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Cartas de Enxu 46

janeiro a junho (233)

Enxu Queimado/RN, 05 de agosto de 2019

“ Seja bem-vindo ao caos, comandante! ”

Zé, meu amigo, nunca esqueci suas palavras quando lhe informei que estava deixando o mar, habitat que vivi, a bordo do veleiro Avoante, por onze anos e uns meses de lambuja, para retornar ao cotidiano das cidades. Naquele dia suas palavras soaram como uma sentença e até imaginei que seria assim, mas sinceramente, não sabia que a extensão do caos fosse tão grande. Está feia a coisa, meu amigo, e tem horas que a vontade é de largar tudo novamente, mergulhar de cabeça nas águas de Iemanjá e sair por aí cortando as ondas dos oceanos.

Comandante, confesso que fazia uma ruma de tempo que não caminhava pelas paragens inebriantes do Blogueio Maldade, mas juro que não foi por falta de tempo, pois desde que tenho sentado praça nos meandros dessa Enxu mais bela que o tempo não me falta, mesmo envolvido que estou em produzir e servir a melhor pizza do universo, sempre me sobra umas horazinhas para cultivar ramos de flores de ócio. Pois bem, essa semana acertei na tecla do eu e o maldade e lavei a alma com sua verve arretada de boa. Aliás, sob a sombra dessa minha cabaninha de praia, de frente para o coqueiral, tenho lido muita coisa boa e até já perdi as contas dos personagens que saíram das páginas para dar um passeio comigo sobre a imensidão de praia que por aqui se estende.

Mauro, vou te contar um segredo, a personagem que mais desejei que o passeio não terminasse nunca foi uma tal de Pilar, maranhense arretada da cidade de Codó, filha de uma mãe de santo do terecô, uma doidivana dos sete costados e que um dia se tornou a líder espiritual mais poderosa do país. É difícil esquece as estripulias de Pilar, figura saída das ideias do escritor PJ Pereira, no livro A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, e mais difícil ainda não se apaixonar por essa mulher que descabela os mistérios da fé.

Zé Mauro, adoro os livros, mas tenho uma verdadeira paixão por crônicas, principalmente aquelas escritas nos recantinhos das páginas dos periódicos e digo mais, aposto todas as fichas que nos dias de hoje não existe um jornal brasileiro tão bem servido de bons cronistas como o potiguar Tribuna do Norte. Os cabocos que aportaram por lá ultimamente são conhecedores do riscado e deixam a gente com as bilocas dos olhos aboticados e o juízo tremendo de felicidade. Rapaz, Seu Henrique botou para reiar na escalação do time e não tem timeco espanhol que consiga trocar passes e nem passar do meio de campo. Veja aí a escalação: O meio de campo é comandado por Seu Woden; na cabeça de área quem manda é Seu Vicente que não dá mole para ninguém; na zaga central tem o danado do Cassiano; na ponta direita, avançando pelo meio tem um magro chamado Alex e na ponta esquerda o titular indo e voltado é o menino Rubinho. – Centro avante? – Tem não, pois tudinho sabe fazer gol, e só gol de voleio! Sabe, Zé, tempos atrás fui convocado para o time da Tribuna, mas só consegui vaga como reserva de gandula.

Ei, amigo, você viu que lá em riba falei que minhas pizzas eram as melhores do universo? Pois é, as danadas são boas sim, mas não sabia que era tanto até que um menino passou caminhando com o pai e afirmou: “- Pai, a pizza daqui é a melhor do universo”. Pois bem, como criança não mente, fiquei todo faceiro com a nota recebida. E por falar em universo, dia desse ouvi dizer que ele tinha 90 bilhões de anos-luz de extensão e na mesma hora minha cachola se danou a fazer contas e quando viu que não tinha capacidade para um numeral tão avantajado, deu um pânico. Isso mesmo, pânico e depois eu explico o prumode, mais antes vou tentar refazer essa conta, em um papel de pão, que deve ser assim: Se 1 ano-luz tem nove vírgula tantos trilhões de quilômetros e, segundo o caboco que estava anunciando a novidade, o universo tem 90 bilhões de anos-luz de tamanho, o resultado da conta é 873 trilhões. Vixe, vou é parar por aqui pois já estou vendo estrelas.

