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No Avoante é assim!

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Curso de vela? E o que danado faz essa garrafa de cachaça e essa latinha de cerveja em meio a um dia de aula diante de uma paisagem espetaculosa? Será que fazem parte do currículo? Pois é, taí uma boa pergunta! Mas não se avexe que tenho uma boa resposta, ou pelo menos vou tentar. Esse dois ai são os amigos Diego e Felipe, que se mandaram das paragens do planalto central e embarcaram no Avoante para desanuviar o juízo dos dias de lida  em uma cidade mandatária, que a cada dia nos deixa com cara de espanto. Diego queria aprender os segredos da vela de cruzeiro para muito em breve cruzar os mares do mundo. Felipe pretendia apenas passear e conhecer os segredos guardados a céu abertos pelos santos e orixás que povoam a Baía de Todos os Santos, pois daqui uns dias seu veleiro, que está sendo construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento, estará bossando pelas águas da Bahia. Juntamos o útil ao agradável e montamos esse curso/charter que foi um sucesso e recheado de boas energias e uns centímetros a mais na circunferência abdominal de cada um.

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Para variar, mais uma vez Lucia caprichou na gastronomia e preparou um cardápio, desde o café da manhã com tapiocas, bolos quentinhos, peixe frito e outras guloseimas, que encantou nossos tripulantes. E nos almoços e jantares não faltaram as deliciosas moquecas baianas e as tradicionais massas.´

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Claro que o Felipe, que embarcou para curtir a vida, adorou o que viu do mar da Bahia, mas o Diego, aproveitou cada minuto do aprendizado e desembarcou dando aula de rotas e marcações e já  tentando enxergar um veleiro para adquirir e realizar o sonho. – E as cervejas e a cachaça? – Claro que tínhamos que brindar tudo isso!

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Mais dois cruzeiristas a bordo

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Encerramos dia 30 de setembro mais uma turma do nosso Curso de Vela de Cruzeiro, dessa vez foi o paulista Paulo Lourenço e o filho Thiago, artesões em Morro de São Paulo/BA onde fabricam e vendem belas pulseiras trabalhadas em couro marroquino. Paulo tem o sonho de comprar um veleiro e sair pelo mundo com o filho e para isso vieram a bordo do Avoante para ter a prova se é isso mesmo o que desejam e parece que gostaram. Encerramos o curso com uma celebração a vida, tipicamente de cruzeirista, no Bar da Maria, no distrito de Galeão – Cairu/BA. Um lugar gostoso e um ancoradouro fantástico.

Só na boreste

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Algumas expressões aparecem quase do nada e passam a fazer parte do linguajar cotidiano das pessoas. São palavras que surgem muitas vezes no rastro de situações vividas e por não se achar nada mais adequado para descrever o momento, recorrem-se às derivações e essas caem inevitavelmente no gostoso reino do palavreado popular. Nesse rastro vieram pérolas como: frigir dos ovos; alho por bugalho; de boa; da hora; só o filé; olho gordo e outras que são ditas pelo Brasil velho de guerra. O brasileiro tem um dom especial para ajuntar palavras e transformá-las em gírias que proliferam na rapidez de uma piscadela nesse mundão de meu Deus.

Até o jargão náutico, que tem um rígido dicionário de alcance mundial, no Brasil a coisa navega por bordos que dificilmente um almirante inglês conseguiria decifrar mensagens que o levasse a conquistar uma batalha. Queria mesmo ver a cara de espanto de um gringo ao se aproximar de um paquete e escutar o pescador gritar para o parceiro: – Molhe os panos e atoche no cabo pra nós tirar uma pareia com aquele bote que vem ali.

Certa vez navegando de Enxú Queimado, uma bela e deliciosa praia no litoral norte do Rio Grande do Norte, para Natal, na companhia de Pedrinho e Abraão, – dois irmãos e amigos que tenho guardado no peito – pedi que algum deles caçasse a escota da genoa. Genoa é a vela da frente da embarcação e escota o cabo que estica essa vela. Quando Abrão olhou para mim e perguntou: – Caçar Agenor? Eu respondi que não era Agenor e sim genoa. Ele pegou a escota e sem pestanejar treplicou: – Se essa vela é Agenor essa outra é Liquinha. E caiu na gargalhada. Eu sem entender perguntei: – Quem danado é Agenor e quem é Liquinha? Ainda na gargalhada ele respondeu: – Lá em Enxu Queimado, Agenor é o marido de Liquinha. Então tá, pode caçar os dois!

