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A natureza paga a conta

barreira de coraisA Grande Barreiras de Corais da Austrália, um dos mais importantes patrimônios naturais do planetinha azul, está sendo ferido de morte, segundo os homens das ciências, devido ao aquecimento global, aquecimento que para muitos, que comungam das ideias do galego do topete dos EUA, não passa de uma enorme balela científica para frear o progresso das nações. Balela ou não, o aquecimento global é o terrorista número um quando se fala em crimes contra as causas da natureza e os estudiosos atestam que dois terços da Grande Barreira estão comprometidos e num grau praticamente irreversível. Pois é, e muitas vezes ficamos chateados com os ecochatos! Mas o que restaria hoje da Terra se eles não existissem? Muitas vezes em grupos de bate papo vejo pessoas reclamando da “absurda” proibição para uma simples e “inocente” visita ao magnífico Atol das Rocas, no litoral do Rio Grande do Norte, e me coloco como defensor da proibição é digo que o Atol é frágil, também sofre com os efeitos do aquecimento e infelizmente somos um povo muito mal educado para usufruir e lidar com o  turismo ecológico, basta ver o que acontece na Ilha de Fernando de Noronha, onde tudo acontece, mesmo sob as ordens de normas endurecidas. Não conheço a Grande Barreira de Corais, mas sei que o turismo por lá faz festa e muitas vezes quem faz festa, usa e abusa.      

Boletim rotário faz referências ao Diário do Avoante

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O mar e seus segredos sempre aguçou a curiosidade das pessoas e é assim desde que o mundo é mundo. Ilhas desertas, paraísos isolados, mar sem fim, o mistério além do horizonte, os habitantes, as marés, os barcos, tudo é motivo de interesse e encantamento. Saber um pouco a mais sobre as coisas do mar nunca e demais para a cabeça do homem. Por onde andamos, e quando sabem que moramos em um veleiro, notamos o brilho de interesse nos olhos dos interlocutores e dai é um pulo para o bombardeio de perguntas que sentimos o maior prazer em responder todas. A coluna Diário do Avoante, que assino aos Domingos no Jornal Tribuna do Norte, tem leitores das mais diversas correntes da sociedade e não apenas do mar. Segundo um amigo, professor da cadeira de Estatística da UFRN, que um dia se interessou pelos números da Coluna, a grande maioria dos leitores não são do mar e boa parte destes são mulheres ou adultos da faixa etária acima de 60 anos. Isso para mim é uma prova legítima de que sonhos nunca se apagam e o mar continua dominando o imaginário humano. Pois bem, no mês de Novembro de 2013 fui convidado para palestrar sobre a vida a bordo num almoço do Rotary Clube de Natal Sul, encontro que divulguei AQUI, o que me deixou bastante lisonjeado e feliz por retornar a um ambiente que sempre fez parte da minha vida familiar e chegando lá ter encontrado tantos velhos amigos dos meus pais e tios. Recentemente o artigo, Um sonho no meio do oceano, postado aqui em 11 de Fevereiro, foi publicado no Boletim On-Line do Rotary Clube do Natal, e mais uma vez a alegria me invadiu a alma. De coração agradeço ao presidente do clube rotário Sr. Francisco Canindé, ao presidente da subcomissão de notícias, Sr. Fileto Rodrigues, e aos rotarianos que fazem o Rotary Clube do Natal pela publicação.      

Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 3

imageChegamos ao final do relato do velejador baiano Sérgio Netto contando uma boa parte da história da Refeno que em 2014 completa 26 anos. Quem um dia já participou dessa que é a maior e mais instigante regata de oceano do Brasil, deve ter se reconhecido em algum momento dessa história que dividi em três partes. Para quem ainda não teve a alegria de realizar o sonho da velejada até a Ilha de Fernando de Noronha, competindo numa Refeno, fica o convite para não adiar o sonho, pois a XXVI Refeno larga do Marco Zero, na cidade do Recife, dia 27/09. Mais uma vez agradeço ao amigo Sergio Netto por proporcionar aos leitores do Diário do Avoante essa bela narrativa.

