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Um sonho a mais

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Tem lugares que faz brotar na gente um desejo louco de jogar tudo para o ar e ficar ali para sempre…

Poderia começar esse texto comentando que estive em Natal/RN em meados de abril de 2016 atendendo convite do proprietário do catamarã Tranquilidade, um modelo BV 43 construído no Maranhão, para comandá-lo entre Natal/RN e Salvador/BA, mas preferi começar pelo fim.

Canavieiras do Norte, distrito do município baiano de Cairu, localizado na costa do dendê e que tem o Morro de São Paulo como reflexo mais brilhante, é um lugar onde muitos gostariam de jogar para o alto os traumas urbanos e se estabelecer de mala e sonhos.

Alguns, principalmente o povo do mar, conhecem o povoado como Canavieirinhas e a grande maioria dos visitantes chegam até lá guiados pelo sabor de deliciosas ostras, porque o local é conhecido mundialmente por suas criações de ostras em cativeiro. Diariamente desembarcam por lá dezenas de turistas, tripulantes da flotilha de lanchas que fazem o passeio em volta da Ilha de Tinharé, e todos chegam ávidos para provar a iguaria servida nos bares flutuantes em frente à localidade.

Dona Nilza disse que a precursora das fazendas de ostras foi à ribeirinha Tânia Ventura Bonfim, proprietária da Cabana da Tânia, que acatou a ideia de um amigo e botou a mão na massa para mudar o cenário e a economia do pequeno povoado de pouco mais de 140 habitantes.

Além dos moluscos, Tânia incrementou a criação de beijupirá em cativeiro, mas, segundo informações, a criação dos peixes não foi bem vinda à causa dos fiscais do meio ambiente, que vez por outra pisam no povoado para tentar acabar com a ideia. Por enquanto a coisa tem andado assim meio sei lá e os beijupirás estão crescendo e se multiplicando.

Claro que comemos ostras, tomamos algumas cervejas estupidamente geladas e jogamos conversa fora com os atendentes do bar, entre eles o Guilherme, filho da Tânia, e Bruno. Duas figuras incrivelmente alegres e prontos para uma boa prosa. Porém, antes de chegar ao bar flutuante, desembarcamos no píer do povoado, diante de uma capelinha azul, e emendamos os bigodes num bate papo gostoso com os nativos Pedro Rufino e Leandro dos Santos, que contaram um pouco do lugar e incentivaram para que empreendêssemos uma caminhada pelas vielas e becos, num passeio que nem chegamos a cansar, devido pequenez do povoado, mas que nos deixou com água na boca em estar caminhando em um lugar tão tranquilo.

Após a caminhada, sentamos em um banco de madeira diante do rio e ficamos em silêncio diante de tanta beleza. O comandante Flávio Alcides quebrou o silêncio dizendo: – Se vocês quiserem ir embora que vão, eu vou ficar. O Paulo, veleiro Luar de Prata, que estava com a gente, riu e respondeu: – Eu fico também!

Em Canavieirinhas todos se conhecem pelo nome e deu para perceber que a maioria é de uma mesma família. Infelizmente não conhecemos o Geni, pai da Tânia e prático mais indicado nos canais rasos e pedregosos da região, mas vimos que é uma pessoa querida, pois todos o têm em boa estima. Seu Pedro Rufino, sabendo que navegamos nas águas da Baía de Todos os Santos, mandou um recado de agradecimento do navegador Aleixo Belov, que segundo ele, foi quem levou energia e construiu o píer do povoado. Consideração não se aprende na escola!

Como é gostoso conhecer lugares como Canavieirinhas, em que a vida é passada em câmera lenta e por mais que tentemos não conseguimos apressar o passo. A vida ali é regulada pela maré, pelo sol, pela lua e nada mais. Podemos até querer correr, mas nunca além da razão. Lucia perguntou a Bruno, atendente do bar, se ele estudava e se algum dia queria sair dali. Ele na maior calma do mundo respondeu: – Estudo sim, mas num quero sair daqui. Onde terei essa paz e sossego? Aqui eu tenho tudo.

