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Reminicências

2 Fevereiro (191)

O que falar nesses primeiros dias de um outono que se apresenta com um horizonte tão enuviado? – Sei lá, vou ajuntar as letras e antes de colocar o ponto final, passarei a vista para ver no que deu.

O outono abaixo da linha do Equador é uma estação interessante e sempre gostei de vivenciar durante a longa temporada em que morei a bordo de um veleiro. O céu se apresenta com uma roupagem cinza enigmática, o mar adquire feições apaixonantes e os ventos bailam ao compasso de um velho e gostoso blue. É nessa época, algumas horas para lá, outras para cá, a depender dos volteios planetários do astro-rei, que os doutores e os adeptos das coisas da astronomia, festejam e discorrem loas sobre o equinócio, que acontece duas vezes por ano – uma em março, outra em setembro – que em breves palavras, é o período em que os dois hemisférios da Terra estão igualmente iluminados pelo Sol e assim os dias e as noites duram tempos iguais. – Só isso? – Não, tem mais tempero nesse angu orbital, mas conto apenas os contos que sei, pois dos pormenores, os entendidos se encarregam de destrinchar!

E o dia de São José, que é santo esperançoso, passou praticamente sem um molhadinho sequer pelos terreiros nordestinos. Teve missas, rezas, foguetórios, promessas prometidas, promessas pagas e mais alguns folguedos animando praças e átrios das igrejas, mas o Santo se fez de rogado e seu dia passou em brancas nuvens. Porém, sertanejo é cabra forte, quando reza, reza pra valer e quando acredita, acredita acreditando e botando fé. A chuva está prometida, só não sei se hoje ou amanhã, mas que ela vem, vem. E tomara que venha logo, pois os barreiros estão secando ligeiro e os açudes nem pegaram água. Agora, saindo dos caminhos da fé e entrando na variante da ciência, pelas imagens transmitidas pelos satélites, a chuvarada está tomando forma. Que venha!

Seu menino, e o tal apagão da quarta-feira, 21? Precisa dizer alguma coisa, ou tudo já foi dito e desdito? Mas já que todo mundo deu um pitaco, vou dar o meu também: Acho que a causa foi falta de peia no lombo de quem precisa levar e nada mais. Pense num desmazelo destrambelhado! Num tem um filho de Deus, na seara das “autoridades”, para falar coisa com coisa ou coisa que se aproveite. É um tal de não sei, não fui, não sabia, não vi, que chega dá um reboliço nos miolos da gente e não tem paciência que fique quieta. Mal ligaram as luzes da quarta-feira, apagou-se novamente na quinta-feira, na “casa do céu”. – Casa do céu? – Sim, homem, aquele tribunal do planalto onde os pares se acham deuses, fazem beicinho um para o outro, enchem a carteira como se fossem xeiques das arábias e se arvoram a botar “ordem” até em jogo de biloca. Nem que eu quisesse entraria no mérito da questão não decidida, ou decidida, sei lá, pois o juízo ainda me resta um tiquinho e danado é quem quer emendar os bigodes com entrincheirados de plantão, mas o que houve por baixo das vestes da moça que segura a balança, só os mosquitos é quem sabem. Eita Brasil cheio de munganga e ainda sobra uma ruma de mungangueiro para tocar fogo no circo!

E as novidades não param de chegar e pelo zapzap a coisa se espalha mais ligeiro que fogo em palheiro, mas se tirar os nove fora não sobra nada, a não ser a parte sexo-educativa e as piadas. Eita ruma de caboco pra gostar de sacanagem! Tem aparelho de celular que o dono já mandou trocar umas três telinhas, pois o vidro gasta de tanto ele passar o dedo para cima e para baixo. Dizem que o primo, da prima do primo de uma amiga distante, gastou a impressão digital de tanto passar o dedo na tela do celular.

E a Semana Santa já vem despontando por aí e com ela as velhas notícias sobre o preço do peixe, a falta do mesmo e as enfadonhas entrevistas com os fiscais sobre as normas de comercialização. Como se o beabá desse jeito nos balaios! Qualquer dia vão inventar que peixe tem que ser vendido sem catinga e ai daquele que se abestalhar a vender! – Duvida? – Pois num duvide não, que nesse mundo tudo pode e quando é para arrancar dinheiro do contribuinte, a lei surge que nem faísca.

– E o Rio em? – Rapaz, só não digo que está igualmente a casa de mãe joana, porque na tal casa todo mundo manda e no Rio de Janeiro ninguém manda em nada. Nem a soldadesca verde oliva escapa e nem sei onde diabo os quatro estrelas estavam com a cabeça de se meter naquele fuzuê. Tome tento general e bata em retirada enquanto é tempo. Aliás, será que nos quarteis já escutaram Fernando Abreu cantando assim: …O Rio é uma cidade/De cidades misturadas/O Rio é uma cidade/De cidades camufladas/Com governos misturados/Camuflados, paralelos/Sorrateiros/Ocultando comandos…

Eh, acho que chove sim!

