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Sobre velejadores e índios – II

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– Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!” Foi com essa frase de Lucia que encerrei o moído no texto que aprumou o rumo para que esse tivesse seguimento. Mas afinal, será que todo índio tem cabelo liso? A verdade é que os “papa mé” da Cachoeira dos Índios, tinham cara de índio não. Aliás: vida de índio nesse Brasil de meu Deus ficou difícil desde que por aqui aportaram uns marinheiros de fala esquisita e que navegavam numas canoas enormes mais perdidos do que cego em tiroteio. Deixa queto!

Outra verdade é que as reentrâncias desse nosso Brasil, tão jovem que ainda nem aprendeu a andar direito, é entupido de lugarzinhos arretados que só vendo. São recantinhos com enorme potencial turístico, mas que ficam enterrados sob os escombros indecentes de políticas que se dizem públicas. Quanto desperdício!

E já que embrenhei pelos campos férteis onde se misturam reclamações, pitacos e afins, vou corrigir algumas informações e desinformações da primeira parte dessa historinha barata. A primeira é que a Cachoeira dos Índios fica a 104 quilômetros da capital baiana e não 100 como escrevi. Aí você pergunta: E precisa corrigir por causa de quatro quilômetros a mais? – Claro que sim, pois vai que o cara resolve ir a pé!

A segunda é que na Linha Verde, uma estrada ainda arretada de boa e onde se lê nas placas que é proibido o tráfego de caminhões pesados, já podemos cruzar com verdadeiros mastodontes do asfalto. Não sei por que danado os homens que se metem a fazer leis, normas e regras em nosso país, assinam embaixo de um papel e não garantem as calças que vestem. A estrada Linha Verde, que foi projetada para o tráfego de veículos leve, muito em breve estará em estado calamitoso e tudo sob os olhares permissivos daqueles que se dizem autoridades.

A terceira é que acho bom você se adiantar em conhecer as bonitezas que ainda existem ao longo dessa estrada, porque a besta fera do progresso já se instalou de mala e cuia na região.

A Cachoeira dos Índios é um lugar que se fizesse parte da paisagem de países onde o certo é o certo e o errado é o errado, estaria ornamentando roteiros para visitantes abobalhados diante de tanta beleza. Os pretensos indígenas que lá estão, fazem parte do contexto desastrado onde nada precisa ser tão perfeito assim, mas a presença deles é a melhor ferramenta de acusação para se desmontar o teatro das “boas intenções” politiqueiras em que cada ator se diz o mais santo de todos. Vixi! Onde estou me metendo?

Só vai à Cachoeira quem tem espírito de aventura, mas isso a gente só descobre quando se vê diante de uma trilha interditada e recebe a informação do proprietário das terras de que o caminho é difícil e que ele acha que nosso carro não chega. – Tem nada não, vamos até onde der! O serviço da estrada foi concluído, o proprietário entrou em uma caminhonete tracionada e eu acelerei valentemente o Uno para acompanhar a tirada por entre a mata. Você deve estar pensando que esse foi um programa de índio e eu já me apresso em responder que foi sim, e de cocar e tudo.

Ao chegar numa clareira em meio a floresta, o homem parou e pediu que deixássemos o carro. Segundo disse, o nosso carro não teria condições de seguir adiante. E não tinha mesmo! Abandonamos o Uno em meio ao nada e pulamos na caçamba da caminhonete, porque não nos cabia na cabine que estava cheia de ferramentas. Se enroscando e tirando fino por entre as arvores, numa trilha morro abaixo que ninguém consegue enxergar, a caminhonete seguiu por uns dois quilômetros e eu imaginado como faríamos para voltar. Será que esse senhor acerta sair?

Paramos em outra clareira e o “índio chefe” informou que teríamos que continuar a pé e ele voltaria para a porteira. Lucia perguntou: – E a gente volta como até o carro? Ele respondeu rindo: – A pé! Lucia treplicou: – De jeito nenhum, o senhor pode tratar de nos esperar. Ele fez cara de muxoxo e concordou. Indicou o caminho e seguiu sendo o guia da nossa aventura. Atravessamos uma ponte de madeira, diante de uma paisagem de encantar, e depois de uns 200 metros estávamos diante da Cachoeira dos Índios, uma pequena cachoeira de águas cristalinas e frias. Uma barraquinha de madeira desocupada, que segundo o proprietário só funcionam aos domingos, quando funcionam, completa a cena.

Ficamos encantados e maravilhados com tanta beleza incrustada na mata. A água fria espalhava no ar uma áurea de frescor e paz. Deu vontade de mergulhar naquelas águas, mas infelizmente esquecemos no carro a roupa de banho e voltar toda aquela trilha a pé não era incentivo para ninguém. Sentamos em uma das mesas a beira do riacho e o proprietário falou das dificuldades de tocar aquelas terras, mas confessou que não pretendia fazer daquele lugar um terminal turístico, porque não tinha ajuda de ninguém e os frequentadores que se aventuravam a ir até lá nos finais de semana, não tinham o mínimo zelo com o meio ambiente. Confessou que não queria nem divulgação.

Depois de um bom tempo conversando embaixo das arvores, sentindo a frieza do ar umedecido e escutando o marulhar da água escorrendo nas pedras, tomamos a trilha de volta até a caminhonete. O proprietário nos deixou na clareira onde havíamos deixado o carro e antes de pegar a estrada, ficamos uns segundos escutando o sussurro do silêncio da mata.

Tem lugares que nos enche de paz e faz nossa bateria recarregar apenas com o respirar. Lugares em que a magia é parte viva da paisagem e que nos leva a um estado de pura reflexão. Lugares sem segredos, mas que escondem olhares ocultos a nos espreitar por entre as folhas. Lugar de seres invisíveis, mas que nos faz sentir o calor de suas presenças. Lugares em que buscamos respostas, mas que nos deixa cada vez mais carregados de perguntas.

A Cachoeira dos Índios é um lugar assim, mas em breve será apenas uma boa e vaga lembrança em meio ao caos do mundo urbano que avança a passos largos. Assim como tantos outros.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador