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Esses meninos!!

5b34fef2b4593O Canal da Mancha, que originalmente se chama Manga, porque se parece com a manga de uma camisa, é um braço de mar do oceano Atlântico separando a Grã-Bretanha da França e faz a ligação do Atlântico com o Mar do Norte. Os franceses o chamam de “Le Manche”, os ingleses de “English Channel”, os alemães de “Canal da Manga” e os tradutores da língua portuguesa, rascunharam para lá, apagaram para cá, rabiscaram novamente e o que sobrou no papel foi mancha e por mancha ficou. O famoso canal é a rota marítima mais movimentada do mundo, principalmente no pedaço entre a cidade inglesa de Dover e a francesa Calais. Tão movimentado quanto perigoso, pois a força das correntes aliado as fortes tempestades que acometem aquela região do planeta, foram e são responsáveis por vários acidentes fatais. O Le Manche, para agradar os franceses, tem 563 km de comprimento por  240 km de largura em sua margem mais distantes, mas seu ponto mais estreito é de 33 km, número que floreia os sonhos e desejos de aventureiros mundo afora. Já atravessaram a nado, de canoa, remando, boiando e mais uma danação de invenções. O aventureiro mais recente, junho 2018, foi o menino francês Tom Goron, 12 anos, que embarcou em um veleiro Optimist,  subiu as velas na ilha de Wight, Reino Unido, e aproou o rumo da venta em busca de alcançar a comuna francesa de Cherbourg, França, onde chegou depois de 14 horas e 20 minutos de velejada. O recorde anterior era da também francesa, Viollete Dorang, 15 anos, com o tempo de 14 horas e 56 minutos, em 2016. O menino, que na travessia foi seguido de perto pelo pai, a bordo de um veleiro maior, disse em entrevista que passou mal e chamou “hugo” varias vezes durante a travessia de 60 milhas, mas em nenhum momento pensou em desistir. A mãe, Sophie, declarou: “Estou muito orgulhosa dele, conseguiu (…) É teimoso, ambicioso, perseverante e… temos que segui-lo”. Parabéns menino Tom, o mar é seu!  

Mais um para a lista dos grandes feitos do homem

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O sul-africano Chris Bertish, 42 anos, entrou para o seleto grupo dos homens que atravessaram o Oceano Atlântico em um barco a remo e agora pode posar a lado do brasileiro Amyr Klink, que completou a prova há 33 anos. A travessia de Bertish teve início em dezembro de 2016, em Agadir, Marrocos e terminou nas Antíguas 95 dias depois, completando o percurso de 4.050 milhas náuticas. Os planos iniciais do Sul-Africano era chegar na Flórida, porém, sistemas de baixa pressão forçaram a mudança de rumo. Durante a travessia foram arrecadados pelo site de Bertish, milhões de Rands, moeda Sul-africana, em prol de instituições de caridade, porque esse era o real objetivo da aventura. “Nada é impossível a menos que você acredite que seja”, tema repassado ao longo da travessia. Veja a matéria completa no site SupClub

Das utopias

01 - Janeiro (1)

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”

Mario Quintana

Um dia de aventuras

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No mês de abril de 2013 aticei os leitores com a postagem Conte sua história, em que abria espaço para que cada um contasse como chegou ao mar ou relatasse experiências vividas no reino de Netuno. Foi aí que começou a série A Tempestade, que infelizmente o autor nos deixou a ver navios em meio ao mar de Aracaju, não colocando um ponto final na peleja. Na crônica O Noroeste, em que conto meu atribulado encontro com esse vento descarado que sacode o mar da Bahia, o leitor Cicero Carlos Farias – que posa para a posteridade ao lado da esposa na imagem acima – comentou meu quiproquó e disse que tinha uma boa história para contar sobre um arranca rabo que teve no mar de Pernambuco a bordo de uma jangada e não titubeou em enviar o relato, que li num fôlego só – as vezes quase faltando. Parabéns Cicero e obrigado por dividir sua aventura com nossos leitores.

