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O catamarã de velocidade – VI

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Depois da noite bem dormida na ancoragem em frente à cidade de Cairu/BA, acordamos cedinho para aproveitar a maré de enchente e seguir até o distrito de Canavieirinhas. Navegar até o povoado das famosas ostras criadas em cativeiro era uma vontade que alimentávamos há anos, mas o alinhamento dos astros não permitia que acontecesse. Quando o comandante Flávio me delegou a tarefa de montar o roteiro do catamarã Tranquilidade entre Natal/RN e o litoral baiano, inclui o destino sem pestanejar. Até porque, o comandante queria conhecer lugarejos pitorescos e que fugisse dos roteiros tradicionais.

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No começo da viagem, quando ainda estávamos na Barrinha dos Marcos/PE, meu computador queimou a placa e fiquei sem poder acessar o planejamento e consequentemente conferir a rota e os waypoints marcados. Algumas rotas já estavam inseridas no chart plotter do barco e também em meu GPS portátil. Mas como sabia que muita coisa seria alterada, como foi, em várias oportunidades, preferi incluir a cada parada a rota seguinte. Por precaução, costumo anotar em uma agenda os roteiros, mas infelizmente o percurso entre Cairu e Canavieirinhas não anotei.

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Quando da nossa ancoragem em Itaparica, remexendo papeis do barco, encontrei o guia náutico produzido pelo antigo Centro Náutico da Bahia e que teve a mão do navegador Davi Perroni. Entrei em contato com ele sobre a rota, pois confio cegamente em suas informações, e ele alertou que eu prestasse atenção no datum do GPS, porque as rotas do Guia estavam em Córrego Alegre. Datum é o modelo matemático utilizado para produzir mapas e cartas náuticas. Datums diferentes podem provocar erros de até mil metros de distância. No momento em que eu estava fazendo as correções o Davi telefonou dizendo que havia enviado um email já com tudo pronto. Amigo faz assim!

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O canal entre as duas cidadezinhas é estreito, raso em algumas partes e merece atenção redobrada até para quem tem um pouquinho de experiência. Como diz um amigo: “Não aceita desaforos e muito menos egos inflados”. Seguindo a rota que me foi enviada, observei que a profundidade média gira em torno de 5 metros, porém, na parte mais larga do rio, além de sinuoso, o traçado passa por profundidades de 3,5 metros na maré cheia. Deve ser navegado com o GPS em zoom elevado e com confiança no que foi traçado. Ao menor sinal de indecisão o barco pode ser jogado sobre um banco de areia.

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A ancoragem em Canavieirinhas é outro ponto crítico e já fez muita gente boa ficar em maus lençóis. Em frente à cidadezinha existe um enorme banco de areia, que descobre na maré baixa, e a ancoragem é feita em pouco mais de 2 metros de profundidade. Apesar de toda essa dificuldade, navegar cercado pelo vasto e vibrante manguezal é de uma beleza sem tamanho. E foi envolvido nesse clima de êxtase que cruzamos aquelas águas com segurança e alegria. O nosso comandante, que desejava um passeio assim, ria de orelha a orelha e não parava de lembrar a frase dita por nosso amigo de que “praia é tudo igual”. Lembramos também de Geraldo e Myltson que desembarcaram em Itaparica e perderam o melhor da viagem. São navegadas assim que fazem o diferencial da vela de cruzeiro e precisamos estar com o espírito em paz para vivenciá-las em toda plenitude.

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Navegar em pequenos canais e ancorar em pequenos povoados ribeirinhos, interagindo com os habitantes do lugar é um prêmio para a alma do cruzeirista. Eu mesmo não troco por nada. Falei sobre isso no texto que dá início a essa série que termina aqui e que dei o título de “Um sonho a mais”, mas acrescento que sonhos, vontades e interesses são diversos. Por isso, quando me perguntam qual o número de tripulantes ideal para uma viagem de cruzeiro, respondo que não existe número e sim afinamento. Um cavaquinho tem quatro cordas e nem por isso é mais fácil de ser tocado, ainda mais se alguma estiver desafinada.

