Arquivo da tag: cruzeiro a vela

Observações sobre o litoral do Rio Grande do Norte

IMG_0195IMG_0171

Claro que não é nenhuma novidade a informação de que navegar a partir de Natal/RN em direção ao Sul é uma tremenda trabalheira, principalmente para quem está a bordo de um veleiro. A costa potiguar é riscada no sentido Noroeste – Sudeste e como a predominância dos ventos nessa região em grande parte do ano é sul e sudeste, a fama faz jus a razão. 

image

Na semana passada estive em dois pontos do litoral Sul do Rio Grande do Norte, visitando amigos que curtem os dias de verão, e fotografei duas pontas de terra que trazem dores de cabeça para muita gente. Eu mesmo já sofri um bocado. A primeira imagem é a Ponta Negra, olhada da enseada da praia de Cotovelo. A segunda é da Ponta de Tabatinga, olhada do alto do mirante dos golfinhos. A enseada que se forma entre essas duas pontas acolhe as praias de Cotovelo, Pirangi do Norte, Pirangi do Sul, Búzios e a própria Tabatinga. Todas com suas peculiaridades e com um visual de encher os olhos, mas querer se aventurar nesse miolo de oceano é o mesmo que trocar seis por meia dúzia e ainda arranjar motivos para se complicar mais a frente, no Cabo Bacoparí. Sair de Natal em busca dos mares do sul não é tarefa das mais fáceis em certas épocas do ano. Mas é preciso lembrar aqueles velejadores que vivem procurando desculpas esfarrapadas para não colocar o barco na água, que o verão puxa os ventos do quadrante norte e por isso mesmo tanto é gostoso subir, quanto descer a costa, ainda mais navegando em mar de almirante. Portanto, vamos velejar que o litoral brasileiro é simplesmente lindo!     

Anúncios

Cruzeirando na foz do Rio São Francisco – Capítulo II

Cruzeirando9Nesse Domingo, 13/04, em que o mapa do Brasil se divide entre chuvas, ventanias, muitas nuvens, Sol, seca e muito calor em Natal/RN, vamos seguir navegando no texto do velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, lá pelas águas rasas e misteriosas do velho Rio São Francisco.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO – CAPÍTULO II

Na imagem acima, de 2011, a barra N-S que deixamos a barlavento protege as passagens de oeste da arrebentação. Esta barra conforme mapeada na carta náutica (compare acima), tinha uma posição bem diferente, mostrando a dinâmica da foz do São Francisco. A entrada de leste, mais ampla e usada pelos barcos de pesca maiores estava quebrando todo o tempo que ficamos por lá. Do lado de Sergipe, a vila do Cabeço foi totalmente destruída com a erosão, e o antigo farol que ficava na vila hoje é deixado por boreste por quem entra; o canal agora está sobre as ruínas da vila.

Cruzeirando10Puxamos a âncora com meia maré, contornamos a barra no extremo sudeste de Sergipe e ancoramos na praia a sotavento da barra filado com o vento, no ponto que no mapa da p.4 está a norte de onde está marcado Vila, e na carta 1002 da DHN, desatualizada, está registrada uma estação maregráfica. Esta vila é o novo Cabeço, com seis casas e uma igreja pequena na parte alta da barreira. A vegetação rasteira de hidrofiláceas serve de pasto para os búfalos.

