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Justiça barra a cobrança da taxa de entrada em Morro de São Paulo

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O Tribunal de Justiça da Bahia barrou a taxa de proteção ambiental cobrada pela Prefeitura de Cairu/BA para entrada de visitante em Morro de São Paulo, um dos principais destinos turísticos da Bahia, sob alegação de inconstitucionalidade. A taxa de R$ 15,00, aprovada pela Câmara Municipal, em 2013, em substituição a outra taxa também vetada pela justiça, em 2012, tem como objetivo angariar recursos para preservação ambiental da ilha de Tinharé, onde se localiza a joia do turismo baiano, porém, segundo se comenta, nem os moradores e nem o município sabem informar o quanto é investido do total arrecadado com os 200 mil turistas que visitam o Morro anualmente. Sinceramente, sempre que pago essas taxas de proteção ambiental Brasil afora, inclusive na Ilha de Fernando de Noronha, sinto mau cheiro no ar e essa de Morro de São Paulo é de lascar. Fonte: uol viagens    

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O catamarã de velocidade – VI

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Depois da noite bem dormida na ancoragem em frente à cidade de Cairu/BA, acordamos cedinho para aproveitar a maré de enchente e seguir até o distrito de Canavieirinhas. Navegar até o povoado das famosas ostras criadas em cativeiro era uma vontade que alimentávamos há anos, mas o alinhamento dos astros não permitia que acontecesse. Quando o comandante Flávio me delegou a tarefa de montar o roteiro do catamarã Tranquilidade entre Natal/RN e o litoral baiano, inclui o destino sem pestanejar. Até porque, o comandante queria conhecer lugarejos pitorescos e que fugisse dos roteiros tradicionais.

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No começo da viagem, quando ainda estávamos na Barrinha dos Marcos/PE, meu computador queimou a placa e fiquei sem poder acessar o planejamento e consequentemente conferir a rota e os waypoints marcados. Algumas rotas já estavam inseridas no chart plotter do barco e também em meu GPS portátil. Mas como sabia que muita coisa seria alterada, como foi, em várias oportunidades, preferi incluir a cada parada a rota seguinte. Por precaução, costumo anotar em uma agenda os roteiros, mas infelizmente o percurso entre Cairu e Canavieirinhas não anotei.

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Quando da nossa ancoragem em Itaparica, remexendo papeis do barco, encontrei o guia náutico produzido pelo antigo Centro Náutico da Bahia e que teve a mão do navegador Davi Perroni. Entrei em contato com ele sobre a rota, pois confio cegamente em suas informações, e ele alertou que eu prestasse atenção no datum do GPS, porque as rotas do Guia estavam em Córrego Alegre. Datum é o modelo matemático utilizado para produzir mapas e cartas náuticas. Datums diferentes podem provocar erros de até mil metros de distância. No momento em que eu estava fazendo as correções o Davi telefonou dizendo que havia enviado um email já com tudo pronto. Amigo faz assim!

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O canal entre as duas cidadezinhas é estreito, raso em algumas partes e merece atenção redobrada até para quem tem um pouquinho de experiência. Como diz um amigo: “Não aceita desaforos e muito menos egos inflados”. Seguindo a rota que me foi enviada, observei que a profundidade média gira em torno de 5 metros, porém, na parte mais larga do rio, além de sinuoso, o traçado passa por profundidades de 3,5 metros na maré cheia. Deve ser navegado com o GPS em zoom elevado e com confiança no que foi traçado. Ao menor sinal de indecisão o barco pode ser jogado sobre um banco de areia.

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A ancoragem em Canavieirinhas é outro ponto crítico e já fez muita gente boa ficar em maus lençóis. Em frente à cidadezinha existe um enorme banco de areia, que descobre na maré baixa, e a ancoragem é feita em pouco mais de 2 metros de profundidade. Apesar de toda essa dificuldade, navegar cercado pelo vasto e vibrante manguezal é de uma beleza sem tamanho. E foi envolvido nesse clima de êxtase que cruzamos aquelas águas com segurança e alegria. O nosso comandante, que desejava um passeio assim, ria de orelha a orelha e não parava de lembrar a frase dita por nosso amigo de que “praia é tudo igual”. Lembramos também de Geraldo e Myltson que desembarcaram em Itaparica e perderam o melhor da viagem. São navegadas assim que fazem o diferencial da vela de cruzeiro e precisamos estar com o espírito em paz para vivenciá-las em toda plenitude.

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Navegar em pequenos canais e ancorar em pequenos povoados ribeirinhos, interagindo com os habitantes do lugar é um prêmio para a alma do cruzeirista. Eu mesmo não troco por nada. Falei sobre isso no texto que dá início a essa série que termina aqui e que dei o título de “Um sonho a mais”, mas acrescento que sonhos, vontades e interesses são diversos. Por isso, quando me perguntam qual o número de tripulantes ideal para uma viagem de cruzeiro, respondo que não existe número e sim afinamento. Um cavaquinho tem quatro cordas e nem por isso é mais fácil de ser tocado, ainda mais se alguma estiver desafinada.

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Canavieirinha foi o prêmio maior dessa nossa velejada a bordo do Tranquilidade e que aqui está relatado com o título O catamarã de velocidade. O título pode não corresponder com tudo o que aqui foi dito e não corresponde mesmo, porém, é uma pequena alusão aqueles que entram a bordo de um veleiro e em vez de curtirem a velejada, se preocupam apenas em correr regatas contra eles mesmos e não apreciam o sabor de uma gostosa e despreocupada navegada.

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Essa foi sim uma velejada maravilhosa e mais uma vez agradeço ao comandante Flávio Alcides pelo convite, aos companheiros de tripulação Geraldo Dantas, Myltson Assunção e Paulo Guedes, pela amizade e a minha esposa Lucia, pelo astral sempre elevado e que me enche de coragem para enfrentar os mares navegados.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O catamarã de velocidade – V

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Sei que é difícil para muitas pessoas embarcar em um veleiro para uma viagem de mais de dez dias. Deixar a vida agitada das cidades, principalmente para quem está na lida diária do trabalho, enfrentar a inconstância do mar, o ritmo lento do navegar de um veleiro e o bucolismo de pequenos lugarejos ribeirinhos é quase uma prova de tortura, ainda mais nesses tempos de comunicações facilitadas pela bruxaria dos aparelhinhos de celular. Com o celular em mãos, e suas variantes comunicativas, ficamos a mercê das chantagens emocionais daqueles que ficaram em terra e basta um que de nada para bater a vontade de voltar ou simplesmente matar uma saudade.

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Quando fomos convidados para tripular o catamarã Tranquilidade em seu retorno as águas baianas sabíamos que seria uma viagem das mais gostosas, porque é sempre bom navegar na companhia de amigos, ainda mais sendo todos amigos do mar. Inicialmente planejamos uma navegada que favorecesse lugares distantes dos grandes centros e fizemos o possível para seguir a risca o planejamento. O roteiro foi sendo alterado à medida que demorávamos um pouco mais em uma parada e também de acordo com os ditames da natureza, mas procurando manter o foco em lugares paradisíacos.

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Quando da nossa ancoragem em Maceió/AL parte da tripulação decidiu que iríamos direto para Salvador/BA e chegando lá navegaríamos por dois dias na Baía de Todos os Santos. Quando eu e Lucia recebemos a notícia ficamos sem entender o motivo, mas ficamos com pena, pois havíamos feito um roteiro maravilhoso e sabíamos que o comandante Flávio gostaria de seguir o planejado.

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Entre Maceió e o Salvador, com o celular funcionado a todo vapor, praticamente a navegada de dois dias no mar da Baía de Todos os Santos estava fadada a ir por água a baixo, porque Geraldo e Myltson já haviam comprado por telefone a passagem de volta para o dia seguinte da nossa chegada. No través do Farol de Itapuã, Lucia serviu o almoço e disse que era uma afronta ao bom senso eles estarem encerrando uma navegada tão boa, ainda mais com dias de antecedência e sabendo eles que aquela viagem era um sonho do comandante. Continuar lendo

Um sonho a mais

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Tem lugares que faz brotar na gente um desejo louco de jogar tudo para o ar e ficar ali para sempre…

Poderia começar esse texto comentando que estive em Natal/RN em meados de abril de 2016 atendendo convite do proprietário do catamarã Tranquilidade, um modelo BV 43 construído no Maranhão, para comandá-lo entre Natal/RN e Salvador/BA, mas preferi começar pelo fim.

Canavieiras do Norte, distrito do município baiano de Cairu, localizado na costa do dendê e que tem o Morro de São Paulo como reflexo mais brilhante, é um lugar onde muitos gostariam de jogar para o alto os traumas urbanos e se estabelecer de mala e sonhos.

Alguns, principalmente o povo do mar, conhecem o povoado como Canavieirinhas e a grande maioria dos visitantes chegam até lá guiados pelo sabor de deliciosas ostras, porque o local é conhecido mundialmente por suas criações de ostras em cativeiro. Diariamente desembarcam por lá dezenas de turistas, tripulantes da flotilha de lanchas que fazem o passeio em volta da Ilha de Tinharé, e todos chegam ávidos para provar a iguaria servida nos bares flutuantes em frente à localidade.

Dona Nilza disse que a precursora das fazendas de ostras foi à ribeirinha Tânia Ventura Bonfim, proprietária da Cabana da Tânia, que acatou a ideia de um amigo e botou a mão na massa para mudar o cenário e a economia do pequeno povoado de pouco mais de 140 habitantes.

Além dos moluscos, Tânia incrementou a criação de beijupirá em cativeiro, mas, segundo informações, a criação dos peixes não foi bem vinda à causa dos fiscais do meio ambiente, que vez por outra pisam no povoado para tentar acabar com a ideia. Por enquanto a coisa tem andado assim meio sei lá e os beijupirás estão crescendo e se multiplicando.

Claro que comemos ostras, tomamos algumas cervejas estupidamente geladas e jogamos conversa fora com os atendentes do bar, entre eles o Guilherme, filho da Tânia, e Bruno. Duas figuras incrivelmente alegres e prontos para uma boa prosa. Porém, antes de chegar ao bar flutuante, desembarcamos no píer do povoado, diante de uma capelinha azul, e emendamos os bigodes num bate papo gostoso com os nativos Pedro Rufino e Leandro dos Santos, que contaram um pouco do lugar e incentivaram para que empreendêssemos uma caminhada pelas vielas e becos, num passeio que nem chegamos a cansar, devido pequenez do povoado, mas que nos deixou com água na boca em estar caminhando em um lugar tão tranquilo.

Após a caminhada, sentamos em um banco de madeira diante do rio e ficamos em silêncio diante de tanta beleza. O comandante Flávio Alcides quebrou o silêncio dizendo: – Se vocês quiserem ir embora que vão, eu vou ficar. O Paulo, veleiro Luar de Prata, que estava com a gente, riu e respondeu: – Eu fico também!

Em Canavieirinhas todos se conhecem pelo nome e deu para perceber que a maioria é de uma mesma família. Infelizmente não conhecemos o Geni, pai da Tânia e prático mais indicado nos canais rasos e pedregosos da região, mas vimos que é uma pessoa querida, pois todos o têm em boa estima. Seu Pedro Rufino, sabendo que navegamos nas águas da Baía de Todos os Santos, mandou um recado de agradecimento do navegador Aleixo Belov, que segundo ele, foi quem levou energia e construiu o píer do povoado. Consideração não se aprende na escola!

Como é gostoso conhecer lugares como Canavieirinhas, em que a vida é passada em câmera lenta e por mais que tentemos não conseguimos apressar o passo. A vida ali é regulada pela maré, pelo sol, pela lua e nada mais. Podemos até querer correr, mas nunca além da razão. Lucia perguntou a Bruno, atendente do bar, se ele estudava e se algum dia queria sair dali. Ele na maior calma do mundo respondeu: – Estudo sim, mas num quero sair daqui. Onde terei essa paz e sossego? Aqui eu tenho tudo.

Claro que nossos sonhos e vontades nem sempre se sobressaem diante da realidade e com isso vamos seguindo em dívida com nosso eu. Depois de uma manhã e metade de uma tarde, reembarcamos para fazer o caminho de volta ao mundo dos loucos. No comando do Tranquilidade acionei os motores e fui me afastando com o pensamento entristecido e com um adeus soando entre os lábios. Um dia eu volto!

Era começo da maré de enchente e com isso seguimos em frente serpenteando o rio que se apresentava a cada segundo mais apaixonante. Próxima parada: Galeão do Morro, onde ancoramos para passar a noite.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Navegando pela Baía de Tinharé – II

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Navegar no litoral baiano é uma gostosura e até acho que sou suspeito para falar, apesar de não ser baiano, sou declaradamente apaixonado por esse mar que acolhe todas as tribos, credos e santos. Além de ser convidativo e dotado de lugares paradisíacos, o mar da Bahia oferece uma navegada tranquila onde raramente o navegante passa maiores dificuldades.

Vários guias náuticos oferecem rotas seguras e extremamente detalhadas sobre os lugares a serem visitados. Alguns precisam de edições atualizadas sobre os lugares – como falei no texto anterior -, mas em todos, as rotas e waypoints podem ser seguidos sem nenhuma preocupação, desde que o navegante tenha um pouquinho de intimidade com os instrumentos de bordo.

Mas vou deixar de lero lero e vou seguir rumo até o distrito de Galeão, uma joia de lugar situado às margens do Canal de Taperoá, e que comecei a falar no texto anterior e parei por falta de espaço.

Antes de jogar ferro em frente a Galeão, ancoramos na Ponta do Curral, outro lugarzinho paradisíaco e distante cinco milhas náuticas do nosso destino. O fundeio em Curral é recomendado e o lugar é um colírio para os olhos de um velejador de cruzeiro, porém, entre a ancoragem e a praia existe um corredor onde trafegam as lanchas e barcos que fazem a linha Valença/Morro de São Paulo. Ancoramos por lá durante o dia e nos deliciamos com um almoço saído dos arquivos gastronômicos de Lucia.

A Ponta do Curral tem história sim senhor: Dizem os livros que foi ali que desembarcaram as primeiras cabeças de gado que chegaram ao Brasil e por isso recebeu esse nome. Contam que o local é uma fazenda particular com 530 hectares, mas disso eu não dou conta. Sei que a faixa de areia é um convite a uma boa caminhada e a praia é simplesmente linda e ainda livre de barraquinhas e das novas “músicas” – se é que podemos chamar de música – que toca em toda beira de praia Brasil afora.

Como soprava um vento leste de intensidade moderada a forte, após o almoço, levantamos âncora e fizemos o rumo de Galeão, onde uma igrejinha branca nos acenava do alto do morro. O Canal de Taperoá é profundo até o través da Ponta do Curral, em torno de doze metros. A partir daí a profundida oscila entre três e nove metros e o navegante tem que ficar atento às redes e boias de pesca espalhadas em quase toda extensão do canal. Não tivemos nenhuma dificuldade e velejamos apenas com a vela mestra, do Curral até a ancoragem em Galeão, onde ancoramos iluminados por um belo pôr-do-sol.

Não é aconselhável navegar o Canal de Taperoá durante a noite e é bom aproveitar as marés de enchente e vazante, porque a correnteza, principalmente nas marés de sizígia, é significativa. Dizem que se conselho fosse bom era vendido, mesmo assim vou deixar mais um aqui de graça: Adentrar ou deixar a barra da Baía de Tinharé durante a maré de vazante, e a noite, não é uma ideia das mais seguras, porque a briga de titãs entre a força da correnteza do rio Una e o grandeza do mar cria, como diz o potiguar Toinho doido, um mar de faroeste. Eu já estive em meio ao tiroteio em duas oportunidades e sei o que passei.