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Canavieirinha foi o prêmio maior dessa nossa velejada a bordo do Tranquilidade e que aqui está relatado com o título O catamarã de velocidade. O título pode não corresponder com tudo o que aqui foi dito e não corresponde mesmo, porém, é uma pequena alusão aqueles que entram a bordo de um veleiro e em vez de curtirem a velejada, se preocupam apenas em correr regatas contra eles mesmos e não apreciam o sabor de uma gostosa e despreocupada navegada.

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Essa foi sim uma velejada maravilhosa e mais uma vez agradeço ao comandante Flávio Alcides pelo convite, aos companheiros de tripulação Geraldo Dantas, Myltson Assunção e Paulo Guedes, pela amizade e a minha esposa Lucia, pelo astral sempre elevado e que me enche de coragem para enfrentar os mares navegados.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Um sonho a mais

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Tem lugares que faz brotar na gente um desejo louco de jogar tudo para o ar e ficar ali para sempre…

Poderia começar esse texto comentando que estive em Natal/RN em meados de abril de 2016 atendendo convite do proprietário do catamarã Tranquilidade, um modelo BV 43 construído no Maranhão, para comandá-lo entre Natal/RN e Salvador/BA, mas preferi começar pelo fim.

Canavieiras do Norte, distrito do município baiano de Cairu, localizado na costa do dendê e que tem o Morro de São Paulo como reflexo mais brilhante, é um lugar onde muitos gostariam de jogar para o alto os traumas urbanos e se estabelecer de mala e sonhos.

Alguns, principalmente o povo do mar, conhecem o povoado como Canavieirinhas e a grande maioria dos visitantes chegam até lá guiados pelo sabor de deliciosas ostras, porque o local é conhecido mundialmente por suas criações de ostras em cativeiro. Diariamente desembarcam por lá dezenas de turistas, tripulantes da flotilha de lanchas que fazem o passeio em volta da Ilha de Tinharé, e todos chegam ávidos para provar a iguaria servida nos bares flutuantes em frente à localidade.

Dona Nilza disse que a precursora das fazendas de ostras foi à ribeirinha Tânia Ventura Bonfim, proprietária da Cabana da Tânia, que acatou a ideia de um amigo e botou a mão na massa para mudar o cenário e a economia do pequeno povoado de pouco mais de 140 habitantes.

Além dos moluscos, Tânia incrementou a criação de beijupirá em cativeiro, mas, segundo informações, a criação dos peixes não foi bem vinda à causa dos fiscais do meio ambiente, que vez por outra pisam no povoado para tentar acabar com a ideia. Por enquanto a coisa tem andado assim meio sei lá e os beijupirás estão crescendo e se multiplicando.

Claro que comemos ostras, tomamos algumas cervejas estupidamente geladas e jogamos conversa fora com os atendentes do bar, entre eles o Guilherme, filho da Tânia, e Bruno. Duas figuras incrivelmente alegres e prontos para uma boa prosa. Porém, antes de chegar ao bar flutuante, desembarcamos no píer do povoado, diante de uma capelinha azul, e emendamos os bigodes num bate papo gostoso com os nativos Pedro Rufino e Leandro dos Santos, que contaram um pouco do lugar e incentivaram para que empreendêssemos uma caminhada pelas vielas e becos, num passeio que nem chegamos a cansar, devido pequenez do povoado, mas que nos deixou com água na boca em estar caminhando em um lugar tão tranquilo.

Após a caminhada, sentamos em um banco de madeira diante do rio e ficamos em silêncio diante de tanta beleza. O comandante Flávio Alcides quebrou o silêncio dizendo: – Se vocês quiserem ir embora que vão, eu vou ficar. O Paulo, veleiro Luar de Prata, que estava com a gente, riu e respondeu: – Eu fico também!

Em Canavieirinhas todos se conhecem pelo nome e deu para perceber que a maioria é de uma mesma família. Infelizmente não conhecemos o Geni, pai da Tânia e prático mais indicado nos canais rasos e pedregosos da região, mas vimos que é uma pessoa querida, pois todos o têm em boa estima. Seu Pedro Rufino, sabendo que navegamos nas águas da Baía de Todos os Santos, mandou um recado de agradecimento do navegador Aleixo Belov, que segundo ele, foi quem levou energia e construiu o píer do povoado. Consideração não se aprende na escola!

