora eu estava bem próximo de meu destino e com outro problema: como  sair de Tamandaré contornando todos aqueles parrachos? Depois do café, nada mais a fazer, ficamos no barco conversando e  dando tempo ao tempo. Diversas ligações foram feitas até que JP disse  que se fosse para Tamandaré, seria a noite ou no outro dia. Aí enchi o  peito e propus que continuassem comigo este pequeno trecho e estava  tudo resolvido. Caberia a mim tão somente trazê-los de volta. Foi uma  pequena navegada e lá pelo meio dia contornamos os parrahos coloridos  de Maragogi. Fechamos o sábado com chave de ouro no restaurante “Frutos do Mar” do amigo Gilberto. À noite, já no clima festivo, fiquei sabendo que a regata seria  corrida em frente, em mar aberto e que não haveria a tradicional  Maragogi-Maceió, nem feijoada e muito menos tripulante para que eu  pudesse voltar. Tive como companheiros na regata Eugênio Cunha e um  velejador de Laser, seu amigo. Nossa participação foi um sucesso e a regata um tremendo fracasso:  apenas 3 barcos, se não me falha a memória. Lembro-me bem do Resgate,  do comandante JP, com Alfredão e Evelin em sua tripulação; Musa e um  barco sob o comando de Daniel, amigo lá de Maceió que faleceu agora em  2018. Se havia mais alguém não lembro.
Terminada a regata o problema de arranjar companhia para sair da praia  de Maragogi continuava. Por sugestão de Eugênio fui bater à porta de  Zé Fernando que no seu “Mestre Fura” tinha feito a comissão de regata.  Cedeu-me Zezé, velho amigo da Federação de Alagoas. Como é originário  daquelas bandas solicitou ir visitar uns parentes e já à tardinha  retornou para irmos até Maceió. Sendo já quase noite optou por sair  por entre os parrachos, cantando as profundidades: vai dá 2m, vai dá  1,80 e meu coração querendo saltar pela boca, pois mais e mais me  afastava da rota tantas vezes percorrida. Aí ele falou: pronto agora  passamos todos os cabeços. Parece até que foi o barco que ouviu, pois  desembestou rumo a Maceió e lá pela meia noite estava tudo no visual.  Uma e meia da manhã  de segunda-feira o barco estava fundeado e  dormimos ali mesmo.
Recapitulemos pois os trechos e as tripulações: NTL-JPS (Cláudio  Almeida); JPS-REC (Luiz Dantas e o marinheiro bu..ta); REC-Tamandaré  (Alfredão e Evelin); Tamandaré-Maragogi,idem; Maragogi-Maceió(Zezé).Zezé, meu companheiro no trecho Maragogi-Maceió e também navegamos  juntos na regata dos 500 anos. Aí é outra história.

Érico Amorim

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E os ventos sopram saudades

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Talvez muita coisa esteja esquecida. Talvez muitas lembranças estejam desbotadas. Talvez em um futuro próximo nada exista, a não ser, o vazio de uma história que será contada em minúsculos fragmentos praticamente indecifráveis, em que a glória ficará exposta diante de um olhar de indiferença. Talvez, no futuro, as façanhas dos velhos heróis não represente mais nada e a beleza de suas aventuras sejam para sempre perdidas na imensidão dos oceanos. Talvez, no futuro, não exista mais nem a palavra saudade. A imagem que ilustra essa postagem representa toda a maravilhosa grandeza e glória que foi a vela de oceano nas águas do nordeste brasileiro, em que Maceió, a bela capital alagoana, era o celeiro onde anualmente se reuniam os maiores nomes do iatismo do Nordeste. Olhando para o sorriso de Seu Antônio Marques, ladeado pelo fiel amigo Couceiro, que hoje festejam a amizade lá no Céu, com bons goles de whisky, miro a imagem e me pergunto: – Qual desculpa daremos a eles por ter deixado esse legado navegar tão fora do rumo?      

