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Resquícios de um grito

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Texto publicado na coluna Diário do Avoante, no Jornal Tribuna do Norte.

No mês de fevereiro abri uma página desse Diário para soltar um grito solitário e cheio de revolta com toda essa violência que nos apavora e que todo dia apresenta roteiros cada vez mais monstruosos. O meu grito ficou lá – como previ – largado ao vento e seu eco esquecido para sempre. Bem feito. Para que danado um velejador se mete a sair por ai dando grito a torto e a direito? Era melhor que engolisse a raiva em silêncio.

Pois bem, o tempo passou, fevereiro ficou para trás com sua folia de momo, a Terra deu alguns rodopios pelo espaço vazio e a sacana da violência se arma a cada dia de mais coragem e avança a passos largos sobre nossa cabeça, nossa dignidade, nossa alma, nossa fraqueza. Não temos mais nem forças para indignações, pois isso não mais nos pertence. Não temos esse direito.

A besta fera está caminhando à vontade pelo nosso país e recebendo adeptos a cada segundo. Não existe força capaz de frear sua sanha avassaladora. Estamos de mãos atadas esperando a bordoada final e triste daquele que tente se meter a brabo. Não tem perdão. O perdão é concedido apenas aos soldados da besta fera. Os anjinhos. Os meninos bons. Os não fez nada. Os incompreendidos. Os inocentes. Os injustiçados. Os excluídos. Os guris. Os Boys. Adjetivos não faltam para apelidar os soldadinhos das trevas.

Mas o que danado eu tenho haver com isso, se quem tem a prerrogativa de fazer alguma coisa prefere se fechar em copas? O meu grito eu já dei no Carnaval que passou e só me fez ficar rouco, nada mais. Como diz um amigo meu: Nelson, prefiro você falando de mar.

Meu amigo, eu também prefiro e fui para o mar para fugir de toda essa lama que emporcalha as ruas das nossas cidades. Embarquei com a esperança de lavar a alma navegando em busca da lendária Shangri-la da harmonia, da paz, da felicidade, da saúde e sei que encontrei. Mas infelizmente estou sendo impedido de ficar em um lugar tão mágico e oculto. Aos meus ouvidos chega o rosnado da fera através dos sinais desenhados nas nuvens internéticas e me recolho no vazio da tristeza.

Dói escutar o clamor dos verdadeiros injustiçados. Dói ouvir o choro de famílias dilaceradas. Dói ter a certeza absoluta que a justiça é mesmo cega, surda, muda e que a balança faz tempo que não é aferida. Dói escutar minha Mãe dizer: Meu filho, a bandidagem aqui por perto está uma coisa séria e não temos a quem recorrer. Pois é meu amigo, prefiro sim falar do mar e da poesia que ele representa. Mas minhas raízes e meus frutos estão em terra. Queria eu não precisar gritar.

No final de março a comunidade náutica da Bahia foi acordada com mais três casos de assaltos no mar da Ilha de Itaparica. Três barcos estrangeiros foram invadidos e felizmente tudo terminou em alguns objetos roubados. Outro assalto aconteceu em um barco ancorado em frente à sede da Capitania dos Portos da Bahia, em plena capital baiana, e demonstra a ineficiência daqueles que tem por lema proteger o navegante.

Discursos alarmados vindos do mar da Bahia foram ouvidos e nada mais se deu. Críticas e comentários bairristas navegaram nas mídias sócias vindos dos mares do sul, sudeste e até do nordeste, numa clara demonstração de desprezo, inveja e da contaminação da raiva existente entre nós brasileiros. Fui cobrado por alguns colegas por não noticiar os casos na época, mas preferi calar e esperar o maremoto acalmar. Sabia que ainda não era tudo e sei que muito ainda virá, porque a violência está imune ao combate e na verdade não queremos e nem temos forças para acabar com ela. Queremos reclamar e espernear, mas desde que seja apenas diante de um teclado de computador. O resto não é com a gente.

Abril 2015, feriadão de Tiradentes, três veleiros foram roubados na Ilha da Cotia, litoral de Paraty, e deles levaram os botes infláveis com motores de popa. Mais uma vez o mar como pano de fundo para a violência, só que dessa vez não era mais no mar da Bahia, do nordeste ou do norte tão desabonados por alguns navegantes do sul e sudeste há pouco mais de um mês. A violência – para não fugir do jargão policial – pegou geral. Recorrer a quem? Pedir ajuda a quem? Reclamar a quem?

Não existe mais lugar seguro nesse Brasil de todos em que todos têm direitos e poucos têm deveres. Vamos continuar caminhando olhando de lado e duvidando de todos, porque assim dizem que caminhamos para o desenvolvimento e em busca de uma grande justiça social. Não podemos reclamar da violência, porque dizem que o governo está combatendo e a gente é que não quer ver. Na verdade, não podemos nem ter a ousadia de reclamar, porque quem reclama é taxado de ser de direita e ser de direita é pecado mortal.

