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A apóstola da educação

10 Outubro (400)“A educação formando a cultura, é o elemento maravilhoso para garantir ao espírito a perpetuidade na terra. Resiste ao tempo e a onda adversa não abaterá sua vitalidade. A luz brilhará sempre, alta e pura, ensinando o caminho para as estrelas” assim foi escrito, pelo paraninfo Luiz da Câmara Cascudo, na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, em Natal/RN. A frase faz parte de um trabalho das pesquisadoras da UFRN, Maria Claudia Lemos Morais do Nascimento e Maria Arisnete Câmara de Morais, sobre a professora Crisan Siminéa.

Quando criança conheci a professora Crisan Siminéa, ela era tia de quatro grandes amigos e depois de um tempo passou a residir em frente à casa dos meus pais. Gostava de ver aquela mulher de passos firmes, ligeiros e decididos, caminhar todos os dias, durante várias vezes ao dia, até a casa de sua mãe. Muitas vezes me perguntei o motivo de tantas idas e vindas, porém, descobri que era amor e cuidado exacerbado para com a mãe.

Tia Crisan era professora, como se diz no popular, indo e voltando. Por todos os colégios e entidades educacionais por onde passou e fundou, deixou a marca de uma formidável profissional, que tinha na educação sua maior bandeira. Em 1988 foi agraciada com a comenda de apóstola da educação pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte e o seu nome batiza a Biblioteca do Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy. Homenagem mais do que justa para quem dedicou a vida aos livros. O nome da professora também foi lembrado para batizar uma escola no bairro Nova Natal, zona Norte da capital potiguar, a Escola Estadual Crisan Siminéa.

Pois bem, o nome da apóstola da educação, que deu a vida para ensinar crianças e adultos, hoje figura entristecido nas páginas policiais de um Estado inepto, governado por um governante inepto e fiscalizado por um legislativo inepto. Enveredei pelos sites de pesquisa da grande rede, para saber mais sobre a premiada professora e a única boa referência que encontrei foi o trabalho das pesquisadoras Maria Claudia e Maria Arisnete. O restante são notícias da invasão e depredação da Escola Estadual Crisan Siminéa, por parte de um grupo de marginais, que na certeza da impunidade, também picharam as paredes das salas com ameaças de morte a funcionários e alunos durante a aula.

A professora Crisan, onde ela estiver, com certeza no Céu, não merecia uma tristeza dessa. Logo ela que tanto primou e zelou pelo bom ensino. O Governo Rio Grande do Norte, que lhe concedeu a comenda de apóstola da educação, deveria sentir vergonha, pedir desculpas a sociedade por tal descalabro e mau zelo com a educação e a segurança pública. As associações de classe dos educadores, sempre tão ciosas em suas greves e reclamações salariais, deveriam ao menos emitir uma notinha de pé de folha de jornal denunciando mais uma destruição de escola no Estado. Mais uma, pois recentemente o mesmo aconteceu com uma escola pública na cidade de Parnamirim e ficou tudo por isso mesmo.

A frase de Luiz da Câmara Cascudo, cravada na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, turma essa que tinha como participante a aluna Crisan Siminéa, pode até está esquecida na parede, porém, resiste ao tempo e a onda adversa não a tornará desatualizada. O país perdeu o rumo da educação, da cultura, da boa administração e das boas causas, mas o farol continua a piscar indicando o caminho a seguir. Se seguiremos, não sei, mas seguiremos. Câmara Cascudo era grande e na sua grandeza observava sempre o futuro distante. Crisan Siminéa, concluinte da turma do paraninfo folclorista, gravou, bem gravadas, as palavras do mestre.

No trabalho das pesquisadoras da UFRN, estão as palavras da professora Dalva Cunha, em 1995, homenageando a apóstola da educação: “Ela foi o jardineiro que plantou, retirou as ervas daninhas, dando amor, incentivando, exigindo o melhor, realizando o seu projeto com perfeição…. Para ela era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade, preparando-as para o imprevisível, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade lógica das coisas, e, naturalmente, serem educadas para poderem educar. Sua energia transbordava e transformava o comportamento das futuras professoras. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo. ”

Cascudo um dia falou que Natal não consagra, nem desconsagra ninguém, mas eu, um sofrível escrevinhador, não poderia deixar que o nome da professora Crisan Siminéa, apóstola da educação, fosse desconsagrado apenas por batizar uma escola depredada por marginais e jogada ao léu por aqueles que tinham por obrigação mantê-la viva e saudável.

Professora Crisan, não fique triste. Um dia, quem sabe, aprenderemos o caminho para as estrelas.

Nelson Mattos Filho

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