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De honestidade e espanto

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Um suposto diálogo que circula nas redes sociais entre um cidadão brasileiro, em visita a Suécia, é uma vendedora de bilhete para o metrô, em que o brasileiro questiona a inexistência de circulação de passageiros por uma catraca de passe livre, chama atenção para um mundo anos luz de distância do país de Pindorama.

Diante do caudaloso rio que banha a seara internética, fica difícil saber a veracidade do suposto colóquio internacional, mas as palavras trocadas no texto dão uma dimensão das nossas faltas e muitos usuários das redes multiplicam os repasses com palavras de espanto e carinhas raivosas, como se o problema fosse apenas de falta de educação e esta fosse apenas uma deficiência alheia. Na conversa na estação do metrô de Estocolmo, diante da pergunta do brasileiro, a vendedora de bilhetes explica que a catraca de passe livre é destinada as pessoas que por algum motivo não tenham dinheiro para pagar. O brasileiro, acostumado com o velho jeitinho, elevou a sobrancelha e perguntou: – E se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar? A vendedora respondeu na bucha: – Mas por que ela faria isso? Sem mais perguntas, o brasileiro pagou sua passagem e seguiu viagem.

O texto prossegue falando que honestidade é um dos valores mais libertadores que um povo pode ter, o que é uma verdade irrefutável. O diálogo não me causa espanto, o que me traz esse sentimento é quando o vejo estampado em alguns perfis em que o usuário bate o prego e dobra a ponta e afirma, em letras garrafais, que tal político, mais enrolado do que palha de aço, lhe representa. Juro que tenho dó, não dele, de mim!

Nelson Mattos Filho

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O mestre

11 Novembro (258)

“Sou um escritor de poucos livros e poucos leitores. Vivo extraviado em meu tempo por acreditar em valores que a maioria julga ultrapassados. Entre esses, o amor, a honra e a beleza que ilumina caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos.”

Ariano Suassuna

Um texto e uma luz no fim do túnel

Murilo NovaesO jornalista e velejador Murillo Novaes publicou um texto em seu blog Coluna do Murillo – Notícias da Vela, no dia 09/12, que merecia destaque em todos os jornais, televisões, revistas, congressos, palestras e nas alegres reuniões entre amigos em que se discute os problemas do mundo. Raramente, dificilmente, nunca antes na vida desse país, li um texto tão sincero, humilde, ético e comovente de uma pessoa se desculpando e assumindo corajosamente um erro cometido. O mais lógico, habitual e usual é o ser humano tirar o seu da reta e empurrar uma parcela da culpa para outro alguém. Pelo menos é assim que ensina os mais valiosos manuais da boa honra e que todos os dias assistimos embasbacados nos noticiários. “Eu não sabia e nem sei de nada!”. Muitos navegadores senhores da razão podem até achar que Murillo errou feio e que eles mesmo jamais cometeriam um erro tão banal. Outros tantos devem estar condenando veementemente o jornalista/velejador e outros mais, apenas lerão o texto achando que tudo não passou de uma incrivel aventura com final feliz e ponto final. Li e reli o texto na madrugada desta Terça-Feira e não contive a alegria em saber que ainda existem pessoas que sabem o valor que existe na palavra ética e que ela é a fonte inesgotável para o mundo ressurgir das cinzas em que está se metendo. Parabéns Murillo Novaes, desejo que seu relato sirva de exemplo para todos nós e que nos indique o norte a ser seguido a partir de 2014.  

#ihdeumerda. Das grandes. Comigo. E quase morri (e matei meu filho e um amigo)

Bom dia amigos e amigas, hoje escrevo porque sinto que tenho o dever de compartilhar com todos o que aconteceu comigo, com meu grande amigo Fábio Collichio e com meu filho Pedro na noite de sábado. Mais precisamente por volta da 12:06 de domingo.

Fábio, meu melhor amigo em Cabo Frio, companheiro de inúmeras velejadas de Micro 19 e o feliz proprietário de um novo (para ele, claro) Velamar 32, o “Fratelli”, me chamou para trazer o barco de Cabo Frio para o Rio neste sábado para subi-lo no Clube Naval Charitas e fazer a pintura de fundo do veleiro, que ele estava terminando de reformar. Convoquei meu filho Pedro, de 13 anos, para fazer sua primeira travessia no oceano e por volta de 7:30 da manhã partimos do píer internacional de Cabo Frio.

