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Avoante avoou

3 Março (258)

Voa Avoante, voa e vai fazer seu ninho em outro coração, mas saiba, e sei que você sabe, que meu coração é seu e dentro dele ficaram os galhinhos secos onde você deitava o corpo e se aninhava para me encher de alegria e paz.

Obrigado por tudo meu amigo. Obrigado pelo carinho, pelo conforto, pela segurança, pela paz, pela alegria, pelo prazer, pelos risos, pelos choros, pelas aflições, pelos ensinamentos e por ter me mostrado horizontes que jamais imaginei existir.

Foram dezesseis anos de cumplicidade, desses, onze anos e cinco meses morando a bordo. Uma vida recheada de alegrias, felicidades, amizades, aventuras, histórias, causos, navegadas – algumas boas outras nem tanto – e muito companheirismo, aconchego e carinho recíproco. Essa foi a nossa vida a bordo do Avoante durante todos esses anos. Agora chegou a hora de dizer adeus para seguirmos caminhos opostos. Nós tomaremos o rumo de terra, ele segue sua sina de bom marinheiro e tornará a fazer a alegria de novos companheiros, pois essa sempre foi sua missão.

Pois é gente, o Avoante não é mais nosso e não tenham dúvidas que foi a decisão mais difícil e complicada que já tomamos. Depois de onze anos e cinco meses precisávamos retornar para a loucura das cidades e tentar zerar pendências que foram sendo deixadas de lado. O mundo cobra, a vida cobra, o corpo cobra, a cidade cobra e diante de tanta sincronia de cobranças, as amarras voltam a ser lançadas sobre o caís.

– Planos de retornar ao mar? – Claro que sim, pois sobre o mar a vida é mais sensata, lógica, simples, descomplicada, desapegada e feliz, muito mais feliz! Demos sim uma guinada de 180 graus, mas é assim que faz o povo do mar quando precisa navegar para frente e por mais que tente orçar os ventos não permitem.

Continuarei aqui nesse cantinho a falar não somente do mundo fascinante que é o mar e tentando repassar os ensinamentos que aprendi, porque, assim como as fragrâncias e os sabores, os temas da vida são diversos. Continuarei com sempre fiz: Escrevinhando sobre o cotidiano da vida, das cidades, das coisas, dos mistérios, dos segredos, dos homens, da natureza e tudo de forma livre e desapegada, como bem me ensinou os deuses e seres do mar.

Avoante, avoete, arribação, pomba-de-bando, arribacã – nomes populares para a ave Zenaida Auriculata – é ave migratória que está sempre a se deslocar entre as Antilhas e a Terra do Fogo, tendo a caatinga brasileira região de pouso preferido. O Avoante migrava pelos mares e dele sempre recebeu carinho e permissão para seguir adiante.

Voa avoante, voa e faz seu ninho em outras paragens, mas não deixe nunca de ouvir o chamado do mar, porque lá estão as verdades do mundo. É no mar que a vida se refaz e o homem se recria.

Outros rumos virão, mas por enquanto o bordo é de terra!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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