Tá bom, Zé, vou falar no pânico. Dia desses Lucia disse a uma amiga que havia ligado várias vezes e ela não atendia o telefone. Ela respondeu que o celular estava em pânico. – Em pânico? – Quem danado fez medo a esse aparelho? – Não, minha filha, o bicho caiu no chão e espatifou-se!

José Mauro Nogueira, que tal vir dar um passeio nesse paraíso praia para trocar as relíquias da morte e usar sem moderação a pedra da ressureição? Aqui é um dos poucos lugares sagrados guardados a sete chaves pelos bons feiticeiros e por todos os anjos do Céu. Aqui a vida caminha lenta, mas tem todos os desejos que você procura para aposentar de vez a capa da invisibilidade.

Antes de colocar o ponto final e antes que você fique a matutar nos escritos até aqui, vou em busca dos versos do jornalista Alex Medeiros, quando ele diz assim: “Meus escritos são momentos/de alegrias ou de desertos/nada mais que sentimentos/algo bem maior do que versos”.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 34

1 Janeiro (108)

Enxu Queimado/RN, 08 de janeiro de 2019

Pois é, Tio, mais um Natal se foi e mais uma vez a data foi comemorada com uma alegria desconexa, em que o riso sai frustrado e os abraços, por mais que se apertem, não conseguem produzir o calor necessário para confortar a alma. Mas vamos levando por aqui, até que Nosso Senhor, que está aí ao seu ladinho, remexa nas fichas e lembre de nos mandar subir. Tio, aquele dia foi pesado demais, tão pesado que até hoje ele permanece vivo e em cores em minhas lembranças.

Talvez a data marcante colabore para aumentar o peso. Talvez as últimas cenas que ficaram gravadas: Nosso último bate papo, momentos antes de sua partida; O presente que eu havia comprado para lhe dar, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que ficou no ar; A notícia que me deixou momentaneamente sem fala; As palavras que não foram ditas; A cena de lhe ver estirado naquela mesa de pedra fria; Quem sabe as palavras emocionadas de seu grande amigo, Dr. Virgílio, diante do seu corpo inerte sobre a pedra daquele necrotério, “Seu merda, isso é coisa que você faça com a gente…”; A lembrança da imagem de Ademar, sentado no batente da escada que levava ao escritório da padaria, apenas balançando a cabeça; O choro de Tia Cecília no saguão daquele hospital repetindo a palavra: Acabou! Vinte e quatro anos e é como se fosse hoje!

Tio Emídio, antes de continuar preciso lhe dizer, mesmo sabendo que você já sabe, que essa carta começou a ser escrita na véspera de Natal de 2018, mas por motivos de forte emoção, a deixei de lado até que as lágrimas cessassem e o coração tomasse tento. Hoje, diante de um ano que já vai alto e que promete um festival de esquisitices, resolvi dar andamento depois de uns mergulhos nas águas do mar para salgar a alma.

Tio, ao sentar numa pedra para refletir sobre a vida. olhando para os domínios da Rainha do mar, decidi que não iria escrever sua carta com tristeza, porque você encarnava e irradiava alegria e irreverência. Quero apenas falar um pouco das coisas daqui e mandar notícias dos nossos, principalmente de Tia Cecília, que de tanto carinho e amor não cabe em meu coração. Pois é Tio, a vida aqui vai indo e a cada dia o mundo dá tantos giros de 180 graus que está ficando difícil a gente ficar aprumado sobre ele. Tá brabo e sei que vocês, encantados que se avexam a nos proteger, estão se virando nos trinta para manter em dia a proteção. Se vacilar a coisa desanda, num é não?

Pois bem, tia Cecília está bem, Ceminha também está indo, apesar de que, vez por outra se mete a aprontar sustos, Nanã está em plena e franca recuperação e os demais da família estão caminhando num caminho meio espinhoso, bambeando aqui, ali, acolá, porém, de cabeça erguida e seguindo em frente. Nessa minha Enxu mais bela a coisa está a cada dia mais gostosa e em paz. Os homens do poder daqui começaram o ano anunciando que a estrada que liga Enxu Queimado a sede do município, dessa vez sai para valer. Porém, já coloquei minhas barbas de molho, pois nos vinte e nove anos que ando por esse paraíso/praia, perdi as contas de quantas vezes assisti essa novela. Se me perguntam se sou a favor da estrada, digo que sou por Enxu e desejo que a paz e a tranquilidade permaneçam altaneiras sobre o paraíso.