Cruzeirando11Beto Lia e Lara foram de caíque na vila e foram recebidos por Flavio, reformado da Policia Militar como enfermeiro. Ele fez um caminho de tábuas por onde passa com o carrinho de mão por sobre o areião. Plantou um pomar de 0,3 ha. na parte alta do areião, que ele rega toda madrugada com água dos poços rasos que perfurou e completou a 4,5m de profundidade. Da próxima vez que for lá vou levar para ele um rolo de tubo de polietileno de irrigação. O ribeirinho aqui é muito hospitaleiro, e à tarde um canoeiro foi nos oferecer um xaréu de 3kg. No processo de assar o xaréu no forno acabou um bujão de gás.Cruzeirando12No dia 21 saímos na enchente da manhã para deixar Beto em Piaçabuçu, almoçar em terra e reabastecer o bujão de gás. Na subida do rio o piloto automático deixou de funcionar, o que me deu um frio na espinha. Liguei para Igor, que perguntou a mensagem de erro do piloto, fez um diagnóstico e me deu instruções de como proceder. Fui executando os procedimentos e localizei um fusível de 25 ampères com corrosão, que André que é mais jeitoso lixou e o piloto voltou a funcionar. Ufa! Nem pensar em timonear por dois dias no retorno. Em Piaçabuçu Liana adotou um garoto de 11 anos, Alexandre, muito esperto, que operou como nosso guia e almoçou conosco. No retorno ancoramos no perau ao lado das dunas móveis na costa alagoana, no ponto onde param os barcos de turismo. Nos anos 60, quando havia exploração de petróleo por aqui, uma manhã o tratorista estava futucando as dunas migratórias com uma vara. – O que você está fazendo? – Procurando um D8!Cruzeirando13Cruzeirando14

.Dia 22 o pessoal ficou de leseira fazendo nada, e eu troquei as válvulas da bomba da latrina que estava com vazamento. Lara passou a escova na linha d’água e limpou o casco de uma das canoas impregnado de algas oceânicas; quando eu elogiei o trabalho, ela disse ‘foi até divertido’. À tarde fomos caminhar na praia de fora da barreira e observar a barra arrebentando na maré cheia. A areia da barra emersa em Sergipe é de grã média e mergulha para dentro com estratificação horizontal, que interpretei como o registro do back-shore, formado quando o nível do mar estava mais alto 5m, o que na curva de variação eustática feita para a Bahia ocorreu há 5,1 mil anos, na época que cresceram os recifes de Abrolhos. A alimentação de sedimentos na foz do rio São Francisco, que tem uma vazão média de 2700m3/seg, manteve a barra estável enquanto o nível do mar descia para a altura atual, desenvolvendoCruzeirando15

vegetação, mas dois fatores contribuem para a erosão que André mediu de 120 metros em 5 anos: as barragens das usinas hidroelétricas no médio S.Francisco, que retém a carga de fundo a montante, e a elevação do nível do mar, que mata a vegetação desestabilizando a barreira que é levada pela corrente litorânea. No processo, da antiga vila de Cabeço, onde nasceu o Flávio, restam as ruínas da escola e do cemitério que engancham as redes de pesca, e o farol abandonado para fora do canal atual. A Marinha instalou um farol novo a barlavento sobre as dunas no lado alagoano do rio.

Angústias em um mar espelhado

IMG_0285

Passa longe de mim a ideia de ser especialista em alguma coisa, principalmente em navegação, que é o que me envolve há quatorze anos. Mas acho que posso dizer que já conheço um pouco, apenas um pouco, do que é a rota Natal/Salvador, que já naveguei dezenas de vezes e em todas elas aprendi e desaprendi alguma coisa.

Certa vez conversando com um amigo, que se acha o dono dos mares e dos ventos, me espantei quando ele falou que nenhum mar conseguia lhe surpreender, por que as milhas que ele já navegou lhe dão o direito de domar tudo o que vier pela frente. Preferi ficar calado a ter que responder aquele disparate. Dizem que o mundo é dos audaciosos, mas eu prefiro achar o contrário.

Não ache que existem poucas pessoas nos mares com o mesmo pensamento desse meu amigo. Em todos os lugares, principalmente sobre os palhoções dos clubes e marinas, encontramos pessoas que acham o mar um ser domável e extremamente previsível. Muitos acham tudo tão fácil que dificilmente se dão o trabalho de ir ao mar. Preferem gastar toda a teoria que um dia aprendeu nos livros, ou em conversas ao redor de uma boa churrasqueira, a ter que mostrar na prática se realmente sabe o que diz.

Quando olhei para o tapete de mar, que navegávamos este ano entre Sergipe e Bahia, sem um sopro sequer de vento, lembrei do meu amigo rei dos mares. O que será que ele diria quando chegasse em terra? Será que diria que netuno se rendeu a sua passagem ou será que diria que nunca mais navegaria em um mar calmo como aquele? Envolvido nas perguntas, e afirmações possíveis, fiquei apreciando aquele mar de sonhos e vendo o nosso Avoante se deslocar como uma imensa preguiça dos mares. Coisa de quem não tem o que fazer!

