Arquivo da tag: cidade de mariana

A lama do Feijão é a cara do Brasil

incidente-brumadinho-v6Mais uma vez estamos cara a cara com mais uma tragédia, mais uma barragem rompida, mais explicações infundadas e mais uma vez o palco trágico é o belo Estado de Minas Gerais, onde em novembro de 2015 a barragem do Fundão, localizada no município de Mariana, rompeu, ceifou 18 vidas e provocou o maior desastre ambiental brasileiro,  jamais reparado e até o momento vem, descaradamente, sendo jogado de um lado a outro nos tribunais de justiça. Brumadinho é uma cidade linda, localizada nas cercanias da capital mineira, com uma população estimada em torno de 40 mil habitantes, destaca-se pelos grandes mananciais de água que abastecem um quarto da região metropolitana de Belo Horizonte e também por abrigar em suas terras o maravilhoso museu Inhotim, um dos mais importantes acervos de arte contemporânea brasileiro, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina. Hoje, 25/01, o Brasil acordou para descobrir que a lição de Mariana não foi aprendida, não serviu para nada e aqueles que perderam seus entes queridos, suas casas e histórias de vida, mais uma vez irão chorar de pavor e descrença nas leis dos homens, diante do rompimento da barragem da mina do Feijão que até o momento, segundo as autoridades, existem 200 desaparecidos e lugarejos praticamente riscados do mapa. Assim como em Mariana, a mineradora Vale S/A assina o enredo do terror. – Quer saber? – Mais uma vez vamos engolir a lama goela abaixo!       

Anúncios

UAI! Parte 11

1 maio IMG_0004 (767)

Peço que não se apeguem aos comentários desairosos, na página anterior desse relato, sobre o rio do Carmo que banha a cidade de Mariana, porque ele não está solitário no abandono. Todos os rios brasileiros, todos sem exceção, estão jogados a própria sorte e assim vamos seguindo em frente.

1 maio IMG_0004 (658)1 maio IMG_0004 (660)

Confesso que sabia pouco, ou quase nada, sobre a cidade de Mariana, até o desgraçado acidente da barragem inserí-la no noticiário mundial. O município com 360 anos de fundação e 59 mil habitantes tem um passado glorioso. Foi primeira vila, primeira capital, sede do primeiro bispado e primeira cidade a ser projetada em Minas Gerais. O nome é uma homenagem de Dom João V a sua esposa, rainha Maria Ana D’Austria. Em 1945 o presidente Getúlio Vagas concedeu a cidade o título de Monumento Nacional, por seu significativo patrimônio histórico, religioso e cultural.

1 maio IMG_0004 (725)1 maio IMG_0004 (736)

Chegamos a cidade pela estação do trem e sinceramente não gostei da parte moderna, porém, bastou uma breve caminhada para desembocarmos na parte histórica e sermos tragados pela magia da arquitetura colonial. Há quem diga que a arquitetura das cidades mineiras se repete, mas é aí que mora a beleza, porque é um conjunto de fazer inveja ao mundo e quase tudo em elevado grau de preservação. O centro histórico de Mariana é uma pintura dos deuses das pranchetas, onde se destacam a Casa da Câmara e Cadeia, as igrejas da ordem terceira de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo e um pelourinho, congregando assim os símbolos da justiça, poderes civil e religioso. Caminhar pelo bem cuidado largo ao redor dos monumentos é um momento de reflexão e mais um resgate da história do Brasil colônia.

1 maio IMG_0004 (748)1 maio IMG_0004 (751)1 maio IMG_0004 (752)1 maio IMG_0004 (755)1 maio IMG_0004 (764)1 maio IMG_0004 (768)

Como aconteceu nas outras cidades que visitamos, a nossa passagem por Mariana também foi meteórica e deixamos muito a ser visto, o que é um pecado para quem deseja conhecer Minas Gerais, um estado dotado de um acervo histórico fora do comum. Mas o tempo é o senhor da razão e a rotina de um turista depende de uma complexa engenharia para acomodar sonhos e desejos. Valeu ter caminhado pelas ruas de Mariana e ter visitado um pouco de suas entranhas. O munícipio é muito maior do que a tragédia que se abateu sobre ele e seu povo tem feito um esforço enorme para limpar a lama da irresponsabilidade sem ferir sentimento de amor-próprio. Tomará que o futuro reserve a cidade o retorno aos gloriosos dias que marcaram o passado e que a sanha dos interesses exploratórios dos homens siga por caminhos que foquem na retidão de caráter.

20160529_1152071 maio IMG_0004 (772)1 maio IMG_0004 (778)1 maio IMG_0004 (779)1 maio IMG_0004 (781)1 maio IMG_0004 (785)

No retorno a Ouro Preto, que ficou sendo nossa base na região, tivemos uma das melhores surpresas gastronômicas de toda a viagem. Ao caminhar pelo centro em busca de um restaurante para almoçar, fomos abordados por um guia e este indicou o restaurante Conto de Réis, localizado em uma íngreme ladeira, que só em olhar é capaz de levarmos um escorrego. O restaurante é instalado em uma senzala de um casarão do XVIII e apresenta no cardápio a mais tradicional e farta cozinha mineira. Inesquecível!