Um Dia de Aventuras no Mar

Cicero Carlos Farias

Após algum tempo vivendo no litoral, me apaixonei pelo mar e pelo prazer que ele pode nos proporcionar. Já sendo um bom nadador, haja vista que nasci e fui criado em regiões ribeirinhas, procurei me aperfeiçoar também no mar e até mesmo enveredei na arte do mergulho de apneia, o que sempre admirei por achar que o respeito à natureza: corais e animais marinhos. Muito embora o meu mergulho seja sempre por esporte, algumas vezes caçava um único peixe para levar para a minha esposa Simone, mesmo porque toda semana eu tinha um dia para ir ao mar para fazer o mesmo. Escolhendo a hora de acordo com a maré de minha preferência, a maré de quadratura, maré resultante do desalinhamento entre os astros: Sol, Lua e Terra, também chamada de maré morta ou baixa mar, podendo assim aproveitar o mar numa maior calmaria. Após alguns anos sem uma jangada e acostumado a nadar, evidentemente equipado com nadadeira, faca, mascara, respirador, além da arma de caça submarina, da praia até a barreira de arrecifes, resolvi fazer uma pequena e boa jangada, e assim a fiz e pus um motor de rabeta, batizei-a com o nome de bicuda e levei-a ao mar e lá, consegui um local para deixá-la ancorada na praia.

Um belo dia de domingo de um mês de agosto, um dos piores meses para a navegação em virtude dos ventos e das grandes ondas que deixam o mar bravio, como o chamam os pescadores. Nesta época do ano, muitos pescadores recolhem as suas jangadas, preferindo nem mesmo ir ao mar, devido aos riscos de naufrágio. Nesse citado dia chegam a minha casa os colegas: Junior Grandão e Junior Pequeno, pedindo para dar uma volta comigo na minha Jangada Bicuda, então resolvemos ir ao mar, eu peguei minhas tralhas (assim como é chamada todos os equipamentos para mergulho e pesca) e partimos naquela manhã para as minhas áreas de mergulho, a Grande Barreira de Corais, que faz parte da restinga do sul de Pernambuco.

Chegando ao destino, ancorei a jangada e fui mergulhar e observar as belas paisagens submarinas, corais e peixes coloridos dominavam o ambiente. Lembro-me que estávamos em Maré de Sigila, assim chamada, quando os astros: sol, Terra e Lua estão alinhados, resultando em preamar ou maré viva, onde a amplitude de maré, ou a diferença entre o nível mais baixo e o mais alto pode chegar a até mais de 2,40 metros, isto sem contar com as grandes ondas que alcançam facilmente mais 2,5 metros de altura. Ainda com a maré baixa, depois de algum tempo resolvemos ir até a “prainha”, assim como é chamada uma croa de areia que aparece na maré baixa, naquela região a mais ou menos um quilômetro da crosta, circundada por belas piscinas naturais que encantam os turistas que visitam em alta temporada. Naquele dia não tinha ninguém, além de um ou outro pescador. Resolvemos então jogar um pouco de frescobol, já que o Junior Grandão era um exímio esportista com a raquete. A maré estava no limite do refluxo, ou seja, zerada, o que nos permitiria ficar bem à vontade por um bom tempo até começar o movimento de fluxo, ou subida da maré, porém o Junior Pequeno sugeriu que poderíamos partir para a localidade de Várzea do Una, um distrito que foi formado a partir de uma Colônia de Pescadores, logo retruquei por saber que a maré já começara a subir, mas fiquei sendo minoria e segui com eles. Continuar lendo

Um mundo de aventura

veleiro teasadaniel e angela Conheci o casal Daniel e Ângela Cheloni em 2009 quando ancoramos o Avoante em Maceió/AL e saímos a procura de alguém que nos ensinasse os segredos para entrar na Barra de Estância/SE, mais conhecida no mundo náutico amador como Mangue Seco. Na Federação Alagoana de Vela e Motor o amigo Roberto Buenos Aires nos apresentou ao casal, que são proprietários do restaurante Del Popollo na capital alagoana, dizendo que eles sabiam tudo sobre Mangue Seco. E sabiam mesmo. Daquele dia em diante nos tornamos grandes amigos. O casal, que acho que posso chamar de alagoano, devido os laços afetivos e empresariais que têm na bela Maceió, tempos atrás saiu pelo Atlântico a bordo do veleiro Caliel, um Trinidad 37, levando as duas filhas em uma viagem que jamais esqueceram. Daniel e Ângela são aventureiros por natureza, aliás, acho que já nasceram sonhando em desbravar o mundo, e em  suas andanças o mar é apenas um dos caminhos possíveis. Em 2010 foram aos Estados Unidos para visitar os amigos do Trawller JADE e na marina onde estavam notaram que havia um Trinidad 37 exposto a venda, com bandeira brasileira, e num piscar de olhos efetuaram a compra. Eles não perdem tempo com conversa mole. Embarcaram no TEASA com pensamento em tomar o rumo das Bahamas e Caribe, mas como bons aventureiros, mudaram de planos e enveredaram pelos caminhos do GREAT LOOP e por um maravilhoso passeio pelos canais da famosa Intracoastal Waterway. Na via fluvial dos EUA, seguiram até o Canada e retornaram ao ponto de partida, fechando o ciclo de uma viagem de sonho e que no blog Veleiro Teasa, ou Pais à Deriva, é contado tim tim por tim tim em quatro temporadas. Ângela e Daniel partiram em Dezembro de 2014 para a quinta temporada e o blog já está recheado de novidades, belíssimas imagens e é um bálsamo para a alma de um cruzeirista e para os amantes de aventura. Navegue por lá e confira.      