Como é gostoso conhecer lugares como Canavieirinhas, em que a vida é passada em câmera lenta e por mais que tentemos não conseguimos apressar o passo. A vida ali é regulada pela maré, pelo sol, pela lua e nada mais. Podemos até querer correr, mas nunca além da razão. Lucia perguntou a Bruno, atendente do bar, se ele estudava e se algum dia queria sair dali. Ele na maior calma do mundo respondeu: – Estudo sim, mas num quero sair daqui. Onde terei essa paz e sossego? Aqui eu tenho tudo.

Claro que nossos sonhos e vontades nem sempre se sobressaem diante da realidade e com isso vamos seguindo em dívida com nosso eu. Depois de uma manhã e metade de uma tarde, reembarcamos para fazer o caminho de volta ao mundo dos loucos. No comando do Tranquilidade acionei os motores e fui me afastando com o pensamento entristecido e com um adeus soando entre os lábios. Um dia eu volto!

Era começo da maré de enchente e com isso seguimos em frente serpenteando o rio que se apresentava a cada segundo mais apaixonante. Próxima parada: Galeão do Morro, onde ancoramos para passar a noite.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um passeio em família

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Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

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A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

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Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

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No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

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A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

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No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.

 

Navegando pela Baía de Tinharé – Final

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Pois é, o povoado de Galeão localizado na Ilha de Tinharé, município de Cairu/BA, é um lugar gostoso para jogar âncora e passar uns bons dias curtindo a vida mansa. Alguns hão de dizer que a aproximação com o movimentado polo turístico de Morro de São Paulo cria no ar um clima de inquietação, mas sinceramente não foi o que presenciamos nos dois dias e duas noites que estivemos ancorados. Sentimos sim uma comunidade receptiva, comunicativa e que deixa o visitante muito à vontade.

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O comércio de Galeão tem o básico, mas, para quem precisar de algo mais, a cidade de Valença – grande polo comercial da região – fica a pouco mais de dez minutos de navegação nos barcos de passageiro que fazem a linha regular. Não é aconselhável usar nossa própria embarcação ou o bote de apoio. O canal de acesso é raso para barcos de maior calado e deixar o bote em um porto movimentado como o de Valença, não é uma ideia das mais interessantes. O melhor mesmo é se valer dos barcos de linha que saem de hora em hora.

Para os amantes do pão quentinho, existem duas padarias que fabricam pães da melhor qualidade. Galeão conta com posto de saúde, escola, limpeza pública e uma pequena infraestrutura de apoio administrativo da prefeitura de Cairu. A piaçava em outra época foi a principal fonte de renda do povoado, mas, apesar de encontramos fardos de piaçava em algumas ruas, não denota que ela seja forte nos dias atuais.

Um pequeno estaleiro espalha sua produção na beira do Canal de Taperoá, demonstrando a grandeza criativa dos carpinteiros da região, que são reconhecidos em todo o mundo. Mas o que senti falta, e isso para mim é uma grande lástima, foi de barcos a vela. Durante os dois dias em que fiquei ancorado em Galeão, avistei apenas uma canoa a vela e essa mesmo navegava com auxílio de um motor. Passamos praticamente uma semana navegando o Canal de Taperoá e nada de barcos a vela. Uma pena, mas segundo os defensores do progresso acima de tudo: as coisas tem que avançar e quem não seguir o progresso fica para trás. Então tá!

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Eita, gostei tanto de Galeão e tenho tanto a comentar, que havia esquecido que terminei o texto número três falando de uma antiga casa que indicaram para a gente visitar. Na verdade, da casa, que disseram ser a primeira do povoado, só existe a fachada e alguns escombros de paredes laterais e tudo em péssimo estado de conservação, mas curiosamente, segundo os relatos dos moradores, é um orgulho para o lugar. Não deu para saber a data da construção, mas não deve ser tão antiga. O que mais chama a atenção são quatros estátuas e uma arte decorativa acima da fachada. Dizem que já apareceu gente de várias partes do mundo querendo comprar as estátuas e até o terreno, mas nada foi concretizado.

9 Setembro (127)

Sinceramente não consigo compreender o descaso dos órgãos e das pessoas que cuidam do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural. O grau de incompetência dessa gente beira a insanidade. E o pior é que continuam aboletados nos cargos e quando são substituídos, entram outros da mesma laia. E adianta eu falar isso aqui? Deixa pra lá!

