Cartas de Enxu 34


1 Janeiro (108)

Enxu Queimado/RN, 08 de janeiro de 2019

Pois é, Tio, mais um Natal se foi e mais uma vez a data foi comemorada com uma alegria desconexa, em que o riso sai frustrado e os abraços, por mais que se apertem, não conseguem produzir o calor necessário para confortar a alma. Mas vamos levando por aqui, até que Nosso Senhor, que está aí ao seu ladinho, remexa nas fichas e lembre de nos mandar subir. Tio, aquele dia foi pesado demais, tão pesado que até hoje ele permanece vivo e em cores em minhas lembranças.

Talvez a data marcante colabore para aumentar o peso. Talvez as últimas cenas que ficaram gravadas: Nosso último bate papo, momentos antes de sua partida; O presente que eu havia comprado para lhe dar, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que ficou no ar; A notícia que me deixou momentaneamente sem fala; As palavras que não foram ditas; A cena de lhe ver estirado naquela mesa de pedra fria; Quem sabe as palavras emocionadas de seu grande amigo, Dr. Virgílio, diante do seu corpo inerte sobre a pedra daquele necrotério, “Seu merda, isso é coisa que você faça com a gente…”; A lembrança da imagem de Ademar, sentado no batente da escada que levava ao escritório da padaria, apenas balançando a cabeça; O choro de Tia Cecília no saguão daquele hospital repetindo a palavra: Acabou! Vinte e quatro anos e é como se fosse hoje!

Tio Emídio, antes de continuar preciso lhe dizer, mesmo sabendo que você já sabe, que essa carta começou a ser escrita na véspera de Natal de 2018, mas por motivos de forte emoção, a deixei de lado até que as lágrimas cessassem e o coração tomasse tento. Hoje, diante de um ano que já vai alto e que promete um festival de esquisitices, resolvi dar andamento depois de uns mergulhos nas águas do mar para salgar a alma.

Tio, ao sentar numa pedra para refletir sobre a vida. olhando para os domínios da Rainha do mar, decidi que não iria escrever sua carta com tristeza, porque você encarnava e irradiava alegria e irreverência. Quero apenas falar um pouco das coisas daqui e mandar notícias dos nossos, principalmente de Tia Cecília, que de tanto carinho e amor não cabe em meu coração. Pois é Tio, a vida aqui vai indo e a cada dia o mundo dá tantos giros de 180 graus que está ficando difícil a gente ficar aprumado sobre ele. Tá brabo e sei que vocês, encantados que se avexam a nos proteger, estão se virando nos trinta para manter em dia a proteção. Se vacilar a coisa desanda, num é não?

Pois bem, tia Cecília está bem, Ceminha também está indo, apesar de que, vez por outra se mete a aprontar sustos, Nanã está em plena e franca recuperação e os demais da família estão caminhando num caminho meio espinhoso, bambeando aqui, ali, acolá, porém, de cabeça erguida e seguindo em frente. Nessa minha Enxu mais bela a coisa está a cada dia mais gostosa e em paz. Os homens do poder daqui começaram o ano anunciando que a estrada que liga Enxu Queimado a sede do município, dessa vez sai para valer. Porém, já coloquei minhas barbas de molho, pois nos vinte e nove anos que ando por esse paraíso/praia, perdi as contas de quantas vezes assisti essa novela. Se me perguntam se sou a favor da estrada, digo que sou por Enxu e desejo que a paz e a tranquilidade permaneçam altaneiras sobre o paraíso.

Ei, Tio, você que está aí em cima, me diga se a outra face da Lua é bonita mesmo ou se tudo não passa de marketing de chinês. Vejo que os chinas colocaram um carrinho para fazer rastro no terreiro lunar e mandar uns retratos da paisagem que jamais conseguiremos ver daqui de baixo. Só não sei para que danado isso vai servir para a humanidade, mas um dia saberemos, quem sabe. Por falar em lua: os mandatários da Terra estão cada dia mais aluados e doidinhos para trocar uns sopapos. É um tal de trincar os dentes e rosnar feito fera das trevas que tá dando até medo. Os cabras de peia já esqueceram as agruras das duas grandes guerras e agora estão querendo tirar onda com a nossa cara. Dizem que cachorro que late não morde, mas quando ele morde aí é nó. Até o nosso Brasil, mais pra lá do que pra cá, está querendo meter a mão nessa cumbuca. Sei não, viu!

Tio Emídio, você lembra da vez que viemos a Enxu? Viemos para ver uma panificadora que estava à venda na cidade de Parazinho, mas o senhor não se agradou do que viu. De lá viemos comer um peixe frito, com cerveja gelada, na mercearia de Dona Tita. Lembra? Tudo que vimos naquele ano está mudado e mudando rápido. O progresso chegou, meio torto, mas chegou, e tudo focado na mais alta tecnologia. Muito ainda haverá de ser feito e não vai demorar para esse paraíso/praia ser apenas uma feliz lembrança em algum álbum de retrato.

Emídio Nogueira Mattos, meu tio amado e um dos principais pilares de minha formação, como queria lhe ver sentado sob a sombra da minha varandinha de praia apreciando o coqueiral e ditando seus ricos ensinamentos. Agora me diga: As palavras que não foram ditas e os segredos que não foram ensinados, são os chamados mistérios da vida? A saudade é imensa e jamais terá fim.

Eh, Tio Emídio, a carta ficou meio mórbida, mas eu precisava lhe contar e desabafar. Desculpe e receba um grande beijo!

Nelson Mattos Filho

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2 Respostas para “Cartas de Enxu 34

  1. Marília Mattos

    Perfeito tio! Que saudade de tio Emídio mesmo! Um homem incrível que graças ao nosso bom Deus, tive o prazer de conhecer e conviver! Tão bom seria se ele ainda estivesse por aqui…. Parabéns pela escrita tão real e verdadeira! Me emocionei! Meu abraço carinhoso a vc, tio querido!

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