 

Uma viagem para poucos – IV

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Caro tripulante desse Diário, juro que não pensei que essa história iria se estender tanto e ao acrescentar o número quatro após o título me dei conta do tamanho da encrenca que estou tentando descrever sem deixar você cansado. Já recebi alguns e-mails de amigos querendo que eu adiante os fatos e parta logo para os finalmentes, mas não é bem assim, pois a vida precisa de calma para ser vivida e o melhor dela está nas entrelinhas.

Encerrei o capítulo três aproado no rumo da praia de Caiçara do Norte/RN, uma das mais belas praias do litoral potiguar. Rumamos para lá na esperança de reabastecer os tanques de combustível do Argos III, porque até ai não conseguimos abrir as velas em nenhum momento da viagem. Bem que poderíamos tentar, mas isso tornaria a navegada um pouco mais desconfortável do que já estava, além de que, tínhamos data para chegar a Cabedelo/PB.

Chegamos a Caiçara no finzinho de uma bela tarde emoldurada com um esplendido pôr do sol. Jogamos âncora umas três vezes e em nenhuma delas tivemos sucesso. O vento estava forte e o fundo de areia dura não permitia que a âncora unhasse. Um pescador indicou uma poita de um barco de pesca e afirmou que não teríamos problemas, porque era um ferro muito pesado. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 17

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A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom. Continuar lendo

Velejando de Salvador às Granadinas – II

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VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – II

Sergio Netto

Dia 24, o terceiro de velejada, o organismo já adaptado, muita leitura. Cada vez que se sai do porto recomeça o processo de adaptação, enjoo, etc., que dura tres dias. Hoje é o 20º dia desde a saida de Salvador, 15 dos quais navegando. Às 11:10 ψ=0°15’S, ʎ=43°00’W. Vento NE 17 nós aparente. Progresso de 190 milhas em 24 horas. Média desde Fortaleza 7,1kn.  Cruzamos o equador na longitude ʎ=43°27’W, profundidade ~3000m. Bruno e eu pulamos na água, um de cada vez. Passamos por fora dos recifes Manuel Luis, no Maranhão, todo o pano em cima.image

Dia 25 o vento diminuiu para força3, força 2, e rondou para NE. Tivemos um progresso de 162 milhas em 24 horas. Passou um navio de container, por fora, para SE. Dia 26, outro navio, também por fora, bem longe, no rumo NW. Às 04:30 o vento cresceu para 10 nós, NE, e estabilizou. O trecho de vento fraco foi de 0,5° de latitude e 1° de longitude, 1,5 a 2,0°N e 45°40’ W a 46°40’W. Às 10h vimos um veleiro na proa quando subiamos o talude continental, cruzando as isóbatas de 2000 e 1000m. Antes do almoço houve um show de golfinhos que Bruno fotografou. A água continua azul, mas mais escura. Durante a noite cruzamos o canal principal que alimenta o talude no cone do Amazonas. Na plataforma, entre as isóbatas de 30 e 200m, há na carta 10 da DHN um ponto circular marcando 471m. Passei nele; vinha com profundidade mensurável na sonda que tem registro analógico, e perdi o fundo por 36 minutos. Interpretei não como uma anomalia pontual, circular, mas como o talveg de um canal distributário com largura de 4 milhas, vindo do cabo Norte e de Macapá que não foi convenientemente mapeado. Este canal deve alimentar a cabeceira do grande leque no talude, o qual forma o ‘cone do Amazonas’.

