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Histórias de um viageiro – III

imageA história que aqui segue é boa e conta um pouco de uma rica e enigmática região do Brasil, em que o sim e o não são apenas detalhes. Ela foi encaminhada pelo velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, depois que o instiguei na Carta de Enxu 13. É o relato de uma viagem entre Bahia, Maranhão e Piauí, e mergulha no tema que serviu durante anos como fonte dos estudos e serviços profissionais do geólogo Sérgio Netto. Para acompanhar do começo e não ficar perdido na historia, basta clicar nos links PARTE 1 e PARTE 2.

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1. Molhe em Luis Correa olhando para oeste, e 2. o assoreamento que o distributário Igaraçu fez em dez anos onde deveria ser o porto a sotavento do molhe.

clip_image002[8]clip_image002[10]clip_image002[12]3. O mangue sendo recoberto pela frente deltaica: o delta do Parnaíba prograda para o lado, para oeste! 4. Olhando pela proa da voadeira de dentro de um canal distributário, se vê a frente deltáica avançando do mar para dentro! 5. e é retrabalhada pelo vento.

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6.Baia de Tutóia e o pro-delta. Veja na linha do horizonte à direita a frente deltáica avançando por fora! 7.Revoada de guarás vermelhos sobre o mangue branco num canal distributário.

Atravessando o rio Parnaíba chegamos na cidade de Parnaíba, 170 mil habitantes, a 2ª do Piaui. Nos instalamos na Pousada dos Ventos por duas noites. No dia 8 de março de 2008 saímos numa Mitsubishi L200 da Clip (clipecoturismo.com.br) para rodar no litoral do Piaui. A propósito, o Aurélio não registra Parnaíba, mas o Caldas Aulete diz que é uma faca comprida, tipo faca de açougueiro.

clip_image001Esta tartaruga comeu um saco plástico pensando que era uma água viva. Pronto, chegamos na civilização.

A leste do rio Parnaíba você já está no mundo civilizado, e apesar de ter gado solto na estrada; da para ir sem grandes problemas no seu próprio carro tanto para o Ceará (Jericoacoara, Fortaleza) pela PI-210, quanto para Pernambuco e Bahia pela BR-343. Em Parnaíba a Clip tem barcos e carros apropriados para lhe mostrar o delta. Ela me havia reservado dois lugares num ônibus leito diurno para Teresina, onde eu pretendia visitar Aurimar, um colega de república no tempo de solteiro em Maceió. Disquei 102 e pedi o telefone. A última vez que eu havia visto Aurimar tinha sido em Florianópolis, em 1980, quando os filhos dele eram crianças de 3 a 4 anos.

Eu havia mandado um e-mail para Aurimar e não tinha resposta. Liguei de Parnaíba e atendeu uma criança de uns 3 a 4 anos; quando eu perguntei por Aurimar, ele chamou Vôo… e a ligação caiu. Tentei mais duas vezes sem sucesso. Daí Mila achou que não tínhamos o que fazer em Teresina.

– Vinte e oito anos, ele nem se lembra mais da sua cara!

– Você está enganada, nós éramos amigos.

Histórias de um viageiro – I

03 - março (236)

Rapaz, fui me arvorar em escrever a Carta de Enxu número 13 para o comandante Pinauna, que posa serelepe na imagem com sua Mila, e ele agradeceu, mas enviou uma tese de doutorado sobre um passeio que fizeram, em 2008, pelos caminhos, veredas, trilhas, rios e dunas que existem entre o Piauí, Maranhão e Bahia. Como bom geólogo e professor das causas da natureza, não faltou nenhum detalhe sobre tudo o que viu, e como turista, sem papas na língua, as dicas e informações deixa a gente com água na boca. Desde já agradeço, também em nome dos leitores, por dividir essa viagem com a gente. Como a história é longa, exatas 20 páginas, dividirei em suaves capítulos e sem juros. Fiquei bravo quando lá pras tantas ele chama veleiro monocasco de meio barco com quilha, mas respirei fundo e deixei passar sem resposta, pois o comandante Pinauna não merece minhas desfeitas. Vamos ao começo: 

MARANHÃO – PIAUI 2008

Sérgio Netto

Mila tirou dez dias de férias e voamos Salvador – São Luís voltando de ônibus via Teresina. Essas férias foram metade turismo e metade ‘aventura’, onde aventura quer dizer viajar numa região ‘terceiro mundo’ usando os meios disponíveis para o povão. Descobrimos que é tudo na base do ar condicionado, tem carro, moto e barco para alugar em todo canto, o povo é lascivo, simpático, ignorante, pobre e subjugado pelo poderio econômico.