Essa foi a navegada que muitos pedem a Deus e que derrubam todas as barreiras. É numa dessas que muitos se acham super competentes e tudo pode ser incrivelmente previsível. Deve ser em um mar assim que o meu amigo vira as costas para os elementos da natureza e se acha infalível. Aquele era um mar que mais parecia um grande lago do mais puro azeite. Mais liso impossível, mas alguma coisa nos espreitava ao longe.

Nada naquele mar parecia real. Em nossa volta, nuvens encobriam o mundo deixando as nossas manhãs com aquele jeitão de verão europeu, que eu não conheço, mas que deve ser assim. O Avoante deslizava tão macio, empurrado pela força do motor, que até as pequenas ondulações produzidas pelo atrito do casco com a água se transformavam em criativos desenhos em nossas mentes.

O céu estava tão encoberto de nuvens que nos dois dias e meio de duração da nossa travessia não tivemos a felicidade de visualizar o pôr do sol. Nuvens escuras e ameaçadoras se formavam ao longe e relâmpagos iluminavam por cima dos morros. Ecos distantes de trovões davam aquela sensação que alguma fera estava prestes a voar sobre as nossas cabeças. Era tudo tão surreal que passávamos horas a observar o céu, a procura de algum sinal que disparasse um alarme. Como se eu já não estivesse com todos os sentidos em alerta. Aprendizados! Nada mais do que aprendizados.

São situações como essa que me faz ver que não sabemos nada sobre a natureza. Podemos até nos cercar de todas as modernas tecnologias meteorológicas, mas apenas para ler as previsões e nada mais. Nos poucos momentos em que tive acesso aos sinais da net e do celular, busquei informações do que estava acontecendo com o tempo ou o que poderia acontecer, mas nem de longe consegui nada que pudesse descrever o que estávamos presenciando. Aquele era o tipo de mar que qualquer roteirista de filme de amor americano gostaria de ter como cena de fundo: O veleirinho navegando sem adernar, a atriz sem nem assanhar os cabelos, o ator se desmanchando em tórridas declarações e de vez em quando um clarão iluminando o céu para mostrar que a vida é bela.

Nunca desejei tanto avistar os lampejos do Farol da Barra e adentrar as águas da Baía de Todos os Santos, para receber a proteção do Senhor do Bonfim. Queria fugir de todos aqueles olhos que nos espreitavam não sei de onde. Queria respirar aliviado, apesar de estar navegando em um mar mais aliviado impossível. Sonhava estar ancorado quando todos aqueles elementos resolvessem dar início a festa. Mas ao mesmo tempo pensei nas palavras do meu amigo, porém não me vi com capacidade de domar nada, muito menos a natureza.

Atracamos o Avoante no píer do clube Angra dos Veleiros e em menos de duas horas o mundo desabou sobre nossa cabeça. Acho que deu para escutar um sussurro: Seja bem vindo a Bahia! Só me restou agradecer.

Nelson Mattos Filho

Velejador

Tempo para cruzeirar

Imagens 060

Para você que procura e não acha motivos e vive criando soluções mirabolantes para sair velejando por aí, leia o texto do velejador baiano Gerson Silva, que agora também navega nos marés da net com o blog Tô Indo Velejar, e inicie o seu fim de semana com velas ao vento.  

Desde o início desta fase da minha vida que tenho vontade de escrever sobre “tempo para cruzeirar”. Não confundir com velejar. Dedicar tempo para esta atividade não é fácil e traz uma série de leves complicações na vida social. Começa pela ausência aos eventos passando pela exclusão social até a diminuição da perda financeira por diminuir a jornada de trabalho.

