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O mundo perde um grande navegador

Oleg Belly - capitão gutemberg.blogspot

“O homem do mar deixa pegadas sobre os oceanos que jamais se apagarão”. Oleg Belly, lendário e mitológico velejador, desembarcou do veleiro Kotik para traçar rotas nos oceanos celestiais. Oleg faleceu sexta-feira, 20/05/2016, vítima de câncer. O velejador deixa um legado maravilhoso para a vela de cruzeiro, principalmente para quem pretenda navegar pelo oceano austral. A bordo do Kotik, um veleiro fantástico, ele foi inúmeras vezes a Antártida e era um especialista na travessia do estreito de Drake, um dos mares mais amuados do planeta. Conheci Oleg em Natal/RN no final dos anos 90, quando de minha iniciação no mundo náutico. Ele navegava ao largo da costa do Rio Grande do Norte em direção aos EUA, quando decidiu alterar o rumo e adentrar em Natal para rever e abraçar o velejador Zeca Martino, veleiro Borandá. Ao se aproximar do Iate Clube do Natal, ele, a esposa Sophia e um dos filhos estavam no convés e olhavam para o clube, quando o saudoso marinheiro Galego, que estava fazendo manutenção no alto do mastro de um veleiro no píer do clube, deu o alarme que o KotiK estava pegando fogo e a tripulação não havia notado. Foi um corre corre geral. Naquela época existia uma balsa que fazia a travessia dos automóveis entre a zona leste e norte da cidade do Natal e por sorte existia uma base do corpo de bombeiros em um terminal da Petrobras, nas proximidades do porto. O clube acionou os bombeiros e uma das balsas ficou a espera do caminhão para apagar o incêndio do Kotik, tudo numa rapidez espantosa. O interior do veleiro queimou quase que por inteiro e a única vítima foi o gato de estimação de bordo que morreu queimado. O fogo foi causado por um curto-circuito no motor elétrico que suspende a quilha do veleiro. O Kotic teve que permanecer em Natal por vários meses e Oleg refez pessoalmente todo o interior do barco. A imagem que ilustra essa portagem foi retirada do blog Capitão Gutemberg, onde o autor conta relato de uma viagem feita a bordo do Kotic para a Antártida.    

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Rainhas dos oceanos

8 Agosto (245)

Texto publicado em 16/08/2015, na coluna Diário do Avoante, jornal Tribuna do Norte. A coluna é publicada aos domingos e em 2015 completou 8 anos. 

A velejadora brasileira Izabel Pimentel é uma mulher guerreira, corajosa e, como diz o baiano, arretada. Conheci Izabel em 2006, quando de sua primeira travessia oceânica do Atlântico, a bordo do Petit Bateau, um modelo Mini Transat – veleirinho muito rápido com 6,5 metros de comprimento e que é utilizado em regatas em solitário transoceânicas. Na ocasião ela tentava conseguir o passaporte para a regata Mini Transat e chegou a Natal com o Petit Bateau mais capenga do que lutador que sofre um nocaute, mas apesar da fragilidade aparente do barco e da própria comandante, ela olhou para mim, sorriu, como quem tem a certeza do dever cumprido, e em vez de jogar a tolha falou: – Você tem uma toalha?

Ela estava completamente molhada, com os cabelos duros de cristais de sal, precisava de um banho de água doce e a bordo do Petit tudo estava virado pelo avesso e úmido. – Tenho sim! Izabel estava ali na condição de primeira mulher brasileira a ter atravessado o Oceano Atlântico em um veleiro numa navegação em solitário. Ela vinha de Fortaleza/CE, onde havia concluído a travessia, e na velejada do Ceará para o Rio Grande do Norte o barco sofreu a dureza do que é considerado o pior pedaço de mar do litoral do Brasil para quem navega contra ele.

Os inspetores da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte, que estavam ali em total apoio a velejadora, olhavam com semblantes de incredulidade aquele barquinho machucado e sua franzina comandante cansada, porém, feliz. Escutei da boca do inspetor William uma frase que nunca esqueci: – Nelson, essa é mesmo uma mulher de coragem e só temos que aplaudir!

Pois é, Izabel é uma velejadora de fibra e nunca jogou a tolha para o mar. Depois dessa primeira travessia vieram outras e até uma volta ao mundo, com escalas, concluída em 2014. A volta ao mundo foi em um veleiro de 33 pés, em que sofreu uma capotada no temível Cabo Horn, o terror de todo marinheiro, deu meia volta e dias depois aproou novamente o Cabo para atravessar em grande estilo. Ela é assim e não desiste nunca.

O mar foi desbravado ao custo de muito desafio e até hoje é assim, mesmo com o homem conhecendo quase todas as fronteiras navegáveis. Mas, conhecer é uma coisa e navegar é outra. Muitos homens já embarcaram na aventura que desafiou o sonho de Izabel e o pioneiro foi Joshua Slocum, a quem a velejadora fez a promessa que faria a mesma coisa. Porém, mulheres foram poucas e até se conta nos dedos.

A pioneira na circum-navegação com escalas foi à polonesa Krystina Chojnowska, em 1976 e retornando para casa dois anos depois. Em seguida, e no mesmo ano que a polonesa retornou, partiu a neozelandesa Naomi James. Uma curiosidade é que Naomi não tinha nenhuma experiência com navegação e o desejo aflorou durante lua de mel. Dizem que ela chegou a trocar latitude por longitude nos cálculos de posição, quase perdeu o mastro do veleiro no Cabo Horn – sempre ele -, capotou, ameaçou abandonar a aventura e no afã de vencer, seguiu em frente e concluiu a viagem. Só não sei se o marido esperou para concluir a lua. Também em 1978 a inglesa Brigitte Oudry perambulou pelos oceanos durante 20 meses e também esculpiu seu nome nos arquivos de Netuno.

Essas mulheres navegaram os oceanos com escalas em alguns portos e entre elas se alinharam duas adolescentes australianas, que até comentei aqui nesse Diário sem rotina. Mas teve quem apostasse em não parar em lugar nenhum e seguir em frente sem eira, nem beira e sem assistência. A pioneira dessa categoria foi à australiana Kay Cotter, em 1988, a bordo de um veleiro de 37 pés – pouco mais de 11 metros – e levou 189 dias para rodar o mundo, numa viagem azeitada com aventuras e capotadas. Numa dessas capotadas, Kay foi jogada no mar e devolvida a bordo por força de uma onda caridosa, mas seguiu em frente desdenhando da cara feia do medo.

No livro “First Lady”, escrito pela australiana e que tem o mesmo nome do seu veleiro, ela conta que em uma travessia teve que emendar um dente com epóxi, depois de um pequeno acidente. O veleiro de Kay hoje faz parte de um museu na cidade de Sidney. Eh, por ai afora essas façanhas são reconhecidas e preservadas!

Mulheres como Izabel, Krystina, Naomi, Brigitte, Kay e tantas outras que se fazem ao mar em busca de novos horizontes e novos sonhos, é um exemplo para gerações futuras. Elas são a prova de que somos o que queremos ser e não podemos ter medo e nem criar fantasmas sobre o caminho a ser percorrido. O homem foi concebido para ser livre, pensar livre e caminhar sempre no rumo da liberdade. Ficar enfurnado em planos e sonhos que nunca se realizam é a mais cruel das prisões.

Tem pessoas que se fecham em castelos de areia e diante de histórias de vida como a das velejadoras se apressam em perguntar: – Sim, e dai? E eu respondo: – Dai nada né!

Nelson Mattos Filho/Velejador