Cartas de Enxu 57


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Enxu Queimado/RN, 26 de janeiro de 2020

Carlinhos, como navegam as coisas em sua velha e boa Bahia? Tenho acompanhado tudo pelos buxinhos que escapam das linhas imaginárias que cruzam as cartas náuticas e que denunciam os rastros dos navegantes abençoados pelo Senhor da Colina Sagrada. Diante de tudo que chegam aos meus ouvidos, trazidos pelo eco dos ventos, defino que tudo vai bem, se bem que algumas coisas precisam de correções. O que seria da navegação se não existissem as correções, não é mesmo? Cabral que não as fez, acabou num sabe onde e condenando um povo a caminhar sem chegar a lugar nenhum. Aliás, ainda estamos nos descobrindo e com vontade de cobrir tudo novamente, porque a correção está difícil.

Amigo, tenho andado pouco por aí, pois essa vidinha de praieiro deixa a gente assim meio paradão. Não sei se é por causa do ar da praia, do marulhar das ondas, do bailar das folhas dos coqueiros, da observação das jangadas entre idas e vindas, dos alísios que por aqui transformam tudo em poesia ou simplesmente do calor apetitoso do Sol, que é um convite para um delicioso mergulho no mar de Enxu, mas é assim, a inércia tomou conta de mim e se não fossem as viagens a Natal, que me desloco de vez em quando para dar um cheiro em Ceminha, os passeios pelo mundo seriam apenas pela telinha brilhante do aparelhinho de celular ou na telona desse computador de mil e uma utilidades. Até meus escrevinhados ficaram raros e embalados no velho papel que se embrulha o deixe para depois, mas vou seguindo assim e quem sabe um dia dona inércia resolve tomar tento e passarei, novamente, a olhar o horizonte com o olhar de curiosidade. Quem sabe!

Meu amigo, escuto dizer que nos dias de hoje não é preciso sair batendo perna para conhecer e saber das coisas do mundo, porque tudo está muito bem nítido no bombardeio de informações que estamos recebendo instantaneamente e sem ter tempo nem de piscar o olho, o que é uma verdade não verdadeira, pois no mundinho digital, a mácula da desinformação exime o ônus da prova. Porém, digo que diariamente varo o mundo sem sair do lugar e ainda fico cansado, porque a caminhada, nas veredas das ondas internéticas, tem que ser ligeira, pois se vacilar, o bonde passa e o próximo é outro papo.

Comodoro, ultimamente minhas andanças estão voltadas para descobrir os caminhos que cercam essa prainha paraíso, que não são poucos, porém, esquecidos e incrivelmente abandonados. Enxu Queimado, no alto de seus 90 anos, tem um acervo paisagístico riquíssimo e uma maravilhosa história tendo o mar como pano de fundo. O Município de Pedra Grande, base desse pequenino povoado praia, e os distritos que lhe servem de satélites, foram aquinhoados com fascinantes tesouros naturais que se estivessem fincados em outros locais, ou mesmo países mundo afora, seriam bem vistos e valorizados. Na época das chuvas temos lagoas de águas cristalinas entre as dunas, assim como as que dão fama aos Lençois maranhense. Temos grutas subterrâneas como poucas no mundo. Uma fauna, apesar das ações desastrosas do homem, de fazer inveja a muitos parques ambientais. Uma flora exuberante e que de tudo dá, desde que se plante. E um povo dotado de um exuberante calor humano. Trilhas fabulosas, ornamentada por fábulas fascinantes, por entre a mata da caatinga. Tudo isso temperado por um clima maravilhoso e sem falar que foi nessas terras que oficialmente o Brasil teve início, em 7 de agosto de 1501.

Pois é, meu amigo Carlinho, muito do que escrevo aqui já foi dito em outras Cartas de Enxu, mas tem coisas que nunca é demais contar mais de uma vez e outras tantas forem preciso, para não caírem no esquecimento, ainda mais em uma região tão cruelmente desassistida. Costumo dizer que hoje vivo no Brasil real, como era real aquele Brasil em que vivi a bordo do Avoante, em que a fala das promessas se perdem no vazio das ações. Essa semana os portais de notícias deram conta de que a China, que enfrenta uma grave e mundialmente preocupante epidemia do coronavírus, surto que tem deixado a medicina feito barata tonta, está construindo um hospital com mil leitos, que deve ficar pronto em seis dias, somente para atender os casos diagnosticados. Diante da notícia tão valiosa e de priorização com saúde humana, olho para as nossas Unidades Básicas de Saúde, muitas delas há anos ainda em fase de projeto e construção, e as que estão em funcionamento, com indecifráveis faltas de equipamentos, medicamentos e estrutura de pessoal, e indago: – Poxa, Seu Cabral, porque não corrigiu a rota de suas Naus?

Carlos Santana, ou melhor, Carlinhos do Xéu, tenho saudades da sua Bahia e da alegria carinhosa do píer do Angra dos Veleiros, um dos portos seguros do Avoante na terra dos Orixás. Ainda lembro de suas palavras certa vez em que atraquei no Angra: – A alegria voltou! Sejam bem-vindos, Nelson e Lucia! Pois é meu amigo, quero dizer a mesma coisa no dia em que você chegar sob a sombra dessa nossa cabaninha, mas não se avexe, pois garanto deixar os assuntos comentados nessa cartinha, bem longe da sua alegria contagiante.

Grande abraço e antes do ponto final, digo que a Lua iniciou a fase de crescimento e a Lua cheia por aqui é linda. Venha conferir!

Nelson Mattos Filho

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