Aí é que começam as técnicas para compensar o deixar de acumular bens materiais pelos ganhos espirituais, sem que no futuro haja arrependimentos. É lógico que precisamos fazer uma base inicial, sólida, para as expectativas do horizonte que desejamos alcançar. A matemática consiste em usar 30% do acumulado para comprar o barco adequado ao sonho, 30% para o custeio da vida como um todo (barco e suas manutenções, clube ou marina, plano de saúde, viagens, comunicação, combustível e o dia-a-dia). A outra fração, equivalente a 40%, deve ser destinada a compensação pela depreciação de tudo conseguido. Investimentos em aluguéis, aposentadoria, meios para trabalhos extras sem vínculo empregatício são bem vindos.

A compra do barco certo não existe, pois tem uma máxima que diz: “barco é como um cobertor curto, você cobre a cabeça e descobre os pés”. Então o que fazer para diminuir a probabilidade de erro. Converse, leia, pergunte, confronte as opiniões das varandas dos clubes. Aprenda a velejar e, paralelo a isto estude, faça curso para Arrais, Mestre e, se possível, Capitão Amador. Lendo você terá subsídios para questionar e comparar as opiniões. Tente velejar em alguns barcos, oferecendo-se para ajudar no translado e suas impressões começarão a sedimentar sobre este ou aquele de barco.

Ok, horizonte definido, barco comprado, reformas e adequações feitas, chegou a tão sonhada liberdade. Inicialmente é muito confuso, principalmente se você tinha uma vida muito ativa. E agora seus amigos estão ocupados e você neste delicioso ócio. No meu caso optei por desacelerar paulatinamente, trabalhando de segunda a quarta até as 14 horas. Após esta jornada, vou ao barco e executo uma tarefa por mais simples que seja. Não esqueça que trabalho num veleiro é o que não falta, seja ele novo ou usado. Faça uma lista das tarefas e nunca tente zerar, até porque se conseguisse, acabaria a graça.

Chega o final de semana, barco abastecido de combustível, água e alimentos, quatro dias pela frente, previsão de tempo tirada. Para onde vou? Comece com velejadas de no máximo 50 milhas do seu porto. Nove horas em média a depender do barco para cobrir esta distância. Como um canário que o dono abriu a porta da gaiola, todos os anos faça uma “pernada” maior, acima de 200 milhas.

Como exemplo, posso citar Salvador/Santo André-BA, 218 milhas náuticas. Quase dois dias de mar e paz. Linha de pesca na esteira do barco e uma gostosa ansiedade pela chegada. A programação deve sempre ser feita para chegarmos com o alvorecer aos portos desconhecidos. No fundeio, com o barco bem ancorado, e só curtir que você merece. Não queira saber dos noticiários: DNIT, Obras do PAC, Empreiteiras, MST, CUT, Une, Linha vermelha e a Copa do nosso Mundo.

Abraços e seja feliz. Tô Indo!

Gerson Silva/Veleiro Tô Indo

CRUZEIRO COSTA NORDESTE

O 1º CRUZEIRO COSTA NORDESTE – CCN que vai acontecer em Janeiro de 2011, este mês recebeu uma valiosa ajuda da Revista Náutica, que é a revista de maior edição no meio náutico brasileiro, numa nota comentando o evento. O CCN também esta no fórum online da Revista Náutica. O CRUZEIRO COSTA NORDESTE é um passeio de veleiro pela costa nordestina, partindo de Natal dia 02 de Janeiro de 2011, com destino a Salvador, com paradas em Cabedelo, Recife, Praia dos Carneiros, Maragogi e Maceió. As inscrições  já podem ser feitas através do Site: http://www.cruzeirocostanordeste.blogspot.com/.

NOTÍCIAS DO CCN

O CCN – CRUZEIRO COSTA NORDESTE, uma iniciativa de um grupo de velejadores do Rio Grande do Norte, já navega de vento em popa e com 4 barcos já pré-inscritos: Dianteiro, 2×1, Avoante e Musa. O Cruzeiro larga de Natal dia 01 de Janeiro de 2011 no rumo de Salvador/BA, com paradas na Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O site do CCN já esta em construção e em breve vai ao ar. Se depender do retorno dos contatos mantidos até o momento, o evento vai ser sucesso. Veja o comentário e fotos do lançamento neste blog.