FERNANDO DE NORONHA E AS REFENO

A velejada para Rocas durante a noite foi tranquila, em asa-de-pombo com a mestra no primeiro rizo, genoa parcialmente enrolada, vento aparente 10 a 12 nós, piloto automático. Fizemos 68 milhas em 10 horas e de manhã cedo pegamos a poita do Delícia, o veleiro Farr 38 no qual Zeca fazia o apoio à ilha, ψ=3°50,78’S λ=33°31’W. O pessoal do Ibama foi a bordo e nos levou para terra no bote deles. A entrada da barreta é com onda e difícil para um caíque pequeno. O pessoal do Bola 7 que chegou meia hora depois não teve a nossa simpatia para conquistar o pessoal do Ibama e não desembarcou. O fundeadouro é aberto, desconfortável, e nos avisaram que à tardinha chegam os pássaros e fazem o maior barulho. Às 15 horas deixamos a amarração e saímos em orça apertada para Natal, 140 milhas para SSW.

imageimage Atracamos no píer do Iate Clube de Natal no início da tarde do dia 2 de outubro, lavamos o barco com água doce e fomos para uma amarração. Muito simpática a recepção do clube para o visitante. Marcio e Claudinha desembarcaram e voltaram de avião para Salvador. Pedro havia desembarcado em Noronha.

imageDia seguinte era dia de eleição e passamos nos Correios para justificar a ausência eleitoral. Tínhamos alugado um bug ‘Selvagem’ e fomos para as praias do norte e as dunas de Genipabu.

No domingo dia 4 levantamos vela ao meio dia e seguimos 80 milhas para SSE, no contravento, até Cabedelo, onde nos esperava a tripulação do Cangaceiro, que levaram Vicka e Lizete para compras. O Pinauna estava molhando dentro pela gaiuta de proa e o inglês Ryan, dono de um estaleiro e do trimarã ‘Jeitinho’ atacou o problema. Este inglês diz que coisa difícil ele faz rápido, o impossível demora um pouco. Cabedelo, no estuário do Rio Paraíba, é um local bem protegido, bom para deixar o barco em caso de necessidade.

Dia 6 de outubro, quando o sol já havia passado o equador para fazer o verão do hemisfério sul há duas semanas, e o vento já havia rondado para nordeste, saímos a barra de Cabedelo às 10 horas, dobramos o Cabo Branco, no extremo oriental do Brasil, e a velejada para o sul-sudoeste ficou macia, com vento e corrente favoráveis. Mas à noite refrescou e deu trabalho; passamos direto por Recife chegando a Maceió dia 7 à tarde. São 200 milhas de João Pessoa a Maceió, e cheguei mole e resfriado. Vicka e Lizete desembarcaram e retornaram de avião para Salvador. Silvia pegou a Lena e a mim de carro e nos levou para jantar no Divina Gula.

Dia 8 Lena foi às compras para reabastecer o barco e eu fiquei a bordo descansando e me recuperando do resfriado. Dia 9 já estava bom e largamos ao amanhecer para o trecho final até Salvador, quase 300 milhas até o AIC, que fizemos em pouco mais de 48 horas. Este trecho com só duas pessoas a bordo foi um passeio, com pouca vela, sem pressa, curtindo o finalzinho das três semanas de férias. Navegamos bem longe de terra para não ter que nos preocupar com barcos de pesca sobre a plataforma continental. Quando acordei pela manhã do dia 10 vasculhei o horizonte de binóculo e vi um veleiro vindo pela popa, bem na nossa esteira, só com vela mestra e motor. Chamei no rádio mas ele não respondeu. O vento estava fraquíssimo e ele logo nos alcançou quando tomávamos o café da manhã no cockpit. Era o Suzy Dear, com Serginho Bittencourt, Thales Magno Baptista e mais dois tripulantes. Eles desligaram o motor e fomos derivando juntos, Serginho fazendo a maior festa. Fizeram fotos e já estavam com planos de abordar o Pinauna quando chegou um ventinho e começamos a nos afastar. Eles abriram a genoa mas naquele ventinho fraco o Pinauna foi orçando mais e deixando o Swan pesadão mais arribado para trás, de forma que em uma hora não nos víamos mais. Esse povo tem mania de viajar vendo terra, o que é um problema a ser tratado no psicólogo. Viajar longe de terra é mais seguro, mais confortável, fora das rotas de tráfego, você pode dormir à vontade e se chegar um temporal tem espaço suficiente para correr com o tempo até que ele passe.

Chegamos no AIC no domingo dia 11 de outubro pela manhã e Vicka, Liz e Pedro Bocca foram nos buscar, já com o filme da regata editado, com trilha sonora e tudo.

Daí levei quatro anos sem voltar a Noronha. Quando o Banorte deixou de ser o patrocinador oficial, pouco antes de quebrar, a regata passou a se chamar REFENO mantendo a numeração desde a organização primeira de Maurício em 1986. Continuar lendo

Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 2

imageJá que os clarins silenciaram e os pierrôs e as colombinas abandonaram as fantasias, vamos a segunda parte da história Fernando de Noronha e as Refeno, escrita pelo velejador baiano Sérgio Netto. Se você não leu a primeira parte clique AQUI.

