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De volta a São Tiago do Iguape

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Vai completar um ano que estivemos em São Tiago do Iguape pelo primeira vez, foi no começo de julho de 2015, e nesse, 17/06/2016, retornamos ao pequeno distrito, que pertence ao município de Cachoeira/BA, para Lucia aprender os segredos para produzir o famoso camarão defumado, iguaria que dá ao acarajé e ao abará um toque de sabor mais do que especial. Antes de entrar na seara da culinária, vou comentar um pouco do que vi um ano depois. Para começo de conversa dessa vez não fomos de barco e sim de carro pelas estradas da vida. Para chegar lá é fácil e nem é preciso pedir ajuda aos duendes do google maps. Partindo de Salvador, pela BR 324, em direção a Feira de Santana, segue por mais ou menos 45 quilômetros até encontrar a indicação para o município de Santo Amaro da Purificação. De Santo Amaro segue pela estrada para Cachoeira e 1 quilômetro após o posto da Polícia Rodoviária Estadual, vira a esquerda – ao lado de duas palmeiras – e depois é só seguir em frente. A estrada termina em São Francisco do Paraguaçu, porém, São Tiago do Iguape fica 6 quilômetros antes.

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Achei a cidadezinha de Iguape bem mais bucólica do que há um ano, talvez porque naquele tempo estivesse se preparando para a sua festa maior em homenagem ao padroeiro. Como dessa vez cheguei com mais de quinze dias de antecedência, a tranquilidade reinava na praça. Enquanto Lucia entrava na aula de defumação com a professora Dona Calú, eu peguei a máquina fotográfica e fui dar uma caminhada até a beira do mar, pois é nele que eu me acho.

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Revi a bela igreja, fotografei canoas, apontei a lente para o rio, conversei com alguns pescadores que chegavam da lida e notei a existência de um pequeno canteiro de obras que soube se tratar da construção de um píer público para embarque e desembarque.

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Será verdade ou será mais uma obra para azeitar as eleições municipais que se aproximam?

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De volta a mercearia de Dona Calú e Seu Jarinho me aboletei numa cadeira e fui prosear com os locais, numa prosa boa, divertida e regada com cerveja gelada e acompanhamento de camarão defumado e amendoim cozido. Entre uma conversa e outra Seu Jarinho disse assim: “…aqui tinham muitos barcos a pano que navegavam até Água de Menino, levando e trazendo mercadoria, mas a chegada do motor nos barcos,  em vez de contribuir acabou com tudo”. Disse ainda que o pai era proprietário do Saveiro Macapá, doou a embarcação para o mestre, esse para o filho e anos depois, em péssimo estado, o Macapá encalhou em um banco de areia e foi abandonado para o sempre. Hoje a frota de Iguape se resume a poucas canoas de tronco, outras de fibra e todas movidas a motor. Uma pena, mas é assim!

20160617_122920Enquanto o bate papo corria solto lá fora, Lucia dava seguimento aos seus estudos e o quando o vento batia, chegava até nós o cheiro do camarão sendo envolvido pela fumaça. Mais conversa, mais causos, mais risos e assim a aula terminou, o almoço foi servido – moqueca de siri – e podemos provar o resultado dos ensinos. A aluna foi aprovada com nota máxima. Pense num camarão defumado que ficou bom!

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Muitos baianos, e não baianos, hão de dizer que essa conversa de camarão defumado em acarajé é balela e tem até quem afirme que o bom mesmo é o camarão cozido. É difícil se chegar a uma unanimidade em matéria de acarajé, ainda mais em um Estado que tem um tabuleiro em cada esquina e onde cada freguês é fiel a sua baiana de preferência. Eu já bati meia Salvador em busca do melhor acarajé e confesso que gostei de quase todos. Alguns vem recheados com camarão cozido, outros com o defumado e para mim o mais saboroso é o segundo, além de ser o tradicional.

