Arquivo da categoria: Vida de Praieiro

Papo reto

10 Outubro (9)

 Ei, Brioso, vamos a praia? – Quem está lá? – Peixe, bode, concha…

 

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Divergências

3 Março (7)

Enquanto olho a noite e as sombras que se esparramam pelo pequeno povoado que me abriga tão carinhosamente, minha mente vaguei despreocupadamente pelas boas lembranças do que foi nossa vida a bordo de um veleiro de oceano e após uma lufada de vento, passo a escutar sussurros das muitas perguntas que me fazem sobre o período que vivemos a bordo e me atenho em uma delas: “Como pode uma pessoa morar tantos anos a bordo de um veleiro e de repente voltar a morar em terra firme? ”. Depois de muito matutar e varrer a mente em busca de palavras para satisfazer uma pergunta tão inquietante, continuei sem respostas, mas a consciência continuou em um moído surdo e insistente, até que fechei os olhos e adormeci com o suave balanço da rede.

Sonhei com crianças correndo na vastidão de um campo sem flores. Sonhei com o planetinha azul sendo derretido pelo fogo da discórdia. Sonhei com a desagregação dos povos. Sonhei com uma cruz cravejada de hipocrisia. Sonhei com abastados de mãos estendidas em busca de mais. Sonhei com o vazio, com a dor, com o grito, com o feio e com a beleza mais feia do que nunca. Sonhei com frases desconexas e com o riso de deboches dos governantes diante de uma multidão de aplausos. Sonhei com a desgraça das drogas consumindo famílias, mas recebendo a benevolência da cegueira moderna. Sonhei com o terror e suas vítimas inocentes estraçalhadas nas calçadas. Sonhei com a fome, com a sede, com as doenças desalmadas, formando uma trinca de um jogo vitorioso dos poderosos. Sonhei com as guerras combinadas entre quatro paredes pelos combatentes opositores e todas elas longe do território deles. Sonhei com as religiões e a desfaçatez de suas verdades. Sonhei muitos sonhos, mas não sonhei pesadelos, porque ao abrir os olhos, enxerguei no escuro da noite que aqueles sonhos se pareciam incrivelmente reais. Mas eram sonhos.

“Como pode uma pessoa morar…” Novamente a pergunta estava lá a me perseguir e lembrei das palavras de um amigo, quando anunciei que estava voltado para a vida urbana: “Seja bem vindo ao caos, meu amigo”. Foram onze anos e cinco meses sobre as ondas do mar e sendo regido por deuses fascinantes e maravilhosamente imprevisíveis, onde vivi o melhor dos mundos. Fui para o mar por livre e espontânea vontade e sem carregar sobre os ombros nenhum trauma ou interesse, a não ser o interesse da busca da paz, do conhecimento e da reflexão. Não é justo fazer comparações entre o mar e a terra, porque são tantas as desavenças que dificilmente casaríamos alguma. No mar nunca tive sonhos como os que sonhei em minha rede da varanda, mas talvez seja pelo motivo de que estivesse olhando as cidades por um ângulo mais humano e belo, porque sempre achei que as cidades vistas do mar são mais aconchegantes e humanas. O caos a que se referiu meu amigo é escrachado diante de nossos olhos e nenhum tapume colocado na paisagem das cidades pode mascará-lo.

– Sim, mas porque a volta? Hoje morando em uma pequena localidade praieira já fiz essa pergunta inúmeras vezes e talvez por isso que a pergunta do leitor tenha me deixado encabulado, pois também interroguei vários conhecidos que desembarcaram e nunca a resposta satisfez minhas curiosidades. Hoje, refletindo tudo o que vivi a bordo do Avoante e o cenário encontrado nas ruas das cidades, posso dizer que não existem respostas, porém, precisava desembarcar e amadurecer as verdades que aprendi sobre as ondas, como também aprumar o rumo dos arquivos de assuntos pessoais que foram sendo jogados aqui e ali e estavam navegando em mares desencontrados e tenebroso.

Pode até ser que os “encantos” da vida urbana me entorpeça a razão e adormeça os extintos e as afeições que adquiri no reino de Netuno, porém, jamais perderei o norte verdadeiro e nem esquecerei o som do canto da Rainha do manto azul. Quem um dia foi ao mar jamais esquecerá, pois são ensinamentos para toda a vida e que serão repassados as minhas gerações futuras como elos de uma grande e interminável corrente. Acredito na máxima de que todos os habitantes do planeta deveriam passar uma temporada em um veleiro, pois assim teríamos humanos mais humanos e comprometido com a ideia de um mundo em que a paz, a ética e o companheirismo sejam parte inerentes da vida.

