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O fogo, o luxo e o causo

2cdb4637-a96f-427b-bd8d-7761d8eca5c0A manchete de um site de notícias diz assim: “Embarcação de luxo pega fogo e é destruída no litoral de São Paulo”. Aí, vamos escarafunchar a matéria e encontramos uma lancha não tão de luxo assim, a não ser pelo preço que pelos padrões brasileiro, que tem uma legislação jurássica em relação a venda de embarcações importadas e protegendo não sei nem o que, encarece o que poderia ser barato e leva a náutica nacional a conviver com a pecha de ser coisa de rico. O acidente aconteceu, nesta terça-feira, 05/09, na baía de São Vicente/SP e os dois tripulantes da lancha foram resgatados sem ferimentos, os Bombeiros foram acionados, a Capitania dos Portos vai abrir um inquérito e o proprietário, se não tiver seguro, ficará no prejuízo. Mas o que me encuca é o “luxo” inserido, sem necessidade, na manchete e lembro de um fato ocorrido na época do impedimento de um certo presidente metido a galo cego. Naquele tempo o furdunço na imprensa era grande e cada um que aumentasse um ponto no conto e uma chicotada veio bater no lombo de um velejador alagoano, que teria sido assessor presidencial. As revistas semanais pareciam fogueiras da inquisição e os jornalistas assinavam os atestados da queima, tudo bem parecido com tempos mais modernos, mas era assim e assim vai ser para o sempre. Pois bem, uma revista estampou a foto do tal assessor a bordo do seu veleiro, com a manchete anunciando que o homem estava disfarçado, no rumo da ilha de Fernando de Noronha, em um enorme iate de luxo que deveria custar os olhos da cara. O velejador foi a ilha maravilha, voltou depois de uma semana e ancorou o veleiro em Cabedelo/PB, até que os ventos dessem condições de seguir viagem até a capital alagoana. Num belo pôr do sol de início de verão, com o famoso sax do Jurandir entoado o bolero de Ravel, um fotografo das bandas do Sul ouviu um buchicho da mesa ao lado, que o barco do tal assessor estava ancorado numa marina local. O fotografo, ávido pelo furo jornalistico, mais do que depressa correu para marina e num papo de pé de orelha com o vigia, conseguiu a liberação para tirar retratos de alguns barcos atracados ali. Com o vigia ciceroneando o passeio, ele foi batendo retrato, perguntando sobre os barcos e nada de chegar no tal veleiro de luxo. No fim do passeio, sem ver o veleiro, o retratista perguntou, assim como quem não quer nada, qual era o barco do assessor do presidente, o vigia apontou e seguiu o diálogo – É aquele!  – Esse? – Sim, esse mesmo! – Pequeno desse jeito? – Sim, esse é um veleiro de 30 pés e deve ter uns 20 anos! – E quanto custa um barco desse? – Acho que uns R$ 50 mil. O fotografo fechou a cara, botou a máquina no saco e antes de se retirar, falou: – Ó bosta!       

Causos e surpresas

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Muitas vezes é difícil saber em que pé navega a verdade em uma história que tem o mar como pano de fundo. Isso acontece com pescadores, velhos e novos marinheiros e velejadores. Tudo fica enorme quando a emoção passa a valer mais do que a razão, ainda mais quando existe uma plateia avida a ouvir ou quando se quer apenas dar uma pequena valorizada na narrativa acrescentando algumas estrelas douradas de heroísmo.

Final de Outubro de 2014 estive no Iate Clube do Natal para pegar um veleiro e comandá-lo entre Natal e Salvador. Chegando lá fui convidado para fazer parte de um churrasco em que os tripulantes do veleiro Tranquilidade comemoravam, com um pouco de atraso, as participações nas regatas Recife/Fernando de Noronha e Fernando de Noronha/Natal, edições 2014. Para quem acompanha as páginas desse Diário deve lembrar que falei em como essas travessias foram duras para as embarcações e consequentemente deixando marcar profundas em muitos tripulantes. De norte a sul do país a cantilena é uma só: Foi uma viagem terrível!

Mas tudo passou e hoje todos festejam a vida ao sabor de grandes resenhas digeridas com cervejas, vinhos, outras bebidas e fartas lascas de carnes na brasa. E é nessas horas que tudo se transforma e os olhos dos interlocutores se enchem de espanto. Continuar lendo

Madeira que cupim não roi

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Uma das boas coisas dessa vida meio nômade a bordo de um veleiro, pulando de porto em porto, são os encontros com os amigos e as conversas que rolam soltas, ao redor de uma recheada churrasqueira, pois velejador adora churrasco, e lavadas com boas canecas de cervejas.

