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Previsão do tempo – nuvens escuras

br1Após 11 dias aproveitando um período voluntário de “férias” da edição do blog, amanheci o dia na esperança de navegar por entre os sites meteorológicos e tentar descobrir o que se passa na cabeça dos deuses que controlam o tempo, porque os elementos da natureza têm andado de cara bonita pelas cercanias e campos brasileiros. Da varandinha de minha cabaninha de praia acompanho o desfile de nuvens e no finalzinho da tarde, e restante da noite, me alegro com o tracejado alumiado dos coriscos cortando o céu do poente e com o eco dos trovões que alegram as noites em roncados distantes. Porém, ao abrir o computador, deparei com a triste notícia da morte do jornalista Ricardo Boechat, o que me deixou momentaneamente em estado de choque. Sinceramente: O Brasil não merece esse amontoado de tragédias. É desgraceira demais para um país que se auto-intitula “abençoado por Deus”. Brumadinho, Ninho do Urubu, Boechat! Qual será a próxima tempestade? – Deus, lembre-se da nossa benção, viu! Quanto a previsão do tempo: A semana será de chuvas em boa parte do Brasil e o mar deve se agitar a partir da quinta-feira,  14/02, devido a fortes ondulações vindas do Sul e Norte. – E a temperatura? – Vixi, tem passarinho voando só com uma asa, pois a outra é para se abanar! 

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A lama do Feijão é a cara do Brasil

incidente-brumadinho-v6Mais uma vez estamos cara a cara com mais uma tragédia, mais uma barragem rompida, mais explicações infundadas e mais uma vez o palco trágico é o belo Estado de Minas Gerais, onde em novembro de 2015 a barragem do Fundão, localizada no município de Mariana, rompeu, ceifou 18 vidas e provocou o maior desastre ambiental brasileiro,  jamais reparado e até o momento vem, descaradamente, sendo jogado de um lado a outro nos tribunais de justiça. Brumadinho é uma cidade linda, localizada nas cercanias da capital mineira, com uma população estimada em torno de 40 mil habitantes, destaca-se pelos grandes mananciais de água que abastecem um quarto da região metropolitana de Belo Horizonte e também por abrigar em suas terras o maravilhoso museu Inhotim, um dos mais importantes acervos de arte contemporânea brasileiro, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina. Hoje, 25/01, o Brasil acordou para descobrir que a lição de Mariana não foi aprendida, não serviu para nada e aqueles que perderam seus entes queridos, suas casas e histórias de vida, mais uma vez irão chorar de pavor e descrença nas leis dos homens, diante do rompimento da barragem da mina do Feijão que até o momento, segundo as autoridades, existem 200 desaparecidos e lugarejos praticamente riscados do mapa. Assim como em Mariana, a mineradora Vale S/A assina o enredo do terror. – Quer saber? – Mais uma vez vamos engolir a lama goela abaixo!       

Uai! Parte 2

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“… Velejar, velejei/No mar do Senhor/Lá eu vi a fé e a paixão/Lá eu vi a agonia da barca dos homens…”

Diz à lenda que na Bahia a pressa caminha a passos muito lentos, se assim for, nada será mais produtivo do que viagem de baiano a Minas Gerais. Nas Alterosas quem andar com pressa perde a essência da visita.

Encerrei o texto anterior falando do Instituto Inhotim e da beleza sem igual que existe em seus domínios, porém, falei tão rápido que agora me vi perdido sem saber se estava caminhando para frente ou para trás. Pera lá que eu não sou baiano, mas é bom dizer assim: Prá que essa pressa meu rei?

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O Inhotim é um programa de um dia ou mais e para ser bem aproveitado a pressa tem que ser deixada na portaria. O museu é dividido em rotas, que a administração chama de eixos, e nos eixos, que tem as cores laranja, amarelo e roxo, estão cravadas as galerias, as obras, os jardins e os serviços de apoio ao visitante. Dois restaurantes dão suporte gastronômico da melhor qualidade e com preços convidativos. Na recepção uma diversificada lojinha de souvenir não deixa ninguém esquecer que esteve por lá.