A isóbata de 10m está a 50 milhas da costa! Tudo aqui na foz do Amazonas é grandioso. Às 22:50 havia um pesqueiro grande na frente. Acendi a luz de navegação e fui de proa. O pesqueiro chamou no rádio, com voz de velho amazonense. Estava à deriva a 3,6 nós, largando equipamento de pesca. Foi uma comunicação cordial com o barco.

No dia 27 tivemos um progresso de 173 milhas, e a água mudou de cor para esverdeada. Passaram 3 navios, por dentro possivelmente para pegarem menos correnteza. Motoramos 7 horas, toda a tarde,um motor de cada vez, no intuito de chegar em Salut ao entardecer do dia 28, mas às 17:50 o motor de BE superaqueceu e tocou o alarme: partiu a correia da bomba d’água salgada, e o de BB entupiu o filtro de combustivel. Como não tinha balão, decidi ir ‘drifting’ com vela suficiente para manter o rumo e passar mais uma noite no mar, chegando pela manhã do dia 29. Foi uma decisão interessante andar mais devagar. Acabou o barulho do motor, ficou tudo relaxado e mantivemos o mínimo de vela só para sustentar o rumo, porque a correnteza é de 2 nós a favor. O problema agora é administrar o ‘excesso’ de velocidade para não chegar muito cedo, ainda escuro. Igor fez mil recomendações para não investir as ilhas à noite.

image imageimageimageIdentificamos o veleiro que vimos ontem, está agora por sota e no través. É um ketch americano, Carduff, que não respondeu minha chamada! Mas hoje falei com um navio, o P&O Nedloyd, de Houston, e ele também. Deve ser um desses gringos fdp amedrontados que segue as regras de segurança lá deles. Dia 28 consertamos os motores e administramos o ‘excesso de velocidade’ enrolando toda a genoa. Desliguei o piloto para economizar energia e travei o leme com um ângulo de 15°… e fomos derivando a 2 nós, abrindo 20 a 30° do objetivo. Durante 16 horas! Foi assim que passamos a fronteira internacional Brasil-Guiana. Dia 29 atrasamos o relógio 1 hora, para o fuso de Caracas, GMT-4. Às 02:45 ψ=5°21’N  ʎ=51°51’W, destravei o leme, apontei M270 para corrigir a correnteza, abri a genoa toda com vento SE força 3 e andamos SOG 3-4 nós na direção de Iles du Salut. menos de 50 milhas à frente. A água estava verde escuro, azeitonada. Às 11h ancoramos em Ile Royale, ψ=5°17’N  ʎ=52°35’W, 1037 milhas desde Fortaleza em 7 dias. Consumimos 100 litros d’água, mais de 7 l/pessoa/dia, uma esnobação. Lá estavam ancorados 9 veleiros, incluindo os Endurance 35, Sidoba III e Marie Celeste. Chegaram ontem à tarde, cumprindo o que nós iriamos fazer se não tivessem pifado os motores. Como se ve na Blue Chart, as ilhas ficam a 5 milhas do continente e a 8 milhas de Caiena, e é tudo muito raso. Mas tem uma maré de 3m. Fomos Stanislau, Luis, Xari, Bruno e eu de caique, visitar as ilhas de St.Joseph e do Diabo, todas vulcanicas. Bruno subiu num coqueiro e derrubou sete cocos. Visitamos as celas comunitárias e as solitárias, de 1,5x3m, escuras,fechadas com um circulo no teto. Hoje os franceses se envergonham do tratamento que davam aos presidiários.

No dia 30 os espanhóis foram embora cedo. Fui com Bruno visitar Île Royale, onde ficava a administração do presídio e hoje é a sede do receptivo turístico. A única coisa que conseguimos comprar foi um cartão de telefone por €12,4, que usamos para falar para o Brasil até o ultimo centavo. Aqui euro e dólar têm o mesmo valor. Almoçamos no restaurante da pousada, visitamos o farol antigo junto do telescópio moderno que rastreia os foguetes lançados do Centro Espacial em Kourou no continente defronte. A base é conveniente para os franceses porque fica próxima à linha do equador.