FERNANDO DE NORONHA E AS REFENO

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Em 1986 o pernambucano Maurício Castro, professor universitário, perito em navegação astronômica e proprietário do veleiro Brasília 27, o Quarta-Feira 17, juntou um grupo de velejadores do Recife Iate Clube e organizou uma regata para logo após o equinócio da primavera, quando predomina o vento leste-sudeste, as águas quentes da ilha estão absolutamente límpidas e transparentes e começa o período da estiagem, que vai de setembro a janeiro. Aqui da Bahia foi o Avoante, premiado com o troféu de melhor navegador para Thales Magno Batista. O Mauricio Castro dava um bônus de 5% no rating para quem se comprometesse a não usar qualquer eletrônica para navegação.

Em 1987 o evento se repetiu e eu fui com Lucia Botelho no Pasárgada, o Bruce Farr 40 de Tony Pacífico que deveria embarcar em Recife, mas coitado, devido a compromissos profissionais de ultima hora acabou não indo; mandou o velho Ernani ‘Coca’ Simões que embarcou em Recife para correr a regata e levar o barco de volta para o Rio. Noronha neste tempo não tinha um mínimo de estrutura para o visitante, e nos limitamos a visitar a pé as praias próximas ao porto de Santo Antonio e a mergulhar nos destroços do vapor Eliane Statatus que se espalham por 50m bem na entrada do porto, sendo que parte da caldeira aflorava na maré baixa. Agora tem uma bóia no local. A possibilidade de abastecer o barco para a volta era muito precária, não havia disponibilidade de água, frutas nem as facilidades de um mercadinho. E a velejada de ida e volta a Noronha com uma estadia de dois dias no porto significa estocar o barco para uma semana! Na volta, lá pelas 23 horas do segundo dia de navegação, a uma hora de distância do porto em Recife, Coca chamou Olinda Rádio no VHF (naquele tempo não existia telefone celular) e pediu uma ligação telefônica para Linéa, no Rio de Janeiro. O comandante da Lady Laura, a super lancha do cantor Roberto Carlos ancorada no Rio Capibaribe, se meteu na conversa no canal 25 e convidou o amigo Coca a atracar a contrabordo, ele ia providenciar um jantar. O Pasárgada ficou pequeno junto da Lady Laura, que dispunha de uma cozinha enorme com câmara frigorífica abastecida, e o jantar foi servido numa mesa com oito cadeiras no salão principal.

Nesta 2ª regata Recife-Noronha foi um grupo razoável de veleiros do Rio e de São Paulo pastoreados pelo Nilson Campos do Ana C e em Noronha houve desentendimentos entre os cariocas e os pernambucanos, sendo que estes acabaram por se desentender entre si. O Maurício Castro se aborreceu com o acontecido e em consequência foi velejar no Caribe em 1988 descontinuando o programa de regatas. Continuar lendo

Um sonho no meio do oceano

arquivo de epaminondas - atol das rocas (1)arquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-7.jpgarquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-6.jpgarquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-5.jpgarquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-3.jpgarquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-4.jpgarquivo-de-epaminondas-atol-das-rocas-2.jpg