O catamarã de velocidade – III

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Digo que não é fácil levantar âncora quando o clima e os amigos conspiram para que fiquemos mais um pouco. Na Barrinha dos Marcos/PE foi assim, um ajuntamento de fatores e carinho a nos prender, mas tínhamos que seguir viagem, porque o destino final de nossa velejada estava umas tantas milhas mais ao sul.

Assim que o dia amanheceu preparamos o Tranquilidade e atracamos próximo ao píer da futura marina Angra da Ilha, de propriedade do velejador pernambucano Cleidson Nunes, mais conhecido por Torpedinho, e de mais dois sócios. A marina ainda está em construção, porém, já podemos notar que será um empreendimento da melhor valia para o mundo náutico de Pernambuco e do mundo. A Barrinha é um porto dos mais abrigados e dotado de belezas paisagísticas de encantar. Atracamos na marina para reabastecer os tanques de água do Tranquilidade e receber o amigo Elder Monteiro que voltou a bordo para nos desejar boa viajem e ainda trouxe de presente ovos de galinha caipira e pata, produção da fazenda Belo Horizonte. Segundo Elder, o ovo da pata é tido pelo sertanejo como alimento afrodisíaco. Pelo sim, pelo não, teve tripulante que comeu de boca cheia.

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Abastecido com água e ovos, antes do meio dia, levantamos as velas e tomamos o rumo do mar com uma grande alteração em nossa programação de paradas. Inicialmente, depois da Barrinha, pretendíamos parar na praia de Carneiros, litoral sul de Pernambuco, e depois em Barra de São Miguel/AL, porém, o castigo que vínhamos tomando do mar desde Natal/RN fez com que parte da tripulação começasse a sentir saudade da caminha gostosa de casa. Sendo assim, ao sair do raso canal de acesso ao canal de Santa Cruz, aproamos o Tranquilidade para a sereia Maceió, terra de menestréis, vastos canaviais e mar de águas cristalinas.

A partir de Itamaracá a velejada passou a ser em mar de almirante e vento soprando na medida de nossa vontade. Assim fomos deixando para trás os batuques do frevo e do maracatu e em menos de 20 horas ancoramos em frente a Federação Alagoana de Vela e Motor, clube que recebe o navegador de braços e coração aberto.

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Nossa parada em Maceió foi mais por necessidade do que estratégica. Tivemos um pequeno vazamento em uma bomba pressurizada e perdemos mais da metade da água dos reservatórios. Necessitávamos também repor a despensa e Lucia vinha tendo sintomas de infecção urinária e nada melhor do que uma cidade grande para resolver essas pelejas. Resolvemos o problema da bomba e reabastecemos águas e diesel com a ajuda do Carlinhos, caiqueiro que está sempre alerta e a disposição do navegante que ancora em Maceió. Levei Lucia no hospital da Unimed-Maceio, que por sinal tem excelente atendimento, e depois de alguns exames foi liberada sem maiores recomendações, porque a medicação que ela estava tomando a bordo se mostrou eficiente para curar a infecção.

Já ouvi muito velejador reclamar do fundeio em Maceió e muitos nem chegaram a ir até lá. Dizem que o local de ancoragem é sujo, perigoso e a proximidade com os barcos de pesca na ancoragem gera um clima de insegurança a bordo. Sinceramente nunca me senti intimidado em minhas passagens por Maceió. Sim, a praia por detrás do proto não é limpa e em algumas épocas a sujeira acumulada na areia é de enojar, mas abdicar de parar ali é querer perder uma das melhores e calorosas recepções de uma navegada. A turma da Federação é mestre em receber bem o visitante e a cidade é de uma beleza ímpar.

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Até recentemente existia uma favela vizinho a Federação, mas essa foi retirada e dizem que em breve sugira no local uma praça e um novo mercado de peixes. A coisa ainda caminha a passos lentos e capenga, mas tudo indica que existe vontade política para a revitalização completa daquele pedaço de orla. Também ouvi comentários que o Porto cresce os olhos no local e sinaliza uma expansão, o que traria dificuldades a Federação Alagoana de Vela e Motor e consequentemente a navegação amadora. De uma coisa eu sei, mas não ouvi ninguém falar: A capital alagoana precisa urgentemente de uma marina pública para dinamizar e acelerar o turismo no estado. A falta de um píer de atracação é uma lástima para um estado que tem no mar seu maior tesouro.

