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Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 19

1 Janeiro (110)

Enxu Queimado/RN, 22 de junho de 2017

Sabe meu amigo Monteiro, fico aqui nessa minha palhocinha entorpecido pela beleza dos coqueirais e com o vai e vem das jangadas e me pego a pensar nas civilizações desse planetinha azul, que a cada dia caminham mais trôpegas. Rapaz, o que danado estão querendo fazer com esse mundo? Os donos do mundo estão virados num traque, mais parece coisa feita de tinhoso. Ei, Monteiro, ainda bem que na sua Barrinha dos Marcos e nessa Enxu mais bela, os passos são outros, né não?

Powpow, hoje decidi que vou virar a página das notícias desalentadoras, mas já sei que será difícil escolher uma página que me dê guarida, pois estão quase todas dominadas de papagaiadas. Até os domínios do gringo sabido que só a peste, Mark Zuckerberg, degringolaram de vez e todo participante se acha o rei da cocada preta em tudo que é assunto. Gosto de uma charge, assinada por Leandro Franco, sobre uma entrevista para agência de emprego: “- Profissão? – Falador de merda no Facebook”. Pense numa profissão concorrida!

Meu amigo, como vão as noites sobre a Barrinha? Tem visto muitas estrelas? E as vaquinhas leiteiras? Ei, diga aí se o bastardo Duarte Coelho adentrasse hoje o Canal de Santa Cruz, para tentar a sorte novamente, como fez em 1535? Monteiro, acho que o portuga do Porto daria meia volta mais ligeiro do que depressa e nem bala pegava. Naquele tempo os índios eram bestas e trocavam terras, e outras coisas, por qualquer apito. Vai se meter a besta com os caciques de hoje! Os caras dão nó em pingo d’água e ainda querem um troquinho para esconder as pontas.

Monteiro, você sabia que tem umas histórias que contam que foi nas terras que cercam Enxu Queimado que esse Brasil foi descoberto? Pois é! O historiador Lenine Pinto bate o prego, vira a ponta e aposta todas as fichas que as Caravelas dos descobridores aportaram ao largo da Praia do Marco/RN e foi lá que uns marujos, que quiseram fazer maruagem com as indiazinhas, desembarcaram e foram literalmente comidos pela tribo inteira. Diz o historiador que o reboliço foi grande, sobrou sopapo para tudo quanto é lado e no final o comandante da flotilha, André Gonçalves, e o cosmógrafo Américo Vespúcio, chantaram um marco cravado com a Ordem de Cristo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas. Esse furdunço aconteceu em 1501 e a data de 07 de agosto foi escolhida para ser comemorado o aniversário de fundação do Rio Grande do Norte. Lucia, ao corrigir essa carta – pois ela lê tudo, inclusive olha aquelas imagens educativas que postam em nosso grupo “secreto” de WhatsApp -, vai dizer que já falei sobre isso várias vezes, mas o que me custa repetir, né não?

O que restou do antigo Marco, que passou a ser conhecido como Marco de Touros, hoje ornamenta um dos velhos salões do abandonado sem causa Forte dos Reis Magos, um ringue em que agora se digladiam egos e pavonices dos “homens de bem”. Sob as areias da Praia do Marco, restou uma réplica malcuidada e fragmentos de um conto mal contado.

Elder, mudando de assunto, hoje vi uma matéria falando que o Sol pode ser uma estrela gêmea do mal. Você já viu uma coisa dessa? Meu amigo, esses cientistas estão cada dia mais amalucados para mostrar serviço. Dizem que uma tal de Nêmesis, deusa grega da vingança, é a irmã gêmea do Astro-rei e que ela anda perdida pelo cosmo em um lugar desconhecido. Os cientistas acreditam que é por causa das maldades de Nêmesis que recebemos tantos bombardeios de asteroides, inclusive o que varreu da face da Terra os dinossauros. Ora, se não fosse ela com certeza seria nós a acabar com os lagartos gigantes. Vou esperar o que vai dizer o meu amigo José Dias do Nascimento Junior, pois o cabra é bom nos assuntos estelares.