O Maranhão e o Piauí são político-administrativamente parte da Região Nordeste do Brasil, portanto sob a jurisdição da Sudene, mas do ponto de vista de geografia física representam uma transição do nordeste semiárido para o norte úmido. O chamado Polígono das Secas, área ‘protegida’ por legislação específica, (lei nº. 175, de 7 de janeiro de 1936, e Decreto-Lei de nº. 63.778 de 1968, que delegou ao Superintendente da SUDENE a competência de declarar quais municípios pertencem ao Polígono) tem seu limite oeste numa diagonal que atravessa o estado do Piauí NE-SW, sempre a leste do rio Parnaíba.

O rio Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, na quádrupla fronteira entre Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia (10° S, 46°W), e faz a fronteira política entre o Maranhão e o Piauí em todo o seu percurso de 1400 km. Para oeste do rio Parnaíba começa um Brasil semi-virgem e grandioso. O Maranhão e o Piauí juntos têm 585 mil quilômetros quadrados, algo entre Bahia e Minas Gerais. A bacia hidrográfica do Rio Parnaíba tem 340 mil km2, e está implantada sobre uma bacia sedimentar paleozóica constituída de rochas arenosas distribuídas numa área de 600 mil km2.

Maranha~o-Piaui Pinauna [Modo de Compatibilidade] - Word

O contorno em preto representa os limites da Bacia Sedimentar do Parnaíba. As linhas claras são as fronteiras estaduais, que no caso entre o Maranhão e o Piauí coincide com o curso do Rio Parnaíba. A manchinha branca na linha de costa cortada pelo meridiano 43°W é a área de turismo de europeu conhecida como Lençóis Maranhenses.Da foz do Parnaíba até a fronteira do Ceará são 66 km da costa do Piaui. A norte do paralelo de 3°S e a leste do meridiano 45°W existe uma estrutura de turismo funcionando bem o ano todo.

Viajando por esta região dá a sensação que o alagoano Manuel Deodoro da Fonseca, quando proclamou a República, estabeleceu um plano estratégico de importar a revolução industrial europeia para os estados do sul, onde dominava a oligarquia do café, e preservar os estados do norte para só ‘desenvolver’ quando o Brasil tivesse 200 milhões de habitantes. Os turistas estrangeiros (alemães, portugueses e americanos) com os quais nós percorremos os ‘lençóis maranhenses’ exultavam com o ambiente preservado, a vegetação primária de restinga no litoral e cerrado mais para dentro, a riqueza e abundancia de água limpa, a diversidade de espécies de palmeiras nativas, que em campos sem cerca começam a ser cultivadas com a nova onda do biodiesel.

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No momento, o governo do PT deu um chega pra lá na oligarquia piauiense, e está construindo a ferrovia transnordestina, que integrada com a rede antiga da Cia. Ferroviária do Nordeste e a Estrada de Ferro Carajás vai ligar Pernambuco até o Pará, passando em Fortaleza e São Luís. A expectativa da chegada da ferrovia incrementa o plantio de grãos. Os paulistas, paranaenses e gaúchos estão comprando terras no Piauí, onde soja e milho começam a ser plantados em quantidades crescentes, um reflexo do crescimento da soja no Maranhão. O trem facilitará o escoamento dessa produção, e quando pronta, a Transnordestina estará apta a se integrar às ferrovias Norte-Sul, Carajás e à Centro-Atlântica.

Os maranhenses e piauienses na santa ignorância lá deles, dizem que tem um inverno de dezembro a maio e um verão de junho a novembro. O que ocorre é que após o equinócio de setembro, quando o sol vem fazer o verão do hemisfério sul, a insolação nesta área equatorial é intensa, as máximas de temperatura aumentam mais de 10°C e ocorrem as chuvas de verão, que eles chamam inverno e os deputados da indústria da seca repetem. A Embrapa e a Sudene tem levantamentos que mostram que o período chuvoso estende-se de outubro até metade de abril, ‘ou até o início de maio nos anos bons’, e o período de estio ocorre de maio até setembro. A água da chuva se infiltra na bacia sedimentar, e a mitigação da estação de estio é tradicionalmente feita com a construção de açudes, o que atende a interesses politiqueiros, mas quem passa por lá vê que açude não é solução, é um fomento à pobreza e ao subdesenvolvimento.

Mas solução existe. A bacia sedimentar do Parnaíba é um aquífero aberto, com intrusões de diabásio, onde o ciclo anual da água renovável acumula dezenas de milhares de quilômetros cúbicos (1km3=1 bilhão m3) de água doce abaixo do nível freático. Esta água pode ser produzida como se produz petróleo, com a vantagem que é anualmente renovada. Se não for usada, na época das chuvas o nível freático sobe, inunda as planícies fluviais e escorre para o mar. O que pode e deve ser feito é uma cubagem da quantidade de água infiltrada por ano, um programa de desenvolvimento sustentável de campos de água e a implantação de uma infraestrutura de distribuição