Não enxergo meu retorno como uma regressão e sim, como mais um período de um feliz aprendizado que busco em cada momento da vida. O retorno foi um bem maior e dele buscarei retirar o mais doce dos frutos, mesmo que não seja aguado com o néctar das águas salgadas, onde as verdades e os homens são mais verdadeiros. Saudade tenho sim, mas não daquela que faz doer, porque é uma saudade forjada em alegrias, maravilhosas lembranças e isso já basta para o sorriso da alma.

– E quando se dará a volta? Taí mais uma pergunta enigmática, mas por enquanto, ficarei regando minhas plantas.

Nelson Mattos Filho 

O comunista

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Passando a vista nas postagens das mídias sociais – coisa mais viciante do que biscoito de goma – me divirto com a batalha entrincheirada dos soldados comandados por “espertos” generais de areia. Nessa luta sem ganhador, onde esquerda e direita mudam de lado numa fração de segundos, ou a depender da conveniência do comandante espertalhão, amizades verdadeiras se esvaem como se daqueles velhos abraços, ou daqueles velhos e bons sorrisos, não restassem mais nem uma fagulha sequer de lembrança. Dizem que é assim entre os grandes povos politizados e que assim será o Brasil do futuro. Quanta besteiragem e quanta ideologia barata sendo arrotada, sem nem ao menos sentir o gosto da comida!

Chamar de idiota velhos amigos, irmãos de sangue, pais, colegas, companheiros de velhas e boas jornadas já virou banalidade e ninguém mais se incomoda. A ordem unida agora é partir para a agressão física e aí daquele que não aceitar as agressões. Perdemos o sorriso fácil de brasileiro. Perdemos a ternura tão comum em nossos campos. Perdemos a paz de um mundo mágico chamado Brasil. Perdemos a alegria de rever velhos amigos. Deixamos de lado o abraço sincero e enveredamos pelo abraço de urso. Estamos perdendo a dignidade – ou será que ela ainda existe? – e tudo sob olhares atentos e encarniçados dos “generais” sem quarteis, que lançam bombas e assistem da poltrona, sorridentes e brindando, o incêndio das trincheiras. E por falar em dignidade: Recentemente li o comentário de um professor universitário, desses que preferem as salas dos sindicatos do que as salas de aula, onde ele dizia que estava perdendo a dignidade, pois até de ônibus lotado já estava andando e ele como professor não merecia isso. – Ok!

Ao fechar a telinha que me coloca diariamente em contato com a guerra sem padrão, sem ética e sem nada de bom, lembro de meu amigo comunista e fico a divagar e ouço o eco de suas palavras. Meu amigo comunista, pois é assim que o chamo, não é um comunistazinho qualquer, ele é um comunista de mão cheia que nem de longe se arvora em vadiar pelas veredas dos facebooks da vida, porque, segundo ele, isso é coisa de imperialistas, associados com capitalistas selvagens, para enganar trouxas e ali não se aproveita nada. Nem as palavras ditas, que por sinal ninguém as lê, e se lê, não absorve. – E o que será que dirá do WhatsApp? – Um dia eu pergunto!

Livros de romance? Nunca jamais. Livros apenas aqueles que tratam de sua ideologia, mas recebe com um largo sorriso e um feliz muito obrigado os livros de romance e aventura que lhe presenteiam. E sem nenhum sinal de crítica ao presenteador. Para ele os amigos são sagrados, mais sagrados do que suas crenças. Viajar de avião? A não ser nos Tupolevs, como ele não viaja de avião, está bom do jeito que está. E uma cachacinha? – O que? Cachaça? – Cachaça é coisa de usineiro, eu gosto é de uma boa Vodca. Vinho? – Vou nem dizer o que ele acha. Eita piula! Carro? Bem, como ele acha que o verdadeiro socialismo passa longe da perda da dignidade, ele vai de ônibus mesmo. Carro é para a elite. O proletariado anda de ônibus.