Apesar da proximidade com o Morro de São Paulo e suas belezas naturais, Galeão ainda preserva muito do jeito ribeirinho de ser. O povoado faz parte da APA – área de proteção ambiental – que abrange toda a região e talvez por isso não tenha sido afetado pelo turismo devastador. Tomara que assim permaneça por muitos e muitos anos.

Gostei de ter conhecido Galeão e saí de lá com um misto de saudade e alegria. Alegria por ter visto um lugar diferente do que já tinha ouvido falar e saudade daquela ancoragem acolhedora, que se não fosse o nosso compromisso com nossos dois tripulantes, o Paulo Lourenço e o Thiago, teríamos ficado por lá um bom tempo.

Os moradores contaram que todo ano ancora por lá um veleiro, com um casal estrangeiro, que distribui brinquedos, livros e material escolar para a criançada. Essa atitude social tem vários seguidores no meio náutico brasileiro, mas bem que poderia ser mais disseminado e incentivado pelas associações e clubes.

9 Setembro (28)

Levantamos âncora numa manhã de vento leve e maré de vazante. Nosso destino era Gamboa do Morro e foi para lá que cravamos o rumo. E Cairu? Não foram? – Não, não fomos! Quem sabe na próxima!

A vida do velejador de cruzeiro nesse Brasil apaixonadamente navegável é assim mesmo. Então: – Pra que a pressa?

Nelson Mattos FilhoVelejador

Navegando pela Baía de Tinharé – III

9 Setembro (96)

Falei no texto anterior que o distrito de Galeão, as margens do Canal de Taperoá, tem história e tem mesmo. Mas dessa vez eu não me aprofundei nas pesquisas, preferi sentar-se à mesa do Bar da Maria, no pé da ladeira que sobe até a igrejinha de São Francisco Xavier, para escutar os moradores que vieram saudar nossa presença. A ladeira é grande e subir com o sol da Bahia castigando a moleira não é fácil, mas a visão que temos lá do alto é de encantar os mais céticos e acho até que tem muito pecador que se acha perdoado depois que consegue chegar ao topo.

Subi o morro imaginando o que se passa na cabeça do padre quando é designado para acolher os fieis do Galeão lá nas alturas. Descobri que o padre só vai lá umas poucas vezes durante o ano e quando vai, vai em cima de uma carroça puxada por um trator. Deus é mais! Quando viu a bronca que teria que enfrentar toda semana, o primeiro sacerdote tratou logo de construir uma capela no centro do povoado. Na verdade não sei se foi o primeiro, mas com certeza ele teve vontade.

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O padroeiro São Francisco Xavier, comemorado em 03 de dezembro, é considerado o maior missionário do Cristianismo, desde São Paulo. Foi fundador, junto a Inácio de Loyola, da Companhia de Jesus. Porém, Francisco Xavier nunca esteve no Brasil. Seu lema: “De que vale a um homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma?” (Mc 8, 36). Por aqui esteve um parente seu, também da Companhia de Jesus, João de Azpilcueta Navarro, um dos primeiros catequistas do Brasil. Mas isso eu não aprendi no Bar da Maria e sim navegando nos mares internéticos, para dar um sentido mais interessante a essa prosa.

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E como na Bahia toda festa religiosa que se prese tem que ter uma lavagem, a do padroeiro do Galeão não podia ficar atrás. A lavagem da igreja de São Francisco Xavier é feita uma semana antes da festa e cá pra nós: Duvido muito que o Santo goste do reboliço que vem agregado as lavagens, pois ele chegou a pedir ao rei Dom João III que instalasse uma inquisição em uma das colônias por onde passou, por discordar dos rumos que os fieis estavam tomando. Imagine se ele escutasse uma dessas quebradeiras que tocam por aí? Ia faltar lenha para fazer fogueira!