Existem algumas fronteiras náuticas no Brasil que alimentam o sonho de todo velejador. Algumas são mais fáceis de atingir, bastando apenas que o comandante alie o sonho com a vontade e cumpra algumas exigências, o que é o caso de Fernando de Noronha, Abrolhos e dos longínquos rochedos de São Pedro e São Paulo. Porém a joia náutica da coroa é mesmo o Atol das Rocas. O Atol fica localizado na costa do Rio Grande do Norte, numa distância de 144 milhas náuticas de Natal e a 80 milhas náuticas da Ilha de Fernando de Noronha. No passado, não muito distante, o Atol das Rocas era destino certo de muitos aventureiros do mar e também de barcos pesqueiros. Depois da criação da Reserva Biológica Atol das Rocas em 1979 e hoje comandada pelo ICMBio, se aventurar nas águas que cercam o belo recife natural passou a ser crime ambiental, já que a área da reserva é de 360 quilômetros quadrados, incluindo o atol e toda área marinha em volta, até a profundidade de mil metros. O Atol é um sonho na imensidão de mar que o cerca. Eu já tive a oportunidade de chegar próximo, mas infelizmente não tive permissão para desembarcar, e para ser sincero, não me abalei nem um pouco, pois tudo aquilo me pareceu um ambiente frágil demais para ser tocado pelo homem. Me perdoem os meus companheiros de mar, mas concordo fielmente com a proibição. Mas tudo bem, vou voltar ao tema principal dessa postagem e deixar as polêmicas para outra hora. Mesmo após a criação da Reserva Ambiental, em 1979, o Atol continuou sendo visitado por velejadores, pescadores e pesquisadores, sem o mínimo de interferência, até a fundação da Base Permanente de pesquisa que hoje é comandada pela competente Maurizélia de Brito Silva, mais conhecida como Zelinha. Ela vira uma fera quando o assunto é Atol das Rocas, pois aquele é o seu mundo e que ela conhece como ninguém. É emocionante vê-la falar do Atol e de tudo o que aquele fragilizado ecossistema representa para o nosso mundo. Lá vou eu fugindo novamente do assunto, mas agora vou em frente: Em 1989 aportou pelo Atol um veleirinho de 22 pés batizado de Shogun, no comando estava um pernambucano arretado e com ele uma tripulação de três amigos. Todos radioamadores que desejavam contato com o mundo. Contato com o mundo no Atol? Um lugar isolado como aquele? Isso mesmo. Epaminondas, mais conhecido como Epa, batizou a viagem como 1ª Expedição de Radioamadores do Atol das Rocas. Segundo me falou o Epa, nos quatro dias em que ficaram acampados no Atol conseguiram manter contato com mais de cinco mil radioamadores de todo o mundo. Levaram inclusive uma placa que colocaram no tronco de um coqueiro, que até gostaríamos de saber se ainda existe, onde fazia o registro da Expedição. Mas isso foi há vinte e cinco anos. O Atol das Rocas é mesmo um lugar enigmático e vai continuar alimentando sonhos e desejos de muita gente. Assim espero!

Um mundo real

viagem ao atol no borandá 026 Atol é uma ilha formada a partir do crescimento de recifes ao redor de cumes de vulcões submersos. A grande maioria se localiza nos oceanos Pacífico e Índico. O Atol das Rocas é o único existente no oceano Atlântico Sul, daí sua importância como reserva ecológica. O termo Rocas vem do espanhol e quer dizer rochas ou pedras.

O Atol das Rocas é um dos menores do mundo, abriga mais de 150 mil aves marinhas de 30 espécies diferentes que procuram sua área para reprodução e abrigo. É área de desova da tartaruga-verde e área de abrigo e alimentação da tartaruga-de-pente. Na verdade o Atol das Rocas é um grande berçário e condomínio natural de grande parte das espécies marinhas, sejam moluscos, crustáceos, peixes, algas e corais. Foi nesse pequeno ponto isolado do Brasil que ancoramos no catamarã Borandá e me vi cercado de natureza em seu estado mais puro e vivo.

Difícil chegar ali e não se apaixonar e não sentir o pulsar forte da natureza. Difícil chegar ali e não pedir perdão a natureza por tanta agressão e não querer fechar e abrir os olhos para ver se não é sonho. Difícil não querer pisar naquele paraíso. Eu não quis!

Se você não acredita, vou tentar justificar minha asneira em poucas palavras:

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Portal do paraíso

viagem ao atol no borandá 019 A quarta-feira, 11 de Agosto de 2010, amanheceu com vento forte e com previsões de aumentar durante o resto do dia, o mar também não estava para peixe e muito menos para barco, pelo menos isso era o que se dizia.

Saímos da barra de Natal e olhamos meio que entristecidos para a Draga La Belle que agonizava em cima de arrecifes, encalhada e cansada de tentativas inglórias para removê-la. Barco tem alma! E a alma daquele barco estava incrédula. A visão do infortúnio da La Belle nós acompanhou muitas milhas mar adentro. O mar crescia de tamanho e o vento soprava forte. Nosso barco era forte e marinheiro. Rumo: 60 graus.

Chegou meu turno de comando e assumi o timão sentindo, apesar daquele mar endiabrado, que estava no comando de um grande guerreiro. Apesar do vento forte e do mar agitadíssimo, o clima a bordo era de alegria e muito bate-papo. O barco subia e descia as ondas surfando e nem tomava conhecimento do tamanho das paredes de água.

Vinte milhas de Natal e umas risadas mais, o trabalho no timão não admitia descuido. Foi nessa hora que o timão, que já era leve, ficou mais leve ainda e o barco foi tomando o rumo que queria. “… acho que quebrou a roda leme…”

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