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 11

3 Março (7)

Enxu Queimado, 19 de março de 2017

Fernando meu amigo, como vão as coisas por aí nesse dia de São José? Por aqui estou com um olhar que beira o pessimismo, porque sempre ouvi falar que quando não cai chuva boa no dia do Santo anunciador de esperança, a vida tende a ser difícil para os lados do sertanejo, como se já não fosse sempre, pois sertanejo é povo sofrido, mas trabalhador que só vendo. Quando eu andava pelo meio do mundo aboletado em um veleiro, as esperançosas chuvas de 19 de março passavam meio que despercebidas, apesar de ser uma data em que os ventos vindos do Sul começam a tomar gosto e era chegada a hora de rever rotas e aprimorar as regras de navegação, pois vento do quadrante das terras geladas são malcriados que só vendo, pelo menos para quem navega pelos maravilhosos mares nordestinos é assim.

Mas continuando na mesma linha da esperança, continuo apostando pesado que o inverno será mais invernoso do que o dos últimos cinco anos, e tem que ser, porque faz tempo que São Pedro não lembrava do Nordeste e nesse 2017 ele de vez em quando abre uma torneirinha mais à vontade. Só espero que ele não venha com a aquela normalidade tão anunciada pelos homens que estudam o tempo, pois sendo assim o milho de São João não vinga. E por falar em milho, pois num é que me arvorei a espalhar uns leirões pelo terreno da nossa cabaninha de praia e lá plantei feijão, inhame, batata doce e milho. Lucia pegou gosto e ainda fez uma horta com coentro, cebolinha, alface, espinafre, tomate e mais um bocado de coisa boa. A fartura vai ser grande e já estou preocupado com o tamanho do caminhão para carregar a produção. Se for pequeno, não dá! Não ria que a coisa é séria!

Meu amigo, estou curtindo essa nova vida meio praieira, meio do campo, porém, juro que a saudade do veleiro é grande e tomara um dia voltar para o seio de Iemanjá e seu reinado acolhedor. Tem quem diga que em terra a vida é mais segura, mas eu os perdoo, pois eles não sabem o que dizem.

Sim, diga aí como vai Dona Marta, espero que tudo esteja nas mil maravilhas e até prometemos tomar um vinho ao sabor de um gostoso bate papo. E por falar em bate papo, você tem visto como anda as coisas pelas terras da ordem e do progresso? De ordem eu não tenho visto muita coisa e de progresso, ainda estão nos devendo, é com juros. Ei a conta é grande! Estamos caminhando igualmente aqueles jogos que mandam pular uma casa e na jogada seguinte os dados mandam retornar três. Rapaz, está complicado. Você já viu o cara soltar uma ruma de caranguejo na calçada, para tanger? Meu amigo, num é serviço bom não, viu! Pois assim está sendo escrita as recentes páginas de nossa história. Porém, os intelectuais apostam que é assim, e assim será! E por falar em intelectual: Você viu quantos tem espalhados por esse Brasil de meu Deus? Dia desses vi uma lista que fiquei espantado com as figuras que colocaram o jamegão. Bordo!!!

Meu doutor, o que você me diz dessa minha mania de fazer um churrasquinho básico? Será que ainda dará quórum para aquelas picanhas suculentas? Homi, colocaram até a cervejinha gelada na fritura. Agora condenou tudo! A carne é podre e já inventaram que colocam tanta milacria na cerveja que sei não, viu! Até pombo moído! Vots! Mas também, o que danado aqueles pombinhos vão fazer na boca de um sugador de cereais? Será brincadeira de roleta russa? Sei lá, cada pombo com sua mania, né! Sim meu amigo, e as águas do Velho Chico? No começo todo mundo protestava diante do projeto e até um bispo quase morre de fome, agora cada um que queira assumir a paternidade da criança. Como diz o velho sábio: Casamento quando é novo tudo é bom, o problema é quando surgem os arranhões. E eu ainda estou para ver uma obra nas terras dos pindoramas que não esteja corroída nas estruturas. Quando surgir o primeiro processo de “pensão alimentícia” aí sim, veremos quem é o pai dessa transposição. Por enquanto é só festa, falatório e banho de rio.

Rapaz, ontem à noite fizemos mais uma rodada de escaldaréu, na beira da praia, e o bicho estava bom que só a peste. Era para o comandante Flávio, mas ele mordeu a corda e não apareceu, sendo assim, e já que estava programado, metemos o sarrafo na panela e fomos dormir de bucho cheio.

Caro amigo Fernando Luiz, estamos sentindo a falta de vocês por aqui e é sempre uma alegria tê-los sob o teto de nossa cabaninha. Apareçam mais vezes que prometo servir, além dos deliciosos pescados saídos das águas de Enxu, umas deliciosas saltenhas produzidas por Lucia, que por sinal são divinas. As encomendas não param e estou até ensaiando pedir um salário de degustador e um auxíliozinho extra para justificar e reparar o aumento da protuberância na barriga.

Até mais ver.

Nelson Mattos Filho