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Lendas, boatos e mistérios

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O mar é um poço de segredos e parafraseando o comandante Érico Amorim das Virgens, digo assim: “Depois que um barco sai do porto, muita coisa é lenda”.

Não é difícil encontrar histórias mal contadas sobre desaparecidos no mar e muitas delas com ecos e vestígios de violência. Em cada porto, em cada iate clube ou rodas de bate papos de navegantes, casos assim são relatados com tantos detalhes e certezas, que quem escuta é capaz de jurar de joelhos que testemunhou. Desculpem o meio tom de brincadeira, foi apenas para amenizar um pouco a sisudez do texto que segue.

Em abril de 2018 o mundo náutico amador foi sacudido pelo desaparecimento do velejador argentino Ewin Rosenthal, 83 anos, nas águas da carioca e linda Angra dos Reis. Segundo foi apurado, em um inquérito sem rumo, como são quase todos que tratam de casos semelhantes, o velejador teria partido de Angra, em 8 de abril, navegando em solitário e misteriosamente sumiu. Nome do veleiro: Misteriosa. No dia seguinte o veleiro foi avistado por um comandante de um pesqueiro e esse alertou as autoridades que um barco estava navegando em círculos no canal de acesso a Guaratiba e a Baía de Sepetiba, mais ou menos 50 milhas do local que havia zarpado, e tudo indicava não ter ninguém a bordo, fato constatado pelo Navio-Patrulha que foi atender ao chamado.

Os peritos verificaram que o interior estava revirado, deram por falta de equipamentos, folhagens secas estavam espalhadas pelo piso do barco misturadas com areia de mata, mas o que mais chamou atenção foi que no centro da cabine existia um botijão de gás atrelado a dois sinalizadores, não detonados, tudo indicando ser uma bomba de fabricação caseira. E o inquérito foi rolando, rolando, demorando, um corpo em decomposição foi encontrado próximo de onde o veleiro levantou ferro, exames foram feitos e na quarta-feira, 01/08, quatro meses após o ocorrido, a família enterrou o corpo, como sendo de Ewin, em Buenos Aires, sem saber mais nada além de nada.

No ano de 2005, não recordo o mês, o marinheiro do Iate Clube do Natal, Sebastião da Cunha Lima, conhecido como Galego, embarcou em um veleiro de 23 pés, para mostrar a embarcação a dois possíveis compradores, de nacionalidade holandesa, e nunca mais retornou. Um inquérito foi aberto, anos depois os holandeses foram identificados, após muitas lutas, foram julgados e condenados, na Holanda, pelo crime de terem jogado o Galego no mar. O corpo nunca apareceu, o veleiro também não e assim ficou o conto sendo contado com pontos acrescentados.

Janeiro de 2017, dois pescadores embarcam em uma lancha, no píer do Iate Clube do Natal, para uma alegre pescaria a poucas milhas de distância da costa de Natal e desaparecem. Um dos pescadores era oficial da Aeronáutica e o outro, Toinho Doido, uma figura arretada, um homem que nunca temeu o mar e jamais deixou de ter respeito. Toinho vivia no mar, sonhava com o mar, amava o mar e morreu no mar. – E o que aconteceu? Aconteceu que mais de uma semana depois de terem zarpado do clube, o corpo do oficial foi encontrado por pescadores da praia de Caiçara do Norte, quase 100 milhas de Natal, e o de Toinho foi encontrado em Canoa Quebrada/CE, quase 100 milhas um do outro. E o barco? Nada! Nem barco, nem apetrechos, nem nada! E o inquérito? – Não dou notícias, mas acho que parou por aí.

É fácil transformar o mar em palco de segredos e ter a, quase, certeza que tudo se manterá guardado para sempre, porque muitos inquéritos esbarram no jogo de empurra e naufragam numa palavrinha chamada jurisdição. Quem é responsável pela jurisdição do mar? A Marinha do Brasil? A Polícia Federal? A Polícia Civil? A Polícia Militar? Os Orixás? O Senhor, ou Nossa Senhora dos Navegantes? Talvez os três últimos sejam os mais cotados. A Marinha faz a salvaguarda, mas não é polícia. A polícia, faz o policiamento, mas não é Marinha. O navegante é violentado, mas não sabe a quem recorrer. O meliante sabendo de tudo isso, faz, acontece, mata, esfola, sai rindo do tempo e com a cara mais limpa do mundo.