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O novo farol de Maceió, localizado sobre o molhe do Porto, foi ficando para trás e o Tranquilidade foi ganhando velocidade em direção ao mar da Bahia. Seriam 260 milhas náuticas de uma velejada que prometia ser um sucesso. Mar de almirante e vento brando que empurrava nosso veleiro na maior maciota. Durante a madrugada cruzamos a divisa entre Alagoas e Sergipe, demarcada pela foz do Rio São Francisco, e em menos de 24 horas deixamos para trás também a cidade de Aracaju, que passamos sem nem avistar, pois navegávamos a mais de 20 milhas da costa para fugir do rugi rugi do movimento das plataformas de petróleo daquela região.

Pensei com meus botões: Esse é um mar de peixe!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Meu Pôr do Sol no Diário do Avoante

Elder Monteiro - Rio Potengi -  Natal-Flávio Moriel (3)Gulherme Paiva - Maceió-AL - Atapuz DSC_0103 (3)

Mais três imagens belíssimas que participaram do concurso “Meu Pôr do Sol no Diário do Avoante” e hoje a exposição é formada por uma força tarefa naval alagoana. O primeiro retrato é do navegador e Rei do Baca, Elder Monteiro, no Rio Potengi/RN. O segundo retratista e o velejador Flávio Moriel, com o sol colorindo a Barra do Coruripe/AL e a terceira imagem foi capturada na praia de Atapuz/PE pelo comandante Guilherme Paiva. Pense nuns cabras da peste!

Um mundo de aventura

veleiro teasadaniel e angela Conheci o casal Daniel e Ângela Cheloni em 2009 quando ancoramos o Avoante em Maceió/AL e saímos a procura de alguém que nos ensinasse os segredos para entrar na Barra de Estância/SE, mais conhecida no mundo náutico amador como Mangue Seco. Na Federação Alagoana de Vela e Motor o amigo Roberto Buenos Aires nos apresentou ao casal, que são proprietários do restaurante Del Popollo na capital alagoana, dizendo que eles sabiam tudo sobre Mangue Seco. E sabiam mesmo. Daquele dia em diante nos tornamos grandes amigos. O casal, que acho que posso chamar de alagoano, devido os laços afetivos e empresariais que têm na bela Maceió, tempos atrás saiu pelo Atlântico a bordo do veleiro Caliel, um Trinidad 37, levando as duas filhas em uma viagem que jamais esqueceram. Daniel e Ângela são aventureiros por natureza, aliás, acho que já nasceram sonhando em desbravar o mundo, e em  suas andanças o mar é apenas um dos caminhos possíveis. Em 2010 foram aos Estados Unidos para visitar os amigos do Trawller JADE e na marina onde estavam notaram que havia um Trinidad 37 exposto a venda, com bandeira brasileira, e num piscar de olhos efetuaram a compra. Eles não perdem tempo com conversa mole. Embarcaram no TEASA com pensamento em tomar o rumo das Bahamas e Caribe, mas como bons aventureiros, mudaram de planos e enveredaram pelos caminhos do GREAT LOOP e por um maravilhoso passeio pelos canais da famosa Intracoastal Waterway. Na via fluvial dos EUA, seguiram até o Canada e retornaram ao ponto de partida, fechando o ciclo de uma viagem de sonho e que no blog Veleiro Teasa, ou Pais à Deriva, é contado tim tim por tim tim em quatro temporadas. Ângela e Daniel partiram em Dezembro de 2014 para a quinta temporada e o blog já está recheado de novidades, belíssimas imagens e é um bálsamo para a alma de um cruzeirista e para os amantes de aventura. Navegue por lá e confira.      