Li também que existe uma centena de planetas igualzinho ao nosso e que uns 10 poderiam ter a mesma condição de vida oferecida pela Terra. Taí uma coisa que eu queria ver! Homem, você já pensou dez planetas com as mesmas manias, os mesmos cacoetes, as mesmas marmotas. Tem para onde escapar não, meu irmão, estamos ferrados! É melhor ficar por aqui mesmo, pois já estamos acostumados, a cerveja é gelada, a cachaça é boa e as amizades são arretadas.

Elder Monteiro, powpow, o homem do Baca, estamos com saudades, meu amigo. Saudade dos momentos de pura descontração. Saudade das boas risadas ao ouvir os fuxicos travados entre você e Lucia. Saudade de jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Venha aqui meu amigo, pois essa Enxu é boa que só a Barrinha. Deixo um beijão para Dulcinha, a sereia pernambucana que roubou seu coração.

Um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 16

4 Abril (226)

Enxu Queimado/RN, 28 de maio de 2017

Sabe meu amigo Zeca, tomei um grande choque em ter mudado do mar para a terra, não que eu não esperasse por isso, mas a realidade está bem pior do que a utopia da espera. Aí você irá perguntar: – E quando da mudança da terra para o mar, não houve choque? – Ouve não, meu amigo, o que ouve foi um turbilhão de alegrias recheado de maravilhosos deslumbramentos. Mas vou levando assim mesmo, até porque, no retorno, tive a sorte de possuir essa palhocinha de praia tão aconchegante, cercada de coqueiros e arejada pelos velhos e bons alísios que trazem belas poesias ao povo do mar.

Meu amigo, nunca esqueci nossos primeiros papos sobre barcos e de minha ida a sua casa para ver o projeto, feito por você, de um catamarã. Aqueles rabiscos estrambólicos, na visão de um neófito que mal sabia distinguir proa e popa, no primeiro momento me encheram de desesperanças, porém, bastaram algumas explicações mais apuradas, de sua parte, para provar que minhas desesperanças tinham alto grau de fundamento, ainda mais quando fui apresentado a valores e custos das coisas de barcos. Ainda bem que controlei os batimentos cardíacos e nossa conversa tomou o rumo de suas histórias pelos mares do Brasil e do Caribe.

Zecão, mudando de assunto, o que danado está havendo com esse mundo? A coisa está muito desarrumada e sem nenhuma perspectiva de melhora. Diga aí rapaz, o que danado se passa em sua cabeça naqueles momentos de reflexão durante suas navegadas entre Natal e o Atol das Rocas? Sempre gostei de pensar nas cidades durantes meus turnos de comando, porque o mar transforma e acalma sentimentos. Hoje, sob a sombra de minha varandinha, tenho me visto meio desassossegado, mas juro que não perdi a esperança de um dia viver em um mundo igualzinho ao que avistava lá do alto mar.

Os caras que se dizem autoridade e se alto intitulam líderes, agora chegaram onde queriam, pois nos meteram dentro de um ninho de serpentes, onde eles são as cobras, e ficam se divertindo em nos ver espernear e gritar velhas palavras de ordem, que nem cabem mais nos dicionários. Estamos a tal ponto envenenados, que não sabemos mais quando estamos seguindo em frente ou dando passos para trás. Estamos feitos canibais comendo uns aos outros e rindo da cara de todos, como se nada fosse mais importante do que a cara diabólica e as mentiras destiladas pelas línguas das serpentes. A nossa situação é caótica, insolúvel e está indicando que não existirá mais lugar no mundo onde possamos sobreviver sem a presença das serpentes.

Poxa, meu amigo, estamos em pleno século XXI, dezessete anos a mais do que a vida prometida pelos Jetsons, e estamos quase retornando ao mundo dos Flintstones, tamanha é a sanha destruidora dos donos do mundo. As redes sociais, que sempre apostei como sendo o futuro é a desgraça dos encantadores das massas, se mostram a cada dia mais abduzidas por eles, e o pior, cada integrante anuncia uma verdade, ou mentira, mesmo, sabendo ele, que não passa em nenhum crivo.

E a violência? – Não, prefiro não falar sobre isso, pois não costumo assistir e nem ler nada com esse tema, até porque, essa comunidade que hoje me acolhe, tirando alguns roubos de galinhas, boatos ou pequenas e divertidas desavenças pessoais, ainda está imune a esse tema.