Claro que nossos sonhos e vontades nem sempre se sobressaem diante da realidade e com isso vamos seguindo em dívida com nosso eu. Depois de uma manhã e metade de uma tarde, reembarcamos para fazer o caminho de volta ao mundo dos loucos. No comando do Tranquilidade acionei os motores e fui me afastando com o pensamento entristecido e com um adeus soando entre os lábios. Um dia eu volto!

Era começo da maré de enchente e com isso seguimos em frente serpenteando o rio que se apresentava a cada segundo mais apaixonante. Próxima parada: Galeão do Morro, onde ancoramos para passar a noite.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Regata da Redenção do Aratu Iate Clube – Resultado

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imageO Aratu Iate Clube publicou em seu mural o resultado da 29ª Regata da Redenção, ocorrida dia 19/30, que teve como Fita Azul o veleiro Marujos, do comandante Gerald Wicks. Veja abaixo algumas imagens da competição e da festa:

O Diário do Avoante agora também na revista Pindorama

IMG-20160215-WA0001A revista Pindorama, publicada e distribuída gratuitamente em Salvador e cidades metropolitanas do litoral norte da Bahia, acaba de lançar sua 6ª edição, como sempre, recheada de excelentes, caprichosas, diversificadas e apetitosas matérias. Em agosto de 2015, em sua 2ª edição, o Avoante fez parte da flotilha tema da matéria de capa, sobre pessoas que abandonaram a vida urbana para se aventurar a bordo de um veleiro de oceano. Naquela ocasião fui convidado pelo editor Mario Espinheira, a formar fileiras com os colaboradores articulistas e assinar a coluna Diário do Avoante. Depois de algumas correções de rumo a coluna finalmente começou a navegar na 6ª edição dessa revista que tem a cara e o gosto da Bahia.

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A maré está braba

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A Ilha de Maré é um dos cartões postais da Baía de Todos os Santos e um dos principais destinos para navegantes em busca dos segredos da boa comida baiana, porque os bares e restaurantes da Maré servem moquecas e marisco como nenhum outro. Foi tendo como destino a Ilha de Maré, cantada em verso e prosa, que boa parte dos navegantes amadores da Bahia se aventuraram em suas primeiras travessias e festejavam o feito em fartos e gelados goles de cerveja. Navegante que nunca foi a Ilha de Maré não pode dizer que conhece a Baía de Todos os Santos. Esse santuário da boa mesa, rodeado de boas praias e onde somente se chega de barco, foi palco da mais recente investida de marginais nas águas da Bahia e para azar deles, foram mexer com familiares de um deputado que mais do que imediatamente enquadrou a polícia para que fosse realizada uma verdadeira operação de captura nos moldes que todo cidadão mortal deseja. O caso aconteceu na quarta-feira de cinzas e segundo relatos, se deu quando os tripulantes de uma lancha tomavam banho de mar na localidade de Neves e foram obrigados, por forças de armas, a acompanhar os marginais até a embarcação, onde estavam mulheres e crianças. Após tomarem todos os pertencer dos tripulantes, os marginais, sem nenhuma preocupação, retornaram tranquilamente para a Ilha. Em pouco tempo apareceu um helicóptero e lanchas da polícia que se reversaram levando policiais civis e militares até a Ilha e num piscar de olho os meliantes estavam presos. Como seria bom se a polícia mantivesse sempre essa mesma eficiência.   

Sobre velejadores e índios – II

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– Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!” Foi com essa frase de Lucia que encerrei o moído no texto que aprumou o rumo para que esse tivesse seguimento. Mas afinal, será que todo índio tem cabelo liso? A verdade é que os “papa mé” da Cachoeira dos Índios, tinham cara de índio não. Aliás: vida de índio nesse Brasil de meu Deus ficou difícil desde que por aqui aportaram uns marinheiros de fala esquisita e que navegavam numas canoas enormes mais perdidos do que cego em tiroteio. Deixa queto!

