Navegada em Maragogi nos porões da memória


IMG-20171128-WA0032O navegador Érico Amorim das Virgens, lenda viva do iatismo potiguar e uma das maiores autoridades na faixa de mar entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, tem um arquivo de memórias para preencher páginas e páginas de livros e se for para emendar os bigodes em um gostoso bate papo, não tem pareia. Adoro sentar com o comandante para escutar suas histórias e assim vou enriquecendo meus conhecimentos sobre as coisas do mar. O autor de três  maravilhosos livros, o último Um Mar de Memórias, enviou um pedacinho de suas lembranças sobre a regata Maragogi-Maceió, da qual participou da primeira a última edição.      

Navegar nem sempre é tão simples quanto imaginamos ao ver passar  aquele veleirinho no horizonte azul.  A navegação em barco a vela,  esporte prazeroso e desafiador, sempre tem um probleminha a resolver: compor a tripulação.
É explicado por exigir dias para se  fazer uma simples travessia de Natal até Recife e nem todos tem o privilégio de se ausentar de seus  afazeres por dias seguidos. Normalmente levaria 2 dias no mínimo. Imagine meu caso em 2009 para ir a regata Maragogi-Maceió, da qual  participava quase todos os anos desde 1992, em sua primeira edição. O fato de a regata ter sido sempre em janeiro facilitava muito, pois  meus companheiros geralmente estavam em férias. Não sei o que  aconteceu naquele ano que meus tripulantes sumiram do mapa.
Aprontei o barco e fiquei enchendo o saco de um e de outro até que  Cláudio Almeida concordou em ir até João Pessoa. Dito e feito, lá  chegando arrumou a trouxa e se mandou de volta. Em lá estando comecei  novamente a minha batalha. E aí diante das negativas eu insistia: e só  até Recife?  Findei pagando a um rapaz que se dizia homem do mar e na  hora H meu amigo Luiz Dantas resolveu aderir. Afinal seria só uma  noite no mar. Resultado do trajeto: o marinheiro vomitou a noite toda  e Luiz achou bom termos pescado uns dois ou três peixes.
Em Recife eu estava bem mais perto do meu destino, mas continuava com  o mesmo problema: sem tripulante para a regata de Maragogi. Na semana anterior à minha chegada, o pessoal de Recife havia  realizado uma regata até a praia de Tamandaré e o barco de JP lá se  encontrava exatamente para participar da regata de Maragogi,  uma vez  que as praias são próximas. Com aquela conversa de palhoção  que todo  iate clube tem, fiquei sabendo que Alfredão e Evelin iriam com JP  pegar o barco em Tamandaré. Não foi difícil convencê-los a ir comigo e eu os deixaria em Tamandaré. Assim aconteceu e nós três levantamos as  velas na noite de sexta-feira e tivemos uma navegada maravilhosa, com  ventos brandos e favoráveis. Sem esquecer que os dois fizeram questão  de me deixar dormir a noite toda. Ao amanhecer Alfredão nos guiou com  segurança até o local de fundeio e aproveitamos para fazer um café com  tudo que tinha direito; o barco estava devidamente abastecido.
Agora eu estava bem próximo de meu destino e com outro problema: como  sair de Tamandaré contornando todos aqueles parrachos? Depois do café, nada mais a fazer, ficamos no barco conversando e  dando tempo ao tempo. Diversas ligações foram feitas até que JP disse  que se fosse para Tamandaré, seria a noite ou no outro dia. Aí enchi o  peito e propus que continuassem comigo este pequeno trecho e estava  tudo resolvido. Caberia a mim tão somente trazê-los de volta. Foi uma  pequena navegada e lá pelo meio dia contornamos os parrahos coloridos  de Maragogi. Fechamos o sábado com chave de ouro no restaurante “Frutos do Mar” do amigo Gilberto. À noite, já no clima festivo, fiquei sabendo que a regata seria  corrida em frente, em mar aberto e que não haveria a tradicional  Maragogi-Maceió, nem feijoada e muito menos tripulante para que eu  pudesse voltar. Tive como companheiros na regata Eugênio Cunha e um  velejador de Laser, seu amigo. Nossa participação foi um sucesso e a regata um tremendo fracasso:  apenas 3 barcos, se não me falha a memória. Lembro-me bem do Resgate,  do comandante JP, com Alfredão e Evelin em sua tripulação; Musa e um  barco sob o comando de Daniel, amigo lá de Maceió que faleceu agora em  2018. Se havia mais alguém não lembro.
Terminada a regata o problema de arranjar companhia para sair da praia  de Maragogi continuava. Por sugestão de Eugênio fui bater à porta de  Zé Fernando que no seu “Mestre Fura” tinha feito a comissão de regata.  Cedeu-me Zezé, velho amigo da Federação de Alagoas. Como é originário  daquelas bandas solicitou ir visitar uns parentes e já à tardinha  retornou para irmos até Maceió. Sendo já quase noite optou por sair  por entre os parrachos, cantando as profundidades: vai dá 2m, vai dá  1,80 e meu coração querendo saltar pela boca, pois mais e mais me  afastava da rota tantas vezes percorrida. Aí ele falou: pronto agora  passamos todos os cabeços. Parece até que foi o barco que ouviu, pois  desembestou rumo a Maceió e lá pela meia noite estava tudo no visual.  Uma e meia da manhã  de segunda-feira o barco estava fundeado e  dormimos ali mesmo.
Recapitulemos pois os trechos e as tripulações: NTL-JPS (Cláudio  Almeida); JPS-REC (Luiz Dantas e o marinheiro bu..ta); REC-Tamandaré  (Alfredão e Evelin); Tamandaré-Maragogi,idem; Maragogi-Maceió(Zezé).Zezé, meu companheiro no trecho Maragogi-Maceió e também navegamos  juntos na regata dos 500 anos. Aí é outra história.

Érico Amorim

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