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Entre uma chuva e outra

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Nesse período junino queríamos ter navegado por algumas cidades que margeiam o Recôncavo Baiano, não seria uma viagem para balançar o esqueleto nos muitos forrós espalhados por ai, mas sim para rever lugares que nos encantou em um passado recente, para saber se o encanto ainda prevalece. Apos ancorar em Itaparica e festejar uma noite de São João chuvosa, aproamos o Avoante para a cidade de Salinas da Margarida para uma breve parada antes de subir o histórico Rio Paraguaçu. Pois é, a breve parada se estendeu além da conta, os santos forrozeiros já recolheram as sanfonas e hoje, 30/06, ainda estamos ancorados em frente a bela cidade de Salinas. Mas juro que não foi por vontade própria e sim por força das chuvas que castigaram o Recôncavo. Não foram chuvas torrenciais que duravam o dia todo, mas pancadas insistentes, que deixavam o céu muito nublado e que despejavam água a qualquer momento, trazendo um friozinho gostoso durante a noite. Esse é justamente o quadro meteorológico que o velejador de cruzeiro adora, porque dá aquela velha vontade de ficar um pouquinho a mais da conta. Dá uma preguiça!

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E já que estávamos na companhia dos amigos dos veleiros Ondine e Tô Indo, Gomes e Lia, Gerson e Lili, tirávamos os dias chuvosos para nos reunirmos cada dia em um veleiro diferente em seções gastronômicas de engorda magro, como mostra as imagens a bordo do Ondine. Os amigos já retornaram a Salvador e nos continuamos aqui olhando para o tempo parcialmente nublado e de vez em quando batendo perna pelas ruas largas e limpas da cidade de Salinas da Margarida. 

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O desmonte de um paraíso

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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Cruzeirando pelas águas da Bahia – III

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Canoas na Ilha de Bom Jesus dos Passos – BA

 

Quando me perguntam o que tem de tão especial na Baía de Todos os Santos, BTS, que faz o Avoante – depois de dez anos em que moramos a bordo – continuar cruzando suas águas para lá e para cá, confesso que costumo olhar para o interlocutor com a certeza de que ele realmente não conhece o mar do Senhor do Bonfim. Na Parte I e Parte II dessa postagem, navegamos em Morro de São Paulo e terminamos aproados na Ilha de Itaparica para saborear um churrasco a bordo do veleiro Acauã. O churrasco foi servido sob uma Lua maravilhosa e embalado pelos acorde do violão dedilhado pelo comandante Elson Mucuripe, mas infelizmente vou ficar devendo o registro fotográfico da noitada, porém, sem esquecer de dizer que foi um encontro memorável, pois o Webber é um anfitrião sem igual.

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Quando o dia amanheceu em Itaparica recolhemos âncora para seguir nosso passeio, agora em direção ao portinho da Ilha de Bom Jesus dos Passos, por trás da Ilha do Frade, mais conhecido entre os velejadores como Saco de Suarez, que aqui já foi relatado em duas postagens: Um lugar e A tribo dos pés-descalços. O lugar é simplesmente lindo e limpa os olhos de qualquer mortal mais exigente. Ancorar por ali, embarcar no botinho inflável para um giro entre as ilhas e mangues que cercam a paisagem é um programa imperdível. Mas se preferir, pode apenas sentar no cockpit, abrir uma cerveja gelada e ficar em silêncio diante da natureza.

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O portinho é rota comum para os velhos Saveiros, personagens vivos da história da Bahia, e dizem que por ali os holandeses, na época das grandes invasões, ficaram camuflados durante quase 60 anos sem que os portugueses dessem conta. Será? Para qualquer lado que miramos o olhar, se descortina uma paisagem de sonho. Quanto ao pôr do sol, não tenho como descrever.

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Certa vez ouvi falar de um riozinho que corta parte da Ilha do Frade, mas nunca havia aparecido a oportunidade para desbravá-lo. Olhando na Carta Náutica ele está lá e se chama Rio Cabuçu. Como o Elson queria fotografar o Saveiro Tupy que descarregava mercadorias na Ilha de Bom Jesus, deixamos o Avoante ancorado no círculo vermelho indicado na imagem da Carta, sob os cuidados de Lucia e Fabiane, e somos até lá retratá-lo. O Mucuripe, como todo homem do mar, vibrou ao chegar próximo a valente e histórica embarcação. Ao sair dali, resolvemos navegar um pouco pela ancoragem e ficamos frente a frente com um igarapé mais largo e achei que aquele era o tal riozinho. Passamos pela foz uma vez, duas e na terceira decidimos adentrar. A visão que tivemos foi fascinante. Estávamos a pouco mais de 12 milhas náuticas de uma grande metrópoles e navegando cercado por uma natureza em estado quase bruto. Se não tivéssemos encontrado um morador de uma fazenda e umas máquinas que denunciavam a retirada de areia nas margens, poderíamos jurar que aquele lugar estava parado no tempo. Não sei precisar a profundidade do Rio Cabuçu, pois não levamos o eco sonda manual, porém, ele é estreito e suas margens tracejadas de pequenos igarapés. Perguntamos ao morador da fazenda até onde iria o rio, ele respondeu que terminava ali onde estávamos. Olhamos para frente, vimos muita água a ser navegada e seguimos um pouco mais. Navegamos ainda por quase meia milha por minúsculas ilhotas e resolvemos dar meia volta quando o sol já caminhava serelepe para o seu descanso. Um dia eu volto!