Outra verdade é que as reentrâncias desse nosso Brasil, tão jovem que ainda nem aprendeu a andar direito, é entupido de lugarzinhos arretados que só vendo. São recantinhos com enorme potencial turístico, mas que ficam enterrados sob os escombros indecentes de políticas que se dizem públicas. Quanto desperdício!

E já que embrenhei pelos campos férteis onde se misturam reclamações, pitacos e afins, vou corrigir algumas informações e desinformações da primeira parte dessa historinha barata. A primeira é que a Cachoeira dos Índios fica a 104 quilômetros da capital baiana e não 100 como escrevi. Aí você pergunta: E precisa corrigir por causa de quatro quilômetros a mais? – Claro que sim, pois vai que o cara resolve ir a pé!

A segunda é que na Linha Verde, uma estrada ainda arretada de boa e onde se lê nas placas que é proibido o tráfego de caminhões pesados, já podemos cruzar com verdadeiros mastodontes do asfalto. Não sei por que danado os homens que se metem a fazer leis, normas e regras em nosso país, assinam embaixo de um papel e não garantem as calças que vestem. A estrada Linha Verde, que foi projetada para o tráfego de veículos leve, muito em breve estará em estado calamitoso e tudo sob os olhares permissivos daqueles que se dizem autoridades.

A terceira é que acho bom você se adiantar em conhecer as bonitezas que ainda existem ao longo dessa estrada, porque a besta fera do progresso já se instalou de mala e cuia na região.

A Cachoeira dos Índios é um lugar que se fizesse parte da paisagem de países onde o certo é o certo e o errado é o errado, estaria ornamentando roteiros para visitantes abobalhados diante de tanta beleza. Os pretensos indígenas que lá estão, fazem parte do contexto desastrado onde nada precisa ser tão perfeito assim, mas a presença deles é a melhor ferramenta de acusação para se desmontar o teatro das “boas intenções” politiqueiras em que cada ator se diz o mais santo de todos. Vixi! Onde estou me metendo?

Só vai à Cachoeira quem tem espírito de aventura, mas isso a gente só descobre quando se vê diante de uma trilha interditada e recebe a informação do proprietário das terras de que o caminho é difícil e que ele acha que nosso carro não chega. – Tem nada não, vamos até onde der! O serviço da estrada foi concluído, o proprietário entrou em uma caminhonete tracionada e eu acelerei valentemente o Uno para acompanhar a tirada por entre a mata. Você deve estar pensando que esse foi um programa de índio e eu já me apresso em responder que foi sim, e de cocar e tudo.

Ao chegar numa clareira em meio a floresta, o homem parou e pediu que deixássemos o carro. Segundo disse, o nosso carro não teria condições de seguir adiante. E não tinha mesmo! Abandonamos o Uno em meio ao nada e pulamos na caçamba da caminhonete, porque não nos cabia na cabine que estava cheia de ferramentas. Se enroscando e tirando fino por entre as arvores, numa trilha morro abaixo que ninguém consegue enxergar, a caminhonete seguiu por uns dois quilômetros e eu imaginado como faríamos para voltar. Será que esse senhor acerta sair?

Paramos em outra clareira e o “índio chefe” informou que teríamos que continuar a pé e ele voltaria para a porteira. Lucia perguntou: – E a gente volta como até o carro? Ele respondeu rindo: – A pé! Lucia treplicou: – De jeito nenhum, o senhor pode tratar de nos esperar. Ele fez cara de muxoxo e concordou. Indicou o caminho e seguiu sendo o guia da nossa aventura. Atravessamos uma ponte de madeira, diante de uma paisagem de encantar, e depois de uns 200 metros estávamos diante da Cachoeira dos Índios, uma pequena cachoeira de águas cristalinas e frias. Uma barraquinha de madeira desocupada, que segundo o proprietário só funcionam aos domingos, quando funcionam, completa a cena.