Já se aproximando da Barra de Natal Abrão falou: – Nelson, quando chegar vamos almoçar no tóro. Mais uma vez fiquei a ver navios e perguntei onde ficava o tóro. Ele respondeu com uma pergunta: – Que danado é isso desse homem não saber onde fica o tóro? O tóro fica ali embaixo da ladeira da praia. É aquele restaurante que serve carne de sol. Apurei a memória e perguntei se era o Farol Bar. Ele disse que era esse mesmo e perguntei por que ele chamava de tóro. Ele estendeu os braços, esticou as mãos – naquele gesto característico de dimensão – e disparou: – Porque serve um tóro de carne desse tamanho! Fomos ao tóro.

As velas Liquinha e Agenor, assim como toro, hoje fazem parte do dicionário de bordo do Avoante e vez por outra estou palavreando elas por aí para espanto e risos de interlocutores ávidos por boas histórias. Foi assim que durante um curso de vela de cruzeiro, que ministramos, e depois de repassar os fundamentos que fazem da navegação arte de infinita beleza, aprendi mais uma palavrinha que pode até não dizer nada, mas pronunciada do jeito e no momento que foi nos encheu de boas energias.

Expliquei o que é bombordo, boreste, proa, popa, meia nau, través, bochecha, alheta, rota, derrota, amuras. Ensinei os segredos da boa leitura de uma Carta Náutica e como o estudo aprimorado de uma rota é determinante para uma navegação segura. Latitude, longitude, rosa dos ventos, declinação magnética, rumo verdadeiro, agulha, graus, minutos, segundos, milhas e cheguei até a tal da navegação estimada, em que as marcações se cruzam e diante de tantas estimativas possíveis, o que sobra mesmo é a certeza de estar perdido. Mas se avexe não que navegar é fácil sim senhor!

Depois dos estudos teóricos soltamos as amarras e nos lançamos ao mar. Os alunos eram dois cearenses da gema, Fabrício e Isabela, que estão doidinhos para sair pelo mundo a bordo de um veleiro e vieram ao Avoante para tirar a prova dos nove. Com a derrota sendo seguida em cima da risca, tomamos o rumo do Saco do Suarez, um fundeadouro delicioso e que já comentei aqui em várias oportunidades. Ancoramos diante de um belo pôr do sol, apreciamos a noite chegar mansa e tranquila. Na manhã seguinte, depois de traçar e estudar uma nova rota, levantamos âncora e fomos navegar.

Vento brando, navegando na maciota, deixamos o fundeadouro com Fabrício se deliciando no comando do Avoante. – Isso é bom demais! Vou comprar um veleiro o mais breve possível! Falava com brilho nos olhos e um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se Isabela também estava gostado e ela respondeu com a cabeça que sim e deu um sorriso. Traduzi que estava tudo bem. Lá pras tantas pedi que ela timoneasse um pouquinho e para minha surpresa recebi como resposta: – Precisa não, tá bom assim, estou só na boreste! Olhei para Lucia e demos uma boa gargalhada.

Só na boreste, mais uma maneira arretada de dizer tudo bem a bordo. Pelo menos traduzi assim. Valeu Isabela!

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – IV

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A Baía do Iguape é um mundo de água cercado por um vasto manguezal. Em suas margens se debruçam o município de Maragojipe e os povoados de Nagé, São Francisco do Paraguaçu, São Tiago do Iguape e outras povoações menores, além de pequenas ilhas, entre elas a do Francês, que divide o rio ao meio, e do Coelho, que tem um fundeadouro maravilhoso. A baía é rica em várias espécies de peixes, moluscos e mariscos, entre eles se destaca o camarão.

Iguape é uma RESEX – Reserva Extrativista Federal, com 10.082,45 hectares, ligada ao ICMbio. Grande parcela da população vem de origem quilombola e sobrevive da pesca artesanal, cultura do fumo e agricultura familiar.

A navegação no Rio Paraguaçu não oferece grandes perigos, mas é indicado estudar bem a carta náutica e seguir com atenção os waypoints demarcados. O problema maior são as redes de pesca que não são poucas, mas nada que um bom comandante não resolva. Continuar lendo

O grande mar – III

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A primeira vez que desejamos navegar até São Tiago do Iguape foi em 2009, mas naquele ano as chuvas, os ventos e o frio nos fizeram retornar de São Francisco do Paraguaçu, cinco milhas náuticas antes, e deixamos a oportunidade passar adiante, porém, o desejo nunca passou.

No começo de 2015 o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros falou assim: – Nelson, você escreve maravilhas sobre a Baía de Todos os Santos, mais até do que muitos baianos. Você precisa escrever sobre a Baía do Iguape e todas as cidades banhadas por ela, pois ali está a verdadeira história da Bahia. Confesso que fiquei lisonjeado com as palavras do amigo, mas fiquei corado quando ele me colocou acima de “muitos baianos”. Deve ter sido piada!

Ele me fez retornar até 2009, o desejo aflorou novamente e dessa vez, com força total. Vou a Iguape, faça sol ou faça chuva!

Com as fogueiras sendo armadas em frente às casas nas ruas da Ribeira, soltamos as amarras que prendiam o Avoante ao píer do Angra dos Veleiros e debaixo de uma chuva forte subi as velas e aproei a Ilha de Itaparica, onde comemoramos o São João. De lá, tomamos o rumo de Salinas da Margarida para festejar o outro santo junino, o poderoso São Pedro. Os dois santos forrozeiros mandaram ver nas chuvas e estas castigaram Salvador e as cidades do Recôncavo Baiano durante todo o período festivo. Entre uma chuva e outra fomos ficando em Salinas, curtindo a velha e boa preguiça que sempre bate na gente nos dias de chuva e frio.

Numa manhã nublada, quando já descambava para seis dias de ancoragem em Salinas, suspendi a âncora, icei as velas e aproei a foz do Paraguaçu. Pronto, estava novamente no rumo de Iguape e onde os amigos diziam ter camarão em banda de lata.

A ideia inicial era ancorar em algum lugar ao longo do rio, mas a velejada estava tão boa, com o Avoante navegando na estonteante velocidade de média de 2 nós, que as ideias foram mudando, os locais planejados foram ficando para trás e quando o sol se preparou para ir embora, numa curva do rio, surgiu as torres da Igreja e logo estávamos jogando âncora em frente ao povoado, com a noite tomando forma em meio ao lusco-fusco. Foi uma noite tranquila e de belos sonhos.

Quando o dia amanheceu e botei a cabeça para fora do barco, me deparei com a canoa Carolina de onde o pescador gritava: – Gringo, camarão? Olhei para os lados e como não havia outro barco na ancoragem, deduzi que o gringo era eu mesmo. – Quero, pode chegar!

Foi ai que conheci Seu Lito, um pescador boa praça e que nos adotou como amigos logo de cara. Compramos o camarão, mas como não tínhamos gelo, ele se ofereceu para levar para sua casa e guardar no freezer. Beleza! Ele ensinou o endereço e combinamos que pegaríamos no dia seguinte.

Como a maré estava baixa, esperamos ela subir para poder desembarcar. Como assim? O desembarque é o ponto franco em Iguape e em todas as cidades que margeiam o Paraguaçu, porque a lama espessa que se deposita no fundo torna o desembarque um tremendo desconforto.

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Infelizmente a visão dos administradores não permite que eles enxerguem o apoio a navegação como um bem maior para incentivar o turismo e o desenvolvimento das cidades. No passado existia sim um píer para embarque e desembarque, mas o que restou dele virou escombros abandonados que enfeiam a paisagem.