Meu amigo comunista é uma figura que vê a vida de um modo simples, vive simples, adora ser assim e quem sou eu, que gosto de viver a vida simples e boa para discordar de seus princípios. Se você acha, pela breve descrição que fiz, que ele é um cara chato, desfaça seus pensamentos, porque ele é um bom companheiro que fará de tudo para você se sentir bem, pois é assim que deve ser entre pessoas que pensam diferente, sonham diferente, tem aspirações diferentes, rezam em cartilhas diferentes, são de raças diferentes, gostam de músicas diferentes, tem opções sexuais diferentes, tem cheiro diferente, nascem diferente, vivem diferente e assim vai indo diante de toda diferença. A vida é diferente e não serão as batalhas que a tornará igual. Se tudo na vida seguissem o mesmo padrão, que vida teríamos? O seu pensamento, a sua ideologia, o seu deus, a sua regra, o seu sonho, o seu modo de amar, o seu jeito de andar, de se vestir, de se pentear é o seu jeito. Podemos sim expressar para o mundo nossa ideologia, falar do nosso deus, divulgar nossas regras, mostrar o nosso amor, mas nunca podemos perder a ternura, o carinho, o bem querer do próximo.

Por que devo seguir na sua linha, se você destrata a minha? Por que devo seguir sua religião, se você discorda da minha? Por que tenho que comer da sua comida, se você detesta a minha? Por que devo amar seu filho, se você odeia o meu? Amigos e familiares não se cobram desses detalhes, porque amigos e família são bens de infinita riqueza.

É meu amigo comunista, que bom ser seu amigo, que bom viver nossas diferenças, que nem são tão diferentes assim, mas eu gosto mesmo é de uma cachacinha.

Sim, já ia esquecendo: Venha me visitar, viu, pois preciso de uns conselhos ao pôr do sol e dar boas risadas sobre as ideias dos socialistas das mídias sociais, que correm léguas atrás de uma tal de Black Friday.

Nelson Mattos Filho

O cafezinho

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E eu aqui deitado em minha rede na varanda crente que sabia fazer um cafezinho básico e para isso apenas esquentava a chaleira, colocava o pó no filtro e aguava com a água fervente, quando não, me socorria numa engenhosa cafeteira tipo italiana que acho o máximo. Pois é, pensei, sempre fiz e hoje vejo que pensei e fiz tudo errado. Ainda bem que não tive uma congestão e, para minha sorte, Lucia adora o café que eu faço, ou pelo menos diz que adora. Agora vejo que entre a água, o café e o bule tem uma intrigada equação matemática que nem sei se algum físico nuclear, ou algum PhD nas ciências exatas, consegue destrinchar o resultado final. – E você, sabe fazer café? – Aposto um quilo do mais caro café do mundo, talvez aquele retirado do cocô do gato, que você passa longe da sabença. E o que dizer do meu avô, que montou uma das maiores torrefações do estado do Rio Grande do Norte, batizado de Café Vencedor? Será que ele entendia mesmo de café ou será que tudo não passou de intuição de empreendedor? Rapaz, fazer café é coisa séria e nem duvido que daqui uns dias estará nas provas do Enem, ou mesmo na grade de matérias das mais afamadas universidades do mundo. Se já não tiver!

E por falar no Café Vencedor, lembrei de uma peleja publicitária entre dois dos seus principais concorrentes, com nomes do santo, São Luiz e São Braz, numa época em que o segundo, forasteiro das bandas da Paraíba, chafurdava o mercado do RN para ganhar espaço nas mesas dos potiguares. Como naquela época a mídia televisiva era tão cara quanto a hora da morte, o moído se dava através das ondas médias (AM) dos rádios, ou pelas bocas de som das velhas Rurais ou Veraneios de propaganda, mais ornamentadas do que burro de cigano, mas que nem de longe se igualavam na milacria azucrinenta dos atuais paredões de som da mala de um Monza caindo os pedaços. Bem, vendo a briga dos concorrentes tomar folego e cada um anunciando um milagre maior, o Café Vencedor estendeu uma faixa na frente do coliseu da batalha celestial com uma frase que deixou os santos meio tontos: “Na briga entre os santos, fique com o Vencedor”. E assim a paz voltou a reinar durante um bom período, porém, São Braz não ficou com essa espinha atravessada na garganta por muito tempo, voltou ao ringue e ganhou a luta de uma sacada só, até que a Santa Clara botou os olhos em cima da praça de guerra e partiu com tudo para o confronto. Mas aí é outra história!

Vixi, acho que dei um bordo muito longo e sai fora do rumo que ia indo. Meia volta, vou ver! Vamos lá de novo. Pois bem, café tem ciência sim senhor. – Quer saber? – Lá vai.