A fiscalização da Marinha se resume a conferir documentos, equipamentos, capacidade de tripulantes e, se tudo estiver em ordem, geralmente está, a embarcação segue seu rumo. Se a embarcação a partir dali for usada para a prática de um crime, o problema passa a ser de outro órgão, mas esse outro órgão não tem como agir no mar e nem isso está definido em suas obrigações. – Mas a Polícia Federal está! – Está, mas não está e muito pelo contrário!

Sim, e daí? Daí fica assim: Ewin, Galego, Toinho e tantos outros ficam com seus nomes atrelados os números das estatísticas e os inquéritos sem solução vão servir de alimento as traças.

Bem disse o comandante Érico: “…depois que o barco saiu do píer, tudo é boato”.

Nelson Mattos Filho

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A lei da caveira

05 maio (55)Quando o Estado não faz a sua parte o cotidiano das cidades é tolhido da sua dignidade. Os casos são inumeráveis e se espalham por cada recanto dos mais frágeis redutos habitacionais do país, sem um mínimo esforço prático para uma possível resolução, o que se escuta é só falácias e promessas politiqueiras, como se mais nada no mundo tivesse outra razão. Matam-se 60 ali, morrem outros 30 acolá, famílias são dizimadas pela covardia daqueles se acham impunes – e são – a lei, que aqui vai escrita em letra minúscula mesmo, pois é assim que ela se mostra, e nem olhar para o vizinho podemos mais, pois qualquer olhar é sinal de desagravo. A violência, o mal que domina o mundo, não tem mais rédeas e nem motivo para não se apresentar a cada dia mais desumana e cruel, e nós, cidadãos “livres” e sonhadores com uma simples vida em paz, ficamos reféns do caos. Temos o direito apenas de expressar uma leve cara de espanto e nada mais. Reclamar? A quem? Chorar? Depende do que! A imagem que abre essa postagem é linda sim, mas o terror foi decretado na terra do Pau Brasil e seus tentáculos já adentram os mares, rios, lagos e lagoas. Mais uma vez fomos invadidos por desbravadores bárbaros e sem lei. Como aconteceu com as velhas tribos indígenas, vamos ser maltratados até que passemos a rezar na cartilha da cruz construída com armas e sem direito nem a um pedaço de terra, no máximo, uma reserva num descampado qualquer. E os piratas estão de volta, aliás, há muito eles navegam serelepes nas águas amazônicas sem nenhum medo de algum dia serem rechaçados. Nas hostes do Porto de Santos, e adjacências, os barbas negras também hastearam a bandeira da caveira. Na belíssima baía de Angra os Reis já se escuta o tilintar de suas espadas e agora retornaram ferozmente as águas históricas da Bahia, pena que não existem mais os tupinambás para colocar ordem na casa. Ainda bem que em fevereiro tem Carnaval!         

Um punhadinho de história

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Para os amantes do mundo náutico Bracuhy é sinônimo de um porto seguro, apaixonante e que esbanja charme em seu canal margeado por belas residências, apartamentos e duas marinas. E de onde vem esse nome que deixa louco o corretor ortográfico embutido nas feitiçarias reminiscentes desse meu computador de origem argentina? O nome Bracuhy, segundo o Wikipédia, vem do tupi-guarani e se escreve Ybyrá-ku’i, que traduzido para o português brasileiro quer dizer “farinha de pau ou serragem”. Os índios, donos sem direito e sem justiça, dessa terra abençoada, batizaram de Bracuí um rio que nasce no município paulista de Bananal e deságua no município de Angra dos Reis. O rio banhava uma fazenda que se chamava Bracuhy – ou será o rio que deu nome a fazenda? – terras onde hoje se localiza o condomínio Porto do Bracuhy e adjacências. A fazenda era uma imensa plantação de cana de açúcar e lá foi construído um engenho em 1885, que se chamou Engenho Central do Bracuhy, que foi considerado o mais moderno e bem equipado do país, pois suas máquinas trabalhavam a vapor em vez das tradicionais moendas. Com o decorrer do anos e com a produção de cana de açúcar entrando no rolo compressor das esquisitices governamentais, o modernoso engenho seguiu o mesmo destino dos seus irmãos mais simplórios e escafedeu-se. O que restou da sua história de riqueza e poderio econômico pode ser visto no centro do condomínio que herdou o nome e que registrei no retrato que ilustra essa postagem. Esse Brasil tem muita história para contar! Para produzir essa postagem me socorri nas páginas virtuais Wikipédia e Frade On Line.