Rapaz, acho que estou lhe abusando com temas tão para baixo, ainda mais em um domingo tão gostoso de maré de Lua cavaiando, em que o Sol por aqui faz um esforço tremendo para furar uma barreira de nuvens prometedoras de chuvas. Por isso vou pular uma casa. Ei, os noticiários anunciam muita chuva pelas bandas das Alagoas, mas aqui em nós, a coisa está periclitante e já tem agricultor se conformando que a safra vai para o beleléu. Os meus pezinhos de milho estão prometendo, mas também, eu não arredo o pé de aguar todo dia. O feijão já tirei umas três safras e tenho notado que já começaram a esmorecer. Rapaz, tirar feijão verde do pé, debulhar, colocar na panela e tomar o caldo bem quentinho, com uma cerveja bem gelada, é bom demais! Vixi!!

Carioca, a temporada da lagosta inicia dia primeiro de junho e os barcos já estão prontinhos para se fazerem ao mar. Cada pescador carregando o sonho de uma pescaria aprumada, para tirar o atraso. Enxu Queimado tem a pesca da lagosta como carro chefe de sua economia e é gostoso ver o movimento e ouvir da boca do pescador o que eles esperam da nova safra. Eu acho que esse ano vai ser bom, até porque, o período de defeso vem sendo cumprindo à risca, mas tudo é segredo e a natureza é quem vai dizer, né não!

José Martino, meu amigo Zeca do Borandá, você precisa vir aqui para a gente emendar os bigodes na conversa e colocar os assuntos em dia, rapaz. Deixe de preguiça e venha conhecer as boas terras do Mato Grande e essa praia maravilhosa. Pode vir de barco que garanto uma poita arretada para o fundeio. Deixo um cheiro para Lucia e outro para o filhote arquiteto. Venha, meu amigo, pois você vai se apaixonar por esse lugarejo que é só paz e alegria.

Nelson Mattos Filho

Divergências

3 Março (7)

Enquanto olho a noite e as sombras que se esparramam pelo pequeno povoado que me abriga tão carinhosamente, minha mente vaguei despreocupadamente pelas boas lembranças do que foi nossa vida a bordo de um veleiro de oceano e após uma lufada de vento, passo a escutar sussurros das muitas perguntas que me fazem sobre o período que vivemos a bordo e me atenho em uma delas: “Como pode uma pessoa morar tantos anos a bordo de um veleiro e de repente voltar a morar em terra firme? ”. Depois de muito matutar e varrer a mente em busca de palavras para satisfazer uma pergunta tão inquietante, continuei sem respostas, mas a consciência continuou em um moído surdo e insistente, até que fechei os olhos e adormeci com o suave balanço da rede.

Sonhei com crianças correndo na vastidão de um campo sem flores. Sonhei com o planetinha azul sendo derretido pelo fogo da discórdia. Sonhei com a desagregação dos povos. Sonhei com uma cruz cravejada de hipocrisia. Sonhei com abastados de mãos estendidas em busca de mais. Sonhei com o vazio, com a dor, com o grito, com o feio e com a beleza mais feia do que nunca. Sonhei com frases desconexas e com o riso de deboches dos governantes diante de uma multidão de aplausos. Sonhei com a desgraça das drogas consumindo famílias, mas recebendo a benevolência da cegueira moderna. Sonhei com o terror e suas vítimas inocentes estraçalhadas nas calçadas. Sonhei com a fome, com a sede, com as doenças desalmadas, formando uma trinca de um jogo vitorioso dos poderosos. Sonhei com as guerras combinadas entre quatro paredes pelos combatentes opositores e todas elas longe do território deles. Sonhei com as religiões e a desfaçatez de suas verdades. Sonhei muitos sonhos, mas não sonhei pesadelos, porque ao abrir os olhos, enxerguei no escuro da noite que aqueles sonhos se pareciam incrivelmente reais. Mas eram sonhos.

“Como pode uma pessoa morar…” Novamente a pergunta estava lá a me perseguir e lembrei das palavras de um amigo, quando anunciei que estava voltado para a vida urbana: “Seja bem vindo ao caos, meu amigo”. Foram onze anos e cinco meses sobre as ondas do mar e sendo regido por deuses fascinantes e maravilhosamente imprevisíveis, onde vivi o melhor dos mundos. Fui para o mar por livre e espontânea vontade e sem carregar sobre os ombros nenhum trauma ou interesse, a não ser o interesse da busca da paz, do conhecimento e da reflexão. Não é justo fazer comparações entre o mar e a terra, porque são tantas as desavenças que dificilmente casaríamos alguma. No mar nunca tive sonhos como os que sonhei em minha rede da varanda, mas talvez seja pelo motivo de que estivesse olhando as cidades por um ângulo mais humano e belo, porque sempre achei que as cidades vistas do mar são mais aconchegantes e humanas. O caos a que se referiu meu amigo é escrachado diante de nossos olhos e nenhum tapume colocado na paisagem das cidades pode mascará-lo.