 

Vivas a um grande velejador

Regata Batalha Naval do Riachuelo 162

Não sei se vocês sabem, mas assino há mais de sete anos uma coluna dominical no Jornal Tribuna do Norte, com o título Diário do Avoante e foi de lá que  surgiram os títulos do blog e do livro. São textos que falam da vida, do mar, de sonhos, aventuras, alimentação, cotidiano das cidades e alguns deles, de vez em quando, aparecem por aqui. O texto Vivas a Um Grande Velejador, foi publicado em 25 de Maio na Tribuna do Norte e até já deveria ter sido postado aqui, mas tudo tem seu tempo.  

Dizem que tem coisas que surgem quase do nada, basta uma raspada de olhar, um esbarrão casual ou simplesmente um nada de nada para que haja acontecência. E foi assim que aconteceu comigo quando avistei um barquinho chegando lá para as bandas de numa ilha pernambucana chamada de Santo Aleixo.

Foi lá o meu primeiro contato com um barco a vela e vale dizer que foi mais do que casual, pois estávamos ali atendendo um convite de um amigo para um passeio em sua lancha e já estávamos nos conformes para zarpar de volta a praia de Tamandaré, local de nossa estadia.

O veleirinho era tripulado por dois velejadores e eles vinham com o rosto mais chamuscado de sol do que orelha de pescador. A coisa só não estava mais feia, porque uma esbranquiçada pasta branca dava ao rosto dos velejadores um ar meio fantasmagórico, porém aliviando o queimor. De uma coisa eu lembro bem: Os caras estavam cansados, mas felizes.

Trocamos algumas palavras, mais por curiosidade minha do que a vontade deles responderem. Ajudei a empurrar o veleiro sobre a areia da praia e demos adeus aos dois, sem antes não deixar de desejar sucesso na empreitada, pois os caras tinham planos de encerrar o passeio em Maceió/AL. E assim foi feito, pois tempos depois soube de todo o ocorrido, tintim por tintim.

Os dois aventureiros eram Cláudio Almeida e Eder, que faziam parte da flotilha de vela do Iate Clube do Natal e aquela já era a segunda viagem da dupla. O barco, um Tornado, veleiro multicasco muito rápido, mas sem nenhum conforto aos tripulantes numa empreitada tão longa. Façanhas assim que marcam a bravura dos verdadeiros homens do mar.

Sei que outros velejadores já fizeram viagens maiores em barcos semelhantes e pode ser que muitos achem que isso hoje em dia nem seja uma novidade tão aventuresca como possa parecer, mas até aquela época eles foram os únicos norte-rio-grandenses a realizar e obtendo sucesso na ida, quanto de volta.

É difícil o reconhecimento quando não existe a presteza de querer fazer. Cláudio e Eder, naqueles longínquos anos 90, elevaram o nome da vela potiguar a um patamar merecedor, pois o clube de onde eles eram crias nasceu, cresceu e venceu com as velas enfunadas pelas águas do velho Potengi.

Até hoje a aventura da dupla é festejada e comemorada nos alpendres da Federação Alagoana de Vela e Motor e isso qualquer um pode comprovar, basta apenas que tenha a alegria de sentar para um gostoso bate papo, regado à cerveja gelada servida por Seu Zezé, com a turma boa que faz o mundo da vela das alagoas. Fotos da dupla e da festa da chegada fazem parte do acervo histórico da vela alagoana, pois assim faz o povo do mar diante das conquistas. Reconhecimento e divulgação como incentivo para as gerações futuras!

Cláudio foi o guru que me iniciou na vela e me ensinou muito do que sei hoje. Foi através da imagem daquele barquinho chegando na Ilha de Santo Aleixo que o mundo náutico se abriu em mil horizontes em minha frente.

Em 1998, ano em que passei a fazer parte do quadro de sócios do Iate Clube do Natal, por indicação dele, Cláudio era a vela mestra que movimentava o iatismo potiguar. Incentivador voraz e incansável para transformar as regatas em uma festa de alegria e competitividade, não media esforços para tal.

Brigador, agitador, brabo como um siri numa lata, mas quando o assunto era vela e regata lá estava ele, com sua verve bruta e inconfundível e com grande capacidade de transformar qualquer veleirinho ronceiro em uma bala.