Quem achar que pescador e caçador são os maiores criadores de histórias do mundo é porque não viu um grupo de velejadores conversando. Velejador também tem algumas manias extravagantes. Raramente uma onda é uma onda e na grande maioria, os ventos sopram com muito mais força.

Tem histórias e causos para todo tipo de situação e todos com requintes hilários de deixar a turma dos programas humorísticos com a boca aberta. O caso que vou relatar e que relembrei com muitas risadas enquanto conversava, em Salvador/BA, com o amigo Erico Amorim, você pode acreditar que foi verdadeiro, apenas recebeu alguns toques da minha imaginação, já que quem conta um conto aumenta um ponto.

É o caso de um velejador potiguar que inventou de fazer uma boa reforma em seu trimarã. O barco tinha pedigree em velocidade, mas não dava conforto à tripulação. Tentando resolver a situação, o velejador resolveu, ele mesmo, fazer um projeto e dar andamento a reforma. Essas coisas nunca dão tão certo! Ainda mais quando não se tem muita afinidade com cálculos e ângulos. Continuar lendo

Um caso de novela

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Sempre gostei do mar, mas meu primeiro contato com barcos a vela foi quando estava visitando a Ilha de Santo Aleixo, no litoral de Pernambuco, e me encantei quando vi um veleiro tipo hob cat chegando com dois tripulantes cansados e mais molhados do que pinto debaixo de água. A surpresa maior foi quando os dois tripulantes disseram que vinha de Natal/RN e iriam para Maceió/AL. Olhei espantado e perguntei: Nesse barquinho? O tripulante mais carrancudo me olhou e nem respondeu, apenas pediu que eu ajudasse a colocar o barquinho na areia.

Pois foi justamente esse carrancudo metido a galo cego que, um ano depois, encontrei no Iate Clube do Natal que foi meu primeiro professor de vela. Na verdade não teve outro, pois na segunda saída ele já me entregou o timão do barco e disse: Se vira! Cláudio é o nome dele e hoje é um dos meus grandes amigos.

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O capitão hipoglós

Rapaz!!! Tem umas coisas que acontecem a bordo que a gente fica assim meio receoso de contar. As vezes ficamos remoendo o assunto em pequenas reuniões de amigos, e sempre tem gente que fica sem fôlego de tanto dar risadas. Mas, tem um ditado antigo que diz: “É melhor perder o amigo, do que perder a piada”. O assunto em questão não é bem uma piada, mas chega bem próximo. Tomara que o amigo em questão, e que eu não digo nem amarrado quem foi, não fique com muita raiva, mas se ficar, vou torcer para que nasça muito cabelo em sua cabeça.

Numa REFENO qualquer, o Avoante, como sempre entupido de amigos, deslizou suave entre os últimos colocados na linha de largada. Na verdade nosso veleirinho já é tão acostumado a sair no passo de tartaruga, que a gente nem se incomoda mais em espiar a flotilha indo embora e a gente ficando para trás. Para confirmar o que eu digo, já ganhamos até o troféu Tartaruga Marinha. Foi uma festa de lascar! Bem, vamos voltar para nossa história original. Largamos, atravessamos o canal do Marco Zero olhando a paisagem, demos uns 4 bordos para vencer a Boia Norte e Puff! Voltamos para consertar a roda de leme que estava querendo abandonar o barco. Aperta daqui e folga de lá, colocamos “ordem” na casa, ou melhor barco, e voltamos para a regata. Regata? A regata já havia saído a mais de 5 horas e nós ainda ali tirando onda de regateiro. Assim, traçamos o rumo e miramos a Ilha de Fernando de Noronha. Depois de um dia navegando em busca do paraíso, um dos tripulantes resolveu encarar o sanitário de bordo. Todos sabem que enfrentar um banheiro de barco, quando velejando, não uma coisa muito boa, principalmente para quem não está acostumado. Mas, o nosso amigo depois de muitas desistências e muitos dilemas, resolveu encarar a toca do leão. Desceu bem devagar, e tentando mudar o foco do pensamento, e assim caminhou contando os passos até o famigerado banheiro. Com os olhos fechados fez o que tinha de fazer, mas antes, já tinha se surpreendido com um cheirinho gostoso que se expandia no ar. Naquele devaneio aliviado de um número dois bem feito, ficou matutando de onde viria aquele cheiro maravilhoso que estava sentindo. Com seus botões comentou: “Poxa! Lucia cuida muito bem desse banheiro. Acho que é para a gente se sentir mais a vontade”. Terminou o serviço e o cheiro não saia do ar. Ficou novamente pensando:  “Um cheiro muito parecido com uma pomada que eu não me lembro qual.  É um cheiro muito parecido com bunda de menino novo. É um cheiro de…… HIPOGLÓS!!!!!” Rapaz, esse cheiro é no meu trazeiro! O caso foi o seguinte: Em conversa no clube, disseram a ele que para não ficar assado, nas partes baixas, deveria usar Hipoglós. Ele não contou conversa, gastou um tubo completo na buzança e ainda comprou mais três para uma eventualidade. Na hora de ir ao banheiro, ele estava tão preocupado em não enjoar que esqueceu da melança e ficou viajando na pomada.  Ao retornar ao cockpit contou o ocorrido para a tripulação, a risadagem rendeu até o final da viagem. Como desgraça só presta grande e a turma não deixa barato, apelidaram ele de Capitão Hipoglós. 