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O sol se foi e ficamos ali, embasbacados com a beleza da paisagem que cercava o distrito de Galeão. Novamente as lanchas passavam voando levando turistas que faziam a volta a Ilha de Tinharé, mas a festa acabou assim que a noite cobriu o mundo e ficamos em paz com o silêncio e as sombras da noite. Uma cerveja para variar e assim ficamos no cockpit bebericando a espera da Lua cheia, que um dia antes havia sido super, mas que não deixou de ser enorme e encantadora. Mais uma comidinha das receitas de Lucia, mais umas cervejinhas, mais bate papo e quando menos esperamos o sono bateu e fomos sonhar com os anjos e a igrejinha do alto do morro. Pense numa noite tranquila!

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O dia amanheceu e sem pestanejar desembarcamos para desbravar o povoado que tem próximo de 2 mil habitantes, espalhados em ruas limpas, estreitas e bem organizadas. Sentimos uma energia boa e logo descobrimos que todos ali são pessoas acolhedoras e de amizade fácil. – Onde vende gelo? – É logo ali naquela casa verde! Encomendamos algumas garrafas de gelo – o gelo é em garrafa pet – e saímos em busca da igrejinha do alto do morro.

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Disse a uns senhores que estavam sentados na praça: – Amigos, preciso pagar uma penitência. Como posso fazer? Eles responderam sorrindo: – Siga essa rua e suba a ladeira! Somente ao chegar no alto do morro, debaixo de um sol de lascar, descobri porque lá no pé da ladeira tem um bar.

9 Setembro (103)Igreja de São Francisco Xavier, construída pelos jesuítas em 1626, a mais antiga da região. Galeão tem história!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Navegando pela Baía de Tinharé – I

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Tem lugares que encantam pela beleza da paisagem e outros pelo carinho, atenção e distinção com que somos recebidos pelos moradores. Tem também aqueles que nos fascinam pela culinária de sabores marcantes, e únicos, e que jamais esquecemos. Mas tem alguns que cativam a gente por nada, ou melhor, apenas pela simplicidade e tranquilidade que transmitem. Desde que passamos a morar no Avoante sempre buscamos lugares que combinem todos esses fatores, mas a simplicidade e a tranquilidade é o que mais nos agrada.

Já navegamos algumas boas vezes tendo como destino a região de Morro de São Paulo/BA e jogando âncora em frente à Gamboa do Morro, um fundeadouro gostoso, porém, bastante movimentado com barcos e lanchas rápidas que levam e trazem turistas e moradores. É na Gamboa que ancoram a maioria dos veleiros que procuram a região, porque em frente ao Morro de São Paulo – um dos principais destinos turísticos da Bahia – a ancoragem não oferece condições favoráveis. A proximidade com a boca da barra do rio Una e a navegação frenética das embarcações de passageiros deixa no ar um clima de apreensão. Além de que, nem sempre os pilotos das lanchas respeitam os limites de velocidade permitida próximo aos fundeadouros. Mas tudo bem, se nem as autoridades marítimas conseguem resolver o problema, não serei eu a consertar o mundo e nem botar juízo na cabeça de quem não quer ter.

Nas nossas navegadas até o Morro – como a região é carinhosamente chamada pelo povo do mar – sempre vinha o planejamento de adentrar um pouco mais a baía de Tinharé, mas não sei por que carga d’água, nunca dava certo. Destinos como Curral, Galeão, Cairu – o município que administra tudo isso – e Canavieirinhas, eram deixados de lado com a promessa de uma próxima vez.

