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O catamarã de velocidade – V

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Sei que é difícil para muitas pessoas embarcar em um veleiro para uma viagem de mais de dez dias. Deixar a vida agitada das cidades, principalmente para quem está na lida diária do trabalho, enfrentar a inconstância do mar, o ritmo lento do navegar de um veleiro e o bucolismo de pequenos lugarejos ribeirinhos é quase uma prova de tortura, ainda mais nesses tempos de comunicações facilitadas pela bruxaria dos aparelhinhos de celular. Com o celular em mãos, e suas variantes comunicativas, ficamos a mercê das chantagens emocionais daqueles que ficaram em terra e basta um que de nada para bater a vontade de voltar ou simplesmente matar uma saudade.

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Quando fomos convidados para tripular o catamarã Tranquilidade em seu retorno as águas baianas sabíamos que seria uma viagem das mais gostosas, porque é sempre bom navegar na companhia de amigos, ainda mais sendo todos amigos do mar. Inicialmente planejamos uma navegada que favorecesse lugares distantes dos grandes centros e fizemos o possível para seguir a risca o planejamento. O roteiro foi sendo alterado à medida que demorávamos um pouco mais em uma parada e também de acordo com os ditames da natureza, mas procurando manter o foco em lugares paradisíacos.

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Quando da nossa ancoragem em Maceió/AL parte da tripulação decidiu que iríamos direto para Salvador/BA e chegando lá navegaríamos por dois dias na Baía de Todos os Santos. Quando eu e Lucia recebemos a notícia ficamos sem entender o motivo, mas ficamos com pena, pois havíamos feito um roteiro maravilhoso e sabíamos que o comandante Flávio gostaria de seguir o planejado.

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Entre Maceió e o Salvador, com o celular funcionado a todo vapor, praticamente a navegada de dois dias no mar da Baía de Todos os Santos estava fadada a ir por água a baixo, porque Geraldo e Myltson já haviam comprado por telefone a passagem de volta para o dia seguinte da nossa chegada. No través do Farol de Itapuã, Lucia serviu o almoço e disse que era uma afronta ao bom senso eles estarem encerrando uma navegada tão boa, ainda mais com dias de antecedência e sabendo eles que aquela viagem era um sonho do comandante. Continuar lendo

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Navegando pela Baía de Tinharé – Final

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Pois é, o povoado de Galeão localizado na Ilha de Tinharé, município de Cairu/BA, é um lugar gostoso para jogar âncora e passar uns bons dias curtindo a vida mansa. Alguns hão de dizer que a aproximação com o movimentado polo turístico de Morro de São Paulo cria no ar um clima de inquietação, mas sinceramente não foi o que presenciamos nos dois dias e duas noites que estivemos ancorados. Sentimos sim uma comunidade receptiva, comunicativa e que deixa o visitante muito à vontade.

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O comércio de Galeão tem o básico, mas, para quem precisar de algo mais, a cidade de Valença – grande polo comercial da região – fica a pouco mais de dez minutos de navegação nos barcos de passageiro que fazem a linha regular. Não é aconselhável usar nossa própria embarcação ou o bote de apoio. O canal de acesso é raso para barcos de maior calado e deixar o bote em um porto movimentado como o de Valença, não é uma ideia das mais interessantes. O melhor mesmo é se valer dos barcos de linha que saem de hora em hora.

Para os amantes do pão quentinho, existem duas padarias que fabricam pães da melhor qualidade. Galeão conta com posto de saúde, escola, limpeza pública e uma pequena infraestrutura de apoio administrativo da prefeitura de Cairu. A piaçava em outra época foi a principal fonte de renda do povoado, mas, apesar de encontramos fardos de piaçava em algumas ruas, não denota que ela seja forte nos dias atuais.

Um pequeno estaleiro espalha sua produção na beira do Canal de Taperoá, demonstrando a grandeza criativa dos carpinteiros da região, que são reconhecidos em todo o mundo. Mas o que senti falta, e isso para mim é uma grande lástima, foi de barcos a vela. Durante os dois dias em que fiquei ancorado em Galeão, avistei apenas uma canoa a vela e essa mesmo navegava com auxílio de um motor. Passamos praticamente uma semana navegando o Canal de Taperoá e nada de barcos a vela. Uma pena, mas segundo os defensores do progresso acima de tudo: as coisas tem que avançar e quem não seguir o progresso fica para trás. Então tá!

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Eita, gostei tanto de Galeão e tenho tanto a comentar, que havia esquecido que terminei o texto número três falando de uma antiga casa que indicaram para a gente visitar. Na verdade, da casa, que disseram ser a primeira do povoado, só existe a fachada e alguns escombros de paredes laterais e tudo em péssimo estado de conservação, mas curiosamente, segundo os relatos dos moradores, é um orgulho para o lugar. Não deu para saber a data da construção, mas não deve ser tão antiga. O que mais chama a atenção são quatros estátuas e uma arte decorativa acima da fachada. Dizem que já apareceu gente de várias partes do mundo querendo comprar as estátuas e até o terreno, mas nada foi concretizado.

9 Setembro (127)

Sinceramente não consigo compreender o descaso dos órgãos e das pessoas que cuidam do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural. O grau de incompetência dessa gente beira a insanidade. E o pior é que continuam aboletados nos cargos e quando são substituídos, entram outros da mesma laia. E adianta eu falar isso aqui? Deixa pra lá!

Apesar da proximidade com o Morro de São Paulo e suas belezas naturais, Galeão ainda preserva muito do jeito ribeirinho de ser. O povoado faz parte da APA – área de proteção ambiental – que abrange toda a região e talvez por isso não tenha sido afetado pelo turismo devastador. Tomara que assim permaneça por muitos e muitos anos.

Gostei de ter conhecido Galeão e saí de lá com um misto de saudade e alegria. Alegria por ter visto um lugar diferente do que já tinha ouvido falar e saudade daquela ancoragem acolhedora, que se não fosse o nosso compromisso com nossos dois tripulantes, o Paulo Lourenço e o Thiago, teríamos ficado por lá um bom tempo.

Os moradores contaram que todo ano ancora por lá um veleiro, com um casal estrangeiro, que distribui brinquedos, livros e material escolar para a criançada. Essa atitude social tem vários seguidores no meio náutico brasileiro, mas bem que poderia ser mais disseminado e incentivado pelas associações e clubes.

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Levantamos âncora numa manhã de vento leve e maré de vazante. Nosso destino era Gamboa do Morro e foi para lá que cravamos o rumo. E Cairu? Não foram? – Não, não fomos! Quem sabe na próxima!

A vida do velejador de cruzeiro nesse Brasil apaixonadamente navegável é assim mesmo. Então: – Pra que a pressa?

Nelson Mattos FilhoVelejador