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Na minha singela opinião, a visita deve ser feita a pé e retirando da proximidade estonteante da natureza o máximo de aproveitamento. São tantos recantinhos saudáveis, aconchegantes e envolvidos em um misterioso silencio ensurdecedor, que duvido ter alguém que não se pegue refletindo nos segredos da vida. As galerias nos transportam a um mundo de idéias jamais imagináveis na cabeça de um pobre mortal. São artes saídas da visão de artistas que expõem ao mundo a mistura da beleza com a crueza da vida e da morte, sem se perder no vazio da incógnita. Tudo ali é fantástico!

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Mas se o visitante preferir poupar as pernas e as reflexões, que foi o nosso caso, basta comprar um bilhete para os carrinhos movidos à energia elétrica que dão um empurrão em alguns pedaços do percurso. Fizemos essa escolha para adiantar o passo, porém, ficamos tão fascinados com a paisagem, com as galerias e com as esculturas expostas ao ar livre, que o dia passou e não conseguimos conhecer tudo.

1 maio IMG_0004 (68)1 maio IMG_0004 (73)Inhotim. – E de onde saiu esse nome tão estranho? Uai, é muita história! Existem vários contos para o mesmo tema, mas nada é comprovado. Uns dizem que se originou em um minerador inglês chamado Sir Timothy que teria morado na área onde hoje é o Instituto. Aportuguesaram o Sir que virou Senhor, que amineiraram de Nho e o Timothy apequenou para Tim. Juntaram o Nho com o Tim e deu no que deu.

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Outra vertente caminha no rumo, e existe um registro comprovado nos idos anos 1865, de um lugar chamado nhotim, onde morava um certo João Rodrigues Ribeiro, filho de Joaquim, e que a localidade foi grafada como Nhoquim. Será?

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O nome Joaquim aparece ainda em uma história contada por uma antiga moradora de Brumadinho, mas que tem também o personagem do Sir Timothy e essa mistura de nome descambou em Inhotim.

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E como cada conto gera outro conto e entre uma pitada e outra o mineiro vai acrescentando mais contos, tem quem aposte num outro inglês, que andou chafurdando pela região entre os anos 1868 e 1886, que se chamava James Wells. Conta o conto que ele conversou com um escravo que caminhava pela estrada e o negro só balançava a cabeça e respondia: “N’hor sim”. Eita mundo velho cheio de história!

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Eu me ative nessas explicações ao visitar o site do Instituto, que tem dados colhidos pelo Centro Inhotim de Memória e Pesquisa, criado em 2008 para resgatar histórias e tradições da região. O Inhotim interage com tudo que está em seu entorno. O Instituto é quase completo nos detalhes. Eu disse quase, pois sentimos falta de informações, como nome, na grande maioria das arvores que formam o parque. Questionei sobre isso com alguns funcionários e eles disseram que os estudos já estavam em andamento e muito em breve a flora estará devidamente batizada.

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Falar da grandiosidade e beleza do Instituto Inhotim é fácil, até porque um museu inserido em uma área 140 hectares de terra merece o reconhecimento. O Inhotim recebe visitantes de várias partes do mundo e de diferentes formações acadêmicas. Mais de 2 milhões de visitantes já caminharam em seus eixos e galerias e hoje, olhando para trás, sinto saudade e uma pontada de tristeza em não tê-lo conhecido por completo. Quem sabe um dia!

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O carioca Milton Nascimento, o mais mineiro dos mineiros, na letra da música, Paixão e Fé, que copiei a estrofe que abre esse texto, canta assim: “… Já bate o sino, bate no coração/E o povo põe de lado sua dor/Pelas ruas capistranas de toda cor/Esquece sua paixão/Para viver a do Senhor…”

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O povo mineiro é pura fé, portanto, vamos a ela!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Uai! Parte 1

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“… Oh! Minas Gerais/Quem te conhece/Não esquece jamais…”.

Foi durante um almoço com os amigos Venícios e Sandra Gama, em um restaurante de comida mineira localizado em Natal/RN, que surgiu a ideia de conhecer a Terra das Alterosas. Na verdade não sabíamos bem o que visitar, porque quando se fala em Minas logo vem em mente o pão de queijo, o doce de leite, o tutu, os apetitosos torresmos, as igrejas seculares, o fantástico conjunto arquitetônico, as serras, a inconfidência, o fenomenal trabalho de Aleijadinho, Juscelino Kubitschek, as cachoeiras e a cachaça. Queríamos conhecer tudo e mais um pouco, pois queríamos caminhar pelas estradas onde pisaram reis, rainhas e por onde foi transportada a riqueza monumental do ciclo do ouro e do diamante.