A Baía de Tinharé é rica em história e dotada de infinita beleza, que apesar da movimentação turística, ainda preserva muita natureza intocada entre matas e igarapés. A história dos lugares que visitamos sempre me chamou atenção e gosto de jogar conversa fora com os nativos. Nessas horas que surgem as lendas, os causos, os segredos, os mistérios que varam épocas, as infalíveis fofocas, as regras para uma boa conduta e as informações importantes. É sentado sob a sombra de uma árvore que apreciamos a vida dos lugarejos ribeirinhos navegar despreocupada entre as idas e vindas da maré.

A história conta que o primeiro cara pálida a conhecer o lugar foi o português Martim Afonso de Souza, durante a expedição colonizadora, mas como nem tudo que se conta daqueles tempos é tão certo como parece ser, é bem melhor a gente fazer cara de paisagem, tomar uma e acreditar. A turma da discórdia fala que franceses, espanhóis, chineses, piratas e afins já perambulavam por ai, mas o português era um povo arrochado e botou todo mundo para correr. O pedaço é meu e ninguém tasca!

O mundão de água de Tinharé e pontilhado por 23 ilhas e a maior de todas é a Ilha de Tinharé. O Martim deve ter achado mesmo que estava chegando ao paraíso, pois as praias que cercam a Ilha até hoje encantam o mundo. Imagine aí nos idos anos 1500, quando somente existia mata, mar e um monte de índias peladas! Era o Céu!

Mas se o portuga achou que os gringos haviam ido embora para sempre, se enganou redondamente, pois os caras voltaram e voltaram com força total. Basta dar um passeio por entre os becos e vielas de Morro de São Paulo para ver que os caras tomaram conta de quase tudo. Mas tudo bem, o mundo é um espaço aberto e livre para quem sonha e deseja se aventurar em outras paragens. Não foi isso que nos ensinou os descobridores? Acho melhor deixar o fidalgo Martim em paz e retornar ao tema principal desse texto. Assim será!

Dessa vez fui ao Morro para ministrar um curso de vela de cruzeiro para dois alunos, Paulo Lourenço e Thiago, que desejam comprar um veleiro para sair por ai. Como o curso é de quatro dias, planejamos ancorar cada dia em um lugar diferente e assim fizemos, para deleite dos alunos.

Foi aí que chegamos até o distrito de Galeão e jogamos o ferro para termos uma das boas surpresas da viagem. O lugar é gostosíssimo e a ancoragem maravilhosa, apesar do movimento das lanchas que fazem o passeio de volta a Ilha perturbar um pouco durante o finalzinho da tarde. A navegada da Gamboa até o Galeão é tranquila, mas é preciso ter atenção nas boias que marcam as redes e manzuás, e o canal tem profundidades que variam entre 3 e 20 metros. Não é aconselhável navegar durante a noite.

Seguimos a rota indicada no guia do Hélio Magalhães – Bahia, de Ilhéus a Morro de São Paulo – lançado há quase dez anos. O guia está precisando de uma edição com informações atualizadas dos locais, porém, as rotas são incrivelmente seguras.

Galeão nos encantou sim e ainda tenho muito o que falar!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um registro para a posteridade

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Pelos padrões das publicações do mundo virtual essa postagem é antiga, mas como estávamos navegando e com acesso restrito ao sinal da internet, preciso registrar o que vi e vivi no dia 27 de setembro de 2015.

A Lua promoveu um verdadeiro festival de cores e movimento diante de uma plateia abasbacada que quase fica de pescoço duro para não perder um minutinho sequer do espetáculo lunar. Assisti a tudo de olhos vidrados desde o primeiro ato que foi o nascimento espetaculoso de uma Super Lua. O segundo ato veio com uma impressionante Eclipse Total que escureceu o mundo e para encerrar com chave de ouro o teatro mágico, o retorno do nosso satélite com um brilho ainda mais intenso. Tive a alegria de observar todo esse balé poético da natureza com o Avoante ancorado em um dos belos recantos de uma Bahia abençoada por santos e orixás, Gamboa do Morro – na Ilha de Tinharé –, distrito do município de Cairu. Os estudiosos já anunciaram que o próximo espetáculo somente daqui a 18 anos. Vou comprar meu ingresso!