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“…A terra que é o meu viver…”

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Estas imagens retiradas do tempo contam um pedacinho da história de Natal, capital do Rio Grande do Norte, minha querida terra do Sol. Claro que não alcancei nada do que está mostrado nas imagens, mas me reconheço na beleza desse pequeno acervo e me encho de saudade de uma cidade outrora feliz. Os retratos foram enviados pelo meu irmão, Iranilson, que recebeu de um amigo, aos quais agradeço. Um dia o compositor Pedro Mendes cantou assim “… Essa é uma terra de um deus mar/De um deus mar que vive para o sol…”

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Cartas de Enxu 01

Agosto (11)

Antes de começar a escrevinhar a primeira das Cartas vou dizer que não será preciso você se benzer três vezes e nem se arvorar de um crucifixo para ler, pois o enxu aqui não se refere ao Orixá Exú e sim, a praia de Enxu Queimado, um pedacinho delicioso do litoral norte do Rio Grande do Norte, onde a vida ainda insiste em caminhar sobre um cotidiano bucólico, apesar da presença ameaçadora de gigantescos totens eólicos, que mais parecem mamulengos transformadores de belíssimas paisagens em cenários devastados de filmes futuristas, em que personagens disputam o reinado da brutalidade.

Após onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante, um veleirinho arretado de bom, e escrevendo o cotidiano da vida sobre o mar nos textos Vida Bordo, que ultrapassou o número quinhentos – cinquenta deles publicados no livro Diário do Avoante, lançado em 2013, – decidimos passar uma temporada em terra firme e escolhemos a praia potiguar para seguir no novo rumo. Essa mudança se deu em junho de 2016, porém, não havia criado coragem para escrever sobre ela, porque não tem sido fácil digerir essa mudança e nesse primeiro momento, tenho andando meio assustado com o que tenho presenciado nas ruas das cidades. Na verdade, os primeiros dois meses foram de tratamento de choque, pois viramos prisioneiros forçados numa Natal sem dono, sem Lei, sem alma, sem essência e sem esperança.

– Oh Natal, cidade cascudiana de Poti, povoado que acolheu com fervor o codinome dos Reis Magos – comunicadores das boas novas. Pedaço de terra defendido com arcos, flechas e tacapes pela nação Tupi. Noiva do Sol. Cidade trampolim da vitória de uma guerra absurda e desumana. Vilarejo entre o rio e o mar e abençoado por Nossa Senhora da Apresentação. O que fizeram como você Natal? Quem a descaminhou pelas brisas errantes? Logo você Natal, que tanto se orgulhou dos alísios que a acariciam. Hoje você é uma cidade retraída, cabisbaixa, esmaecida, amedrontada, desiludida e desapartada do seu maravilhoso sorriso largo. Seus abraços já não são os mesmos, pois existe um que de desconfiança entre você e o abraçado. Suas ruas já não nos acolhem com alegria. Em qual das suas esquinas ficou para trás a musa e poética linda baby? Oh Natal, você não merecia tanta desfeita e tanto abandono!

Pois bem, Cartas de Enxu não é para desabonar cidades e muito menos relatar as tristezas da vida, mas sim, deixar algo escrito, mesmo que em linhas desalinhavadas, da riqueza de costumes e valores de um pequeno povoado, e suas vizinhanças, encravado entre o mar e o sertão. Um lugar de gente alegre, extremamente acolhedora e que, mesmo diante das adversidades, consegue olhar para o mundo com um olhar de inocência. Uma prainha que há mais de 25 anos flechou meu coração e passei a amar. É nessa prainha praieira que me instalei depois de desembarcar de uma vida de sonhos e será da varandinha da minha choupaninha, cercada de coqueiros, que olharei para o mundo e talvez passe batido em temas que desassossega o país e o resto do planeta, pois as coisas por aqui ainda caminham lenta e com os pés na areia. O cotidiano por aqui ainda segue os princípios do mar, apesar dos ventos terem trazidos boas novas nas pás de um progresso meio atrapalhado. É na poeira avermelhada das ruas e becos de Enxu, que buscarei a vitamina para azeitar meus escritos e quem sabe, deixar material para quem um dia quiser pesquisar o passado olhado da varandinha de uma casinha de praia.

A Terra é um vulcão em permanente estado de erupção e nada melhor do que a gostosura de uma rede armada, diante do frescor de uma sombra macia, para servir de camarote de observação. É com o passar dos dias bucólicos nessa prainha ainda nativa, que conserva as origens de sua colônia de pescadores, que olharei as lavas fumegantes do vulcão. Será através de uma lente desnuda dos malabarismos das modernosas ferramentas de edição que me transportarei pelos caminhos dos escrevinhadores. Posso até cometer os costumeiros erros crassos, que sempre cometi nas crônicas Vida a Bordo, mas seguirei.