Fábio havia me dito que soubera de um aviso de mar grosso no Rio, que, por rádio, tentamos confirmar com a atalaia de Cabo Frio, mas a moça nos disse que havia expirado, pois era de 24 horas. Eu, como navegador que sou, havia estudado a previsão e sabia que os ventos seriam de, no máximo, 14 nós, de E-NE, e haveria um swell grande residual da grande tempestade que tinha passado 48 horas antes pela costa do Rio. Mas nada muito preocupante já que tudo iria nos empurrar para o destino final. Zarpamos.

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Ética: A realidade rumo ao sonho

Encontro de Despedida-Avoante-Abracadabra (19)

Clube náutico é um lugar que atrai malucos de todos os lugares do mundo. Pessoalmente acredito que viver enclausurado em um veleiro, um espaço geralmente tão reduzido e ao mesmo tempo sem limites, já que você pode ir aonde o vento te levar, faz a mente ir mais longe. Como exemplo, os semanais relatos nesse Diário do Avoante.

Muitas pessoas que estão fora do nosso universo comum têm comportamentos diferentes e que muitas vezes julgamos serem pessoas com o “juízo” fora do lugar, mas às vezes essas pessoas nos mostram que talvez o “juízo” da maioria de nós é que está fora e o deles está dentro. Isso pelo simples fato que nascemos com vícios culturais e que muitas vezes julgamos ser o certo pela pura força do hábito e algumas cabeças de fora podem nos ensinar caminhos novos de coisas aparentemente tão óbvias como a ÉTICA.

Assim aconteceu comigo em Setembro de 2009 ao fazer a travessia Natal – Recife a bordo do veleiro Antártica, um monocasco de aço com 49 pés de tamanho e com tudo de mais moderno a bordo. O capitão era um romano digno de filmes sobre gladiadores: um homem de meia idade com barba e cabelos louros, de poucas palavras, e que de vez em quando fazia umas piadas sem graça, mas como o homem era meio brabo a gente ria só para garantir o humor do capitão. Em resumo: O cara era uma figura de cinema.

Depois da travessia, recém chegados no porto de Recife, antes de tentarmos largar para a REFENO 2009 uma atitude me ensinou mais do que mil palavras: houve o furto de um relógio a bordo por um mecânico contratado para consertar o motor do barco, fato que somente foi percebido horas depois com um grito do capitão perguntando quem tinha roubado o relógio. Rapidamente ele olhou para todos que estavam a bordo e fez uma busca mental e concluiu que só poderia ter sido o mecânico. Então foi até o clube buscou o mecânico e sem muitas palavras doces exigiu que ele devolvesse o relógio. Sua atitude foi tão segura e ofensiva que o mecânico imediatamente devolveu o objeto.

Quando vimos o objeto roubado todos nós fomos unânimes em perguntar se o capitão estava doido, e que não havia motivo de tanta briga por um “relogiozinho” de pulso, com pulseira de plástico e fabricado na China, uma vez que perdemos a primeira largada. Havia equipamentos mais valiosos que poderiam ter sido roubados e ainda corremos o risco de sermos agredidos pelo ladrão. A resposta dele foi inesquecível: – “MARCHELO, esse relógio não vale nada, o problema é que não podemos permitir ou tolerar atitudes como essa!”

Naquela hora aprendi que ética é comportamento e comportamento é atitude. A ambição de um mundo melhor para todos é dependente direta das atitudes que tomamos a favor desse processo. Vale salientar que não fazer nada, de nada vale. As atitudes devem ser ofensivas no ponto de impedir que comportamentos antiéticos possam continuar a reinar, conscientizando que esses são regressivos para todos, incluindo em longo prazo para o próprio causador.

Nós, seres humanos, nos gabamos por dominarmos e controlarmos a terra e quase tudo que nela vive graças a nossa capacidade mental, mas não conseguimos fazer algo tão simples, algo que várias espécies fazem com perfeição: o mutualismo entre os da mesma espécie, o bem comum acima do interesse individual e uma convivência que não necessite de Leis para nos regulamentar e dizer dos nossos deveres e obrigações sociais afim de uma evolução em comum.

Por sinal, o mecânico que deveria ter nos ajudado não fez um serviço bem feito e logo depois tivemos que voltar ao Porto com água no motor e assim não competimos na regata. Mas não estávamos tristes, mesmo sem poder participar da REFENO 2009 tínhamos certeza do dever ético cumprido e de ter aprendido mais uma lição para a vida.

Marcelo Milito – velejador