Ei, Tio, você que está aí em cima, me diga se a outra face da Lua é bonita mesmo ou se tudo não passa de marketing de chinês. Vejo que os chinas colocaram um carrinho para fazer rastro no terreiro lunar e mandar uns retratos da paisagem que jamais conseguiremos ver daqui de baixo. Só não sei para que danado isso vai servir para a humanidade, mas um dia saberemos, quem sabe. Por falar em lua: os mandatários da Terra estão cada dia mais aluados e doidinhos para trocar uns sopapos. É um tal de trincar os dentes e rosnar feito fera das trevas que tá dando até medo. Os cabras de peia já esqueceram as agruras das duas grandes guerras e agora estão querendo tirar onda com a nossa cara. Dizem que cachorro que late não morde, mas quando ele morde aí é nó. Até o nosso Brasil, mais pra lá do que pra cá, está querendo meter a mão nessa cumbuca. Sei não, viu!

Tio Emídio, você lembra da vez que viemos a Enxu? Viemos para ver uma panificadora que estava à venda na cidade de Parazinho, mas o senhor não se agradou do que viu. De lá viemos comer um peixe frito, com cerveja gelada, na mercearia de Dona Tita. Lembra? Tudo que vimos naquele ano está mudado e mudando rápido. O progresso chegou, meio torto, mas chegou, e tudo focado na mais alta tecnologia. Muito ainda haverá de ser feito e não vai demorar para esse paraíso/praia ser apenas uma feliz lembrança em algum álbum de retrato.

Emídio Nogueira Mattos, meu tio amado e um dos principais pilares de minha formação, como queria lhe ver sentado sob a sombra da minha varandinha de praia apreciando o coqueiral e ditando seus ricos ensinamentos. Agora me diga: As palavras que não foram ditas e os segredos que não foram ensinados, são os chamados mistérios da vida? A saudade é imensa e jamais terá fim.

Eh, Tio Emídio, a carta ficou meio mórbida, mas eu precisava lhe contar e desabafar. Desculpe e receba um grande beijo!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 31

11 Novembro (291)

Enxu Queimado/RN, 04 de setembro de 2018

Caro amigo, Daniel, como é fácil gostar de você! Guardo com carinho aquele dia, na Federação Alagoana de Vela e Motor, em que fomos apresentados e, sem nenhum sequer, viramos fraternos e bons amigos. Não preciso falar da confiança que tenho em suas palavras e ações, pois se não fosse assim, não teria aproado o Avoante na esteira do Cahethel, para adentrar a fascinante e periculosa Barra do Rio Real, que separa Sergipe e Bahia. Aquele dia foi demais, não foi? O Cahethel sem motor, apenas na vela, e o Avoante coladinho em sua popa, encolhendo o casco para não ser colhido pelos ameaçadores bancos de areia.

Pois é meu amigo, desde aqueles dias, muitas luas e marés já se passaram, algumas tempestades cruzaram em nosso rumo e o Senhor do tempo, da razão e dos segredos fez rodar a roleta da vida várias vezes e aqui estamos nós, vivendo saudades e apostando que nas próximas rodadas, a roleta nos reserve boas novas.

Mas Daniel, não pense que essa carta é para falar de nuvens negras e tempestades, pois se assim fosse não o faria, porque são duas coisas que não combinam com você. Para mim você é um farol de alegria, conhecimento, apaziguamento, amizade, boas palavras, sorrisos e bom humor, se bem que Ângela afirma que seu humor e causticante. Será mesmo? Vou perguntar a Lucia! Ou melhor, vou perguntar não, pois já sei a resposta.

Rapaz, por falar em farol, você viu o farol que Lucia pintou e eu chantei no terreiro da nossa cabaninha de praia? O bicho ficou bonito que só vendo e por solicitação de Gil e Alípio, do veleiro Bar a Vento, fiz até a marcação do waypoint na Latitude S 05º 04.296’ / Longitude W 035º 50.956. Acho bom você anotar, para quando pegar o beco naquela Land Rover bala, em direção as terras frias do Alasca, dar uma passadinha por aqui. Garanto que Lucia prepara uma deliciosa moqueca de fruta-pão e umas saltenhas maravilhosas que vocês adoram.