Aliás, sobre a palavra crasso, que passou a estar presente em minha mente, não tenho muito o que falar, a não ser relembrar: – Certo dia um leitor, ao encontrar-se comigo em um evento, puxou-me pelo braço e disse como se segredasse um pecado: – Gosto de sua escrita e é a primeira coisa que leio ao abrir a Tribuna do Norte, aos domingos. Gosto muito, mas você é muito crasso! Sorri, agradeci, apertei sua mão e sai matutando. – O que danado é isso? Socorri-me aos universitários que estavam na mesa e ao chegar em casa tratei de conferir no pai dos burros. E lá estava: “Crasso: Grosso, denso, espesso, rude. Falha, erro grave”.

Pois é, escrever não é fácil.

Nelson Mattos Filho

Um marco para a navegação

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“…Essa é a cidade de um deus mar, de um deus mar que vive para o sol…” Pedro Mendes, cantor e compositor potiguar, musicou Natal/RN de um modo mais belo impossível e olhe que nem sei se um dia ele já se fez ao mar para ver a Cidade do Sol de frente. De lá ele veria três Reis Magos seguindo o brilho de uma estrela e dai seus versos seriam cada vez mais encantadores. Ponte Newton Navarro, um grande marco de referência da Barra de Natal e que pode ser avistado a quase 20 milhas náuticas. Não se perca, mas conte com muito cuidado as pilastras dos estaiamentos.      

Em defesa de uma jangada esquecida

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“Minha jangada vai sair pro mar/Vou trabalhar, meu bem querer/Se Deus quiser quando eu voltar, do mar/um peixe bom, eu vou trazer…/Meus companheiros também vão voltar/E a Deus do céu vamos agradecer…” Assim cantou Dorival Caymmi em sua bela poesia Suíte dos Pescadores.

Na bela cidade do Natal, que Câmara Cascudo carinhosamente apelidou de Noiva do Sol, existe na beira do mar uma jangada esquecida. Ela está lá, sofrendo calada e a cada dia sentindo que o seus dias estão próximos do fim. A pobre jangada, símbolo maior de um nordeste praieiro, se desmancha sob o Sol. Suas velas já se foram, talvez levadas pela sutileza dos ventos alísios, tão comuns nessas paisagens, na tentativa de aliviar a sua dor. A idosa embarcação, que há muito deixou a lida dos mares, se ofereceu para posar numa praça com o sugestivo nome de Praça da Jangada, pensando ela que sua voluntária exposição trouxesse sangue novo as suas irmãs de alma marinheira e também que sua beleza fosse levada aos quatro cantos do mundo`pelos clicks fotográficos dos milhares de turistas que visitam a cidade dos Magos. Nada de nada, pois sua vida passou a depender da boa vontade do prefeito da vez e nem sempre a causa deles é a causa do mar. Dizem, o que não acredito nem a pau, que o prefeito atual mora em frente a esse monumento esquecido. Se isso for mesmo verdade, o alcaide todos os dias, ao abrir a janela do seu quarto, deve dar de cara com a dor de uma embarcação jogada a própria sorte em cima de um passeio público. Mas é assim mesmo, aprendi que nessa vida de tantos desenganos e maledicências governamentais não seria uma pobre jangada a despertar atenções. Isso não é uma denúncia, é apenas uma solitária defesa de uma jangadinha esquecida que pede socorro. Praieira dos meus amores/Encanto do meu olhar!/ Quero contar-te os rigores/ Sofridos a pensar/ Em ti sobre o alto mar…” .E assim escreveu o poeta Otoniel Menezes em sua magistral Serenata do Pescador, conhecida também por Praieira, que alias, pelo decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, o governo municipal de Natal considerou o poema musicado por Eduardo Medeiros, o “Hino da Cidade”.