 Largamos às 15 h, contornando a Île Royale pelo sul e rumando 316V, direto para Granada, passando pelo norte de Tobago. O plano é, se quebrar o barco, entramos para Trinidad; se estiver tudo bem vamos direto para Granada. Vento NE 15 kn. Me sinto melhor velejando num mar arrumado e vento folgado do que em terra!

imageNa madrugada do dia 31, defronte à fronteira com o Suriname, a 30 milhas de terra fomos abordados pela guarda costeira (?). Chegaram completamente apagados e chamaram no rádio, creio que em holandês.  Não respondi e meteram um holofote possante sobre o Blooper. Respondi em Inglês, e eles pediram identificação. Satisfeitos com as respostas desejaram boa viagem e apagaram tudo de novo. Quando nos afastamos mais da costa o vento caiu à noite para 8 nós e a corrente cresceu para 2. Hoje passamos a usar o tanque grande. O de 100 litros que enchemos em Fortaleza durou 10 dias: 5l/pessoa/dia. Estamos melhorando. Às 15h progresso de 137 milhas. Ψ=6°45N ʎ=54°17’W, prof 45m, correnteza 0,5 a 1 nó. Vento real E<10kn nas ultimas 16 horas.

Dia 1 de novembro descemos da plataforma continental para o talude a 7°30’N; a plataforma aqui tem 100 milhas de largura. Dai os alísios de NE começaram a se firmar, crescendo lentamente de 10 para 15 nós a 8°N, e passando de 20 nós a 9°N, com ondas de 2m. A temperatura da água subiu para 27,4°C, e a cor voltou a ser azul. Como a costa da Guiana é orientada NW na direção da Venezuela, estamos agora andando em asa de pombo no talude, paralelo à costa. A correnteza aumentou de 0,5 para 1 nó, de ESE. Às 15 h, em Ψ=8°12N ʎ=55°50’W, marcamos um progresso diário de 130 milhas. Perdemos a ultima colher de arrasto disponível. No dia 2 de novembro o vento começou a crescer devagarzinho, para não assustar. Continua leste. Refresca à noite e cai de dia. Nesta madrugada de 1 para 2 tivemos algumas nuvens pretas mas mantivemos tudo em cima. Fomos de novo abordados por navio de guerra, igual a ontem, só que hoje já chegaram falando inglês com sotaque americano. De novo, não vimos o barco. Hoje às 15h completam 11 dias desde Fortaleza. Lavei shorts e cuecas.

2 de novembro 2003, domingo. Acordei com a queda de um peixe voador nas minhas costas. Entrou pela fresta aberta da gaiuta de popa a barlavento! Acendi a luz e joguei de volta para o mar. Nesta madrugada pegamos corrente contra, de W, entre 8,5 e 10°N, e tráfego de navios na rota Miami-Recife.

Defronte à Guiana Inglesa, até a foz do Rio Orinoco, a 140 milhas da costa, pegamos uma zona de depressão da tarde do dia 2 até a manhã de 3 de novembro. Igor havia avisado que por aqui tem uma depressão semanal. Era uma sequência de cumulus altos, espaçados no horizonte a leste, parecendo barcos de pesca alinhados na borda da plataforma, cada um em forma de charuto. Quando chegou o primeiro, o Blooper parecia um carroção, vibrando todo a 10 nós. Ai descemos a mestra para o terceiro rizo, e melhorou. Se minha neta de um ano estivesse a bordo, uma possibilidade aventada de Lia e ela embarcarem em Fortaleza, ou ela ia ficar vacinada para o resto da vida, ou ia se assustar com a eventual expressão de tensão dos mais velhos; um risco que eu não estava disposto a jogar. Além do mais, com ela a bordo eu ia acabar quebrando uma regra de segurança fundamental: o barco tem prioridade.

O Diário do Avoante na Moana Livros

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O livro Diário do Avoante agora faz parte do catálogo de obras oferecido pela Moana Livros, que tem a mais completa coleção de livros sobre mar e aventura. Entre no site da Moana Livros e adquira já o seu. Por sinal, fiquei muito lisonjeado com a crítica literária feita pela Moana

Um livro especial para quem quer se iniciar na Arte de Bem Viver a Bordo! Um coletânea de pequenos artigos, publicados na Tribuna do Norte (Natal-RN), com todas as perguntas que você gostaria de fazer para alguém que vive em um veleiro, e respondidas de forma direta e bem humorada. Pequenas crônicas de nosso litoral, aventuras de quem leva a vida na brisa e na velocidade das lufadas do terral. Um texto cheio de amor pelo mar e pela vida, muito bom de ler e bom de guardar, para dar uma renascida de vez em quando.