Curta metragem


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Necessitando bater, sem trocadilho, uma chapa periapical dos dentes superiores 14 e 15, a pedidos do Dr. Jorge Rezende, cabra bom indo e voltando, deixei os encantos de minha Enxu mais bela e me danei nas estradas do Mato Grande, portal de entrada do sertão, para sentar pouso na casa de Ceminha, situada no pezinho dos morros do Tirol, cinturão verde oliva que ainda resiste ao tempo, as incertezas dos desmandos dos homens e que dá beleza a uma cidade linda, porém, incompreendida. Ah, Natal, em qual quadrante dos riscados de Palumbo se escondeu, envergonhada, sua alma outrora tão alegre e tão ricamente cheia de vida?

Acordei cedo, mas não tão cedo assim, deixei o possante no lava jato, para jogar por terra a poeira avermelhada das paragens de Enxu Queimado e sob um sol de lascar moleira de caboco descuidado, pois o Sol que dá quentura a Noiva cascudiana, não é manso, não senhor, peguei descendo a bater pernas até o local da clínica, situada nos terreiros da antiga fazenda Solidão, sítio esquecido de uma cidade que já foi tudo, inclusive nada.

Juro que não consigo entender o funcionamento desse cérebro que caminha a passos largos para abrir a porta enigmática dos sessenta, porque nunca consegui definir a sequência dos pensamentos e das lembranças da saudade. No caminho de ida até a clínica, a mente teimava em se ocupar a observar a nova cidade que se forma entre traços estrambólicos de uma arquitetura sem brilho, sem alma e sem sentido lógico e logo me vi assobiando a música Bienal, do Zeca Baleiro. Aliás, sempre me pego cantarolando Bienal quando cruzo as ruas de algum condomínio bacana, “… Pra entender um trabalho tão moderno/É preciso ler o segundo caderno/Calcular o produto bruto interno/Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone/Rodopiando na fúria do ciclone/Reinvento o céu e o inferno…”.

Já no caminho da volta, o cérebro se danou a cascavear lembranças e aí nem me avexei com os castigos dos raios solares, pois me meti em um turbilhão do tempo e assim a caminhada foi toda assistindo um breve filme da minha vida. Ao passar em frente ao portão da Escola Doméstica, que agora perdeu a identidade, lá estava Lucrécio, numa noite de sexta-feira, se aliviando da água No joelho no para-lama de um fusca, e de repente surge a figura crescente de um fuzileiro naval, saído da guarita do 3º Distrito Naval, que dá uma rasteira no Cego, que cai estatelado no chão e diante do sangue que escorre de sua boca, o fuzileiro o solta e lá vai nós, uma ruma de meninos, resolver a bronca na urgência do Walfredo Gurgel. O pior não foi o fuzileiro, não foi a rasteira e muito menos a ida às pressas ao hospital. O pior foi ter que inventar uma história que caísse bem nas graças de Dona Ivone e Seu Artur. Pois num é que deu certo!

Os passos seguiam e lá estava eu diante da AABB lembrando do cheiro e do sabor do filé com fritas que era servido no restaurante do clube. Era bom demais e quase sempre a iguaria era patrocinada por Seu Chico Araújo, pai de Mário. Mais alguns passos me encontrei com a turma do Posto Patotas, Iran, Zé zuada, Cortez Júnior, Brote seco, Gagau, Táta, Tisso, Dudu barbudo, Dadá, Porcino, Prefeito, Junior Gurgel e mais um bocado. Me vi comendo um hot dog, no trailer de lanche na esquina, e até senti o sabor da maionese caseira ali servida. Olhei para o lado direito e lá estava a turma do STOP, bar comandando por Joaquim Amorim, que servia umas coxinhas dos deuses. O bar STOP que durante as noites de quinta, sexta e sábado recebia tanta gente que a rua Ângelo Varela era literalmente fechada, mas na esquina com a rua Ipanguassu ainda sobrava uma brechinha de espaço para Júnior Jaeci dar seus famosos cavalos de pau.

Subi a Rua Brito Guerra, vendo a imagem do Galaxie de Marcelão, ouvindo as estórias de Bolinha, ouvindo o ronco do Gordini de Álvaro Gordo, rindo da alegria que vinha da calçada de Willame Boy, do aconchego do sobrado de Dr. Fernando Rezende, vendo a sisudez no rosto do Dr. Aldo, vi seu Wiliam me acenando do batente da calçada, vibrei com a boa energia que exalava pelos poros da casa de Dona Iaponira e Zé Carvalho, vi Eugênio descendo a ladeira, escutei a buzina da DKW de Dr. Gilvan Trigueiro, que apitava desde que entrava na rua Teotônio de Carvalho. Cruzei a calçada de Seu Artur e juro que escutei ele falar: – Bom dia, Nelsinho! Dei um sorriso, olhei para trás e vi que estava sozinho naquele grande cinema ao ar livre, mas ao me voltar, a fita havia soltado do carretel e as luzes do cinema estavam acesas, porém, ainda deu tempo de ver, em uma pontinha dos créditos, o velho campo de peladas sobre o terreno em frente à casa de Dona Dazinha.

Parei em frente à casa de Ceminha, novamente olhei para trás e senti o coração bater mais forte diante da felicidade de ter assistido cenas tão mágicas de um mundo real tão distante, mas ainda tão vibrante. Juro que ainda relutei em entrar, mas quando apertei a cigarra vi que o mundo era outro, pois lá de dentro Lucia apertou o botão do portão automático e olhei para cima para observar os fios da armação da cerca elétrica e falei baixinho: Estou na vida moderna!

Poderia até chorar de emoção, mas não o fiz, porque foi alegria demais!

Nelson Mattos Filho

6 Respostas para “Curta metragem

  1. Paulo Trigueiro, 58

    Nelsinho. Em poucas linhas revi um passado distante, que já fugia da minha memória. Parecia até que eu estava naquela época, tão forte veio as lembranças. As buzinadas revividas por você do carro DKV, do meu pai Gilvan Trigueiro, me emocionou.
    Um texto belíssimo. Parabéns 👏

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    • diariodoavoante

      Caro e bom amigo, tenho muitas e boas lembranças daqueles anos de ouro em que vivemos e espero ter tempo de editar novos filmes. Grande abraço, Paulinho

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  2. Lanche no Patota essa semana. Está instalado na Campos Sales, canteiro central, em frente ao posto São Pedro.👍

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  3. Nobre poeta do Sertão, do Mar e da vida, tu é um caba danado nos versos, nas palavras e emoções! Ah fidirapariga letrado da bixiga!!!!!

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    • diariodoavoante

      Cabra da peste, deixe por uns dias sua cabaninha na chapada e venha emendar os bigodes numa prosa em nossa varandinha. Mas se não trouxer a viola, não deixo nem passar a porteira. Abraços,

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