– Sim, mas porque a volta? Hoje morando em uma pequena localidade praieira já fiz essa pergunta inúmeras vezes e talvez por isso que a pergunta do leitor tenha me deixado encabulado, pois também interroguei vários conhecidos que desembarcaram e nunca a resposta satisfez minhas curiosidades. Hoje, refletindo tudo o que vivi a bordo do Avoante e o cenário encontrado nas ruas das cidades, posso dizer que não existem respostas, porém, precisava desembarcar e amadurecer as verdades que aprendi sobre as ondas, como também aprumar o rumo dos arquivos de assuntos pessoais que foram sendo jogados aqui e ali e estavam navegando em mares desencontrados e tenebroso.

Pode até ser que os “encantos” da vida urbana me entorpeça a razão e adormeça os extintos e as afeições que adquiri no reino de Netuno, porém, jamais perderei o norte verdadeiro e nem esquecerei o som do canto da Rainha do manto azul. Quem um dia foi ao mar jamais esquecerá, pois são ensinamentos para toda a vida e que serão repassados as minhas gerações futuras como elos de uma grande e interminável corrente. Acredito na máxima de que todos os habitantes do planeta deveriam passar uma temporada em um veleiro, pois assim teríamos humanos mais humanos e comprometido com a ideia de um mundo em que a paz, a ética e o companheirismo sejam parte inerentes da vida.

Não enxergo meu retorno como uma regressão e sim, como mais um período de um feliz aprendizado que busco em cada momento da vida. O retorno foi um bem maior e dele buscarei retirar o mais doce dos frutos, mesmo que não seja aguado com o néctar das águas salgadas, onde as verdades e os homens são mais verdadeiros. Saudade tenho sim, mas não daquela que faz doer, porque é uma saudade forjada em alegrias, maravilhosas lembranças e isso já basta para o sorriso da alma.

– E quando se dará a volta? Taí mais uma pergunta enigmática, mas por enquanto, ficarei regando minhas plantas.

Nelson Mattos Filho 

Cartas de Enxu 07

11 Novembro (179)

Enxu Queimado/RN, 08 de fevereiro de 2017

Caro amigo Chaguinhas, como vão as coisas e as mangabas das terras sergipanas? Por aqui a vidinha vai sendo levada do jeito que precisa ser, mas digo que ainda não perdi a mania de olhar o vento todas as manhãs. Dia desses fui falar para um amigo que eu via o vento e ele ficou me olhando meio atravessado. No mínimo, em pensamento, ficou me chamando de mentiroso e para não ter que dar explicações, sem explicar nada, abri outra cerveja e o assunto morreu. Mas lembro bem que naquele dia Éolo mandava ver com um sueste soprador. Aliás, vento por aqui é o que não falta e tem até uma ruma de moinhos de vento produzindo energia dia e noite, noite e dia, feito cantiga de grilo. Meu amigo, agora me diga: – Será que algum dia perco essa mania de velejador de olhar o vento? – Estou achando que não, pois isso me faz mais próximo do mundo encantado que é o mar e seus elementos maravilhosos.

Dando um bordo nessa prosa: – Você tem visto como tem caminhado errante esse nosso Brasil? O trem descarrilhou de vez e acho que não vai dar nem para juntar os cacos, pois a coisa está feia e fedendo. Você viu o que estão fazendo nas ruas daquele porto gostoso de Vitória? Aquilo para mim é guerra e o pior que os homens da lei e da ordem tão nem aí para a cor da chita. Agora me diga mesmo: – Será que ainda existe a tal da vergonha na cara? Pois acho que num existe. Antigamente nossos pais ensinavam vergonha em casa e com ajuda de um cinturão bem zeloso e a gente aprendia sem errar uma letrinha sequer. Mas isso era naquele tempo, né não? Hoje dizem até que era ensinamento errado, mas digo que a gente aprendia e aprendia bonito. Eu mesmo levei umas boas lapadas, pois Ceminha tinha pena não.

