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Cartas de Enxu 49

10 Outubro (26)

Enxu Queimado/RN, 03 de setembro de 2019

Saulo, estava aqui pensando nas coisas dessa Enxu mais bela, enquanto dava umas bicadas numas doses da dita, bendita ou “mardita”, melhor cachaça do mundo, produzida lá no pé da serra seridoense de Samanaú, e rindo sozinho com os muitos moídos que já vivi e presenciei por aqui e foi aí que dei conta que faz tempo que você não dá o ar da sua graça sob a sombra dessa cabaninha de praia. Lembrei de você e também do saudoso e inesquecível Campeão, que adorava ouvir os causos acontecidos nas quebradas dessa prainha arretada de boa. Pois é, meu amigo, o tempo passa, passa ligeiro, segue em frente e deixa o fascínio em forma de lembranças e saudades, algumas boas, outras más, mas quando misturadas, dão o sentido que rege a vida.

Saulo Júnior, como não mirar o maravilhoso coqueiral esparramado sobre a beira mar, e não lembrar das estripulias caridosas de Dona Ana, uma das muitas figuras folclóricas do álbum de Enxu? Dona Ana era avançada demais para uma época em que a inocência nem se dava conta que um dia perderia a razão diante das ideias beligerantes e filosóficas dos intelectuais modernosos. Conta a lenda, que a velha madame, apaziguadora da alma curiosa e irrequieta dos meninos de então, quando o assunto era sobre as formas libidinosas do amor, ela não deixava ponto sem volta. Pois bem, certa vez estávamos em um grupo de bate papos sob a sombra de uma árvore, e ela passa caminhando nos passinhos curtos e lentos dos seus oitenta e tantos anos bem vividos. Ao vê-la passar, Seu Neném fala: – Dona Ana! Ela para, olha e pergunta: – Que foi Neném? – Os meninos estão dizendo que a senhora não dá mais no couro! Ela põe as mãos no quadril, dá uma rabissaca, olha por cima do ombro e desdenha: – Aí, uhuuuuu!!!!! E seguiu sua caminhada, deixando a turma em boas gargalhadas.

Mais uma dose e lá vem a cena acontecida numa noite de Lua nova na estrada que liga Enxu a Pedra Grande. Alma era um rapaz que vivia de comprar pequenos peixes em Enxu Queimado para revendê-los nos povoados mais distantes. Quando terminavam as vendas, Alma se encostava no primeiro balcão de boteco que encontrasse na beira da estrada e entre uma cachacinha e outra ficava de olho aboticado na estrada na esperança de pegar uma carona que o levasse no rumo da volta. Naquela noite o tempo passou rápido na localidade do Alto da Aroeira e nada de aparecer a sonhada carona e assim a cachaça foi duplicando nas ideias, pois fazia poucos dias que Santo, seu velho pai, havia falecido e a branquinha tanto aliviava a dor, quanto aumentava a saudade. Lá para as tantas ele escutou o ronco de um trator e se posicionou na beira da rodagem. O trator, puxando uma carroça, foi chegando, ele pediu parada, mas, Zeca, o tratorista, que vinha guiando no piloto automático, mais bêbado do que o caronista, nem notou sua presença e seguiu em frente. Alma, macaco velho nas artes da carona, apressou o passo e pulou para dentro da carroça, suspirando aliviado, porque já estava perto da meia-noite e a possibilidade de passar outro veículo por ali era difícil.

Quando as luzes do pequeno povoado ficaram para trás, Zeca, de relance, notou a presença de alguém sobre a carroça e gritou: – Quem vem lá? – É Alma! – Alma de quem? – De finado Santo! Saulo, os cabelos de Zeca arrepiaram, ele acelerou o trator até o motor sair do tom e se danou a dar rabos de arraia pela estrada, jogando o trator de um lado para outro, tirando fino nos galhos de jurema preta e nada da Alma desaparecer. E assim foi a correria e o desespero até chegar em Enxu, quando Zeca, já bonzinho da cachaça, meteu o pé no freio, pulou do trator ainda em movimento, olhou para trás e lá estava Alma com os olhos aboticados e gritando; – Zeca, você está ficando doido? Quase me mata, homi! Zeca, quase sem fala e já recuperando a cor, respondeu puxando o que restava de ar dos pulmões: – Fii de uma égua, você que quase mata de susto, seu desgraçado! Segundo contam, depois desse dia Zeca perdeu todos os cabelos da cabeça. Pense num medo!

Pois é, Saulo Andrade dos Santos Junior, meu cunhado e irmão de querer bem, se for contar todos os causos, contos e fatos que fazem parte da história dessa prainha paraíso, é de fazer uma ruma bonita e cheia de graça. Tenho muita coisa guardada na cachola, outras em borrões de anotações e você bem sabe de um bocado, pois entre umas e outras já escutou muitas e riu boas risadas. Mas não custa vir aqui para escutar tudo de novo e rir novamente, pois assim são as coisas boas dessa vida. Aliás, daquela garrafa de Samanaú, a melhor do mundo, deixei sobrar um pezinho de uns quatro dedos, viu! Venha pra gente fechar a contabilidade e venha logo, senão a danada evapora!

Nelson Mattos Filho

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