Nesse mundinho internético de tudo saí, de tudo se comenta e de tudo um pouco se transforma em um muito de uma ruma. Pois num é que uns gringos estudiosos fizeram publicar numa tal revista de matemática aplicada, uma pesquisa que trata do tamanho ideal das partículas do pó de café e quanto tempo a água aquecida deve permanecer em contato com o pó para que a bebida seja excelentemente bem servida em uma xícara. Segundo os cientistas, o objetivo do estudo é oferecer um modelo matemático para desenho e ajuste das futuras cafeteiras, do mesmo modo com são feitos os estudos de engenharia que dão melhorias os carros de corrida. – Se espante não que o negócio é sério!

Os cientistas se utilizam das teorias de estudos de sólidos e fluidos para buscarem a melhor forma do líquido (café) se movimentar dentro das cafeteiras e que assim seja possível prevenir para que o sabor não saia nem tão amargo e nem tão aguado. Eita piula! Dou por visto se eu levasse esse assunto para ser discutido sobre uma jangadinha que descansa nas areias da praia de Enxu Queimado, na hora do pôr do sol. No mínimo eu seria xingado de um repertório mais do que original de impropérios linguísticos. E nem duvido que recebesse um punhado de areia na cabeça, o que seria bem feito. Ainda bem que esse assunto vai ficar apenas por aqui mesmo. Onde já se viu o caboco ter que fazer um curso avançado de matemática para poder servir um cafezinho quente durante uma prosa com os amigos? Será que moça que faz o cafezinho de R$ 0,50 centavos, tomado pelo meu amigo Flávio Rezende, durante suas caminhas matutinas, sabe fazer conta? E o meu irmão Iranilson, cabra bom nos números, será que sabe passar café? Agora deu molesta dos cachorros! Juro que não lembro de ter visto essa tal de conta do café nas velhas e boas tabuadas de papel e nem nas que vinham impressas nos lápis grafite. Será que professora Almira, baluarte do colégio Marista, tinha conhecimento desse assunto. Se tinha garanto que nunca fez uso dessa equação durante suas aulas particulares, pois tomei alguns cafés em sua casa e não lembro de ela ter feito uso do borrão para rabiscar alguma raiz quadrada antes de colocar o pó no coador.

Esse mundo está ficando mesmo muito cheio de veredas esquisitas e quem quiser que se meta a besta de se abestalhar por aí. Nem um cafezinho com a nota mais ou mesmo temos o direito de fazer e tomar. – Sabe de uma coisa? – Eu é que não vou me arvorar em fazer conta para tomar café, pois na matemática sempre passei me arrastando, e vai que eu erre a soma. Eita mundo velho sem eira nem beira!

Nelson Mattos Filho

De Enxu a Namíbia ou de lá pra cá

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Tanto faz, é, tanto faz…Tanto o Mar daqui quanto o Mar de lá, o Mar é o Mar, e como diz Caymmi: “…que carrega com a gente pra gente pescar…”, porque “o pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no Mar….”.

E é a preguiça, a rainha da inspiração, que nos leva a andar bestando pelas areias de Enxu, pensando na Namíbia do lado de lá, pensando em Noronha que é bem acolá, sonhando, sonhando um dia voltar.

Quando a gente volta do Mar pra beira do Mar, um pedaço ficou por lá, e o pedaço de cá quer se juntar, como a lua cavaiando que fica ali a olhar Vênus a seu lado querendo abraçar, e os dias passam e o afastamento se faz pouco a pouco, numa sofrência do apartar, sou eu saindo do Mar, partindo pra longe querendo ficar, ficar…

Estou eu na rede armada na varanda, abestado com a harmonia orquestrosa das palhas do coqueiral regidas pelo sopro de um vento ligeiro, quando toca o telefone, naquele velho e característico trim para anunciar boas novas e do outro lado da linha, vem a voz arrastada de um cearense arretado dizendo para preparar mais um armador de rede que ele com a viola no saco para tocar toadas e prosear. E não é que veio mesmo! O cabra da peste estava vindo das águas oceânicas de Netuno e depois de festejar com cantorias a rainha Janaína, desembarcou da Nau do velho marinheiro Leo, no enigmático porto do Jacaré, em Cabedelo/PB sim senhor, pegou uma lotação e veio desaguar nessa Enxu de mil encantos. As amizades são assim mesmo e o caboco bate mundos apenas para ter o prazer de avistar o outro e dar um abraço.