Chaguinhas, noite dessas, deitado na rede espalhada na varanda, fiquei matutando enquanto assistia o voo cegos dos morcegos e me veio a gaiatice de pensar em chamar os portugueses e suas Naus sem direção, para cobrir novamente essa antiga pindorama, pois há muito deixamos de ser uma terra livre de males. – Será que eles aceitam? Se não souber a resposta, pergunte ao Bolt que ele deve saber.

Ei, é como vai o velho, valente e bom Intuição? E aquele povo arretado do Aratu? Tenho saudades daqueles fins de tarde entremeados de gostosos bate papos sobre as grandes navegações e travessias homéricas das águas do Senhor do Bonfim. Saudades do Maurício, Ney, Paulão, Wilson, Antoneto, Nadier, Neném, Antônio Aleluia, Gerson, Gomes, Cláudio, Haroldo, Julival, Wilder, Pinauna, as meninas da secretaria, Dr. Cabral, da marinharia show de bola, do grande Bicão e seu fusca bala. E os pasteis? Vixi! Dizem que é complicado nomear os amigos, porque sempre faltam alguns e faltam mesmos, pois fizemos uma legião enorme no Aratu Iate Clube.

Sim, me diga aí como vai a pracinha king size que você construiu na popa do Intuição. O Odilon aprovou? E o Rivelino já mandou cobrar pelo acréscimo do comprimento? E o fogão está funcionando mesmo ou a comida vai com a assinatura de Cristiane? Conte tudo e não me esconda nada, mas sobre o fogão não precisa falar, porque acho que já sei a resposta. Aliás, o Moonlight vez em quando liga para contar as últimas. O bicho é falador!

Meu amigo, quando você dará o ar de sua graça em minha cabaninha de praia? Traga Dona Bia que sei que ela vai adorar, pois aqui é uma varada legal para se jogar conversa fora e ver a praia por entre um belo coqueiral. E por falar em coqueiral, esse de Enxu é lindo demais. Para mim ele é o DNA dessa vilazinha de pescadores e se tivesse oportunidade diria ao prefeito para desapropriar tudo e fazer do espaço uma grande praça sombreada, com um vasto calçadão serpenteando as árvores e bancos para a população relaxar e pensar na vida. Meu amigo, venha pelo menos conhecer o coqueiral e comer um peixe frito no dendê que Lucia importou de Camamu. Olhe, garanto presenteá-lo com uma Coca Cola estupidamente gelada e umas Saltenhas dos deuses que Lucia está produzindo maravilhosamente bem.

Hoje a Lua está crescente e falta um tiquinho de nada para surgir no horizonte do mar esplendorosamente cheia. De minha rede na varanda fico extasiado com o brilho e o poder encantador do nosso satélite natural. O que pensavam os povos lá de trás diante de tanta lindeza? Agora fiquei a pensar em quantas Luas eu já tive a alegria de ver. Dizem que os índios contavam os dias pelas fases da Lua. Eita povo sabido!

Meu caro e bom amigo, capitão de longo curso Sérgio Chagas, vou contar as Luas para ver você e Bia embaixo de nossa choupanazinha. Venha meu amigo e não fique inventado desculpas, pois conheço todas. Essa semana está tendo uma correção de Bonito, venha ver a beleza das jangadas chegando do mar com os cestos cheios. O povo do mar é só alegria quando a produção é boa!

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 04

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Enxu Queimado, 23 de outubro de 2016

Sabe meu amigo Tonho, a vida por aqui está indo como os alísios e a maré, as vezes rápida, as vezes na malemolência e as vezes tão tranquila que dá para escutar e sentir o pulsar das batidas do coração da natureza. Eu sei que você sabe, mas eu vou dizer: Adoro quando ela está na última condição.