Hoje ele é egresso do quadro social do Iate Clube do Natal, mas, vez por outra, aparece no clube como convidado, e não mais, para servir como tripulante em algum veleiro. Mas ao chegar ao clube sua alegria não é a mesma de outrora, pois no fundo de sua alma lateja a dor da tristeza que marcam aqueles que foram atraiçoados por força de alguma ordem modernosa. Como se a história pudesse ser apagada.

Uma sociedade se faz com história, reconhecimento, honradez, conquistas e vitorias de seus guerreiros. Homens que deram o sangue e a alma para elevar a bandeira e cravar no olimpo a espada da luta vitoriosa.

Cláudio Almeida, meu amigo e extraordinário velejador, a vela potiguar sem a sua garra navega com as adriças folgadas e velas rizadas. Saiba, e sei que você sabe, que para o sempre seu nome estará talhado na história do Iate Clube do Natal, que lhe deve um eterno e merecido reconhecimento.

Caro amigo, a página desse Diário hoje é sua. Parabéns e muito obrigado pelo mundo maravilhoso que você me fez enxergar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Expedição oceânica Maceió – Ascension Island

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O velejador Eugenio Lisboa, o potiguar mais alagoano do Brasil, é um daqueles estudiosos apaixonados nos assuntos de expedições náuticas. Dia desse fez a primeira Expedição Alagoana até o arquipélago de Trindade e Martim Vaz a bordo do seu super catamarã Anakena, um belo, robusto e confortável BV 36, construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Eugenio, que posa nessa foto com a família na festa de confraternização da Refeno 2012, agora parte para mais uma grande expedição, dessa vez um pouco mais longe. Ele vai navegar até a Ilha de Ascension, lá no meio do Oceano Atlântico. 