Pois foi, o Mucuripe chegou, acompanhado de sua Neguinha, se armou da viola e se danou a tocar e prosear durante dois dias e duas noites. Foi tanta cantoria e tanta conversa entremeada entre acordes e canções, que o tempo passou e ninguém nem se deu de conta. Como é gostoso sentar numa varandinha praieira para brindar o histórico das boas amizades. Falar dos astros, das voltas que a maré dá, de Lua cavaiando, de galinhas poedeiras, de retratos, de jangadas e paquetes, das histórias de pescador, rir do nada e de tudo e entre um sim e um não, o toque de um reisado para eternizar a visita. Nesses festejos das amizades os problemas não têm vez e ai daquele que chegar trazendo notícia entristecida, pois vez não vai ter não e ainda vai ter que amargar uma piada com o tema da desgraceira. Nesses momentos o caboco ri de tudo e até do desafortuno de ver sua redinha limpinha sendo mijada por um garotinho, já próximo da hora de botar os olhos para dormir. Sem ter o que dizer, ele diz para a mãe da criança: – Tem nada não mulher, eu já estava pensando mesmo em dormir no chão! Ah condenado!

Pois é, amizade é assim e nasce de um nadica de nada, as vezes até de um esbarrão desencontrado e quando o cabra dá por fé, já está contando coisas da sua vida para o amigo novato. Pois digo que foi assim que surgiu minha amizade com o Mucuripe: Estava eu sentado no cockpit do Avoante, atracado ao píer do Iate Clube do Natal, quando ele surgiu, se roendo de curiosidade e desejo para navegar no Rio Potengi. Olhei para aquele sujeito que não senti muita firmeza e falei: – Hoje tem jeito não, mas se você vier amanhã, nós vamos no Avoante. Rapaz, o cearense só faltou ficar sem fala, mas falou: – Pois eu venho amanhã logo cedinho. Pois não é que ele veio mesmo e já chegou marcando o terreno para solidificar amizade. Eita fi da peste!

Da amizade eu já falei, como já falei de Enxu, mas falta falar da Namíbia que entrou no título aqui, porém, essa prosa é longa e aconteceu lá no mar do Senhor do Bonfim. Agora danou-se, pois não sei se reconto essa peleja ou passo por cima, mas acho que vou recontar, nem que seja um tiquinho que é para você se assuntar: Certa feita o Mucuripe embarcou no Avoante, na Ilha de Itaparica, munido de um sextante, pois queria tirar uma visada para avistar a Barra do Paraguaçu, ponto do nosso destino. Entre uma olhada e outra no astro rei do céu, ele se desatou a fazer contas e quando anunciou o resultado da matemática disse que estávamos na costa da Namíbia. Claro que foi pra mode fazer graça, pois o cearense é bom nas coisas dos astros, mas fiz um moído danoso e que virou causo de riso no meio da turma do mar.

E foi na pisadinha da prosa e canção, embaixo da varandinha, que Mucuripe falou: – Vamos escrever um texto a quatro mãos para celebrar essa visita? Topei na hora e ele disse que iria dar o mote. O que ele escreveu está poetado lá em cima, em formato itálico, e quando sentei para escrever minha parte, ele pegou na viola e se danou a cantar assim: Silêncio, por favor…. Não diga nada sobre meus defeitos…. Hoje eu quero apenas, uma pausa de mil compassos…. Porque hoje eu vou fazer/Ao meu jeito eu vou fazer/Um samba sobre o infinito. Depois, botou a viola no saco e se mandou pra Brasília.

Nelson Mattos Filho 

No balanço da rede

20160924_120848Tem certas coisas que nunca entendi e continuo sem entender, mas estou vendo que em alguns lugares do mundo as coisas funcionam como devem funcionar, e não de acordo com a vontade das classes políticas, ou do “donatário” da vez. Antes de prosseguir proseando vou perguntar a mim mesmo: – Existe povo mais sem regras e sem leis do que político? Já que a pergunta foi para mim, eu mesmo respondo: – Existe não, porque regras e leis, para regular político, são feitas por eles mesmos e ao sabor da vontade e da enrascada que eles se metem. Se o bicho pegou, basta inventar outra e tudo fica nos conformes.