Meu amigo, a eleição por aqui já é passado e, graças aos duendes da história, um dia saberemos quem danado tinha razão nas pelejas palanquianas, onde a retórica nem sempre foi bem utilizado e sobrou interrogações para todos os lados, porém, não deixei de perceber que continuamos personagens dos velhos e engraçados palcos das marionetes. Ei, ouvi dizer que por aí afora a coisa caminhou na mesma pisadinha deslavada das promessas e até um tal de rei dos vídeos eróticos foi eleito nos limites de uma bela e litorânea capital nordestina, e o cabra se arvorou a fazer campanha em cima de uma bicicleta modelo barra forte. Homi, e num é que ganhou bem ganhado! Mas sabe de uma coisa, esse papo de se arvorar em falar de eleição é coisa de danação e quero me meter com essa galera não, pois de vez em quando um amigo velho passa a ser inimigo novo e inimigo é coisa que não devemos guardar no peito, ainda mais quando a fronteira entre o novo e velho é escancarada pela desrazão. E como diz nosso amigo Pow Pow: Desrazão é a peste bubônica.

Gaúcho, na verdade nem sei como eleição e peste vieram parar nessa carta. Vai ver que as duas palavras fazem parte da mesma família e uma está ligada a outra, mas como elas entraram aqui eu é que não sei e até tento saber, mas sei não. Homi, deixe quieto que vou acabar me complicando com os amigos velhos e diabo é quem quer inimigo novo.

Tonho, as galinhas por aqui continuam gordas e servindo de aposta para tudo que é disputa. Nem sei de onde aparecem tantas penosas, pois apostas por aqui tem uma a cada sombra de árvore. E tem árvore viu! Na sombra em frente à casa de Pedrinho parece até a cobertura de um parlamento ou um tribunal de júri, pois de tudo sai, de tudo se fala, de tudo se resolve e embaixo daquela sombra até o mundo é outro. – Duvida? – Então venha ver! Dia desses, depois de um debate sobre comida boa e ruim, decidiu-se fazer uma noite gastronômica e depois de traçar as regras e anotar os convidados, a coisa engrenou de vez e foi a vez de botar a roda para rodar. Na noite combinada estavam todos lá, um prato preparado por cada um e deu-se início a degustação que estava boa que só vendo. Pois não é que já querem fazer outro e agora com eleição do melhor prato. É assim que toca a banda e é assim que vamos dançando.

E por falar em chuva, que ainda não falei, mas estou falando, as nuvens por aqui estão relutantes em tomar gosto de chuva e nem sinal de um pinguinho sequer. Os mais velhos afirmam que elas vão se formar e vem chuva que nem presta, mas que nessa época do ano, mês de outubro, esses ventos ventosos já deviam terem tomado o rumo de casa. – E o mar? – Rapaz, o mar está bem encarneiradozinho e os botes estão que nem burro bravo nas ancoragens. De vez em quando a amarra de um vai para as cucuias e a turma do deixa disso tem que nadar para pegar o bicho pelo rabo. É luta, mas é mais um movimento para render assunto e teima.

Ei, minha criação está crescendo. – Criação de que? – Eu não lhe contei? Pois vou contar agora: Rapaz, tenho dois carneiros, um coelho, uma ruma de cachorro e alguns gatos noturnos. Os carneiros funcionam mesmo que despertador suíço e são ousados que só vendo. Os bichos batem o ponto nos pés de seriguela as cinco e trinta da matina e lá vai eu acordar, com a ressaca que tiver, para botar os danados para fora do terreiro. – E você pensa que eles tomam ciência? – Pois tomam não! Quando me deito novamente para prosseguir no sonho, lá vem os pestinhas de volta e lá vou eu botar moral no pedaço. – De quem são? – E eu lá sei, só sei que é assim e pronto!

Quanto aos cachorros e os gatos, a história é diferente, pois os bichos são matreiros, chegam pisando em ovos e quando a gente vê, o lixo está espalhado pelo meio do mundo. Olho para um lado, olho para o outro e só vejo a sombra faceira virando a esquina com a cara mais deslavada do mundo. Já com o coelho a emoção é outra, porque o bicho parece – parece para ele – que já faz parte da casa. No começo ainda tinha medo quando chagávamos perto, mas agora, ele está nem aí e de vez em quando Lucia tem que expulsá-lo de dentro de casa. Sei não viu!

Sim, já ia esquecendo de falar dos pés de acerola. Meu amigo, algum filho de sei lá o que, botou o olho nas acerolas e nunca mais tive o prazer de tomar um suquinho sequer. Dizem que olho grande é o raio! Deus é mais!

Pois é Tonho Carpes, por enquanto é isso. Até mais ver!

Nelson Mattos Filho