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A proposta inicial era alugar um carro em Salvador/BA e se embrenhar pelos caminhos do interior, passar pelas belezas da Chapada Diamantina, até desembocar na capital mineira para decidir o que fazer depois. A viagem seria no começo de maio de 2016, mas os desatinos da vida nos fez rever metas, reavaliar razões e assim, a viagem foi marcada para o finalzinho do mês das mães e não mais de carro a partir da Bahia. Para ganhar tempo, iríamos de avião de Salvador a Belo Horizonte e chegando lá alugaríamos um carro para escarafunchar as Alterosas. Venícios e Sandra sairiam de Natal. E assim foi!

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Não é fácil montar o roteiro turístico pelas paisagens de Minas. Por mais que a gente tente se esmerar no rumo a seguir, sempre ficaremos em débito com a vontade. Na ânsia de conhecer o máximo possível em oito dias de visita, mergulhamos nos sites tipo, “o que fazer em tal lugar”, e avaliamos o que poderia ser feito. As rotas do ouro e do diamante são imperdíveis e é um pecado não fazê-las. Os circuitos da fé, da arquitetura, do barroco, dos museus, das praças, das cachoeiras e da ecologia também. E os restaurantes e barzinho que compõem a vida noturna da capital? Nada que tem a grife Gerais deve ser descartado. Aliás: Pode, mas não deve.

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E foi numa noite fria que desembarcamos em Belo Horizonte para o primeiro contato com uma cidade que nos chamava para um abraço. Mais do que depressa, pois não queríamos perder tempo, deixamos as malas no hotel, tomamos um banho e saímos para as calçadas da Savassi – região nobre, situado no centro sul da cidade e famosa pelo grande número de botecos.

20160527_103424Já que estou falando de um estado que é uma das fontes da história brasileira, acho melhor dar o primeiro mergulho: Nos anos 30 existia uma padaria, na Praça Diogo de Vasconcelos, no bairro dos Funcionários, batizada de Savassi e de propriedade do italiano Amilcare Savassi. Com o decorrer do tempo a praça ficou conhecida como Praça da Savassi e consequentemente toda a região agregou o nome. Na calçada da padaria se reunia diariamente um grupo de rapazes, famosa por suas peripécias noturnas, que ficou conhecido como Turma da Savassi. Pois bem, com tantos motivos o nome pegou e ficou.

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Foi na região boêmia que demos o ponta pé inicial nos segredos do mundo gastronômico mineiro. A porta de entrada foi o boteco Redentor, localizado na Rua Fernandes Tourinho, 500, que tem chope da melhor qualidade, cardápio delicioso e atendimento de primeira linha. Aliás, o atendimento em Minas Gerais me chamou atenção pela excelência.

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No dia seguinte, pegamos a estrada até o município de Brumadinho e de lá rumamos para visitar uma das joias da coroa mineira, mas sinceramente, até então esta não estava recebendo tantas estrelas indicativas no guia que havíamos montado. Fomos assim meio sem muita vontade de ir, mas ao chegar, nos deparamos com um magnífico memorial ao meio ambiente emoldurando um suntuoso, instigante e um dos mais relevantes acervos da arte contemporânea do mundo.

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O Instituto Inhotim, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, foi idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz nos anos 80. Mello Paz doou sua propriedade para o projeto ao receber incentivo do escultor pernambucano Tunga, natural de Palmares/PE. O escultor tem um acervo maravilhoso em uma das fascinantes galerias do museu.

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Tudo no Inhotim é fora do comum e raro de ser encontrado em outros lugares mundo afora. Se você não gosta de arte, vá até lá. Se você não gosta de árvores, vá. Se você não gosta de caminhar, vá. Se você não gosta de paz, vá. Se você não gosta de silêncio, vá. Se você não gosta de nada, vá. Pois tenho certeza que você se encontrará no Inhotim.

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O Brumadinho fica a pouco mais de 50 quilômetros de Belo Horizonte, mas não pense em sair da capital muito tarde, porque a visita é um programa de uma manhã e uma tarde e dificilmente você desejará ir embora.

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Fui gostei e muito em breve quero voltar, pois não vi tudo. O Inhotim é apaixonante. Como bem disse a amiga Lourdinha Oliveira, quando soube que lá estive: “… um sonho de consumo”.

Nelson Mattos Filho/Velejador