E por falar em virem aqui, coisas que vocês já fizeram em 2016, vou contar um pouco das últimas desse povoado praieiro. Rapaz, os alísios do Nordeste este ano estão de vento em popa, com rajadas que chegam fácil aos 25 nós. É tanto assopro que está difícil os coqueiros manterem a carga lá no alto e o chão do meu terreiro amanhece coalhado. Ou seria encocado? Baiano aqui ia lavar a burra, pois nem precisaria esperar muito pelo coco de temperar a moqueca.

Não sei se você sabe, mas a água encanada deu as caras por aqui, mas do mesmo jeito que chegou, se foi e nem me pergunte o motivo, pois você já sabe de cor e salteado. Coisas das promessas dos homens. Promessas sem vida, sem alma e sem um futuro lógico e certo. Promessas jogadas sobre as tábuas frias de um palanque meia boca e atabalhoado de sorrisos falsos e largos. Mas tem nada não, pois dizem que a vida é assim e os homens do palanque sabem direitinho nos encantar com palavreado bonito. É tanto verbo largado ao vento, que quando damos por conta, estamos aplaudindo e gritando vivas. Eita povo cheio de lábia!

Você lembra do imenso parque eólico que estavam montando por aqui? Pois é, a parafernália está pronta e produzindo energia a todo vapor, mas a população anda num resmungo que dá o que pensar. Como em todo empreendimento de tal porte, enquanto a obra anda, os empregos caminham junto, porém, quando a obra termina, os empregos se esvaem e os que restam, restam apenas para tocar a coisa funcionando. E a população ganha o que? Ganha com os impostos gerados para o município que transforma em benefícios para a população. Com um pouquinho de boa vontade a regra é fácil de ser compreendida, porém, compreender é fácil, o difícil é fazer valer.

Daniel, nos últimos dias tenho andado pensativo com as coisas amalucadas que tem ditado as regras neste “planetinha errante”. Não sei se é coisa minha, que há muito tento levar a vida em um modo off, como disse certa vez meu amigo Afonso, ou realmente as coisas se bandearam de vez para tomar rumos ousados e extremos. Sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia, escuto ecoar o sussurro de decisões atabalhoadas sem o mínimo de praticidade e conforto para a humanidade. A regra das decisões atuais é confundir, chocar, tornar vazio, desmerecer. Estamos sob o signo da ditadura do “não devo nada a ninguém e muito menos a mim mesmo”. Nada é o que é! Nada é o que pode ser! Nada é nada e é tudo como cada um queira que tenha que ser e ponto final! Eh, meu amigo, acho que envelheci! Mas tem nada não, vou seguindo assim, driblando os solavancos e tentando me adaptar à nova ordem mundial.

Meu amigo, Daniel Cheloni, vou encerrando por aqui essa prosa meio sem rumo, mas antes de colocar o ponto: Como homem do mar, você bem sabe da crueza de se enfrentar as tempestades, porém, quando elas passam, deixam de presente os mais lindos e fascinantes mares a serem navegados e uma bela história para ser contada.

Anotou o waypoint do Farol? Pois bem, lhe espero aqui!

Nelson Mattos Filho

Agradecimento

IMG-20180624-WA0004_1Pois num é que a Carta de Enxu 12, escrita em 25 de março de 2017, foi parar nas mãos do destinatário e o mesmo sapecou os escritos na coluna de WM, no jornal Tribuna do Norte. Pois foi e está lá bem bonitinha neste  domingo, 24/06. E para agradece a deferência, me avexei assim no “imeio” de Seu Woden: Caro jornalista, você não sabe como foi bom para a alma, e para curar a ressaca brava das fartas doses de Papary, tomadas na beira da fogueira em homenagem a Seu João, ver a Carta de Enxu 12 fazendo fita na coluna do WM. Obrigado pelas palavras iniciais e fico aqui na esperança de um dia vê-lo sob as sombras da cabaninha de praia que tomo conta.

Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 19

1 Janeiro (110)

Enxu Queimado/RN, 22 de junho de 2017

Sabe meu amigo Monteiro, fico aqui nessa minha palhocinha entorpecido pela beleza dos coqueirais e com o vai e vem das jangadas e me pego a pensar nas civilizações desse planetinha azul, que a cada dia caminham mais trôpegas. Rapaz, o que danado estão querendo fazer com esse mundo? Os donos do mundo estão virados num traque, mais parece coisa feita de tinhoso. Ei, Monteiro, ainda bem que na sua Barrinha dos Marcos e nessa Enxu mais bela, os passos são outros, né não?

