Natal 420 anos


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Ah, Natal, sempre me pergunto qual terá sido o mal que você fez para receber tanto castigo. Logo você, uma cidade outrora tão linda, tão mágica, tão tranquila, tão fascinante, tão hospitaleira, tão bucólica, iluminada por uma áurea que bem lembrava a brilhante estrela do oriente que marcou época e mudou a história do mundo. Logo você, fundada em um belo dia de Natal e por bem foi batizada. Que tristeza vê-la assim tão maltratada, sobrevivendo as custa de migalhas, caminhando cambaleante em meio ao caos, assustada e sem ao menos ter um porto seguro que lhe dê guarida. Quando nos seus primórdios, foi guardada e resguardada por uma enorme e segura fortaleza com nome de Reis, fortaleza essa que hoje só resiste por obra e graça de uma engenharia que os bancos de universidade não ensinam mais, porque se fosse pela vontade dos homens, há muito estaria riscada do mapa sem restar pedra sobre pedra.

Sabe, Natal, fico pensando no que diriam seus fundadores, seus defensores e todos aqueles que deram sangue e suor para lhe ver altaneira e próspera. O que diriam os invasores se a visse assim tão cruelmente abandonada e malcuidada? Será que fariam como os amantes que se separam e quando se reencontram no futuro sentenciam em pensamentos: Me livrei de uma boa! Não, Natal, você não merecia isso!

Sinceramente, minha cidade querida, ultimamente não gosto de caminhar pelas suas ruas, pois não a reconheço em nenhuma esquina. Alguns cronistas, saudosistas e historiadores ainda tentam elevar sua estima em textos lindos e poéticos, mas sua alma lê, sorri pelo canto da boca e se fecha na solidão da sua tristeza. Aliás, vou confessar-lhe uma coisa: Para mim, o único potiguar a honrar sua história e elevá-la ao alto, mesmo dizendo ele que você “…não consagra nem desconsagra ninguém”, foi Luís da Câmara Cascudo, os demais, são apenas os demais. Cascudo lhe amava e você amava Cascudo. Era uma paixão sem poréns, encantadora, de olho no olho, de coração entrelaçados, de mãos unidas em um fascinante passeio de namorados. Você era a alma de Cascudo e ele era a sua essência! O que diria o grande mestre ao vê-la hoje? Acho até que sei a resposta, porque o mestre, de tão apaixonado por ti, relevaria os desmandos colocando tudo em brancas nuvens.

Querida cidade, não sei se me viste, mas dia desses tentei passear despercebido pelas ruas do centro para tentar sentir seus cheiros, sua respiração, as batidas do seu coração, o calor do seu abraço, o eco dos seus risos, o olhar acolhedor de seus habitantes, porém, minha indignação me denunciou. E olhe que era bem próximo desse seu aniversário e os mandatários haviam armado palanque para shows e criado uma passarela iluminada em parte da Rua João Pessoa. O que presenciei foi uma maledicente decadência e me veio a saudosa lembrança de quando o centro da cidade, nos períodos natalinos, era uma alegre reunião de transeuntes em cada pedacinho de calçada e o comércio rindo do tempo. Pois é, Natal, você era sinônimo de alegria!

O retorno para a casa de Ceminha foi penoso, ainda mais quando me deparei com a pobreza da decoração no canteiro central da Av. Hermes da Fonseca. Um sino aqui, outro acolá, poucas estrelas que mais parecem cruzes sobre as árvores, tudo compondo um cenário desfigurado e desbotado. Se era para demonstrar tristeza e desencanto, era mais salutar que a prefeitura mantivesse o dinheiro nos cofres para gastar em frentes mais necessitadas. Aliás, a prefeitura gastou uma nota preta na contratação de grandes artistas nacionais que foram distribuídos em vários – como diz o modismo tosco – polos, mas não dou conta, pois não assisti nenhum, como também não cheguei a ver – quem sabe hoje – a árvore iluminada, que dizem ser a maior do Brasil, ao lado do viaduto de Ponta Negra. E por falar em Ponta Negra, acho melhor nem falar!

Eh, Natal, desculpe esse meu mal humor e essa visão tão cruel sobre você, ainda mais no dia de seu aniversário e acho até que você não merecia palavras tão duras vindas de um apaixonado, mas tinha que desatar o nó que estava em minha garganta. O ditado diz que quem ama fala mesmo e por isso me atrevi. Desejo que os ventos alísios que acariciam seu litoral e as águas do Atlântico que te banham, levem para longe essa tristeza e tragam de volta a alegria, o aconchego e o calor humano que em outros tempos fizeram de você a linda Cidade do Natal, Natal de nascimento, de esperança, de renovação, de boas novas, de renascimento, da maravilhosa luminosidade da Estrela do Oriente que foi seguida com muita fé pelos Reis Magos, sabendo eles que aquela estrela era o farol de uma nova história para o mundo. Natal, a cidade dos Reis Magos!!!

Parabéns, Natal, e mais uma vez peço desculpas pelas palavras. Te amo!!!

Nelson Mattos Filho

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