 A Ilha de Ascension
Ascension Island está localizada nas coordenadas geográficas 7º 56’S,
14º 22’W, ligeiramente ao norte do través do Recife (ou seja, quase em
linha paralela a cidade do Recife; mais precisamente no paralelo da
Ponta do Funil no Município de Goiana).
De Maceió para Ascension aproaremos no rumo magnético 110º e
percorreremos uma distância de 1270 milhas náuticas em linha reta (o que
nem sempre é possível), ou seja, cerca de 2.352 Km a percorrer.
A ilha pertence ao Reino Unido e constitui parte do Território
Ultramarino Britânico de Santa Helena, que fica a cerca de 1300 Km a
sudeste de Ascension.
A oeste, a porção de terra mais próxima no continente sul-americano,
como já falamos acima, é a Ponta do Funil, localizada no município
brasileiro de Goiana, no estado de Pernambuco.
A distância entre Ascension e a Ponta do Funil é de 2.249 km.
Levando-se em consideração as ilhas oceânicas do Brasil, as distâncias
são de 1.923,9 km até o Arquipélago de São Pedro e São Paulo; de
2.039,7 km até a Ilha Rata, em Fernando de Noronha; e de 2.079,9 km
até a Ilha Martim Vaz, no Arquipélago de Trindade e Martim Vaz.
Em Ascension funcionam duas bases aéreas, sendo uma da RAF (Real Força
Aérea do Reino Unido) e outra da Força Aérea Americana, utilizando a
mesma pista de pouso. Existe, ainda, uma pequena cidade chamada
Georgetown. Ao todo cerca de 1200 pessoas, entre civis e militares,
moram nessa ilha que tem uma área de 91 Km², área bem superior a
Fernando de Noronha que conta com 17 Km² (Ilha Principal).
Os preparativos para a Expedição a Ilha de Ascension.
No inicio de 2013 pensei mais uma vez em colocar em prática uma antiga
idéia, ir com meu novo veleiro até a Ilha de Ascension.
Resolvi subir meu veleiro no final de abril para iniciar uma extensa e
minuciosa manutenção.
Fiz uma lista com mais de oitenta itens para serem vistoriados e/ou
consertados, dentre esses itens estava a troca das chapas que havia
colocado como um extensor nos cabos da genoa e buja; troca dos cabos
de aço do gurupés; verificação da vedação de gaiutas e vigias; troca
das saídas e entradas de água de plástico por outras feitas em inox;
substituição das redes do trampolim de bombordo e boreste, as quais
haviam descosturado e não mais eram seguras; conserto da geladeira que
parou de funcionar no carnaval; troca de cabos diversos; manutenção preventiva
do motor com troca de óleo, filtros, rotor de bomba de água etc;
retirada e limpeza dos tanques de diesel e de água potável;
substituição de cabos do turco; melhorar a vedação das tampas dos
motores e porões de proa; etc.
Enfim, deveríamos fazer um verdadeiro pente fino em todo o veleiro
para que nada fosse esquecido.
O problema da rede do trampolim foi resolvido com a colocação de cabos
de 10 mm trançados em toda a extensão da rede, amarrados de forma
individual (15 x 17 cabos). Acima dessa nova e forte rede tive a idéia
de colocar um estrado plástico composto por 54 peças de 25cm x 25 cm,
fazendo um retângulo de 1,5 metros por 2,25 metros. Essas peças,
apesar de serem encaixadas, foram individualmente amarradas para que a
força da água não as soltassem. Esse estrado serviria como piso do
novo “trampolim”. Como a experiência foi bem sucedida em um dos lados
(boreste), fiz o mesmo procedimento no de bombordo. Agora estamos com
um novo tipo de rede de trampolim, nunca antes visto por mim em nenhum outro
catamarã, muito forte e seguro. Poderíamos fazer qualquer serviço na
proa do Anakena sem qualquer preocupação, até mesmo puxar âncoras ou
fazer o que fosse necessário, pois a nova rede era praticamente “indestrutível”.
No começo de maio verifiquei no site do Governo da Ilha de Ascension
que seria necessário enviar um pedido de entrada de turista com
antecedência mínima de 28 dias.
Diante disso, entrei em contato com todos os tripulantes e candidatos
a tripulantes para que preenchessem e me entregassem o referido
documento, juntamente com uma cópia da página do passaporte que contém
a foto e as informações respectivas.
No dia 10/05/2013 enviei os pedidos de entrada para o Governo da Ilha
de Ascension.
No dia 17/05/2013, uma semana após o envio dos pedidos de entrada
(Entry Permits), recebi um e-mail de Marion Leo, Assistente do
Administrador da Ilha, responsável pelo controle de entrada de pessoas
na Ilha de Ascension, no qual informa que os nossos pedidos foram
aprovados, veja abaixo a cópia do e-mail:
“GoodAfternoon,
Please find attached your approved entry permits.
Please be advised that you can make payment for your permits on
arrival or in advance. The cost of your permits are £20 each.
Payments can be made in advance via our Lloyds Bank UK, to Ascension
Island Government, Sort Code 30-00-09, Account number 02293999; or
through the Bank of St. Helena Ascension Branch, to Ascension Island
Government, Account number 62000012.
When making payment in advance please could you state the entry permit
reference numbers.
If payment is not made in advance the Entry Permit fee will be
collected on arrival. Please Note: Only the following currency will
be accepted on arrival. Sterling pounds; St Helena pounds; Euros’ and
US dollars.
Should you make payment less than a week prior to your arrival date,
please ensure you bring a copy of your proof of payment with you.
I also attach the arrival card which can be completed prior to arrival
and handed to immigration along with your other documents.
Kind regards
Marion”
Por ora, continuamos com os preparativos da viagem com uma rotina
quase diária para averiguarmos todos os equipamentos, toda hidráulica,
toda elétrica etc.
A partida da nossa expedição está programada para a tarde do dia
05/07/2013 (sexta-feira). Nossa previsão de tempo de travessia é de 10
a 12 dias podendo demorar além do previsto
por conta de fatores climáticos (vento não tão favorável, mal tempo) e corrente
marítima contrária (corrente sul equatorial).
Hoje a tarde, dia 04/06/2013, estarei indo na Capitania dos Portos de
Alagoas para preparar o Despacho do veleiro (documento de saída do
Brasil), que pode ser feito antecipadamente.