Powpow, hoje decidi que vou virar a página das notícias desalentadoras, mas já sei que será difícil escolher uma página que me dê guarida, pois estão quase todas dominadas de papagaiadas. Até os domínios do gringo sabido que só a peste, Mark Zuckerberg, degringolaram de vez e todo participante se acha o rei da cocada preta em tudo que é assunto. Gosto de uma charge, assinada por Leandro Franco, sobre uma entrevista para agência de emprego: “- Profissão? – Falador de merda no Facebook”. Pense numa profissão concorrida!

Meu amigo, como vão as noites sobre a Barrinha? Tem visto muitas estrelas? E as vaquinhas leiteiras? Ei, diga aí se o bastardo Duarte Coelho adentrasse hoje o Canal de Santa Cruz, para tentar a sorte novamente, como fez em 1535? Monteiro, acho que o portuga do Porto daria meia volta mais ligeiro do que depressa e nem bala pegava. Naquele tempo os índios eram bestas e trocavam terras, e outras coisas, por qualquer apito. Vai se meter a besta com os caciques de hoje! Os caras dão nó em pingo d’água e ainda querem um troquinho para esconder as pontas.

Monteiro, você sabia que tem umas histórias que contam que foi nas terras que cercam Enxu Queimado que esse Brasil foi descoberto? Pois é! O historiador Lenine Pinto bate o prego, vira a ponta e aposta todas as fichas que as Caravelas dos descobridores aportaram ao largo da Praia do Marco/RN e foi lá que uns marujos, que quiseram fazer maruagem com as indiazinhas, desembarcaram e foram literalmente comidos pela tribo inteira. Diz o historiador que o reboliço foi grande, sobrou sopapo para tudo quanto é lado e no final o comandante da flotilha, André Gonçalves, e o cosmógrafo Américo Vespúcio, chantaram um marco cravado com a Ordem de Cristo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas. Esse furdunço aconteceu em 1501 e a data de 07 de agosto foi escolhida para ser comemorado o aniversário de fundação do Rio Grande do Norte. Lucia, ao corrigir essa carta – pois ela lê tudo, inclusive olha aquelas imagens educativas que postam em nosso grupo “secreto” de WhatsApp -, vai dizer que já falei sobre isso várias vezes, mas o que me custa repetir, né não?

O que restou do antigo Marco, que passou a ser conhecido como Marco de Touros, hoje ornamenta um dos velhos salões do abandonado sem causa Forte dos Reis Magos, um ringue em que agora se digladiam egos e pavonices dos “homens de bem”. Sob as areias da Praia do Marco, restou uma réplica malcuidada e fragmentos de um conto mal contado.

Elder, mudando de assunto, hoje vi uma matéria falando que o Sol pode ser uma estrela gêmea do mal. Você já viu uma coisa dessa? Meu amigo, esses cientistas estão cada dia mais amalucados para mostrar serviço. Dizem que uma tal de Nêmesis, deusa grega da vingança, é a irmã gêmea do Astro-rei e que ela anda perdida pelo cosmo em um lugar desconhecido. Os cientistas acreditam que é por causa das maldades de Nêmesis que recebemos tantos bombardeios de asteroides, inclusive o que varreu da face da Terra os dinossauros. Ora, se não fosse ela com certeza seria nós a acabar com os lagartos gigantes. Vou esperar o que vai dizer o meu amigo José Dias do Nascimento Junior, pois o cabra é bom nos assuntos estelares.

Li também que existe uma centena de planetas igualzinho ao nosso e que uns 10 poderiam ter a mesma condição de vida oferecida pela Terra. Taí uma coisa que eu queria ver! Homem, você já pensou dez planetas com as mesmas manias, os mesmos cacoetes, as mesmas marmotas. Tem para onde escapar não, meu irmão, estamos ferrados! É melhor ficar por aqui mesmo, pois já estamos acostumados, a cerveja é gelada, a cachaça é boa e as amizades são arretadas.

Elder Monteiro, powpow, o homem do Baca, estamos com saudades, meu amigo. Saudade dos momentos de pura descontração. Saudade das boas risadas ao ouvir os fuxicos travados entre você e Lucia. Saudade de jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Venha aqui meu amigo, pois essa Enxu é boa que só a Barrinha. Deixo um beijão para Dulcinha, a sereia pernambucana que roubou seu coração.

Um cheiro!

Nelson Mattos Filho