Cartas de Enxu 54


11 Novembro (137)

Enxu Queimado/RN, 30 de dezembro de 2019

Eh, meu irmão, já vai longe o tempo em que meu amigo Alexandre Jácome, Teltur Viagens e Turismo, falou das belezas da praia de Enxu Queimado e você endossou a parada dizendo que conhecia e por aqui havia passado algumas temporadas na companhia do seu compadre Alexandre Chaves, genro do Sr. Abrão, que possuía uma casa a beira mar e de varandas abertas para os alísios que sopravam por sobre as maravilhosas dunas móveis que se estendiam para o sul até a Praia do Marco. Quanto aos alísios, digo que ainda são os mesmos se bem que ultimamente estão soprando mais avexados e tirando onda em estações climáticas que tradicionalmente eles passam mais parcimoniosos. Coisas dos deuses da natureza! Quanto as dunas, de Enxu ao Marco, digo que receberam a intervenção criminosa dos caras pálidas, que chegaram com a cruz, as bandeiras e as armas do progresso, e hoje praticamente foram riscadas do mapa para dar vez a um gigante parque eólico. Coisas dos sapiens e de suas leis descompensadas! Porém, para não instigar falação, pulemos essa parte!

Pois é, meu irmão, Enxu continua um lugarejo descente, dotado de uma beira mar aconchegante e se olharmos com um olhar mais apurado, não mudou muito desde os verões dos anos oitenta e noventa. Sinceramente, acho até que adormeceu por longo período e acordou meio sonolento em pleno século XXI, tentando resgatar o passado, mas com o foco desnorteado nos horizontes de um futuro incerto. Dia desses sonhei acordado na lembrança dos balaios de bolacha doce e “fresco”- iguaria feita com goma e coco seco ralado – produzidos em fornos artesanais de barro nos quintais das casas e todas as tardes eram vendidos de porta em porta pelas crianças. Eram os bons tempos das casas de farinha, que existiam em quase toda localidade interiorana e que complementava a renda de famílias que se divertiam nas horas da farinhada. Meu irmão, tudo isso ficou para trás e o que restou das velhas casas de farinha foi abandono, promessas politiqueiras e saudações a mandioca, como se palavras jogadas ao vento resolvesse alguma coisa. Como bem diz um velho ditado potiguar: Conversa fiada foi o que fechou o bar cova da onça!

Idio, sou saudosista sim e até tento controlar esse instinto tão cruel para o ser humano diante desses tempos modernosos, em que a razão se perde em meio ao nada e os antigos costumes culturais, para muitos, não passa de balela contada pela história dos povos. Aliás, a defesa da cultura nesses dias em que a década se encaminha serelepe para a entrada do ano derradeiro, não passa de discursos raivosos contra o corte das verbas que abasteciam os sabidos. Acredita não? Pois então bote na vitrola qualquer LP de Gonzagão ou ouça as prosas do Jessier Quirino! Os tempos eram outros, meu irmão! Quer ver coisa esquisita? Tente assistir uma apresentação de foguedo, sem se espantar com a descaracterização que está causado a morte de raríssimas raízes culturais! Tente participar do que ainda resta das festas de padroeiro, Brasil afora, sem se espantar com o esvaziamento dos costumes e a tristeza que ecoam das ladainhas! Entre em qualquer repartição pública que “cuida” da cultura e peça informações sobre tal! É duro, meu irmão, é duro!

Já sei, você está doido para saber sobre a cultura daqui, num é? Pois vou contar assim: A cultura aqui é do mar, das redes de pesca, das jangadas, dos paquetes, dos botes, dos balaios de pescado, da vida ditada na dança das palhas do coqueiral, mas ela está agonizante e jurada de morrer na praia. Dizem por aí, que quando o homem perde o rumo de sua história, sua alma definha até renascer sem os princípios que o fizeram homem. Será verdade?

Meu irmão, juro que não queria azucrinar seu juízo com coisas que fugissem dos limites dessa prainha paraíso, pois queria mesmo era despertar em você a vontade de rever o que um dia encheu seus olhos, mas tem coisas que não caminham longe de outras e por mais que tenhamos o cuidado de desviar dos obstáculos, mais damos de cara com eles. Porém, venha aqui, meu irmão, venha jogar conversa fora sob a sombra dessa cabaninha de praia. Venha estirar a rede na varanda para tocar sua viola. Venha rir da vida e lembrar da vida vivida. Venha sentir o cheiro do mar e caminhar despreocupado por uma beira de praia encantadora. Venha receber o sorriso largo e o abraço de um povo que tenta resistir as desventuras. Venha olhar as estrelas do céu, que por aqui são mais brilhantes. Venha acompanhar o belo passeio da Lua sobre o manto negro do firmamento. Venha assar castanha numa fogueira sobre as dunas para degustar o verdadeiro sabor da terra e venha sem pressa, pois de carreira já basta o tempo.

Idio Nogueira de Mattos Neto, nesse pezinho de nada que falta para findar o ano, dias de luar em quarto crescente, o convite está feito, mas nem precisava, porque minha casa é sua casa e na casa da gente precisa de convite não. Mas digo uma coisa: Se não trouxer a viola vai ter que voltar para buscar. Venha e traga sua trupe pois aqui tem escapas para um monte de rede e o tacho da moqueca é grande.

Beijos em tu e em Neném!

Nelson Mattos Filho

2 Respostas para “Cartas de Enxu 54

  1. Paulo Trigueiro, 58

    Leio quase todos os textos de Nelsinho. Sempre bem didático, sem meias palavras. Parabéns.

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