Ficamos encantados e maravilhados com tanta beleza incrustada na mata. A água fria espalhava no ar uma áurea de frescor e paz. Deu vontade de mergulhar naquelas águas, mas infelizmente esquecemos no carro a roupa de banho e voltar toda aquela trilha a pé não era incentivo para ninguém. Sentamos em uma das mesas a beira do riacho e o proprietário falou das dificuldades de tocar aquelas terras, mas confessou que não pretendia fazer daquele lugar um terminal turístico, porque não tinha ajuda de ninguém e os frequentadores que se aventuravam a ir até lá nos finais de semana, não tinham o mínimo zelo com o meio ambiente. Confessou que não queria nem divulgação.

Depois de um bom tempo conversando embaixo das arvores, sentindo a frieza do ar umedecido e escutando o marulhar da água escorrendo nas pedras, tomamos a trilha de volta até a caminhonete. O proprietário nos deixou na clareira onde havíamos deixado o carro e antes de pegar a estrada, ficamos uns segundos escutando o sussurro do silêncio da mata.

Tem lugares que nos enche de paz e faz nossa bateria recarregar apenas com o respirar. Lugares em que a magia é parte viva da paisagem e que nos leva a um estado de pura reflexão. Lugares sem segredos, mas que escondem olhares ocultos a nos espreitar por entre as folhas. Lugar de seres invisíveis, mas que nos faz sentir o calor de suas presenças. Lugares em que buscamos respostas, mas que nos deixa cada vez mais carregados de perguntas.

A Cachoeira dos Índios é um lugar assim, mas em breve será apenas uma boa e vaga lembrança em meio ao caos do mundo urbano que avança a passos largos. Assim como tantos outros.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Carne de Fumeiro é a cara da Bahia

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Para quem viaja a Bahia achando que vai comer apenas moqueca, acarajé, abará, caruru e tudo temperado com o fogo ardido do mais puro molho lambão, é bom tratar de ir apurando o paladar para saborear um produto da mais pura culinária baiana e que passou despercebida das letras e versos dos grandes autores das terras do Senhor do Bonfim. Vai uma carne de fumeiro hoje freguês? A carne de fumeiro tem sua grife mais famosa na cidade de Maragojipe, uma das joias preciosas do Recôncavo, e por isso dificilmente você compra alguma em Salvador que o vendedor não garanta que ela venha de lá. A carne de fumeiro que é talvez o produto mais original da culinária baiana e é produzida com carne de porco. A defumação é uma técnica ancestral e totalmente artesanal, onde a carne é cortada em mantas e exposta a fumaça do pau de pombo para desidratar e ter a superfície selada, para evitar que estrague. Alguns antigos moradores da região não usam a palavra defumar e sim moquear, que é uma expressão indígena para a técnica de desidratar carnes e peixes. O sabor da carne de fumeiro é único e delicioso, e ai daquele que for a Bahia e não provar da iguaria.

20160108_09240120160115_10561620160115_10572620160115_10563820160115_105604No calçadão do bairro da Ribeira todas as sextas-feitas acontece uma feirinha que já virou tradição do bairro. Lá podemos encontrar produtos de excelente qualidade oriundos das cidades do Recôncavo Baiano, como as deliciosas, carnes, farinhas de mandioca, beijus, farinhas de tapioca, biscoitos, dendês, pimentas, frutas – como a jaca, que fez a alegria dos colonizadores –, verduras e tudo vendido com uma simpatia que só vendo. Aliás, simpatia é o nome de um dos mais famosos feirantes do pedaço e que já está por lá há mais de trinta anos. O passeio a feirinha da Ribeira é completo, pois além das compras, você vislumbra uma das mais fascinantes paisagens de Salvador e para quem é do mar, ainda tem o prazer de apreciar belas embarcações que refletem a história das navegações na Bahia. Vá lá e comprove!

Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Ribeira

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O bairro da Ribeira, em Salvador/BA, é um recantinho gostoso em que a água salgada pulsa nas veias de seus moradores e inebria a alma dos felizes visitantes que caminham encantados por largos calçadões a beira mar, vislumbrando e sonhando com o desfile de belas embarcações que oferecem um espetáculo a parte. O pôr do sol da Ribeira é uma pintura da natureza que enche os olhos dos mais céticos dos mortais e me considero suspeito de falar, porque sou um observador abobalhado desse momento ímpar dos fins de tardes. Para o navegante, a Ribeira é um mundo encravado no solo do Senhor do Bonfim, devido a sua localização privilegiada, oferecendo o conforto de seis marinas e dotado de águas tranquilas, mas devido a astúcia dos incautos administradores públicos desse reino benevolente chamado Brasil, com elevados níveis de poluição. Porém, nem por isso deixo de admirar e gosto de ancorar o Avoante por lá e receber o abraço amigo e carinhoso dos que fazem o clube náutico Angra dos Veleiros.

Uma noitada alto astral

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No final de semana passado tivemos um encontro com o casal arretado de bom, Paula e Fernando, veleiro Andante, que estão de passagem pela Bahia no rumo da Refeno 2015. Como o casal adotou um filhote batizado de Chopinho e infelizmente, apesar das boas regras e leis que protegem os bichos nos dias atuais, não é todo barzinho ou restaurante que acolhem de bom grado os animais, levamos o casal e o filhote para conhecer e apreciar os bons momentos da varanda espetacular do clube náutico baiano Angra dos Veleiros, no bairro da Ribeira, porque lá eles são bem vindos. A varanda do Angra é uma alegria e possui uma das mais belas vistas da capital soteropolitana. As cervejas, estupidamente geladas, servidas pelo João, melhor barman do pedaço, é um maravilha a parte. Mas o encontro com o casal Andante foi recheado de boas risadas e em clima de alto astral, pois é assim que eles levam a vida e conseguem contagiar a todos. A noitada teve cenas hilárias como foi a nossa esticada até uma das boas pizzarias da Ribeira que servem pizza de massa de batata. Propaganda bem feita, fomos a elas: Lucia já sabendo da restrição a entrada de animais numa das pizzaria, tratou logo de se dirigir ao proprietário na esperança de receber o sinal verde para o acesso do Chopinho. Eu e o Fernando adiantamos o passo e buscamos as mesas que estavam sobre a calçada e em frente a outra pizzaria, que depois descobrimos pertencer ao mesmo dono. Nesse pequeno trajeto começou a lambança, pois tratei logo de pisar na maionese e daí em diante aconteceu uma divertida sequência chapliana. O saquinho de maionese estava no chão e, sem perceber, meti o pesão bem em cima e o que estava lá dentro saiu como um jato e se espalhou pelos meus pés e pernas. Com aquela velha cara de paisagem, tratei de sorrir e tentar limpar a melequeira, que quanto mais mexia mais a gosma se espalhava. Lucia e Paula, que haviam conseguido a liberação intimidatória para a entrada do Chopinho na outra pizzaria, acenaram nos chamando, porém, como já estávamos muito bem estabelecidos, apesar da maionese, resolvemos ficar por ali mesmo apesar dos protestos de Lucia. Pedimos a primeira cerveja e descobrimos que seria em latão, mais um protesto, porém, resolvemos aceitar. O garçom trouxe os copos e recebeu mais um protesto, pois esses eram de plástico. Volta tudo e logo apareceu os copos de vidro, mas a cerveja estava meia boca, dessas que para ficar gelada precisaria de boas longas