A maré subiu e desembarcamos. Precisávamos comprar gás de cozinha e água mineral, o que foi resolvido na primeira mercearia em que Lucia parou e bem próximo ao porto. Em seguida saímos em busca de Dona Calú e Seu Jarinho, proprietários de um pequeno comércio de bar e mercearia. Eles foram recomendados por alguns velejadores baianos que outrora estiveram por lá. Seu Lito nos informou que há muitos anos não ancora por ali veleiros com bandeira brasileira e por isso ele achou que éramos gringos.

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Como Dona Calu e Seu Jarinho são mais conhecidos no povoado do que farinha, não foi difícil achá-los. Do primeiro interlocutor já recebemos as coordenadas: – No primeiro pé de amendoeira que encontrarem na praça a mercearia deles é na frente. E era mesmo! O casal é uma simpatia e logo que fizemos as apresentações viramos amigos de longas datas. Eita povo bom!

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É esse carinho espontâneo e a simplicidade que me encanta.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O grande mar – I

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O slogan é ufanista sim senhor, mas dificilmente encontraremos algum nativo, por mais cético que ele seja, para assinar embaixo de uma contestação: Bahia, terra mãe do Brasil! E quem sou eu para dizer o contrário.

Sempre que adentro as históricas águas do Rio Paraguaçu, me vejo diante de um cenário deslumbrante, entrecortado por alguns clarões que demonstram a sanha dos desmandos produzidos pelos caras pálidas. Queria mesmo saber se na língua tupi existe uma palavrinha para substituir a expressão “besta quadrada”. Se existir, deve ser um baita palavrão, pois o povo índio é bom em resumir palavras abreviando os pormenores.

O Paraguaçu – grande mar na linguagem tupi – é uma imensa estante de uma biblioteca a céu aberto, recheada de livros imaginários, mas que narram em poemas uma história fascinante.

Nesses dez anos morando a bordo do Avoante, em que a Bahia foi o meu porto mais constante – tanto que ainda não consegui atravessar sua fronteira navegável, porque ainda não conheço tudo o que desejei conhecer – naveguei umas poucas vezes as águas do velho rio e sempre fui tomado por uma professoral entidade saída dos arquivos recônditos da história, que me faz ver com tristeza os rumos maledicentes que as coisas tomaram.

Contam a boca pequena que a área de mata que cerca a rio Paraguaçu já disputou pareia com a floresta amazônica. Se a afirmação é verdade eu não sei, mas um dia alguém escreveu sobre isso e olhando em minha volta, do cockpit do Avoante, não duvido mesmo. É muita mata ainda em estado bruto!

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Algumas traquinagens foram cometidas no passado e o presente nos mostra que os traquinos continuam em franca atividade. As margens do Paraguaçu ainda conservam muito da sua beleza, talvez até mais do que os defensores do progresso a todo custo desejassem que fosse, porém, por trás dos montes e longe dos olhos dos navegantes, a desfaçatez do homem paira sobre a poeira de uma devastação galopante. Continuar lendo

E nem choveu

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Sabe de uma coisa, a postagem Entre uma Chuva e Outra me deixou com uma pontinha de culpa, porque nunca achei que chuva fosse empecilho para deixar de velejar, a não ser, quando o vento resolve acelerar a música para animar a festa. Claro que se for aquele toró de lascar o cano, o melhor a fazer é pegar um bom livro, sentar e esperar o bicho acalmar. Depois que desliguei o computador, fui para o cockpit, olhei em volta, me indaguei e perguntei para Lucia: – Vamos sair? A resposta foi a mesma de sempre, porque para ela nada impede de velejar, alias, nada é empecilho para se deixar de fazer alguma coisa: – A hora que você quiser! Como eu já disse, a resposta eu já sabia, apenas perguntei para ouvir novamente. Recolhi o toldo, subi a vela grande, recolhi a âncora e deixamos Salinas da Margarida para trás e aproei o Rio Paraguaçu, numa velejada de lavar a alma, com o Avoante navegando na estonteante velocidade média de 2 nós – para que a pressa –, até que o sol se retirou de cena e jogamos âncora novamente em frente ao paraíso que ilustra essa postagem. E nem choveu. Quer saber que lugar é esse? Claro que muitos vão se adiantar em contar, mas mesmo assim vou atiçar a sua curiosidade. Depois eu conto!