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Pois é, a Baía de Todos os Santos é linda sim e duvido que tenha lugares no mundo com uma sincronia tão perfeita dos elementos da natureza para satisfazer os amantes do mar. Elson Mucuripe e Fabiane ficaram nove dias embarcados no Avoante e conheceram apenas um pouquinho do que a Bahia tem a oferecer ao navegante, mas tenho certeza que gostaram do que viram. Foram nove dias degustando a paisagem e saboreando as deliciosas receitas produzidas por Lucia. O casal Mucuripe batizou o passeio de charter gastronômico e prometeu retornar muito em breve para um segundo roteiro. O mar da Bahia é um encanto! 

Cruzeirando pelas águas da Bahia – II

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Quando me perguntam por que Ilha da Cal, confesso que não sei nem um centavo o motivo, mas tem quem a chame de Ilha do Cal e é assim que a Carta Náutica batiza esse pequeno paraíso bem baiano. Mas prefiro chamá-la no feminino, pois assim aprendi nas minhas primeiras andanças pelo mar do Senhor do Bonfim. Essa ilhazinha que irradia paz e tranquilidade em quem navegar pelo Canal Interno de Itaparica oferece um delicioso fundeadouro para os amantes do silêncio. Alguns velejadores baianos e outros tantos cruzeiristas brasileiros contam que em outras épocas a Ilha serviu de base para churrascos e festas da vela, porém, nos dias atuais o proprietário não é muito afeito a quem pise em suas areias brancas e limpas. Uma pena mas tudo bem, ancoramos ali assim mesmo apenas para apreciar a beleza, a natureza e a noite que é uma maravilha.

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Foi lá que jogamos âncora quando saímos da Fonte do Tororó com o casal Elson e Fabiane Mucuripe. O banho por ali é muito gostoso, onde mergulhamos em uma água morna  e convidativa. Foi lá que Lucia serviu uma incrível moqueca de Banana com Camarão, acompanhado de pirão dos deuses. Essa moqueca é especialidade de Lucia e dificilmente você irá degustar em outro local que não seja o Avoante. O nascer da Lua cheia foi a senha para Elson dedilhar o violão e assim encerramos a noite. Quando o dia clareou, tomamos café, levantamos âncora, subimos as velas e voltamos para a Ilha de Itaparica onde tínhamos um convite do amigo Webber, veleiro Acauã, para um churrasco a bordo.

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Com essa imagem do Avoante ancorado ao largo da Fonte do Tororó vou deixar você com água na boca, mas espere um pouquinho mais pela terceira parte.

 

Cruzeirando pelas águas da Bahia.

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Como falei na postagem anterior, fiquei uns dias sem dar o ar da graça por aqui, mas foi por um motivo justo, estávamos navegando na companhia do casal Elson Mucuripe e Fabiane, que saíram do oceano endiabrado do Lago Paranoá, em Brasília, para uns bordos mais tranquilos pelas águas do Senhor do Bonfim. A primeira ancoragem foi diante dessa Lua maravilhosa que iluminou de poesia a Baía de Tinharé, onde se localiza o badalado Morro de São Paulo.

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Iluminado pela magia lunar, o violeiro Mucuripe deixou fluir sua veia musical e tocou e cantou até fazer calos nos dedos. Lucia, para não deixar barato, nos presenteou com maravilhoso jantar, servindo costela de porco ao molho agridoce, acompanhado de risoto de jerimum. Jurei que ninguém no mundo, naquele instante, estava saboreando uma comida tão deliciosa como aquela e com um fundo musical tão perfeito.

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Apos duas noites ancorados em frente a Gamboa do Morro, um fundeadouro gostoso, mas que merece um pouquinho de atenção, pegamos o beco de volta para a Baía de Todos os Santos, onde adentramos no começo da tarde de um dia de verão. Para festejar a velejada, um través de ida, outro de volta, Elson e Fabiane nos convidou para jantar em um dos restaurantes da Marina de Itaparica.

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O dia seguinte tiramos para navegar o canal interno da Ilha de Itaparica, com parada na Fonte do Tororó, para um delicioso banho de mar e terminamos o dia jogando ancora ao largo da Ilha da Cal, onde passamos a noite diante de mais um cenário dos deuses. Não se avexe, mas na próxima postagem eu continuo.

O primeiro do ano

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Depois de uns dias de ócio curtindo o mar da Ilha de Itaparica, enquanto o novo ano se acomoda no tempo, estou novamente por aqui para ir narrando o dia a dia da vida de um velejador de cruzeiro e contado coisas e causos da vida sobre o mar. Mas não se avexe, pois como diz a música: “…veleiro vai devagar…”. Hoje, 08/01, em Itaparica, o dia amanheceu com nuvens cinzentas cobrindo o azul do céu e um chuvinha resolveu molhar a terra para aguar os pés de manga e caju, os mais deliciosos símbolos do verão. Alias, caju é a pareia mais perfeita da cachaça, que também é puro verão. Tai, gostei da dica para curtir esse dia de céu nublado! Céu nublado? E essa foto de céu limpo que ilustra o post? Calma que eu explico: Esse foi o registro dos primeiros raios de Sol do dia 2 de Janeiro.   

Os números do Diário do Avoante de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog e só temos a agradecer a todos vocês que fizeram esses números serem tão significativos. Cento e dez mil tripulantes somente em 2014 é uma responsabilidade muito grande para quem comanda um veleirinho de 33 pés de tamanho e com um coração tão imenso quanto todos os oceanos do mundo. Desejamos ter todos vocês com a gente em 2015 e adicionar outros 110 mil novos tripulantes, para assim ampliar essa comunidade tão amiga do Avoante. Um grande beijo Nelson e Lucia  

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 110.000 vezes em 2014. Se fosse o Louvre, eram precisos 5 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo