Arquivo da tag: estaleiros do maranhão

Sabigati – Parte II

20190216_111830

Existe uma máxima em meio aos velejadores que diz assim: Veleiro é bom, mas o motor é que atrapalha.

O Sabigate II é um catamarã, modelo BV36, construído pelo estaleiro Bate Vento, do Maranhão, e como todos os BVs, tem pedigree de barco marinheiro, e isso eu atesto e dou fé.

20190218_055157

Soltamos as amarras do píer do Iate Clube do Natal na manhã do sábado, 16/02, depois de um longo quiproquó com o motor de boreste, que teimava em não beber o combustível oferecido pelo reservatório que lhe daria o sustento. Por obra e graça de algum duende que sempre povoam embarcações, o combustível não passava – e não passou mesmo – pela mangueira nem com reza braba e muito menos com os armengues testados por Pedrinho, e que não foram poucos. Por sorte, o ex-proprietário havia instalado reservatórios reservas, com 20 litros, para cada motor e isso foi a nossa redenção diante da presepada dos duendes. – Ei, Nelson, e o Sabigati num é um barco a vela? – É, rapaz, e precisava fazer essa pergunta capciosa? Pois é, um motor tira o velejador do sério e dois então…!

20190216_111933

Velas em cima, motores funcionando, fomos deixando para trás a cidade dos Reis Magos e ao cruzar a boca da barra os duendes mexeram mais uma vez no caldeirão, retiraram uma porção de maldades e lá se foi o piloto automático. A correia do piloto era nova, mas desintegrou-se. Tínhamos uma sobressalente, porém, não tínhamos as ferramentas necessárias para a substituí-la. Poderíamos improvisar com as ferramentas que tínhamos a bordo, mas poderíamos estragar a peça. Como éramos quatro para dividir o comando, resolvemos deixar que os duendes festejassem a vitória e tocamos o barco em frente, em um mar que mais parecia um tapete e vento Leste/Nordeste tão carinhoso impossível. Se não fossem os motores…!

20190216_150934 

Me surpreendi com o BV36, pois já tinha navegado no BV42 e no BV43 e achei o 36 um barco mais na mão, incrivelmente fácil de navegar e não desperdiça energia da tripulação. Foi nessa tocada suave que após 42 horas de navegada, a partir de Natal, ancoramos na alagoana Maceió. Mas não pensem que a nossa navegada foi exclusivamente na força dos motores, porque a partir do Cabo Branco/PB, que aliás não tem mais os lampejos do farol, o vento entrou com vontade e somente abandonou o posto no través da praia de Tamandaré/PE, que infelizmente também está com o farol apagado. Foi uma tristeza ver que a maioria dos faróis na costa entre o Rio Grande do Norte e a Bahia estão desativados e sobre esse assunto comentarei em outro texto.

20190217_072732 

Tivemos 42 horas de puro deleite, com quatro peixes embarcados e só não pegamos mais, porque perdemos a rapala e o carretel de linha, numa bobeira do pescador. Mas os peixes que embarcados, quatro Serras deliciosos, fez a alegria das nossas refeições e ainda sobrou umas postinhas para presentear o novo proprietário do barco. Tivemos momentos de deliciosos bate papos naquela nossa pracinha navegante e fizemos, garanto por mim e por todos os tripulantes, uma das mais gostosas navegadas em uma fração de oceano Atlântico que nem sempre – pelo menos na faixa entre o RN e PE – é bondoso com os navegantes.

20190218_05493120190218_055019

Em Maceió paramos apenas o tempo necessário para desembarque do comandante Érico Amorim, que retornaria a Natal para aniversário do filho, e abraçar os amigos que estavam na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM. A parada em Maceió é uma alegria, mas a tristeza continua sendo a sujeira que se estende na praia da ancoragem. Antigamente diziam que a podridão era causada pela comunidade que ocupava um terreno entre o Porto e a FAVM, mas a comunidade foi retirada e o problema continuou. Todos sabem muito bem de onde vem o lixo que invade aquele belo recanto, que se fosse bem cuidado seria um dos pontos de maior atração na cidade do mar de esmeralda. O lixo é levado até ali pelo Salgadinho, um rio imundo que cruza a cidade e onde boa parte da população joga todo tipo de milacrias. Maceió é linda demais para suportar a falta de zelo com o Salgadinho. Mas quem sou eu para estar falando da cidade alheia! Logo eu, nascido em uma cidade banhada pela imundice histórica do Rio Potengi! Não, não poderia falar, mas falo sim, do Salgadinho, do Potengi, do Capibaribe, do Paraíba, do Rio Vermelho e de tantos outros rios jogados ao desleixo nesse Brasil sem leis, sem ordem e sem comando.

20190218_06502020190218_070326

Três horas após de ter ancorado em Maceió, levantamos velas e ao sabor dos ventos, nos despedimos daquela terra bonita, que ainda preserva os lampejos do seu lindo farol, apesar de camuflado pelos prédios que o cercam.

20190218_180944

A Bahia é logo ali!

Nelson Mattos Filho/Velejador 

Anúncios