A Vila do Zungú e o Toucinho à Pururuca

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Rapaz, quem anda na companhia do Hélio Viana não tem como fugir das cervas geladas e muito menos das indicações botequianas que somente ele e Mara sabem decifrar o mapa da mina e nos deixa tentados a conferir. Foi assim que pegamos a estrada no rumo de uma região conhecida como sertão do Bracuhy e ao chegar numa placa indicado Zungú entramos. A Vila do Zungú é um povoado pequeno e sem nenhum predicado turístico, apesar de ter paisagens de tirar o folego. Não sei – apesar de imaginar – o porquê dos homens das governanças acharem que as terras do Zungú poderia acolher um lixão. Dizem que a mácula já virou aterro sanitário, já desvirou, voltou a virou e agora, segundo os moradores, desvirou novamente. Mas deixa pra lá que não é disso que eu quero falar e nem foi por isso que fomos até o Zungú. Fomos até lá em busca de um petisco delicioso e que só em lembrar me enche a boca de água. Toucinho à Pururuca.  

20151110_10292620151110_10313620151110_12303520151110_103059Eita que muitos hão de pensar que nossa estadia no Bracuhy foi apenas com a finalidade etílico-gastronômica e será difícil para mim provar o contrário, porque ganhei uns bons quilos e garanto que venci para sempre a anorexia. O Toucinho à Pururuca dos deuses é servido no Bar do Breves e é ponto de parada obrigatório para quem passeia pelos caminhos cercados pela mata que cobre o Zungú e posso garantir que tem sabor sem igual no mundo. Eu e Lucia fomos no bugie do casal Maracatu com Mara servindo de cicerone e detalhando a região com a precisão de quem conhece de verdade, pois nada passou em branco. O Hélio, tirando onda de pedalista juramentado, queimou as calorias antes e depois e nem sentiu a consciência pesar enquanto degustava o Toucinho. Sabe de uma coisa: Eu também não, e até estou com vontade de retornar ao Zungú e meter a cara no Toucinho do Bar do Breves. E para quem acha, como eu achava, que em Angra dos Reis a vida gira apenas em torno do mar e para o mar, é melhor começar a reavaliar as rotas e roteiros, principalmente os gastronômicos.

Notícias do mar – IV

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Nesses tempos de facebook, whatsapp e outras mídias sociais os furos de reportagens passaram a fazer parte de um passado distante e quando queremos relatar o nosso dia a dia, aí é que o cheiro de mofo sobe no ar. Mas tem nada não, vou seguir o rumo e dar um ponto final nessa série de Notícias do Mar. O Rio de Janeiro continua lindo!   

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Na última postagem dessa série estávamos com a proa do Compagna apontada para o Clube Naval Charitas, em Niterói, e foi lá que aportamos no finalzinho da tarde do dia 04/11. Os anúncios de ressaca no mar do Rio de Janeiro continuaram sendo divulgados, via VHF, o tempo vestiu uma roupagem cor de chumbo e durante a noite choveu muito bem obrigado, porém, o vento e o mar continuaram incrivelmente tranquilos. – E a ressaca do mar? Sei lá! Assim que o dia amanheceu, reabastecemos o Compagna e tomamos o beco para o mar de Paraty, onde atracamos na Marina do Engenho na manhã do dia 05. A navegada, alias, motorada, porque o vento insistiu em não dar o ar da graça, foi muito gostosa e sobre um mar que desmentiu todas as previsões. Ainda bem!

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A região de Paraty é mesmo dotada de muita beleza e a mistura de aromas do mar e da mata, espalha no ar um perfume de encantamentos e nos faz sonhar acordado.

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Na beleza de Paraty fomos recepcionados pelos amigos Carlão e Gisele, que vieram a bordo nos dar boas vindas e a noite organizaram um churrasco que teve a participação dos velejadores Maurício Rosa, Valmir e Dani. Foi uma noite de alegria, bons papos e degustada ao sabor de uma deliciosa Panceta.

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Bem, a viagem do translado do Compagna entre Salvador e Paraty foi maravilhosa e deixou saudades, mas a vida segue seu rumo e é chegada a hora de retorna ao nosso Avoante que ficou solitário nas águas da Bahia. Ainda terei muito a comentar sobre essa navegada e até escrevi um diário de bordo que em breve farei a publicação, porém, antes retornar resolvemos dar uma esticadinha até a marina Porto Bracuhy, para abraçar o casal Hélio Viana e Mara Blumer, veleiro Maracatu. Essa visita promete!  