Olhando a vida através da poeira do barro que vem no sopro do vento e olhando as imensas torres de energia eólica, que estão trazendo um tortuoso progresso a pequenos povoados pelo litoral e sertão adentro, fiquei matutando em como são frágeis as cidades quando se entregam aos desmandos e a demagogia das politicagens deslavadas.

Certa feita, em um bate papo com um amigo que havia acabado de chegar dos “esteites”, e ainda sob o efeito da propaganda desenvolvimentista americana do norte, fiquei encantado quando ele disse, com impostação na voz, que na cidade onde esteve, a prefeitura estava empenhada em construir novas tubulações de água e esgoto para satisfazer o pretenso crescimento da cidade no ano de 2040. Pois foi, ele disse! Na hora lembrei que nas terras descobertas por Cabral, e sua turba de degredados, os projetos visam o ontem e nem por isso os homens deixam de armar um palanque para festejar o feito. Aliás, o palanque é armado no anuncio da intenção, na assinatura do contrato, na hora da primeira pazada de areia e vai nessa pisadinha, até que um dia, alguém chega à conclusão que está tudo errado e o orçamento, que havia sido acordado inicialmente, já foi comido tantas vezes que não tem cristão no mundo que ache o fio da meada. Pois é, tem gente que pensa longe, tem gente que pensa bem ali, tem gente que pensa para trás e tem gente que pensa apenas no bolso e quem vier atrás que feche a porta dos fundos.

Mas isso não tem nada a ver com essa prosa e o que me fez lembrar desse assunto foi uma placa, na beira da rodagem, em que está escrito “queremos água”. A placa está desbotada e até já perdeu um pedaço de sua estrutura, porém, a água ainda está por chegar em algum dia qualquer do futuro. O que na verdade norteia essa escrita, segue no rastro de uma notícia vinda lá das terras geladas da Suécia, e os esgotos ianques e a água tupiniquim que não sai da promessa, apenas se entranharam nos punhos da rede.

O Reino da Suécia, que vem a ser o terceiro maior país da União Europeia, em área. Considerado um dos mais socialmente justos no mundo atual e com uma população de mais 9 milhões de habitantes, onde a grande maioria não acredita em nenhum deus. O país está classificado como a quarta economia mais competitiva do mundo e tem nas hidroelétricas, madeira e minério de ferro a base de sua economia, visando principalmente o comércio exterior. A Suécia é uma potência. Pois bem, a cidade sueca de Kiruna, considerado o maior município do mundo, com 20.000m² de área, e que cresceu em torno de uma gigantesca mina produtora de minério de ferro, decidiu que precisa mudar de lugar para não ser tragada pela terra.

A mineradora estatal LKAB, avisou a prefeitura que a extração de ferro iria se estender por baixo da cidade e era arriscado que tudo viesse abaixo. Nesse interim, a empresa se comprometeu a transferir, literalmente, a cidade para outro lugar com um ousado, e nunca tentado, projeto de engenharia. Depois de muito quiproquó e dezenas de acordos entre população, governo e mineradora, foi batido o martelo e a cidade vai ser transferida para um terreno localizado a pouco mais de 3 quilômetros de distância e longe dos buracos da mina. A transferência deve ser dada por encerrada daqui uns 30 anos, mas os engenheiros apostam no sucesso da empreitada. Primeiramente vão levar o centro da cidade inteiro e depois vai o restante, mas de uma coisa é certa, até 2050 o que era superfície será um buraco só, pois as máquinas da mina não param de moer e quem quiser que saia de cima.

Isso é o tipo de notícia que a gente lê e escuta e fica matutando com os botões: – Homi, isso será verdade ou delírio do mundo das pranchetas? – Como danado vão pegar um prédio pelo sovaco e plantar ele em outro terreiro? Mas tudo está escrito nas páginas online do site Planeta Sustentável e eu li com meus olhos que a terra a de comer. – Ei, taí um movimento que eu queria assistir de perto! Fico imaginando o arranca rabo se uma proposta dessa fosse em algum recantinho das terras brasilis. – Seu menino, ia ser tanto arranca rabo, tanto ônibus queimado, tanta greve no meio do mundo, tanto bofete trocado entre polícia e manifestantes, que no fim, a turma do abafa abraçaria todo mundo e o projeto era engavetado como se ele nunca tivesse existido. A mineradora que fosse cavar buraco nos infernos.

Tomará que o sono chegue logo!

Nelson Mattos Filho