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Sabe o que eu soube no Bar da Maria: que quando foi construída uma igreja na base do morro, a imagem do Santo foi colocada lá, mas ele não gostou e toda noite a imagem subia a ladeira para se postar no altar da igrejinha do morro. Foram tantas idas e vindas, sem ninguém acreditar no que estava acontecendo, pois achavam que era brincadeira de algum gaiato. Até que numa noite um morador quase foi parar no beleléu, quando se deparou com a imagem do Santo subindo a ladeira. Depois de recuperar o folego, e a cor, o morador correu para contar o que viu. Dali em diante a imagem ficou onde queria ficar, no alto do morro, e avistando tudo em sua volta.

Sabe o que mais: O Bar da Maria fica num local onde antigamente era conhecido como boca da mata, que era lugar mal-assombrado e ninguém tinha ousadia de ultrapassar, até que um dia um posseiro corajoso resolveu enfrentar o mau assombro e construiu um barraco para por os trecos e foi seguindo por outros. Ainda bem, pois se não fosse essa peleja não existiria o bar e nem eu iria saber de tantas coisas.

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Tudo foi dito pela Maria e seus cunhados, pessoas boa praça, simpáticos e que deixou saudades na gente. Não recorri às informações oficiais e nem fui à procura dos moradores mais antigos, pois queria saber primeiro o dito popular. Enquanto a conversa rolava solta e os copos de cerveja eram cheios, esvaziados e reenchidos, ninguém se deu conta do passeio despreocupado de um papagaio sobre a mesa e quando caiu à ficha, o bicho já havia dado uns bons goles nos copos. Eita papagaiozinho cachaceiro! Dizem que ele é acostumado a fazer essa presepada e nem vira a perna. Ainda bem que o bicho não aprendeu a chamar palavrão!

Conversa vai, conversa vem, Paulo Lourenço – nosso tripulante – perguntou sobre uma pequena casinha branca na beira do rio. A informação é que se chama Pedra do Santo e que ali existe uma laje que avança rio adentro. Certo dia uma embarcação derivou para cima da laje e antes que batesse, apareceu o Santo que salvou o barco de uma tragédia. Em agradecimento a população ergueu o santuário.

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Se dependesse da nossa vontade e da vontade dos nossos anfitriões, a conversa varava o resto do dia, mas tínhamos que retornar a bordo para almoçar, pois Lucia havia preparado um Risoto de Bacalhau que só em lembrar dá água na boca. Mas foi aí que chegaram as irmãs da Maria, com uma bacia de caranguejos e aratus. Elas vinham do mangue e Lucia não perdeu tempo e foi aprender os segredos daquela arte.

9 Setembro (130)9 Setembro (125)9 Setembro (129)Foi papo para mais meia hora, umas três cervejas e boas risadas. – Vocês viram a primeira casa daqui? – Vimos não! – É bem ali embaixo, onde tem umas estátuas! Pronto, mais um ponto turístico a visitar. Maria, traga a conta que vamos nessa!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Navegando pela Baía de Tinharé – II

9 Setembro (56)9 Setembro (468)

Navegar no litoral baiano é uma gostosura e até acho que sou suspeito para falar, apesar de não ser baiano, sou declaradamente apaixonado por esse mar que acolhe todas as tribos, credos e santos. Além de ser convidativo e dotado de lugares paradisíacos, o mar da Bahia oferece uma navegada tranquila onde raramente o navegante passa maiores dificuldades.

Vários guias náuticos oferecem rotas seguras e extremamente detalhadas sobre os lugares a serem visitados. Alguns precisam de edições atualizadas sobre os lugares – como falei no texto anterior -, mas em todos, as rotas e waypoints podem ser seguidos sem nenhuma preocupação, desde que o navegante tenha um pouquinho de intimidade com os instrumentos de bordo.

Mas vou deixar de lero lero e vou seguir rumo até o distrito de Galeão, uma joia de lugar situado às margens do Canal de Taperoá, e que comecei a falar no texto anterior e parei por falta de espaço.

Antes de jogar ferro em frente a Galeão, ancoramos na Ponta do Curral, outro lugarzinho paradisíaco e distante cinco milhas náuticas do nosso destino. O fundeio em Curral é recomendado e o lugar é um colírio para os olhos de um velejador de cruzeiro, porém, entre a ancoragem e a praia existe um corredor onde trafegam as lanchas e barcos que fazem a linha Valença/Morro de São Paulo. Ancoramos por lá durante o dia e nos deliciamos com um almoço saído dos arquivos gastronômicos de Lucia.