 

De Angra dos Reis até Ilhéus

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Essa é mais uma boa história de velejada enviada pelo amigo Danilo Fadul (Veleiro Farnangaio) para a nossa seção Conte Sua História. Faz tempo que Danilo mandou o texto, mas ele havia mergulhado na bacia das almas do meu computador e somente agora consegui resgatá-lo, espero que Danilo me perdoe. A história e bem educativa para quem pretende subir a Costa Leste do litoral brasileiro no verão e foi escrita em uma linguagem simples e prazerosa.

DE ANGRA DOS REIS ATÉ ILHÉUS

Danilo Fadul

Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014.

Durante o dia, fiquei com o eletricista (Mike – “máique”) e o mecânico da Yanmar, Lao, fazendo alguns ajustes no alternador e correias que Fernando havia solicitado. Aproveitei para mergulhar e verificar o fundo do barco. Uma tartaruga “bôba” insistiu em ficar me observando.

Fernando chegou no começo da tarde e aproveitamos para fazer compras e abastecer o barco com óleo e água.

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21/02/2014 13h00 Vista da baia de Angra com o “Waterproof” no centro.

Barco: Lagoon 380 com 2 motores Yanmar 30 Hp.

Todos os equipamentos da Raymarine: Chartplotter GPS C80 integrado a radar Tridata;

Ecosonda, Speedômetro e Termômetro de água ST60;

Piloto automático ST6001; Pode seguir rumo ou direção do vento.

Wind ST60 também integrado.

Cartas náuticas de toda a rota incluídas no CHARTPLOTTER.

Tripulantes: Fernando, proprietário do barco e eu, Danilo.

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Saímos de Angra por volta das 17h00, 23° 0.895´S – 44° 18.029´O, como eu nunca havia velejado naquela região, Fernando aproveitou para dar uma entrada no Saco do Céu. Realmente é uma região belíssima (23° 6.453´S – 44° 12.646´O).

Ao escurecer, já estávamos no caminho da ponta da Restinga da Marambaia. As 20h00 passamos pela ponta e Fernando foi descansar. Combinamos turnos de 3 horas. A noite estava fria para os padrões da Bahia. Talvez 19°. Tive que colocar um agasalho. Cruzamos com alguns navios pequenos e rebocadores, mas nenhum na rota direta. Entreguei o timão às 23h00 e retomei às 2h00 do sábado.

Sábado, 22 de fevereiro de 2014.

Nesse ponto já tínhamos as Cagarras no través de bombordo e todo o Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Zona Sul. Esse trecho, até o amanhecer, foi mais carregado. Muitos navios e, pelo menos, duas plataformas ancoradas fora da baia de Guanabara. Passei há umas 9 milhas da costa, mas mesmo assim tive que fazer alguns ajustes na rota. Quando o dia clareou, o último navio já estava a sota de nosso rumo.

No través, a praia de Itacoatiara e as ilhas Mãe e Filha de Maricá. Coloquei as linhas n´água às 5h30 e as 7h00 começamos a ver muitas aves e logo depois muitos golfinhos cercando alguns peixes médios, de aproximadamente 1 kg. Talvez cavalas pequenas ou atuns tipo bonitos. Como nosso equipamento de pesca era leve, não tinha iscas para mar azul. Todo o tempo, desde a saída da baía de Angra, o vento permaneceu de leste, 100% contra nosso rumo. Motoramos e sempre mantínhamos a mestra armada dando bordos longos e mantendo o barco bem confortável.

Ao meio-dia o vento começou a apertar e chegou aos 17 nós reais, sempre “de cara”. Tinha a esperança do leste se manter depois da passagem por Cabo Frio e então podermos trabalhar o rumo numa orça não muito apertada. Depois do almoço fui descansar e quando acordei estávamos a 3 milhas da Ilha de Cabo Frio com vento real de 35 nós e aparente de até 47 nós. Sempre de cara. Nosso destino era o porto de Cabo Frio para abastecermos de óleo e água. A entrada do canal da Ilha foi espetacular (22° 59.894´S – 42° 0.770´O). Muitas anchovas saltando, alguns barquinhos pescando, muitos pescadores nas encostas de pedras e o mar fervendo de espuma branca devido ao vento canalizado. Continuar lendo