1 maio IMG_0004 (823)20160529_1418181 maio IMG_0004 (846)

O dia seguinte pegamos a estrada e descemos para o Sul para conhecer a região das manifestações, que envolvem as cidades de Prado, Tiradentes e São João del-Rei. No caminho entramos em Congonhas, cidade famosa por resguardar a escultural obra “Os Doze Profetas”, de Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho. A obra é exposta no adro da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos e se completa com as seis capelas que contam a Via Sacra de Jesus Cristo, formando um conjunto paisagístico de encantar. Outro destaque da cidade é o prédio da Romaria, que abriga museus e centro cultural, e sua história está ligada aos milhares de romeiros que visitam a cidade em uma das mais tradicionais festas religiosas de Minas, que a do Bom Jesus. A visita a Congonhas é imperdível.

1 maio IMG_0004 (853)1 maio IMG_0004 (849)

E por falar em Aleijadinho, a história do mais importante artista do barroco mineiro é envolta em um véu de lendas e controvérsia. A vida do artista é contada a partir de uma nota biográfica escrita quarenta anos após a sua morte e a vasta coleção de sua obra, mais de 400 trabalhos, carecem de comprovação documental. O apelido foi devido a uma doença degenerativa que não se sabe a causa. Aleijadinho, o maior e mais reconhecido artista plástico, morreu pobre, doente e abandonado, como a grande maioria dos gênios artísticos, na cidade de Ouro Preto, em 1814. A data de seu nascimento também carece de pesquisa, mas contam que ele nasceu em Vila Rica, em 1730.

1 maio IMG_0004 (854)

Deixamos Congonhas envolvidos pela beleza da obra dos Doze Profetas, mas não deixei de notar que aos pés dos profetas, sentado na escadaria da igreja, um velho mendigo estendia a mão em busca de migalhas. Seria um reflexo do final da vida do artista ou seria um retrato vivo dos profetas?

1 maio IMG_0004 (859) 

A viagem segue!

Nelson Mattos Filho/Velejador

UAI! Parte 10

1 maio IMG_0004 (624)

Não tem como passar indiferente pelas cidades históricas de Minas Gerais e quando botamos os pés em Ouro Preto não tem como deixar de se envolver pela aura que emana pelos poros de suas pedras. Tudo ali é de um fascínio sem igual e o povo vive como personagens do grande palco que a cidade, que já foi capital, representa. O difícil é deixar ser possuído pela pressa quando se visita Ouro Preto, pois em cada esquina o encanto se multiplica, em cada ladeira a paisagem nos leva a querer mais e nas calçadas os cheiros e os sabores que invadem as ruas é uma tentação para espíritos glutões. Aliais, não é preciso ser glutão para se esbaldar na cozinha mineira. – Quero ver quem controla a dieta diante de um fogão à lenha, carregado de panelas com tutus, torresmos, galinhadas, carne de porco, doces, queijos e uma saudação no típico sotaque mineiro! Se for visitar Minas Gerais, deixe a dieta em casa e bote o pé na estrada sem medo de ser feliz.

1 maio IMG_0004 (636)

Nesse relato, que já chegou à Parte 10, acho que já falei de quase tudo da gastronomia, dos museus, da arquitetura e das igrejas das terras das alterosas, mas sempre falta aquele detalhezinho que fica martelando o juízo e fico tentado a escrever. Muitos que estão acompanhando, e até já recebi comentários sobre isso, devem achar que estou me estirando demais nesse “UAI!”, mas peço um pouquinho de paciência e digo que um dia eu termino. Como diz um sábio amigo: “- Tudo tem seu tempo.”

1 maio IMG_0004 (824)

Olhe, vou dizer uma coisa: – No dia em que o Arcebispo mineiro acordar pelo avesso e decidir mandar soar todos os sinos das igrejas do estado, o mundo todo ouvirá o badalar. Pense numa terra para ter igreja! E cada uma mais linda e formosa do que outra. Pensei essa blasfêmia enquanto caminhava numa manhã pelas ruas de Ouro Preto e em menos de um quarteirão passamos por umas cinco igrejas até entrarmos na Igreja do Pilar, onde tivemos uma magistral aula sacra diante dos detalhes ali esculpidos.