A Ponta do Curral tem história sim senhor: Dizem os livros que foi ali que desembarcaram as primeiras cabeças de gado que chegaram ao Brasil e por isso recebeu esse nome. Contam que o local é uma fazenda particular com 530 hectares, mas disso eu não dou conta. Sei que a faixa de areia é um convite a uma boa caminhada e a praia é simplesmente linda e ainda livre de barraquinhas e das novas “músicas” – se é que podemos chamar de música – que toca em toda beira de praia Brasil afora.

Como soprava um vento leste de intensidade moderada a forte, após o almoço, levantamos âncora e fizemos o rumo de Galeão, onde uma igrejinha branca nos acenava do alto do morro. O Canal de Taperoá é profundo até o través da Ponta do Curral, em torno de doze metros. A partir daí a profundida oscila entre três e nove metros e o navegante tem que ficar atento às redes e boias de pesca espalhadas em quase toda extensão do canal. Não tivemos nenhuma dificuldade e velejamos apenas com a vela mestra, do Curral até a ancoragem em Galeão, onde ancoramos iluminados por um belo pôr-do-sol.

Não é aconselhável navegar o Canal de Taperoá durante a noite e é bom aproveitar as marés de enchente e vazante, porque a correnteza, principalmente nas marés de sizígia, é significativa. Dizem que se conselho fosse bom era vendido, mesmo assim vou deixar mais um aqui de graça: Adentrar ou deixar a barra da Baía de Tinharé durante a maré de vazante, e a noite, não é uma ideia das mais seguras, porque a briga de titãs entre a força da correnteza do rio Una e o grandeza do mar cria, como diz o potiguar Toinho doido, um mar de faroeste. Eu já estive em meio ao tiroteio em duas oportunidades e sei o que passei.

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O sol se foi e ficamos ali, embasbacados com a beleza da paisagem que cercava o distrito de Galeão. Novamente as lanchas passavam voando levando turistas que faziam a volta a Ilha de Tinharé, mas a festa acabou assim que a noite cobriu o mundo e ficamos em paz com o silêncio e as sombras da noite. Uma cerveja para variar e assim ficamos no cockpit bebericando a espera da Lua cheia, que um dia antes havia sido super, mas que não deixou de ser enorme e encantadora. Mais uma comidinha das receitas de Lucia, mais umas cervejinhas, mais bate papo e quando menos esperamos o sono bateu e fomos sonhar com os anjos e a igrejinha do alto do morro. Pense numa noite tranquila!

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O dia amanheceu e sem pestanejar desembarcamos para desbravar o povoado que tem próximo de 2 mil habitantes, espalhados em ruas limpas, estreitas e bem organizadas. Sentimos uma energia boa e logo descobrimos que todos ali são pessoas acolhedoras e de amizade fácil. – Onde vende gelo? – É logo ali naquela casa verde! Encomendamos algumas garrafas de gelo – o gelo é em garrafa pet – e saímos em busca da igrejinha do alto do morro.

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Disse a uns senhores que estavam sentados na praça: – Amigos, preciso pagar uma penitência. Como posso fazer? Eles responderam sorrindo: – Siga essa rua e suba a ladeira! Somente ao chegar no alto do morro, debaixo de um sol de lascar, descobri porque lá no pé da ladeira tem um bar.

9 Setembro (103)Igreja de São Francisco Xavier, construída pelos jesuítas em 1626, a mais antiga da região. Galeão tem história!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Navegando pela Baía de Tinharé – I

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Tem lugares que encantam pela beleza da paisagem e outros pelo carinho, atenção e distinção com que somos recebidos pelos moradores. Tem também aqueles que nos fascinam pela culinária de sabores marcantes, e únicos, e que jamais esquecemos. Mas tem alguns que cativam a gente por nada, ou melhor, apenas pela simplicidade e tranquilidade que transmitem. Desde que passamos a morar no Avoante sempre buscamos lugares que combinem todos esses fatores, mas a simplicidade e a tranquilidade é o que mais nos agrada.