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Em 2015 Lucia fez um curso de acarajé e abará, no Senac do Pelourinho, e faz as iguarias para baiano nenhum botar defeito, mas faltava aprender a defumar o camarão, o que não tem muitos segredos, porque ela quer fazer em Natal/RN e lá não vende esse tipo de camarão, ou se vende nunca encontramos. Sabendo ela que os que eram defumados em Iguape eram os mais deliciosos, se prometeu que aprenderia a fazer e pediu ajuda a Dona Calu que se prontificou a ensinar.

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Pronto, agora o tabuleiro de Lucia está completo, em breve vamos tirar a prova dos nove e para quem não tiver a alegria de provar, postarei a fotos aqui para deixar muita gente com água na boca. Me aguarde!     

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No tabuleiro da baiana tem…

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O Avoante agora abaianou de vez. Já não bastassem as deliciosas moquecas produzidas a bordo, Lucia botou na cabeça que iria aprender a fazer acarajé é aprendeu mesmo.

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Ela se matriculou no Curso de Acarajé e Abará oferecido pelo SENAC do Pelourinho, sob a batuta do professor Elmo, auxiliado pelo professor Adriano, e depois de quatro dias de aulas saiu de lá toda feliz exibindo o diploma e uns quilinhos a mais. No dia seguinte já estava no batente percorrendo a famosa Feira de São Joaquim em busca da matéria-prima dos bolinhos de feijão fradinho, com a ajuda da amiga Cidinha – colega de turma e dona de uma banca de acarajé no Bairro de Pernambués. Os famosos bolinhos, que muita gente brinca dizendo que é hambúrguer de baiano, é levado a sério na Bahia. Existe até uma Lei que regula desde a forma de preparo até a comercialização. Acarajé na Bahia é religião e ai daquele que se meta a besta de tentar fugir dos padrões tradicionais. A baiana do acarajé é bem dizer quase uma divindade e o seu tabuleiro é sagrado.

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E como eu falei em feira: A Feira de São Joaquim é talvez o território baiano dotado de maior baianidade. Ali o visitante encontra de tudo um muito e caminhar entre o rugi rugi das suas vielas entupidas de gente, mercadorias e cores é um verdadeiro exercício de contorcionismo. Até motocicleta circula entre os corredores da feira, o que me pareceu uma coisa tão corriqueira que não vi ninguém incomodado. Sempre tive vontade de visitar a Feira de São Joaquim, mas nunca me animei a ir. Com Lucia pisando firme no terreiro da culinária baiana já vi que a Feira vai ser meu destino obrigatório.

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Não tem como preparar o verdadeiro acarajé da Bahia sem passar antes pela Feira de São Joaquim. Basta o freguês colocar os pés na calçada para sentir a mistura de aromas forte exalados e que tem como carro chefe o camarão defumado e o azeite de dendê. O visual do local não se parece muito acolhedor e a desarrumação dita a regra, porém, o ambiente é alegre, festivo e o cliente só não encontra o que não quer encontrar. Brevemente a Feira receberá uma repaginada e já dá para ver a nova estrutura em construção, tomara que não perca o calor, porque é na Feira de São Joaquim que a Bahia se encontra. Agora vamos a prova dos nove:

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Curso concluído, matéria-prima comprada, só bastava agora Lucia botar a mão na massa. E as cobaias? Isso foi o mais fácil de arranjar, pois basta dizer a um baiano que vai ter um acarajé em tal lugar que ele chega na hora e ainda ajuda na arrumação. O primeiro a ser feito, na cozinha do Avoante, foi o Abará. Pense num moído! O piso do barco terminou coberto por pedaços de folhas de bananeira, cascas de camarão e pingos de dendê. E eu aprendi uma nova profissão: Enxugador de folha de bananeira – utilizada para envelopar o abará. A folha tem que ser lavada, depois enxuta e foi ai que eu entrei. Quem manda ficar olhando! O pagamento foi ter o privilégio de comer o primeiro abará produzido por Lucia e que estava divino.

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Marcamos a degustação para às 18 horas do Sábado, 23/05, na varanda do Angra dos Veleiros, pois Lucia iria utilizar a cozinha do restaurante Vento em Popa, administrado pelo João, para preparar e fritar os acarajés. Na hora marcada estavam todos lá e mais uns agregados para fazer a festa. Quer saber se aprovou? Eu nem respondo, pois sou suspeito.