1 maio IMG_0004 (803)1 maio IMG_0004 (610)1 maio IMG_0004 (616) 

Poderia ter ficado horas e horas escutando o guia contar os segredos do cristianismo expostos na Igreja do Pilar, pois adoro saber das coisas que achava que sabia e adoro o clima de paz e tranquilidade que existem dentro das paredes de uma igreja. Não é a suntuosidade que me encanta, mas sim a sutiliza das verdades desnudas e que passam despercebidas da grande maioria dos fieis. Precisávamos seguir em frente em nosso passeio e o trem não espera. Pedi licença ao Senhor do Pilar e fomos ligeiro para a Estação para embarcar no Trem da Vale que nos levaria até a cidade de Mariana.

1 maio IMG_0004 (640)1 maio IMG_0004 (644)1 maio IMG_0004 (678)1 maio IMG_0004 (681)1 maio IMG_0004 (691)

Infelizmente a Velha Maria Fumaça não estava em atividade na época da nossa visita, porém, o trem que embarcamos oferece uma viagem, não tão poética, mas com muito conforto e alegria. Embarcamos em um vagão com ar-condicionado e bancos espaçosos, mas com o precinho um pouco salgado. Poderíamos ter embarcado nos vagões mais simples e mais baratos, porém, como já disse em outras passagens, a cabeça de um viajante é esquisita e cheia de manias. Compramos a passagem somente de ida, pois à volta decidimos pegar um ônibus que faz a linha regular entre os dois municípios. Ideia acertada e que nos deu uma excelente interação com o povo do lugar. Foi no ônibus que escutei todo o relato de um funcionário da mineradora Samarco, a que causou uma das mais terríveis destruições ambientais do Brasil nos últimos tempos, e pelas palavras do jovem funcionário, que estava trabalhando no dia do acidente, a coisa foi uma catástrofe sim, mas, segundo ele, muito do que se diz na imprensa, e nos anais dos relatórios ambientais, não condiz com a verdade e ele pede a Deus e aos homens que a empresa não feche as portas, porque, isso sim, seria o fim de Mariana. Segundo ele, a mineradora tem assumido todas as responsabilidades sobre o acidente e cumprido todos os compromissos para manter a dignidade dos funcionários e dos moradores atingidos. Como diz o ditado: “Toda história tem dois lados, ou vários.”

1 maio IMG_0004 (694)1 maio IMG_0004 (701)1 maio IMG_0004 (703)1 maio IMG_0004 (713)1 maio IMG_0004 (714)1 maio IMG_0004 (719)1 maio IMG_0004 (721)

– E sobre Mariana? – Calma que vou falar, mas primeiro me deixe falar na viagem do trem. O trem é um programa patrocinado pela empresa Vale do Rio Doce e faz uma viagem inesquecível por entre vales, penhascos assustadores, desfiladeiros, cachoeiras e muito verde. A viagem dura em média 30 minutos em um ritmo lento e valorizando a paisagem para o clique dos fotógrafos e gritos de espanto dos passageiros. Na chegada a Mariana o turista pode visitar uma antiga locomotiva e subir em sua cabine de comando para posar para fotos. O que mais me chamou atenção durante a viagem foi justamente a chegada, porque o rio do Carmo, que banha uma cidade que sofreu um desastre ambiental monstruoso, está totalmente poluído e sendo bombardeado por toneladas de lixo e intermináveis tubulações de esgoto. Claro que alguém haverá de dizer que um erro não justifica outro, o que é muito justo, porém, se é para abrir os olhos, vamos abrir por inteiro e não por frestas.

1 maio IMG_0004 (727)1 maio IMG_0004 (740)1 maio IMG_0004 (743)1 maio IMG_0004 (744)1 maio IMG_0004 (745)

– Sim, e sobre a cidade? – Bem, agora só na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A lama

lama

Lama quando não é limpa no devido tempo se transforma em porcaria e quando as pessoas se acostumam com o mau cheiro vira piada e nada mais. A lama produzida pela ingerência gananciosa de uma mineradora e, volto a repetir, com as devidas assinaturas oficiais, continua espalhando seu fedor e levando milacrias a lugares que nem de longe tinham haver com a desgraça. Alias, fazia dias que a mídia não produzia uma linha sequer, nem comentário, sobre a sujeira, mas ela continuou sua viagem com tintas marrons pelo oceano Atlântico. Quanto aos mortos, desaparecidos e a destruição que ficou para trás pelas cidades e rios, restou apenas promessas vãs. Até promessa ministerial garantindo o impossível foi ouvida, como se a lama e a natureza agredida obedecesse a sanha demagógica dos discursos politiqueiros. Apostou-se no mar para limpar a sujeira, mas ele se recusa a servir de lixeira e o lamaçal navega serelepe ao sabor dos ventos e correntes marinhas. Será que haverá algum decreto governamental para dar uma chave de rodas nos elementos e determinar que o mar acabe com a picuinha de não dar fim a bagaceira? Duvido não! A lama está resistente e agora o Ibama diz que ela chegou ao paraíso de Abrolhos, um berçário da natureza na costa da Bahia. Agora deve surgir novos desmentidos, novas promessas, novos estudos e nem me espanto se aparecer alguém afirmando que é intriga.