Causos do mar

Terra Caída 023 O mar é cheio de causos hilários, eu até já contei vários deles aqui, e sempre me divirto em contá-los e ouvi-los. E quando eles não acontecem com a gente, à coisa fica sempre mais engraçada. Eu mesmo sou protagonista de vários, mas vamos deixá-los para lá e vamos nos divertir com os outros. Continuar lendo

Uma tarde de risos

almoço com antonio e ro

É muito bom receber amigos e quando eles chegam carregados de bons fluidos então! Ontem quando recebemos uma ligação do casal Antônio e Rosângela dizendo que estavam vindo nos dar um abraço, eu já sabia que teríamos um começo de tarde com muito bate-papo e com muito riso. O gaúcho/potiguar Antônio e sua Rô, são daquelas pessoas que parece que a vida esta sempre sorrindo para eles e sempre com o astral nas alturas. Relembramos muitas histórias engraçadas e pitorescas do mundo da vela, algumas teve o próprio Antônio em participação especial. Uma delas aconteceu quando ele se ofereceu para cortar o cabelo de Eduardo Zanella, pois Antônio é um grande, no tamanho e no profissionalismo, cabeleireiro. Como no momento estava sem os apetrechos profissionais, pediu emprestado a máquina de cortar cabelo do Avoante e levou seu “cliente” para a prainha ao lado do Iate Clube do Natal e onde existia uma tomada de energia. Cortar o cabelo, ao ar livre e olhando para a paisagem espetacular do Rio Potengi é um privilégio de muito poucos, e tanto o cliente, quanto o profissional parecem que ficaram realmente extasiados diante de tanta beleza. Eduardo pediu para que fosse usado o pente número 1, e assim foi feito. Conversa vai,conversa vem e o trabalho foi sendo concluído ao ritmo de assuntos relativos ao mundo náutico. Nessa questão Antônio é um poço sem fundos e Eduardo é um oceano completo. Com as gargantas secas de tanto bate-papo, o corte do cabelo chegou a final. Antônio ao guardar os apetrechos percebeu que dois fios de cabelo tinham escapado da fúria daquela máquina de tosa, pediu que Edu continuasse sentado que ele iria fazer um acabamento mais apurado. Pegou a máquina, que já estava guardada, e sem perceber que o pente número 1 não estava no devido lugar passou em cima dos dois fios revoltosos. O resultado foi uma grande clareira na cabeça do desavisado Edu. Antônio não se fez de rogado e continuou passando a máquina nos cabelos que restaram em volta daquela clareira. Edu vendo o trabalho ser recomeçado questionou: – Rapaz, você não disse que tinha terminado? Antônio, sem se abalar retrucou: – Terminei, mas resolvi melhorar ainda mais o serviço, pois você merece. Quando a peleja enfim terminou, Edu foi ao banheiro para se ver no espelho e Antônio correu para dentro do Avoante e ficou bem quietinho. Lucia perguntou como foi o corte do cabelo e ele respondeu que foi tudo bem e Edu tinha adorado. Nesse momento chega Edu, p. da vida, com a cabeça brilhando mais do que espinhaço de pão doce, e querendo saber onde estava Antônio. O píer se encheu de risos e o Edu, sem ter mais o que fazer, tratou de colocar um boné na cabeça, pois o Sol de Natal não alisa cabeça raspada.