horas no freezer. Mais um protesto, mais uma ameaça de ir a outra pizzaria e entre o sim e o não resolvemos dar novos créditos ao garçom e pedimos a pizza: Metade Baiana e outra metade de Rúcula com Tomate Seco. Bom! O Céu que até aí estava limpo, resolveu ficar enuviado e uns pingos despencaram sobre nós. – Vai chover, acho melhor a gente entrar. – Será?Acho melhor a gente se adiantar, porque lá dentro tem poucas mesas. Entramos! Como só havia uma mesa próximo a geladeira das cervejas, foi a ela mesmo que recorremos. Ao sentar senti o piso molhado e no segundo seguinte Lucia protestou novamente: Eita bixiga, está cheio de água aqui! E estava mesmo, pois era água que escorria da geladeira. Novos protestos e dessa vez o proprietário, que estava passando, teve que ouvir algumas verdades, mas como sorriamos bastante, o protesto não teve o resultado esperado. Mais uma cerveja, novamente meia boca, e assim ficamos papeando e esperando a pizza sair do forno. Chegou! – Quem vai na Rúcula? – Quem vai na Baiana? Distribuídas as partes demos início a degustação. Ao colocar o primeiro pedaço da Baiana na boca, senti que a danada estava abaianada de verdade. Pense numa pimenta da gota serena! Fernando que também estava na Baiana, arregalou os olhos, puxou o copo de cerveja e deu um longo gole. – Tá forte mesmo! Do outro lado da mesa chegou outro tipo de reclamação: – Essa Rúcula só tem arreia! Danou-se! Eu ainda tentei apaziguar  e disse: – É bom para amola os dentes! Não colou! Lá vem novamente o garçom, já esperando a bronca, e levou as folhas de rúculas para serem substituídas por outra bem lavadas. E a pimenta? Bem, essa não teve jeito, mas ainda bem que tinha cerveja meia boca, se não a coisa estava feia. Como a cada pedaço que colocávamos na boca os olhos ficavam marejados, Lucia resolver provar da Baiana e a sequência foi assim: Pegou o pedaço, dizendo que éramos manhosos, colocou na boca e na mesma hora arregalou os olhos, tentou falar e não conseguiu. Quando falou a voz falhou e num passe de mágica correu até o proprietário para registrar um novo protesto, mas como a voz estava rouca e quase inaudível, novamente o protesto falhou e ao olhar em nossa direção o proprietário só viu alegria e boas gargalhadas. E sobrou alguma coisa? Coisa nenhuma! Pagamos a conta e entre boas gargalhadas fomos embora felizes da vida. Nem tudo são flores, mas com boa vontade e alegria podemos construir e regar um jardim!       

Aliando cultura e náutica

2 fevereiro (142)

Convite Encontro de ArtistasA Ilha de Itaparica não tem encantos apenas na gostosura de suas águas convidativas, porque ela tem cenários fascinantes e paisagens que formam um bálsamo para a alma livre daqueles que têm na natureza a fonte para suas criações. Sou apaixonado pelo ambiente bucólico que paira sobre as ruas que compõem o traçado urbanístico da velha aldeia dos Tupinambás. Ao caminhar pelos becos e vielas da antiga Taba, escuto ecos de um passado que se sente injustiçado com as maledicências de uma modernidade cruel e inclemente. Mas deixa ver e vamos em frente! Para os que veem a Ilha apenas como destino de uma boa velejada e local de uma ancoragem perfeita, saiba que Itaparica tem uma vida cultural ativa e bem interessante – de lá saiu um dos maiores escritores brasileiros, o saudoso João Ubaldo. Nesse final de semana, 29/08, tem inicio o 10º Encontro de Artistas e a programação se estende até o dia 18/09, com apresentação dos trabalhos de artistas plásticos, artesões, cantores, poetas, dançarinos, cineastas, ceramistas, escritores e outros. Tai uma boa dica para quem está a procura de um bom motivo para velejar.