Já navegamos algumas boas vezes tendo como destino a região de Morro de São Paulo/BA e jogando âncora em frente à Gamboa do Morro, um fundeadouro gostoso, porém, bastante movimentado com barcos e lanchas rápidas que levam e trazem turistas e moradores. É na Gamboa que ancoram a maioria dos veleiros que procuram a região, porque em frente ao Morro de São Paulo – um dos principais destinos turísticos da Bahia – a ancoragem não oferece condições favoráveis. A proximidade com a boca da barra do rio Una e a navegação frenética das embarcações de passageiros deixa no ar um clima de apreensão. Além de que, nem sempre os pilotos das lanchas respeitam os limites de velocidade permitida próximo aos fundeadouros. Mas tudo bem, se nem as autoridades marítimas conseguem resolver o problema, não serei eu a consertar o mundo e nem botar juízo na cabeça de quem não quer ter.

Nas nossas navegadas até o Morro – como a região é carinhosamente chamada pelo povo do mar – sempre vinha o planejamento de adentrar um pouco mais a baía de Tinharé, mas não sei por que carga d’água, nunca dava certo. Destinos como Curral, Galeão, Cairu – o município que administra tudo isso – e Canavieirinhas, eram deixados de lado com a promessa de uma próxima vez.

A Baía de Tinharé é rica em história e dotada de infinita beleza, que apesar da movimentação turística, ainda preserva muita natureza intocada entre matas e igarapés. A história dos lugares que visitamos sempre me chamou atenção e gosto de jogar conversa fora com os nativos. Nessas horas que surgem as lendas, os causos, os segredos, os mistérios que varam épocas, as infalíveis fofocas, as regras para uma boa conduta e as informações importantes. É sentado sob a sombra de uma árvore que apreciamos a vida dos lugarejos ribeirinhos navegar despreocupada entre as idas e vindas da maré.

A história conta que o primeiro cara pálida a conhecer o lugar foi o português Martim Afonso de Souza, durante a expedição colonizadora, mas como nem tudo que se conta daqueles tempos é tão certo como parece ser, é bem melhor a gente fazer cara de paisagem, tomar uma e acreditar. A turma da discórdia fala que franceses, espanhóis, chineses, piratas e afins já perambulavam por ai, mas o português era um povo arrochado e botou todo mundo para correr. O pedaço é meu e ninguém tasca!

O mundão de água de Tinharé e pontilhado por 23 ilhas e a maior de todas é a Ilha de Tinharé. O Martim deve ter achado mesmo que estava chegando ao paraíso, pois as praias que cercam a Ilha até hoje encantam o mundo. Imagine aí nos idos anos 1500, quando somente existia mata, mar e um monte de índias peladas! Era o Céu!

Mas se o portuga achou que os gringos haviam ido embora para sempre, se enganou redondamente, pois os caras voltaram e voltaram com força total. Basta dar um passeio por entre os becos e vielas de Morro de São Paulo para ver que os caras tomaram conta de quase tudo. Mas tudo bem, o mundo é um espaço aberto e livre para quem sonha e deseja se aventurar em outras paragens. Não foi isso que nos ensinou os descobridores? Acho melhor deixar o fidalgo Martim em paz e retornar ao tema principal desse texto. Assim será!

Dessa vez fui ao Morro para ministrar um curso de vela de cruzeiro para dois alunos, Paulo Lourenço e Thiago, que desejam comprar um veleiro para sair por ai. Como o curso é de quatro dias, planejamos ancorar cada dia em um lugar diferente e assim fizemos, para deleite dos alunos.

Foi aí que chegamos até o distrito de Galeão e jogamos o ferro para termos uma das boas surpresas da viagem. O lugar é gostosíssimo e a ancoragem maravilhosa, apesar do movimento das lanchas que fazem o passeio de volta a Ilha perturbar um pouco durante o finalzinho da tarde. A navegada da Gamboa até o Galeão é tranquila, mas é preciso ter atenção nas boias que marcam as redes e manzuás, e o canal tem profundidades que variam entre 3 e 20 metros. Não é aconselhável navegar durante a noite.

Seguimos a rota indicada no guia do Hélio Magalhães – Bahia, de Ilhéus a Morro de São Paulo – lançado há quase dez anos. O guia está precisando de uma edição com informações atualizadas dos locais, porém, as rotas são incrivelmente seguras.

Galeão nos encantou sim e ainda tenho muito o que falar!

Nelson Mattos Filho/Velejador