Essa é uma terra de um deus mar…

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A praia de Ponta Negra, em Natal/RN, sempre mereceu a estatueta da fama por fazer parte do seleto grupo dos mais belos cartões postais do litoral brasileiro. Sempre! Eu sou fã de carteirinha de suas águas mornas e de suas areias apetitosas para uma deliciosa caminhada despreocupada a beira mar, ou mesmo para sentar e deixar o tempo passar a vontade. Porém, nos últimos anos a bela praia potiguar cantada em verso, prosa e poesia parece que só tem merecido castigo por dispor de tanta beleza. Tudo começou há mais de vinte anos com a construção de uma pequena e extravagante rua a beira mar que trouxe toneladas de problemas em ritmo de atacado. Ponta Negra que era bela por natureza, passou a ter rugas de preocupação em sua paisagem exuberante. Saíram os refrescantes coqueiros  que traziam sombra e aconchego e entraram em cena maliciosos e ultrajantes guardas sol, plantados nas areias por comerciantes e barraqueiros de olho na falta de vergonha e incapacidade de governantes atarantados. Tudo foi multiplicado pela ganância humana por mais espaço e o dinheiro fácil da implacável fúria imobiliária. Sem ter a quem recorrer, o mar resolveu retomar seu território e em simplórios arroubos de força, de vez em quando destruía um pedaço da extravagância dos humanos. Vieram os ambientalistas travestidos de boas intenções e logo o circo se transformou em uma imensa torre de babel. Todos querem. Todos mandam. Todos dão palpites. Todos querem o máximo. Todos se fazem de durões, mas ninguém quer realmente resolver coisa nenhuma, pois o negócio bom é reclamar e protestar. As imagens que ilustram esse post não mostram nada do assassinato visual que a bela Ponta Negra está sofrendo, preferi assim. Queria mostrar uma praia bonita e dona de uma personalidade somente sua, por isso aparece em primeiro plano a fantástica baía de águas apetitosas, e segue com a visão da larga passarela de areias molhadas e, por fim, o belíssimo conjunto de rochas marinhas que margeiam o Morro do Careca. A natureza dotou Ponta Negra com o mais belo e nunca imaginou que um dia a cidade dos Reis Magos lhe virasse as costas. Hoje os incapazes estão construindo um incrível muro da vergonha com montanhas de pedras soltas e achando que encontraram a fórmula para reinventar a roda. A cada pedra colocada a praia se enfeia um pouco mais, mas é assim que querem os homens. Os comerciantes, que se acham únicos donos do pedaço, continuam mandando, dando ordem a torto e a direito e intimidando a quem fizer cara feia. No calçadão que está recendendo mais uns metros de incredulidade, os ambulantes já estiram suas bancas mini shoppings e em breve devem ganham o título de usucapião. É triste, mas é assim!  

Entre um bolinho e outro a gente vai ficando mais redondo

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Acho que já comentei aqui várias vezes sobre os encontros de velejadores que acontecem em Natal, o palco nem sempre fica restrito as varandas do Iate Clube do Natal, mas é sobre esse palco que quero falar novamente, já que estamos ainda sob os efeitos etílicos-gastronômicos do Pós-Regata Fernando de Noronha/Natal e por aqui ainda se encontra uma turma boa, animada e que basta um estalar de dedo para começar uma festa. A flotilha dos apressados, ou melhor, dos regateiros de carteirinha, já deixaram a Cidade do Sol há muito tempo, mas os sempre devagar, que são os cruzeiristas, ainda estão por aqui pegando um bronze e aumentando a silhueta. Alguns estão com as velas prontas para se mandar para as águas macias e cativantes do Mar do Caribe e de lá se esparramar pelos mares do mundo. Outros ficam olhando o vento e esperando um bom motivo para deixar Natal e voltar para o Sul maravilha. Mas no final, todos ficam mesmo é de olho na churrasqueira e nos anúncios diários de festas e comilanças, pois basta alguém chegar da feira com uma sacola mais recheada, que os outros já ficam na espera por um convite. É de mais homi! Até os barcos parecem entrar nesse esquema de maré mansa e festa, pois alguns insistem em não querer conserto e todo dia inventa uma munganga. Tem deles que só se resolve com reza braba. Eduardo Zanella que o diga! No rastro dessa flotilha de aventureiros sem pressa e loucos por um bate-papo descontraído, fica o grupo de velejadores nativos dessas terras do cacique Poti, que a todo momento inventa uma novidade para os visitantes se esquecerem de ir embora. No frigir dos ovos e das lufadas de vento, os cafés das segundonas e os encontros de quartas-feiras ultimamente estão com carga dobrada, sem falar nos intervalos entre um e outro. Comecei esse post na intenção de falar das receitas e dos sabores deliciosos que a todo momento surgem de algum barco visitante, ou mesmo da turma caiçara, como o Bolinho de Bacalhau, cujas fotos ilustram esse texto, e que foi produzido a bordo do veleiro Andante, por Fernando e Paula, editores do blog Do Bar pro Mar e que faz parte do BlogRoll do Diário do Avoante.  O casal velejador é proprietário do Bar do Português, na cidade paulista de Bauru, e está aproveitando a delícia do fundeio do Rio Potengi enquanto espera a vontade de zarpar subir a bordo. Mesmo que você prometa doar dois conjuntos de velas novas para o Avoante eu não vou dizer a receita do bolinho, pois isso é segredo de estado, guardado debaixo da quilha do Andante e eu também não sei. Mas que o bicho estava bom estava! No mais, eu e Lucia já desistimos de olhar a balança e agora estamos tentando a todo vapor engrenar umas caminhadas pelo calçadão da beira mar, o que conseguimos até agora foi apenas gastar o solado dos tênis e umas dorezinhas pelo esqueleto, mas estamos na luta. Só que, essa luta está desigual e acho que enquanto essa turma não for embora, vamos ter que comprar mais uns pares de tênis.