Sabe de uma coisa: Meu amigo tem toda razão!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Um grito solitário

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A morte de um velejador holandês na madrugada do domingo de Carnaval na Baía de São Marcos, no Maranhão, reacendeu uma luz vermelha sobre o mar brasileiro para os velejadores estrangeiros e gerou centenas de comentários acalorados nos blog náuticos e nas redes sociais, mas que infelizmente não passarão de palavras soltas ao vento e sem nenhum efeito prático para que as autoridades tomem ciência. A violência no Brasil virou uma indecifrável banalidade e dificilmente sairemos de suas garras num futuro próximo.

O velejador de 60 anos dormia ao lado da esposa quando foi surpreendido por três bandidos dentro do barco. Depois de uma rápida discussão o velejador levou um tiro e morreu na hora. Os noticiários anunciaram que os marginais não roubaram nada, o que é uma grande inverdade, pois levaram o maior bem que é a vida de uma pessoa. Ou será que isso não tem mais valor no mundo de hoje?

Até quando iremos conviver pacificamente com cenas como essa? Até quando vamos permitir que a brutalidade e a barbárie nos intimide e aprisione o silêncio do nosso grito de horror? Até quando vamos ficar acovardados diante das promessas vãs das nossas ditas autoridades e aplaudindo a desfaçatez de suas falas mansas cheias de subterfúgios? Até quando?

Sei que minha voz não é nada e muito menos representa um pingo de água em meio ao oceano, mas estou farto dessa violência desenfreada que assola o Brasil de ponta a ponta. Estou cansado da falta de rumo e de pulso dos homens que comandam nossos tribunais com uma leniência descarada e que envergonha a nós. Queria mesmo saber como é que nossos valorosos homens das leis deitam a cabeça no travesseiro e dormem o sono dos justos, sabendo eles das injustiças que cometeram durante o dia nos tribunais.

Precisamos de homens que tratem os marginais, de todas as esferas, como eles merecem ser tratados. Precisamos de respostas rápidas, claras, objetivas e corajosas para podermos ter a paz e a liberdade que a vida merece. Chega de passar a mão na cabeça de bandidos ou cobri-los com o manto utópico da exclusão social, pois eles não sentem nada por suas vítimas a não ser desprezo.

Eles não são excluídos, excluídos somos nós que não podemos caminhar despreocupados e sem medo pelas ruas da cidade. Nem dentro de casa temos mais sossego. Excluíram a nossa paz, roubaram a nossa tranquilidade, aniquilaram nossa liberdade, matam por matar, roubam por roubar e riem da nossa cara de palhaço amedrontado. Isso mesmo, palhaços é o que somos.

“Raiva, muita raiva”. Foram essas as palavras ditas pela esposa do velejador assassinado no Maranhão. São as mesmas palavras pronunciadas por todo aquele que tem um ente próximo tolhido pela besta fera da violência, ou que perde seus bens para um verme desumano e bárbaro. Infelizmente não nos resta outro sentimento a não ser a impotência de não poder fazer nada.

Reclamar a quem? Pedir ajuda a quem? Quem nos protege? Quem zela por nós? Até mesmo aqueles a quem indicamos como nossos representantes nos passam a perna e invariavelmente aparecem em anúncios de procurados pela polícia.

Estamos perdendo a batalha pela dignidade. Somos reféns dos maus, dos lobos, do terror, das serpentes, da peçonha fatal que paralisa a nossa razão de ser feliz. Continuamos sorrindo, mas um riso amarelo, sem graça, sem eira nem beira. Um riso sem sentido. Uma piada sem nexo. Viramos piada da velha piada pronta.

Eles conseguiram inverter a nossa lógica, não pensamos mais no certo, pois o errado vale mais. O crime passou a compensar e agora a história é outra. Na era em que achávamos que havíamos dominado a tecnologia, começamos a retornar as cavernas, a briga de foice, as matanças, a crueldade. Ressurgiram as lutas demoníacas travadas pelas imbecilidades religiosas. Estamos contaminados pelo fel das cabeças ocas. Ovacionamos os que se fazem de inocentes diante das provas expostas. Estamos fritos. Nossos descendentes estão fritos. Só nos resta pedir calma. Calma para tentar caminhar o caminho que nos resta, mesmo que a raiva core a nossa face.

Peço perdão por toda essa revolta, mas não foi a morte do velejador holandês que fez meu sague ferver, mas sim o conjunto da opera tosca que estamos assistindo calados e impassíveis. Ele foi apenas mais uma vítima que vai ficar por isso mesmo e seus algozes muito em breve estarão nas ruas, se já não estiverem, com as bênçãos de um bom padrinho faminto por voto.

Sei que esse grito solitário jamais será ouvido ou levado a sério, como não seria mesmo que todos nós gritássemos juntos, pois é um grito sem força, rouco, um sopro de vento saindo da garganta que não oferece nenhum perigo aos donos dos palácios, aboletados em suas poltronas de egos. Quem somos nós para exigir nada e a violência é problema nosso e cada qual que tente escapar a sua maneira.

Nelson Mattos Filho/Velejador